Sure, Why Not?
22 Capitulo 22
Notas iniciais
— Não podemos simplesmente ir embora? – Perguntou Arthur enquanto se apertava mais contra o assento do carro, como se estivesse a tentar fundir-se com o objecto numa tentativa de nunca ter que sair dali.
— Não. – Disse Eireen firmemente – Se não fizeres isto hoje, nunca farás.
— Eu nem sei o que é suposto fazer!?
— Sais do carro... – Começou ela lentamente, como se estivesse a falar com uma criança. Apontou para a casa em que estavam estacionados – Vais alí a casa do Alfred e vais declarar o teu amor eterno.
A expressão de Arthur tornou-se incrédula e a vontade de se tornar um só com o assento de passageiro tornou-se mais forte.
— Eu não vou fazer nada disso!
— Vais sim.
— Não, não vou!
— Vais, ou digo à mãe a verdade sobre o vaso da tia Louise. – Chantageou ela com um olhar meio frio, pois nunca lhe tinha perdoado o facto de ele ter culpado Whiskers, o gato extremamente obeso que tiveram durante a infância, pelo feito.
— Oh, vá lá, ela matava-me! – O vaso tinha sido incrivelmente feio, mas Helen tinha-o adorado. Na brincadeira com Scott, Arthur, que tinha apenas 12 anos na altura, foi praticamente atirado, pois Scott devia ter uns 18 ou 19 anos e já era um homem feito, e bateu contra o vaso, que se espatifou contra o chão e partiu-se e dezenas de cacos.
Em pânico, ambos decidiram culpar Whiskers, o gato que Albert gostava de alimentar Bacon ao pequeno-almoço e jantar, e parecia um balão peludo extremamente insuflado com pequenas esferas na base a servirem de patas.
Helen, felizmente, acreditara na história deles, e Whiskers teve o castigo de não consumir bacon durante duas semanas.
Como foi Eireen descobrir a verdade, quase dez anos após a morte de Whiskers, Arthur não sabia.
— Então, já que não queres morrer, sugiro que tires o teu rabo deste carro e vás falar com o teu namorado.
— Ele não é meu namorado.
— Não com essa atitude.
— Eireen.
— Arthur.
Nenhum deles se mexeu. Os vidros do carro, graças às diferenças de temperatura que se faziam de lá fora para dentro, estavam embaciados, e a neve lá de fora formava um grande manto branco e turvo.
Sob a luz fria dos candeeiros de rua, o cabelo flamejante de Eireen realçava-se e dava-lhe um ar de deusa vingadora que provavelmente acabaria com a existência de pobres mortais que lhe desobedeciam.
E naquele momento Arthur era o pobre mortal a desobedecer-lhe.
Deve ser por isso que ela lhe apertou o nariz com força.
— AU! Eireen, o que raio!
— Sai do carro e fala com ele.
— E se ele não quiser nada comigo!?
— Se ele não quiser nada contigo voltas para aqui e eu levo-te a casa.
Arthur olhou-a desconfiado.
— Tu vais ficar aqui?
Ela sorriu-lhe e a sua expressão rígida tornou-se gentil. Passou-lhe a mão no cabelo.
— É claro que vou. Alguém tem que dar apoio moral ao meu irmão mais velho.
— Está bem.
Arthur retirou o cinto com mãos trémulas e respirou fundo. Não valia apena estar nervoso, dizia ele a si mesmo enquanto ajustava o casaco e colocava as luvas, era só o Alfred, o seu melhor amigo, qualquer problema que tivessem de momento iria ser ultrapassado, tal como conseguiram ultrapassar outros problemas do género diversas vezes antes.
Protegeu a cabeça com um gorro verde-escuro que a sua mãe lhe oferecerá no Natal anterior e lançou um ultimo olhar suplicativo a Eireen, que acenou encorajadoramente a cabeça.
Arthur saiu do carro e arrependeu-se imediatamente, porque estava um frio de merda e tinha começado a nevar outra vez, porque aparentemente trinta centímetros de neve no chão já não eram o suficiente. Tinha-se também levantado um vento cortante que parecia embrenhar-se pelos ossos, e Arthur amaldiçoou Eireen e todos os seus futuros descendentes.
Com um arrepio, Arthur batalhou com a espessura da neve que se encontrava no jardim de Alfred. Havia pegadas desvanecidas, o que indicava que o americano já estava em casa, mas também não se dera ao trabalho de abrir caminho na sua própria propriedade.
