Surface
1 Capítulo 1
Ela era meu veneno. Estava com ela e era sempre como se estivesse exposto a algum tipo de radiação. Como água poluída ou como alguém sempre prestes a acender um cigarro num vazamento de gás. E tinha isso que ela fazia com seu silêncio, que seu silêncio fazia comigo. Eu sentia até a pressão apertando minha cabeça, tipo um vazio querendo entrar pelos meus ouvidos.
"Sabe uma coisa?" ela falou, depois de longos minutos olhando a água "às vezes eu me sinto como os dedos de uma mão. Eu preciso ser estalada prum lado e pro outro." E eu podia ver o escuro nos seus olhos, e ouvir as vozes na sua cabeça. "Não chega a ser algo físico, não, é só que as coisas precisam acontecer, senão eu acho que esqueço de existir."
Me limitei a olhar a piscina. A gente ia bastante ali — olhar a piscina. Não é uma dessas comuns que você costuma ver por aí, com azulejos azuis e água limpa. Acho que é cimento mesmo, no fundo, nas parede, e ela deve ser pintada de alguma cor misteriosa, como verde musgo, imagino. Bom, e a água, a água não é o que se pode chamar de limpa, ou de água. É meio que uma lama, possivelmente ácida, de uma cor escura diferente a cada dia. Eu acho, e acho que ela também acha, que alguma coisa vive ali, alguma coisa grande, e quando damos sorte, algum objeto novo aparece na superfície, e é divertido apostar 5 pratas pra tentar adivinhar o que é. Às vezes damos mais sorte ainda: alguma coisa se mexe rápido lá dentro, chega a causar um rastro de ondas. É um pouco assustador, mas confirma nossa teoria secreta e nos faz pular aquele muro quase todos os dias. A piscina fica num quintal, num quintal de uma casa trancada e meio que ferrada e esquecida. E agora ela estava ali, sentada na borda, seus olhos refletiam o escuro da água e ela falava mais uma vez que às vezes esquecia de existir.
E eu me pergunto o que tem essa menina, que mal consegue lutar contra o vento, e se irrita tão facilmente com o cabelo batendo no rosto quando andamos de volta pra casa. É sempre como se algo fosse acontecer, ou como se ela fosse fazer algo importante, porque tem alguma coisa, eu sei, alguma coisa nela. Alguma coisa que ela diz quando olha muda pro horizonte, com seus olhos sombrios escondidos sem querer nas mechas de seu cabelo embaraçado. Mas nada acontece, nunca. Então eu penso que deve ser só ela, só isso. Ela por si só. Eu penso que ela deve ser o acontecimento, a coisa. Eu procuro nos seus movimentos, no seu modo de falar, tento encontrar o que me faz sentir assim. É sempre isso de esquecer de existir, são sempre essas palavras complicadas e certamente vazias pra mim, é sempre essa dúvida e busca constantes por um significado, por uma razão. Isso não me diz coisa alguma. Essa garota. Esses olhos escuros. Esse silêncio. Mas me faz sentir algo, e eu não sei o que é.
Evelynn.
Eve.
E seus passos invisíveis.
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