Suplício

3 A prisão de Sônia


— sabe, eu passei uma noite horrível hoje filha, eu não dormi direito – disse Estela para a filha.

— eu notei que você não estava bem hoje mãe – disse Sônia abrindo os braços para que Estela a abraçasse – o que houve?

— eu não queria que fossemos nessa viagem amanhã, eu estou com um pressentimento horrível, do mesmo modo que foi quando o teu pai morreu – disse ela em um tom triste.

— nossa mãe, como assim? — Sônia ficou preocupada.

— eu estou com um aperto no coração sentindo que algo vai dar errado sabe.

— mas mãe, eu não posso negar isso pra Paulinha, imagina se eu chego pra ela agora e digo que ela não vai mais pra Disney? É a viagem da vida de toda criança mãe, eu vou te confessar que também não queria muito ir, até porque fico mal com o Pedro tendo que me pagar pra nós, mas agora é tarde demais pra voltar atrás sabe.

— ai, está bem, mas vamos redobrar a nossa atenção – Estela abraçou a filha e aquilo acalmou-a um pouco, mas ela ainda estava aflita.

No dia seguinte quando chegaram ao aeroporto, estavam todos muito felizes, menos Estela, ela estava ainda muito aflita, ela ainda sentia que alguma coisa daria errado. Estavam todos fazendo o check-in e as malas já estavam passando pelo raio-x. Eles já estavam na antessala do aeroporto esperando para embarcar quando duas pessoas vieram em direção a eles.

— Sônia Maria de Oliveira? — disse a mulher.

— sim, eu sou – se apresentou ela, levantando-se e indo em direção a agente que estava com um homem uniformizado, era um policial.

— preciso que você nos acompanhe um momento – disse ele, estendendo o braço em direção a sala de onde eles haviam vindo.

— claro – disse ela sem imaginar nada, porém Pedro achou muito estranho tudo aquilo.

— aconteceu algo? — perguntou ele, levantando-se.

— não amor, não deve ser nada demais – disse ela para acalmá-lo.

— eu posso ir junto? — perguntou Pedro.

— por favor — disse a agente virando-se e indo em direção a sala.

— fiquem aqui meus amores, eu já volto – disse ela, então ela se abaixou, deu um beijo na testa de Paula e então a pequena Paula e Estela ficaram ali.

Estela ficou muito apreensiva, ela sabia que o presságio havia se completado.

Quando os quatro entraram na sala, a agente foi até a mala de Sônia que estava sobre a mesa.

— você poderia abrir sua mala por favor?

— claro – disse Sônia indo em direção a ela, então ela abriu o zíper.

— você pode tirar as coisas por favor – pediu a agente, e Sônia o fez.

Dentre as roupas de Sônia, abaixo de todas elas havia um saco de tecido que Sônia não conhecia.

— o que é isso aqui? — perguntou ela a sacola em mãos. Ela estava enrolada e Sônia não fazia ideia do conteúdo dela.

— preciso que você abra e despeje o conteúdo dessa sacola sobre a mesa.

Sônia então o fez e quando as coisas saíram sobre a mesa, ela ficou apavorada. Haviam três sacos não muito grandes com um pó dentro branco e alguns maços de dólares.

— isso não é meu – disse ele apavorada olhando para Pedro.

— como isso foi parar aí dentro? — perguntou Pedro completamente chocado com tudo aquilo?

— a senhora está presa, tem o direito de permanecer calada e de chamar um advogado – disse o policial que estava junto a eles.

— não você não pode, isso não é meu – disse Sônia, ela estava perplexa – eu não sei como essa porcaria foi parar aí!

— você vem com a gente tranquilamente ou eu terei que autorizar o uso de força – disse a agente.

— amor vai pra delegacia que eu vou levar a dona Estela e a Paulinha pra casa e vou com o meu advogado pra lá – disse Pedro.

Sônia estava apavorada, aquilo não era dela. Pedro então chegou até onde estavam Sônia e Paula e disse que precisaria levar elas para casa. No momento em que saíram do aeroporto, Estela pode ver uma coisa que a deixou com uma pulga atrás da orelha, ela viu uma mulher loira e alta, muito bonita que ela já havia visto em algum lugar, mas ela não conseguia lembrar-se de onde. Aquela mulher estava encostada na parede fumando um cigarro e olhava para os três com um sorriso no rosto, um sorriso de satisfação. Estela então, além da aflição de toda aquela situação e de Paula estar aos prantos, ficou muito encucada com aquela mulher, tentando lembrar de onde conhecia aquela mulher.

— então me explica como é que isso veio parar dentro da sua mala se não é teu? — perguntou o policial que estava interrogando Sônia.