Ugh.
Pela falta de calçado indicado, os pés de Arthur ficaram molhados e gelados em segundos. Não faltaria muito até deixar de sentir os dedos. Quando finalmente chegou à porta de Alfred, Arthur estava meio rabugento pelo desconforto físico, mas depressa foi novamente tomado pelo nervosismo e mil possíveis conversas passaram-lhe pela mente, e nenhuma delas acabava bem.
Talvez fosse mesmo este o fim da sua relação de quase vinte anos com Alfred.
Talvez nunca voltariam ao mesmo.
Arthur nem sabia bem o que sentia pelo outro, e mesmo que todos aqueles sentimentos intensos e confusos fossem algo tão pegajoso e gay como “amor”, quem é que garantia que o Alfred sentia o mesmo?
Com um suspiro trémulo, Arthur ergueu a mão e bateu à porta.
Nada aconteceu durante alguns momentos e Arthur ficou ali especado, de mãos nos bolsos, pés frios e a tremer por todos os cantos. Quase perdeu a esperança, talvez Alfred já estivesse a dormir, ou algo parecido, mas de repente ouviu um estrondo do outro lado da porta e um praguejar rouco.
O idiota provavelmente foi contra o balde dos chapéus-de-chuva outra vez.
— Já vou! – Ouviu Arthur do outro lado da porta – Já vou! Só estou... à procura do outro chinelo...! Ah! – A porta abriu-se de repente – Arthur?
Ali estava ele, o seu melhor amigo, de pijama e roupão, cabelo despenteado e óculos tortos. Parecia tão mundano e ao mesmo tempo tão divino, intocável. Arthur abriu a boca para falar, mas as palavras prenderam-se num nó na sua garganta e tudo o que saiu foi um ganido minúsculo.
— Arthur, o que é que estás a fazer aqui a esta hora? – Perguntou Alfred, que parecia genuinamente confuso.
— E-eu... hum...
Mas qualquer coisa que Arthur fosse dizer foi engolida pelo rugido de um motor atrás de si. Arthur virou-se para ver o que se passava e viu o carro da sua irmã ligar os médios e acelerar. Em pânico, Arthur tentou correr pela neve atrás do carro em movimento.
— EIREEN! – Gritou, furioso – EIREEN, SUA CABRA, NEM PENSES EM IR EMBORA SEM MIM!
Mas não lhe valeu de muito gritar. Acabou por tropeçar e cair de cara na no gelo e o carro da irmã continuou o seu caminho até desaparecer na esquina.
Houve um silencio constrangedor enquanto Arthur se levantava e tentava limpar o rosto o melhor que conseguia. Eireen tinha-o deixado ali, sozinho, com Alfred, sem qualquer forma de voltar para casa se aquela conversa não acabasse bem.
Traidora.
Arthur bufou e voltou-se de novo para Alfred, que agora estava encostado à parede com os braços cruzados. Já não tinha aquela expressão de confusão ensonada com que abrira a porta, mas sim uma frieza divertida perante o sofrimento de Arthur.
— Então... – Começou ele num tom sarcástico – Vejo que fizeste as pazes com a tua irmã.
— Eu também pensei que sim, até ela abandonar-me no meio da neve para morrer ao frio.
Alfred rolou os olhos e descruzou os braços.
— É como se a tua família não conseguisse ficar um único dia sem provocar drama de alguma forma.
— Ao menos trazemos interesse à tua vida. – Fez Arthur secamente. Colocou as mãos nos bolsos numa tentativa de se aquecer e dirigiu novamente o olhar a Alfred – Hei, uh... eu sei que as coisas andam esquisitas entre nós, mas... podias-me levar para casa?
_ Não.
— M-mas...! Só podes estar a brincar!
— Não te vou levar a lado nenhum. É tarde, está frio e já estou de pijama. Deves estar com ilusões se achas que vou sair agora de casa. – Disse Alfred numa calma quase tão fria como a neve que congelava as pernas de Arthur naquele momento.
— Está bem! – Arthur estava sem paciencia para aquilo. Tinha sono, estava exausto e provavelmente prestes a ficar com hipotermia. – Está bem, eu vou a pé. Vou atravessar a cidade toda com esta neve, mas aviso-te já que se morrer, vou assombrar-te até cometeres suicido.
— Vês como consegues ser dramático? – Alfred afastou-se um pouco da porta e gesticulou para Arthur entrar – Anda lá, podes dormir no sofá.
