Surfando na Mudança
14 Jantar do Litoral
O sábado à noite finalmente chegou, depois de uma semana mais calma para as crianças na escola, agora já mais habituadas a tudo, e para seus pais, tanto Tiago com o trabalho e Natália com a casa e a cidade nova. Mas toda a tensão que não apareceu nos cinco dias da semana e nem mesmo durante o dia do jantar na casa dos vizinhos da frente, apareceu na hora da família se arrumar.
Natália deixou claro aos filhos que era importante usarem uma roupa em bom estado, para não parecerem desleixados, mas também não chiques demais. Quando Tiago insistiu em ir de camisa social, sua esposa vetou a ideia, ainda mais insistente do que ele.
—Eu disse arrumado, não chique demais, vão achar que somos metidos — ela disse entre dentes ficando nervosa.
—Certo, certo, uma camiseta nova, acho que está de bom tamanho — Tiago viu que era bom não continuar com aquela discussão.
Natan, Karla e Tainara se vestiram bem, na opinião de sua mãe, até porque a mais nova teve sua roupa escolhida por Natália, o vestido amarelo com flores laranjas, dava um ar alegre a ela. Natan estava de camiseta azul claro, bermudas cáqui e tênis impecavelmente branco. Karla estava com um vestido de botões verde oliva e sapatilhas bege. Já Lucas, apareceu com a camiseta preta duas vezes maior que ele, as calças com corrente e o Vans gasto, e é claro, não podia faltar seu inseparável companheiro, o boné azul escuro para trás.
—Não, nem pensar — a mãe vetou o look dele.
—Qual é, mãe, você deixa eu sair assim, qual o problema? — ele ergueu os braços, indignado.
—Eu sei que você ama se vestir assim, e tudo bem pra mim, mas só vai reforçar pra vizinha a ideia de que você é um skatista... que destruiu o jardim dela, mesmo isso não sendo verdade — Natália explicou — pode escolher algo no meio termo disso? E sem boné, por favor.
—Mãe! — ele chegou a sapatear, irritado, resmungando.
—Anda, me escuta — Natália mandou — a camiseta vermelha que o Tio Tom te deu de aniversário ano passado deve servir, e o tênis também, o mais novo, o Vans vinho, pra combinar com a camisa vermelha, e uma calça jeans, a mesma do Natal.
—Tá bom — Lucas reclamou mais um pouco, mas obedeceu.
Depois, não demorou muito para eles chegarem de uma vez à casa de Teodoro e Roberta.
—Olá, sejam bem vindos — para a sorte dos Suli, era justo o pai da família que os recebeu — satisfação em te ver de novo Tiago, e a família, entrem por favor.
—Oi, Teodoro, boa noite — Tiago cumprimentou — bom, essa é a Natália minha esposa, e nossas crianças, Natan, Karla, Lucas e Tainara.
—Oi — saiu dos filhos, em tom cordial.
—Boa noite — Natália deu um sorriso educado, mas um tanto sem graça ao ver Roberta na cozinha da casa.
—Boa noite, meu nome é Roberta, sou esposa do Teodoro — ela se apresentou como se nada tivesse acontecido antes, mas seu rosto era um tanto impassivo.
Atrás dela, estavam rostos conhecidos, que provocaram alívio em Lucas, mas um certo choque em seus irmãos.
—Oi, vocês vieram, que legal! — Tamires comemorou — eu vi vocês na escola, quer dizer, o Lucas estuda comigo e ele falou um pouco de vocês.
—O Arthur é seu irmão? — Karla deixou escapar em voz alta.
—Sou irmão mais velho da Tamires — ele explicou, impassivo como a mãe — a Karla e o Natan são da minha sala.
—Ah legal, que legal a gente se encontrar em casa — Tamires continuou simpática.
—É ótimo que as crianças já se conheçam! — Tiago gostou da coincidência.
—Vamos comer, por favor, antes que esfrie — Roberta apressou a todos, mais por cortesia do que por pressa, só queria servir a comida da melhor maneira possível.
—Eu ajudei minha mãe a fazer — comentou Tamires alegremente — é moqueca de camarão.
—Hum, eu nunca comi camarão, eu acho — Natan respondeu, pensativo — mas eu gosto de experimentar coisas novas.