— eu não sei, eu nunca me meti com drogas, além do mais eu não tenho nem reais vou ter dólares? Pelo amor de Deus – dizia Sônia, ela já tinha explicado a história três vezes para o policial.

— você entende que todo mundo que é pego com drogas em um aeroporto diz exatamente a mesma coisa? — disse o policial em um tom calmo.

— e cada casa é um caso, pode ter muita gente que usa isso como desculpa, mas eu estou falando a verdade! Chega, eu não falo mais nada até meu noivo chegar, ele vai me trazer um advogado.

— claro, é um direito seu – disse o policial – mas quem não deve, não deveria temer.

— eu sou pobre mas eu sei das coisas, eu leio e vejo TV, eu sei muito bem que nessas situações é melhor falar o menos possível pra não se ferrar – disse Sônia seca – ainda mais pra quem não acredita em mim.

O policial saiu e então logo foi avisado de que Pedro havia chegado com seu advogado e então foi dado alguns minutos para que eles conversassem com Sônia. Isso não era usual, mas o policial haviam simpatizado com Sônia.

— então você insiste que isso não é seu? — perguntou o advogado.

— insisto sim, pois eu estou falando a verdade – disse Sônia em um tom hostil, ela percebeu que o advogado não acreditava nela – e você acredita em mim Pedro?

— claro, claro que eu acredito – disse Pedro, porém Sônia não sentiu convicção nenhuma em sua fala, ela notou que ele havia titubeado.

— e qual é o procedimento agora? — Sônia já não tinha mais forças.

— você foi presa em flagrante, o caso da polícia está pronto, tráfico internacional de drogas e evasão de divisas por causa do dinheiro não informado que havia na sua mala, somando as penas você pode pegar até quinze anos. Foi decretada a sua prisão provisória, então o máximo que você ficará presa é 45 dias a menos que mudem para prisão preventiva e caso isso aconteça, você poderá ficar presa até o julgamento.

— então hoje eu passo a noite nesse inferno? — perguntou Sônia incrédula.

— sim, hoje é difícil que você seja liberada, mas eu já entrei com o pedido de habeas corpus, assim que o Pedro me ligou.

— então, por favor, vão embora daqui – disse Sônia incrédula. Ela sofria ao saber que Pedro não acreditava nela.

Os dois saíram dali e Pedro não trocou uma palavra com Sônia. Quando saiu dali, ele foi até a casa de Estela e contou a ela o que havia acontecido.

— e quando eu poderei ver minha filha?

— eu vou falar com o meu advogado, mas creio que amanhã.

— meu Deus, o que eu vou dizer pra Paulinha? Como eu vou explicar que a mãe dela não vai voltar pra casa? — Estela estava desesperada. Havia colocado Paula na cama mas ela havia chorado por horas pedindo sobre a mãe.

— assim que eu tiver alguma notícia eu te aviso e qualquer coisa que você precisar me ligue, me ligue que eu venho correndo – então Pedro deu um suspiro profundo – agora eu preciso ir pra casa enfrentar a fera – Pedro se referia a mãe. Ele despediu-se de Estela e foi para casa.

Quando chegou em casa, Guilhermina estava no sofá da sala, como de costume, estava sentada tomando uísque.

— não vai me dizer nada? — indagou Guilhermina, dando um gole no copo.

— não tenho nada pra dizer, preciso dormir e descansar um pouco, amanhã terei um dia cheio.

— eu imagino, tem que tirar a sua namorada traficante da cadeia – disse ela, seca.

— por favor não, hoje não Guilhermina – Pedro estava exausto.

— não estou a fim de lhe dar lição de moral nem nada Pedro, apenas me sinto na obrigação de dizer que eu avisei. Desde o começo eu avisei que essa mulher não prestava e preciso dizer que estou feliz que isso tenha acontecido antes do casamento, assim evita muito sofrimento – ela deu mais um gole no uísque – eu tenho pena é da filha dela, coitada, uma mãe dessas.

Pedro não disse nada, ele estava chocado com a crueldade da mãe.

Longe dali, Estela estava sentada no sofá. Ela não fumava a anos, porém naquela noite ela havia acendido um cigarro, então entre uma tragada e outra ela teve um estalo mental: “aquela é a tal Laura, a ex mulher do Pedro!” indagou ela.

***

— tá aqui, o valor combinado – disse Laura ao entregar um envelope marrom para a mulher que havia levado Sônia para a sala de revista.

— não preciso contar né, o valor está certinho? — pediu ela.

— claro querida, negócio comigo é negócio certo, não tem erro.

Laura sorriu, ela havia conseguido adiar a viagem de Pedro e Sônia e estremeceu para sempre a relação dos dois. O que ela não sabia é que ela ia destruir completamente a vida de Sônia, mas se ela soubesse, isso não faria ela perder nem sequer uma noite de sono.