Arthur não se mexeu.
O proposito daquela visita tinha-lhe fugido da mente assim que Eireen o abandonara à sua sorte e agora, com Alfred a convidá-lo a entrar, a dar-lhe estadia na sua casa, o que significaria que passariam tempo juntos num espaço fechado, e seriam obrigados a falar, Arthur voltava a sentir o pânico a romoer-lhe o espirito.
Ele não conseguia fazer aquilo, era preferivel morrer congelado.
— Eu não quero incomodar.
— Já incomudaste.
— Bem, tecnicamente a ideia foi da Eireen, eu sou tão vitima como tu. E, a sério, só estava a brincar com toda aquela história de te assombrar e cenas. Uma boa caminhada até deve fazer bem, para limpar a cabeça. – Yeah, talvez ele estivesse a conseguir safar-se na boa daquela situação, provavelmente iria apanhar uma pneumonia ou uma porra semelhante, mas isso era melhor do que partilhar emoções com outros seres vivos.
— Arthur, entra na merda da casa.
E Arthur entrou.
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E encontrou-se na sala de Alfred, especado num canto como um espantalho enquanto o americano foi buscar cobertores e uma almofada. A divisão em si estava um bocado desarrumada. Havia pacotes vazios de doces e chocolates empilhados em cima da mesinha de centro, várias caixas de dvds que pareciam ser maioritariamente comédias românticas e umas quantas embalagens de gelado perto do sofá.
Era como se Alfred tivesse organizado uma festa de pijama com meninas adolescentes ainda em crise depois do Zayn ter saído dos One Direction.
— Aqui está. – Disse Alfred ao entrar na sala com um monte de cobertores nos braços – Deves dormir bem com estes.
Arthur não lhe respondeu, nem se quer se mexeu do seu canto enquanto observava Alfred a montar uma cama improvisada no seu sofá. Felizmente este era longo e largo o suficiente para Arthur conseguir dormir esticado confortavelmente.
— Também te trouxe um pijama. – Comentou Alfred e depois apontou para as peças de vestuário que se encontravam em cima do cadeirão.
Arthur tinha estado tão embrenhado nos seus próprios pensamentos que nem reparara.
Pestanejou, admirado.
— Este pijama é meu. – Pegou na camisa de flanela verde para ter a certeza.
— Eu sei. Deixaste-o cá depois de uma das noites em que dormiste aqui. – Alfred fez gestos exagerados para ajeitar a almofada e Arthur apercebeu-se que o seu amigo não estava não calmo como aparentava. – Na verdade deixaste cá muita coisa. Podes levar tudo contigo, se quiseres.
Arthur anuiu silenciosamente, engolindo o sentimento amargo que o percorreu ao ouvir aquelas palavras. Para se ocupar, enquanto Alfred tratava da cama improvisada, Arthur foi tirando o casaco e colocou-o gentilmente em cima do cadeirão perto do sofá. Fez o mesmo com o gorro.
— Então... – Começou Alfred num tom de conversa e Arthur olhou para ele – Vais dizer-me porque é que a tua irmã te abandonou aqui?
— Uhhh – Fez Arthur estupidamente e corou debaixo do olhar frio de Alfred. Passou a mão pelo cabelo com nervosismo e dirigiu o olhar para o pés – Na verdade, a Eireen queria que nós... Falássemos um com o outro.
— Estou a ver. E qual seria o tema da conversa?
— Bem... ela acha que devíamos discutir a nossa relação interpessoal.
Alfred soltou um som escarnecedor e cruzou os braços.
— Há alguma coisa a discutir? Acho que ficou tudo bastante claro.
Aquelas palavras levantaram uma raiva que se escondera dentro de Arthur durante uma semana inteira.
— Não, não ficou! Nada está claro e tu és demasiado confuso!
— Oh, eu sou confuso? A sério que me estás a acusar a mim de ser confuso?
É claro que Alfred era confuso. Tudo naquela situação deixava Arthur a sentir-se perdido no vazio, como se tivesse sido lançado para o vácuo do Universo e estivesse a flutuar à deriva no Espaço sem qualquer forma de regressar ao seu planeta natal
Talvez tal discrição fosse um pouco melodramática mas é a melhor forma de mostrar como Arthur se sentia.
— Como é que não te vou achar confuso?
— Não há razão para ficares confuso. – Disse Alfred friamente – Querias parar com o sexo, então o sexo parou. Fim.
