Supremos Kings - A Saga

1 O fim e o novo começo


Notas iniciais
Talvez pareça longo, mas gosto de detalhes.

—AMANDA!

—Já estou indo, pai. —Em uma das mãos ela tentava equilibrar, em uma pequena bandeja de plástico, três garrafas de cervejas e quatro copos, enquanto na outra, ela levava dois pratos empilhados cheios de tira-gostos. Amanda entrou na sala, onde seu pai assistia ao jogo com seus quatro “amigos”.

—Está aqui. —disse Amanda colocando a bandeja e os pratos na mesinha de centro. —O senhor vai querer mais alguma coisa?

—Ainda vão chegar mais dois pra ver o jogo, quando chegarem, você traz mais copos e cervejas. —ele nem ao menos olha para ela.

—Ta certo, eu vou subir. —Amanda retirou-se da sala.

Por uma estreita escada, que ficava depois da cozinha, Amanda subiu para seu quarto. Era para ser o sótão, mas a casa não tinha outro quarto, a não ser aquele que o pai ocupava. O quarto estaria vazio se não tivesse ali uma cama e um criado mudo, onde ela guardava suas roupas e livros da escola. Parecia que ficava mais frio com o quarto escuro. Escuro, por que há mais de duas semanas a lâmpada havia queimado, e até agora seu pai não cumpriu com a promessa de trocá-la. Amanda tinha que improvisar com o que tinha. Com a ajuda de uma vela, ela lia um livro de biologia do 3ºano, mesmo estando para começar cursar o 2ºano. Seu sonho era tornar-se ou médica, ou policial, entretanto se fosse para escolher entre os dois, ela responderia sem hesitar, que quer formar-se em medicina.

Nem a televisão no volume máximo tirava a concentração da Amanda, só tinha uma coisa que podia fazer isso:

—AMANDA!

Ela pulou de susto, largou o livro, e correu para cozinha.

Ela odiava quando o pai bebia, e ficava muito irritada quando era interrompida em seus estudos.

—EU TÔ TE CHAMANDO HÁ UM TEMPÃO!

—Desculpa, pai. É que eu estava...

—EU NÃO QUERO SABER O QUE VOCÊ TAVA FAZENDO! EU QUERO É QUE VOCÊ ME ESCUTE, SUA INÚTIL! — O pai gritava na cara de Amanda.

—Desculpa... — Amanda não queria aborrecer ainda mais o pai.

—Chegaram mais três camaradas meus, — O tom de voz se tornou ameaçador. — Trate de servir logo eles. E não me irrite mais, se não, a gente “conversa” mais tarde, entendeu?

Amanda assentiu com a cabeça. Tentou controlar a respiração enquanto observava o pai voltar para a sala.

O pai sempre foi explosivo, e a bebida agravava isso, o deixava mais violento. Diversas vezes ela teve que esconder os hematomas, para que ninguém ficasse perguntando ou desconfiando do que acontecia naquela casa. O pai deixava bem claro de que se alguém soubesse das agressões, ia sobrar para ela.

Logo que o pai saiu de seu campo de visão, ela foi até a geladeira e retirou duas garrafas de cerveja, pegou três copos no armário e os levou até a sala. Alguns xingavam o juiz, outros soltavam expressões de frustração ou raiva. Aproximou-se da mesa de centro colocando as garrafas e os copos lá. Todos estavam concentrados na TV e eufóricos, uma adrenalina aumentava.

—Oh, garota! — Disse um dos que assistiam ao jogo. — Sai da frente!

—Amanda, MERDA! — O pai falou. — Você ta atrapalhando a gente aqui, porcaria! SAI DO MEIO!

—GOOOOOOOOOL! — Os outros gritaram se levantando agitados.

—O que?! Foi um gol?! — O pai levantou furioso e olhou para Amanda enquanto os outros comemoravam. — Eu não acredito que você se meteu na minha frente! DROGA, AMANDA! Você não me deixou ver o gol! — A vontade do pai era de dar uma surra em Amanda, e ela sabia disso, porém ele ainda estava consciente o suficiente para não fazer isso na frente dos colegas.