Karla e Lucas deram uma risada abafada, dava para ver que o irmão estava tentando ser simpático, mas ainda se sentia meio constrangido. Mesmo assim, o esforço dele os dava alívio.
Arthur notou o riso e não pode deixar de se identificar com os dois, ele também podia rir da irmã quando a achava boba, ou revirar os olhos. Lucas acabou sendo rápido e sentando ao lado de Tamires. Natan, já que tinha se voluntariado, foi o primeiro a se servir. Seus irmãos e pais o seguiram, até sua mãe ser a última da família, relutante com o prato. Então os anfitriões se serviram e todos começaram a comer.
Natália tinha torcido o nariz para o cheiro exagerado de manteiga e os tons super rosa da comida, mas vendo que o prato tinha agradado o restante da sua família, resolveu experimentar. Não era tão ruim quanto pensava, tinha gosto de peixe, o que era bem familiar, até.
—Então, se não se importa que eu pergunte, o que fez vocês se mudarem pra Meticaína? — Teodoro resolveu iniciar uma conversa que sabia que os vizinhos não ficariam sem participar, certamente, os Suli tinham assunto sobre isso.
—Bom, eu era um soldado, sou um militar aposentado na verdade — Tiago explicou — eu sofri um acidente, quando servia na Venezuela, quase fiquei paraplégico, mas a Nat cuidou bem de mim, ela era enfermeira.
—Ah não me diga, eu também sou — Roberta comentou, um pouco menos marrenta.
—Que coincidência — Natália respondeu, educada, mas também surpresa.
—Então, eu tinha me formado em química antes disso, meu irmão aliás, é xeno biólogo — continuou Tiago — enfim, nós trabalhamos juntos com a Dra. Graça Agostinho em Omaticaia, ela era brilhante, mas acabou ficando doente e faleceu, enfim, por causa da minha experiência em laboratório, eu vim para uma rede grande daqui, pensei ser melhor pra família.
A menção ao nome de Graça fez Karla ficar um tanto triste, ela nunca teve a chance de conhecer a mãe, que tinha morrido quando ela era bebê. Foi nesse momento que Arthur juntou as peças e compreendeu que a menina era adotada, filha da doutora com quem o pai adotivo dela tinha trabalhado, estava aí a explicação por ela ser diferente da família.
—Sinto muito, pela sua perda — Arthur acabou falando alto, se direcionando a Tiago, mas era mais para Karla.
—Obrigado — disse o pai da menina, surpreso, enquanto ela ergueu um olhar curioso para o garoto, talvez ele não era tão mau assim.
—O que de legal vocês já fizeram pela cidade? — perguntou Tamires, ainda muito animada.
—Ah nada, só o McDonalds, McDonalds vale? — Natan coçou a nuca, em dúvida.
—Vale sim! — concordou Tainara.
—Não, não vale não — Lucas resolveu por eles — aliás, todo mundo diz pra gente passear pela cidade e conhecer tudo mais, só não tivemos tempo ainda.
—Quando tiverem tempo, nós podemos ir pra praia — sugeriu Tamires.
—Podíamos chamar o Rian, e a Laís, também — Arthur apoiou a irmã.
—Praia é uma boa ideia — Roberta deu um sorriso discreto aos filhos, o que deixou Natália intrigada.
Enquanto as crianças faziam planos de forma animada, Natália se ofereceu para tirar os pratos. Roberta agradeceu a gentileza, enquanto os maridos delas conversavam também, mas mais como velhos amigos.
Um certo silêncio se instaurou na cozinha, interrompido apenas pela pilha de pratos batendo na pia juntos, até que Roberta chamou a convidada pelo nome e ela se virou.
—Me desculpe pelo que houve aquele dia, eu exagerei — a dona da casa foi humilde e pediu desculpas.
—Obrigada — Natália disse, surpresa — me desculpe... por ficar nervosa, é só que eu não meço esforços para defender meus filhos.
—Eu também, é mais uma coisa que temos em comum — Roberta concordou — seus filhos são ótimos.
—Os seus também — assentiu Natália.
Roberta então contou sobre seu trabalho, enquanto Natália trouxe suas próprias experiências. Aos poucos, as duas famílias foram se entendendo.
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