— Eu queria parar com o sexo, não que te tornasses numa Drama Queen! Tu sabias que íamos parar um dia, aquilo não era um contrato para toda a vida!
— O problema aqui é que tu fazes decisões sem pensar nas consequências que podem trazer para as outras pessoas!
— Oh, bem, perdoa-me por achar que foder não seja tão importante como os sentimentos da minha irmã!
— Nós poderíamos resolver esse problema com outra solução qualquer, a nossa vida pessoal não deveria ser afectada pelos sentimentos de uma rapariga que nem sequer tem idade para beber!
— A minha vida vai ser sempre afectada pela minha família, e não importa o quão te queixes, é algo que vai sempre acontecer.
Alfred levou a mão ao rosto e, por debaixo dos oculos, esfregou os seus olhos, cansado.
— Isto é ridículo. Não podes deixar a tua família gerir a tua vida, ou vais acabar miserável num canto qualquer. – Lançou um olhar fervido a Arthur – Vais mesmo continuar a deixar que a tua irmã controle o que fazes e quem é que andas a fazer?
— Ugh, não fales como se não acabasses tudo comigo se o Matthew te pedisse.
— E não acabaria! Sabes porquê? Porque eu e o Matthew somos dois indivíduos diferentes que temos vidas distintas fora do nosso laço fraternal. Algo que te falta, aparentemente.
— Porque é que estás a falar como se a família não fosse importante? – Perguntou Arthur, magoado. Aquela conversa estava-o a deixar terrivelmente pouco à vontade. Ele sabia que, excepto o Alfred e o Matthew, os Jones não eram tão chegados uns aos outros como os Kirkland eram, mas não acharia que o seu melhor amigo desse tão pouca importância aos seus parentes.
— Sim, importam! – Exclamou Alfred, que parecia estar à beira de um colapso nervoso – Mas a tua vida é tua, não deles! Não dela! Olha para ti! – Apontou um dedo acusador a Arthur e este encolheu-se um pouco – A tua irmã deixou-te à minha porta contra a tua vontade, no meio da neve, numa noite gelada! E amanhã, quando voltares para casa, vais arranjar um plano para te vingares dela, em vez de falarem e resolverem os vossos problemas como pessoas normais!
— Ela só está a tentar ajudar, ainda que seja uma cabra quanto a isso!
— Não, ela está a vingar-se! Ela é uma Kirkland, é o que vocês fazem.
— Agora estás a tentar ofender-nos! Nós não somos bestas vingativas demasiado dependentes umas das outras! E fica sabendo que eu e a Eireen já falamos, muito obrigada, como as pessoas civilizadas que somos. – Arthur cruzou os braços – Ela abandonou-me aqui que nem o cão, mas isso não conta.
— Ugh, vocês são tão ridículos! E psicóticos. E tira-me essas calças, por amor de Deus, os meus pés ficam gelados só de olhar para ti.
— Não me vais pagar um jantar primeiro antes de me pedires para despir? – Perguntou Arthur secamente, mas descalçou-se e tirou as calças na mesma, porque roupa molhada pela neve não era agradável em lado nenhum.
Alfred lançou um som aborrecido e virou-lhe as costas enquanto Arthur trocava a sua roupa do dia pelo pijama.
Arthur sentiu-se um pouco indesejado. Afinal de contas, Alfred já o tinha visto sem roupa uma data de vezes, fossem essas situações sexuais ou inocentes e agora nem sequer lhe queria dirigir o olhar.
Vestiu o pijama o mais rápido que conseguiu e clareou a garganta para indicar que Alfred já podia virar-se novamente.
Quando este não o fez, Arthur suspirou, sentindo-se emocionalmente exausto. Durante toda a semana sentiu-se confuso, triste e vazio, como se todo o planeta tivesse virado as costas para a sua pessoa. E agora estava ali, supostamente para fazer as pazes com o seu melhor amigo e tudo o que acontecera até agora tinham sido discussões.
Ele não queria discutir mais. Só queria que tudo ficasse bem.
Olhou para as costas de Alfred.
— Eu só... – Começou, mas as suas palavras encravaram-se na boca e ele engoliu em seco e tentou outra vez – Eu só gostava de saber o que é que tu queres de mim.
Os ombros de Alfred, que estavam rígidos até aquele momento, relaxaram, cansados, e este virou-se. O seu rosto tinha perdido aquela máscara de frieza e agora simplesmente parecia estar esgotado, como se todas as suas energias tivessem sido sugadas.