—Desculpe. — Amanda disse já saindo nervosa.

—EI! —Chamou o pai. — Traga mais petiscos, leve esses pratos daqui e vê se não atrapalha mais ninguém ver o jogo!

Ela voltou rápida e pegou os pratos, fazendo de tudo para não ficar na frente da TV.

Amanda ficava sempre nervosa quando o pai se exaltava, tinha medo de apanhar novamente. Pegou o queijo da geladeira, e com uma faca, começou a cortá-lo em pequenos cubos. Suas mãos ainda tremiam um pouco.

—AMANDA!

Com o susto, ela acabou cortando o dedo indicador. Olhou para a sala, era seu pai que havia gritado. Rapidamente ela foi até a pia e abriu a torneira colocando seu dedo sob a água corrente. Saia bastante sangue para um corte daquele tamanho. Ela ainda não sentia dor, mas sabia que logo logo a dor viria.

—AMANDA! — Ela percebeu que o pai estava vindo até a cozinha. Pegou um guardanapo e enrolou no dedo machucado.

—Amada, o que você ta fazendo? — Entre dentes.

—Eu já ia levar. É que cortei meu dedo.

—Você não serve pra nada, né sua inútil? — Ele olhou para a mesa onde estavam os cubos de queijo. —Deixa que eu mesmo levo isso... —Passou por ela lhe lançando um olhar ameaçador, pegou um prato, colocou os petiscos dentro e voltou para sala.

Ela queria chorar, sua garganta inchada doía, entretanto ela sabia que se chorasse ela não ia parar, e o pior poderia acontecer se o pai a visse chorando.

Quando o jogo terminou, ela pode escutar o pai se despedindo dos amigos. Ela esperou todos irem embora, e foi até a sala para perguntar ao pai se ele já iria dormir, mas percebeu que havia um amigo na sala. A noite seria longa.

—Amanda, leve esses copos e traga mais duas garrafas. — Disse o pai seco.

Ela empilhou os copos e os levou até a pia da cozinha. Foi pegar as garrafas que o pai pediu, quando abriu a geladeira ficou em choque. Só havia uma garrafa. Como é que ela não percebeu que estavam no fim, ela devia estar mergulhada em pensamentos. Ela nem podia imaginar como o pai ficaria.

—AMANDA!

Ela pegou a garrafa e foi levar para o pai, que estava bêbado demais.

—Essa é a última garrafa... — Amanda falou baixo com a garrafa na mão.

—O que? — O tom de voz do pai era assustador enquanto ele se aproximava de Amanda.

—Não tem mais... — Amanda começava a ficar nervosa novamente.

—E PORQUE VOCÊ NÃO ME DIZ NADA?! Eu não quero saber, dá o teu jeito que eu quero beber!

—Mas, pai... Já ta tarde e eu não posso comprar bebida, sou de menor, eu n...

PLAFT. Fez o barulho do tapa que Amanda levou no rosto. Ela ficou paralisada, o rosto ainda virado por causa da agressão. Ela estava muito assustada, nunca ele tinha feito aquilo na frente de alguém. O pai pegou violentamente a garrafa da mão dela e voltou a se sentar. Ela ficou ali, estática, se controlando para não chorar.

—Mas que merda é essa?! — A voz do pai despertou Amanda. — Essa porcaria ta congelada, imbecil!

Amanda não conseguia entender, a garrafa nem ficou no congelador.

—QUER ME FAZER DE PALHAÇO, SUA INÚTIL?

—E-eu não...

—CALA A BOCA! — O pai lançou a garrafa com toda a força em direção de Amanda.

No susto, ela gritou e seus reflexos foram de se proteger com os braços, ela fechou os olhos e se encolheu esperando o impacto. Ficou mais apavorada quando escutou o barulho da garrafa se estilhaçando, mas sem dor nenhuma. O nervosismo não deixa ela se mexer. Um silêncio insuportável tomou conta daquela sala. Amanda venceu o medo e aos poucos foi abrindo os olhos. Havia algo ali que não estava antes.