— E o que é tu queres de mim? – Perguntou Alfred de volta, a sua voz um pouco mais do que um suspiro.
Se aquela não era a derradeira pergunta. Arthur queria voltar ao que eram antes, certamente, mas lembrava-se de que naquela altura, antes daquela aventura começar, ele também não estava completamente satisfeito com o rumo em que a sua amizade com o Alfred estava a levar.
Será que queria voltar para aquilo? Desejar silenciosamente o melhor amigo e fingir que não havia nada mais entre eles? Mas o que mais poderia haver, afinal?
— Eu... eu não sei o que quero. – Murmurou baixinho – Eu não queria magoar ninguém, apenas quiz fazer o que estava certo.
— Certo para quem?
— Certo para a Eireen. Certo para nós os dois. Alfred, o que estávamos a ter era bom, mas não podia continuar. Eventualmente tínhamos que ambos ir para cada lado para continuarmos as nossas vidas e provavelmente iria ser estranho para toda a gente, por isso é melhor acabar tudo agora.
— Deus do céu. – Grunhiu Alfred. Levou a mão à testa e massajou-a com cuidado – As pessoas dizem que eu consigo ser bastante ceguinho em certas ocasiões, mas tu levas tudo a um nível completamente diferente.
Arthur soltou um som indignado, mas não teve tempo para reclamar porque Alfred baixou a mão, ergueu a cabeça e olhou-o nos olhos.
— Eu amo-te, seu inglês de merda. Eu não quero “continuar a minha vida”, ou quero encontrar o suposto amor da minha vida em outra pessoa qualquer, porque já o encontrei. És tu e a tua cara estúpida.
Se Arthur não estivesse em choque, iria constatar que aquela era sem duvida a declaração de amor menos romântica que alguma vez ouvira na vida. Mas, infelizmente, o seu cérebro parecia estar parado, ao contrario do seu coração, que tinha disparado no seu peito como se estivesse a tentar saltar cá para fora.
— O... qu.... mas... hein? – Fez ele estupidamente.
Alfred suspirou. Estava triste, e no seu olhar reflectia-se uma dor tão intensa que Arthur deixou de respirar.
— Não há problema se não sentires o mesmo. Ninguém pode forçar outra pessoa ao amor. Achei que deverias apenas saber. E talvez apenas queria deitá-lo cá para fora. – Alfred aproximou-se e colocou uma mão no ombro de Arthur. Um gesto amigável, nada mais – Não temos que voltar a fazer nada de mais um com o outro. Vai ser difícil e não vai ser agora, mas tenho a certeza que eventualmente voltaremos a ser o que éramos antes.
— Espera, espera, espera – Arthur tirou a mão de Alfred do seu ombro e olhou-o, confuso – Vamos rebobinar e voltar à parte onde tu disseste que me amas. Estás parvo? Bateste com a cabeça? – Semicerrou os olhos – Isto é alguma partida?
— Não? Espera, achas que estou a mentir?
— Bem... sim?
— Como é que é possível? Achas que eu faria uma coisa dessas!?
— Alfred, homens como tu não se apaixonam por homens como eu.
Alfred cruzou os braços, claramente ofendido.
— Homens como eu, hein? E o que é que é suposto isso querer dizer? – Perguntou indignado.
— Bem... – Começou Arthur, meio atrapalhado – Olha para ti! Tu és tão... – Gesticulou para o corpo geral de Alfred como se isso quisesse dizer alguma coisa – E eu sou tão... meh. É um milagre que queiras dormir com alguém como eu.
— Ugh, eu devia saber que isto tinha haver alguma coisa com a tua auto-estima merdoso. Olha – Agarrou o rosto de Arthur com uma só mão e apertou-lhe as bochechas – Tu és lindo, talentoso e todas essas merdas do género e eu amo-te. Bastante. Até à morte ou porras. Eu diria palavras mais bonitas, mas, francamente, estou chateado contigo, por isso vais ter que te contentar com estas.
Aquela era sem duvida a noite mais confusa da vida de Arthur. Ainda mais confusa do que quando, anos antes, ainda na Universidade, ele acordara no seu quarto, de langerie, vai-se lá saber porquê, o pior trabalho de maquilhagem que alguém alguma vez poderia ter na cara, e um alpaca a comer-lhe uma camisola horrenda que a tia Regina tinha mandado pelo natal.
De alguma forma, estar ali à frente de Alfred depois de este ter declarado o seu amor eterno era ainda mais desnorteante.
Até fazia sentido, se ele pensasse bem nisso. Agora que ele via as coisas com outros olhos, estava tudo a tornar-se mais claro. Talvez Alfred tivesse razão; O seu nível de cegueira chegava realmente a outros níveis.
Ele devia ter suspeitado. Alfred sempre fora um homem de afectos. Mas os seus toques mudaram algures durante aquela relação breve, e tornaram-se mais íntimos, os seus beijos mais profundos, os seus abraços mais apertados, cada carícia parecia conter milhares palavras e cada suspiro contra a sua pele de repente ganhavam outro significado.
— Mas... – Arthur estava a tentar arranjar uma explicação para aquilo tudo – Mas porque raio...? Se me amas porque é que só esperaste até agora para me dizer?
Alfred olhou-o incrédulo.
— Estás a brincar, certo? Se eu te dissesse que te amava há duas semanas, tu fugias a sete pés.
— Não fugia nada! – Sob a sobrancelha erguida de Alfred, Arthur lá consentiu – Está bem, provavelmente não reagiria muito bem.
— Não estás a reagir bem agora.
— Olha, perdoa-me se acho que deves estar afectado por uma doença qualquer!
— A única doença que eu posso ter apanhado foi a tua estupidez crónica.
— Já estavas contaminado sem a minha ajuda. – Arthur cruzou os braços e fitou o amigo. Ficaram em silencio durante alguns momentos e uma incerteza imensa invadiu o espírito do inglês, que suspirou – Alfred, olha... eu não... eu não sei o que fazer com a nossa situação.
Alfred suspirou.
— Não tens que fazer nada. Já te disse que não há problema por não retribuíres os meus sentimentos.
Não, aquilo não estava certo. A cabeça de Arthur andava a mil há hora, num frenesim para tentar arranjar um pensamento coerente com o turbilhão de emoções que ameaçavam explodir.
— Mas a cena é que eu não sei o que sinto! Eu nunca estive apaixonado, eu não sei o que é suposto sentir quando estou apaixonado. Eu... – Arthur sentiu as bochechas corar, porque ia dizer as palavras extremamente gays – Eu sempre gostei de estar contigo. Isso nunca mudou até hoje, apenas metemos sexo no meio da conversa, mas... tu fazes-me sentir como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo, o que me faz super feliz mas super confuso ao mesmo tempo! Eu gostava de te dizer que te amo de volta, mas eu não sei! Toda a gente diz que sim, mas e se não for verdade? E se... e se eu só me estou a enganar a mim mesmo porque estou farto de estar sozinho? Eu não te quero magoar, é demasiado importante para mim.
Ninguém disse nada durante algum tempo. Alfred limitou-se a olhar para ele, como se não soubesse bem quais as palavras certas para proferir de momento. Arthur sentia o rosto em chamas, embaraçado pela tiragem que acabara de vomitar, e o nervosismo que sentia ia aumentando a cada segundo que passava e o silencio se estendia.
— Por favor, diz alguma coisa! – Pediu ele num ganido, desesperado.
— Eu não sei o que dizer. Estás-me a dizer que toda a gente, quem quer que sejam, dizem-te que estás apaixonado por mim, mas que tu não sabes se é verdade. – Alfred sentou-se no sofá, em cima dos cobertores previamente colocados – Bem, eu não tenho a resposta para isso. Eu amo-te, tu podes ou não amar-me. Eu gostaria que a resposta fosse positiva, mas não quero ter muitas esperanças.
— Mas.... mas eu... Arg! – Exasperado, Arthur sentou-se ao lado de Alfred – Isto é tão difícil! Eu adoro-te, és o meu melhor amigo, sempre te adorei. – Passou uma mão pela cara – Obviamente gosto de ti o suficiente para tornar tudo gay e mandar umas fodas contigo. Eu... Não sei... Nunca me vi como grande escolha para namorado. Parece que é verdade, porque um homem diz que me ama e eu nem sei se sinto o mesmo ou não. – Meteu o rosto nas mãos e suspirou pesadamente com um grunhido. – Se eu nunca tivesse sugerido ter sexo contigo, isto nunca teria acontecido.
— Acho que iria acontecer mais tarde ou mais cedo. Os meus sentimentos por ti nunca estiveram tão claros como estão agora, mas não são recentes.
Arthur fungou, ergueu a cabeça e olhou para Alfred, espantado.
— A sério?
— Bem... sim, acho que sim. Eu... – Alfred hesitou. Não parecia estar muito certo do que ia dizer, como se os seus próprios pensamentos e emoções também o confundissem. Era bom saber que Arthur não era o único naquela situação a sentir-se o mesmo – Não sei, sempre tive esta espécie de instinto que... tinha que estar lá para ti. Se eu não estivesse contigo, não me sentia totalmente completo. Quero dizer... os nosso anos na universidade foram os anos mais estranhos para mim. Eu adorei-os, mas por vezes ficava de noite a pensar de como estava tão longe da minha família e de toda a gente eu amava. E depois pensava em ti, que estavas no outro lado do país, e ainda me sentia mais sozinho.
— Era por isso que por vezes me ligavas às quatro da manhã para falar sobre a vida?
Alfred sorriu.
— Nessas alturas eu gostava de ouvir a tua voz, mesmo quando me mandavas para a merda por te ter acordado.
— Bem, eu não gosto de ser acordado a tal hora horrenda. Mas tenho que admitir que parte de mim gostava quando fazias isso. Era como se fosse uma prova de que sentias a minha falta e... eu também senti muito a tua falta durante esse tempo. – Endireitou as costas – Mas não estou arrependido por ter ido para outra Universidade que tu. Houve muita merda que eu fiz durante essa altura não gostaria que visses.
— Como o quê?
— Eu não te vou dizer, tenho o meu orgulho para proteger. – Resmungou Arthur com um franzir de sobrolho.
Alfred riu-se, uma daquelas gargalhadas de corpo inteiro que eram tão características da sua pessoa e Arthur sentiu o seu coração acelerar. Ele gostava daquele riso, podia reclamar dele e dizer que era irritante, mas na verdade era o seu riso favorito.
Hesitantemente, colocou uma mão em cima da de Alfred, que se encontrava posta no sofá. Ainda com um leve sorriso nos lábios, Alfred olhou para ele, olhos azuis agora mais quentes e menos distantes, e Arthur engoliu em seco.
— O que fazemos agora? – Perguntou Alfred enquanto o seu sorriso morria lentamente.
Arthur olhou para onde as mãos de ambos se juntavam e entrelaçou os dedos. Alfred deixou-o, dando-lhe um pequeno aperto encorajador.
— Podíamos... podíamos tentar. Uma relação a sério, quero eu dizer. – Disse Arthur, sentindo o seu rosto arder – Eu... eu não sei o que sinto, mas gosto mais de ti do que gostei de qualquer outro homem com quem me envolvi e... Nunca tive um namorado a sério, por isso não sei bem o que é suposto fazer, mas...
— E se fizéssemos isto da maneira antiga?
Arthur pestanejou, confuso.
— Da maneira antiga?
Agora era Alfred quem estava vermelho.
— Bem... – Começou ele enquanto passava uma mão pelo cabelo – Podíamos namoriscar primeiro, sabes? Ter encontros, ir ao cinema, piqueniques, esse tipo de merdas inocentes que não envolvem sexo nem grandes intimidades. E depois víamos como as coisas corriam.
— Mas nós já tivemos sexo, porque é que não haveríamos de ter agora?
— Porque talvez andamos a fazer as coisas de forma errada. Que tal... – Alfred levou a mão de Arthur, que ainda estava enrolada na sua, até aos lábios e beijou-lhe as juntas dos dedos – Amanhã à noite eu te levar a um restaurante chique para termos um jantar romântico.
— Porquê?
— Por é isso que casais recentes fazem para se irem conhecendo.
— Mas eu já te conheço.
— Então não sei o que é que queres fazer!
— Eu... uh... eu gostava de como estávamos, sabes? – Arthur olhou para as suas pernas – De termos noites de cinema enroscados um ao outro, de tomarmos banho juntos e dormir-mos na mesma cama. Era... era bom. E senti falta disso esta semana.
— Anda cá.
De repente, Arthur viu-se ser puxado e rodeado por dois braços fortes. O seu rosto foi parar á junção entre o pescoço e ombro de Alfred e o calor do seu corpo foi como o conforto que se sente quando se chega a casa depois de um longo período de tempo fora. Relaxou no abraço e encostou o seu nariz à pele de Alfred, inalando o seu aroma.
A mão de Alfred encontrou o seu cabelo e dedos massajaram o seu escalpe.
— Acho que esta foi a pior semana da minha vida. – Murmurou Alfred para o seu cabelo.
— Desculpa, eu não te queria magoar.
— Eu sei que não.
— Eu só... eu só fiz o que achei que estava correcto. – Arthur apertou mais Alfred contra si e escondeu totalmente o rosto contra o corpo do outro.
— Shhh, eu sei. Vocês Kirkland são o bando mais protector que existe e eu adoro-vos assim, ainda que naquele dia me tenhas arrancado o coração do peito.
— Pára de ser exagerado, eu sabia lá que estavas apaixonado por mim.
— Quero dizer, o Matthew desconfiou, e o Ivan descobriu logo mesmo sem eu lhe ter dito nada em concreto, por isso acho que estava a ser bastante obvio com os meus sentimentos. Tu és apenas demasiado idiota para te perceberes de alguma coisa.
— Rude.
Sentiu os lábios de Alfred, que estavam encostados à sua cabeça, erguerem-se num sorriso e depois um beijo foi depositado no seu cabelo. Levantou um pouco a cabeça para poder encarar os olhos de Alfred. Inconscientemente, passou os seus lábios pelo maxilar e queixo do americano e quando ergueu o olhar viu que Alfred o mirava com intensidade.
Nenhum deles proferiu qualquer palavra antes das suas bocas se fundirem num beijo repleto de saudade. As mãos de Arthur apertaram a camisola de Alfred com força e o seu coração acelerou tanto que parecia querer sair da sua caixa torácica. Uma mão grande afagou-lhe o cabelo e Arthur inclinava a cabeça para aprofundar o beijo.
Alfred deixou-se cair no sofá e trouxe Arthur consigo, que ficou meio ao seu colo. Com um suspiro, Arthur levou as mãos para acariciar o rosto do amigo... namorado? O que seriam agora?
— Espera, esper... – Fez Arthur, afastando-se um pouco para o encarar, mas Alfred puxou-o novamente para um beijo. As línguas de ambos batalharam durante mais uns momentos antes de Arthur conseguir clarear a mente outra vez para se afastar – Alfred! Alfred, nós somos namorados agora?
Alfred, que se ocupara ao depositar pequenos beijos no seu rosto, parou e fitou-o.
— Queres ser meu namorado?
— Bem... não sei. Talvez. Sim. – Arthur ruborizou — Mas se ficares desapontado, não me culpes.
— Está bem. Então somos namorados.
Arthur ficou a olhar para ele.
— É só isso?
— Só isso o quê?
— Não sei, apenas achei que foi um bocado anti climático para este drama todo.
— Esperavas o quê? Uma serenata sob a luz do luar? – Alfred ergueu uma sobrancelha enquanto falava – Nem tudo na vida precisa de ser resolvido com um acontecimento épico.
— Nós falamos sobre sentimentos, parece-me épico o suficiente.
— Vês, afinal não é assim tão mau. Agora anda – Alfred obrigou-os aos dois levantarem-se do sofá – Vamos para a cama.
Arthur hesitou, meio embaraçado.
— Eu não... eu não sei se hoje quero...
— Não para isso! Vamos dormir, nada mais. – Alfred agarrou-lhe a mão – Eu senti falta de me aninhar a ti.
— Para de dizer coisas gays.
— Tudo nisto é gay.
— A tua cara é gay! Hei! – Arthur lançou um guincho quando, de repente, foi agarrado pela cintua e levantado do chão.
— É assim que falas para o teu novo namorado? – Fez Alfred num falso tom de tristeza enquanto subia as escadas e lavava Arthur nos seus braços – Depois de tudo que eu fiz por ti.
Mais tarde, quando a escuridão reinava na casa, Arthur encontrava-se deitado na cama de Alfred, com este completamente colado às suas costas num abraço apertado. Não era a posição mais agradável, mas, por alguma razão, trazia conforto ao inglês.
Arthur suspirou e enterrou o rosto na almofada. Ali, nos braços de Alfred, mesmo em risco de ser esmagado e morrer sem oxigénio graças ao aperto do abraço do outro, Arthur sentia uma alegria extrema.
Então, mesmo sabendo que no dia seguinte ele e Alfred ainda teriam que discutir aquela relação, fechou os olhos e deixou-se embalar pelo som do vento lá fora e o ressonar leve do seu namorado atrás de si.
Eh.
Namorado.
Quem diria?
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