Superman: Um Mundo de Papel
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Fiquei inspirado pela série "Superman & Lois", que está no HBO Max. A série traz um Superman otimista e inspirador sem parecer ultrapassado, o que tem me agradado bastante. Além de outras coisas, como um Clark Kent lidando com a paternidade e uma Lois Lane bastante humana e intrometida sem ser chata.
Então quis escrever esse lado mais clássico do personagem.
Clark Kent andava aos tropeços com os papéis escorregando da mão. Tentava colocar a caneta no bolso e quase atingiu uma pessoa no meio do caminho.
—Desculpa!
—Olha por onde anda, Kent! — falou Ash Cooper, pressionando o botão do elevador. — E amarra o cadarço.
Kent entrou na redação do Planeta Diário. Antes de continuar andando, achou uma boa ideia amarrar o cadarço. Caminhou com pressa pela redação, começou a sentir o cheiro de café nas canecas das mesas. Viu Jimmy Olsen conversando com uma estagiária que não parecia dar atenção ao garoto. Na primeira fileira da redação, Lois Lane digitava enfurecida em seu computador. Clark passou direto e entrou na sala de Perry White.
—Kent! Até que enfim!
Perry exalava um odor de charuto estragado, haviam pequenas partículas de pólvora entre os dedos e na gravata. As rugas em seu rosto exibiam tanto a experiência de 40 anos como jornalista quanto a impaciência pelo atraso da reportagem de Kent sobre o lançamento do foguete que viajaria para Marte.
—Perdão, senhor White. O trânsito estava uma loucura.
—Sei. O trânsito. Ainda não se acostumou à cidade grande, Kent? Cinco anos não são nada para quem vive aqui a vida toda.
—Senhor?
—Desculpa, estou tagarelando. Me passa aqui esses papéis. E senta aí.
Clark entregou as folhas e se sentou. Ajeitou os óculos, juntou as mãos entre as pernas e se encolheu. Perry começou a ler com fúria no olhar, de vez em quando fazendo um comentário sobre a escrita de Kent. Quando chegou à última página, exibia um sorriso largo. Pousou a reportagem sobre a mesa e puxou um novo charuto de dentro da gaveta.
—Parabéns, Clark. É sua melhor reportagem desde que chegou ao jornal.
—Obrigado, senhor White. Eu me esforço e tento me espelhar nos melhores que nem o senhor.
—Sem bajulação, rapaz.
—Desculpa.
—Vou colocar na primeira página da edição vespertina, mas já pode redigir e colocar no site. Graças a pessoas como você, Kent, o bom jornalismo ainda respira. Agora cai fora da minha sala e chama o Lombard pra mim.
Clark recolheu as folhas e saiu da sala. Steve Lombard arregaçou propositalmente a manga da camisa para exibir uma tatuagem a Lois Lane. Ela o ignorava e digitava com impaciência em seu computador. Aproximou-se dos dois, novamente ajeitando os óculos, desta vez lendo um “I love sports” no braço do jornalista.
—Então, Lois. Hoje é a final da Major League Soccer entre o Metropolis FC e o Red Central City. Adivinha quem tem folga e dois ingressos?
—Estarei ocupada hoje.
—Tem certeza? Não é sempre que os derrotados do Metropolis FC chegam à final.
—Oi, gente.
Quando Lois ouviu a voz de Clark, expressou toda sua impaciência com uma baforada no ar. Já Lombard pareceu contente por ver o colega jornalista.
—E aí, garoto Kent? — Lombard ergueu a mão para cima e os dois se cumprimentaram. — Como é que vai?
—Bem. Hum… O senhor White está te chamando, Steve.
—Valeu, Clark. — Lombard virou-se para Lois uma última vez. — Aí, o convite ainda tá de pé.
—Minha recusa também — respondeu ela com um sorriso impaciente.
Lombard riu, deu um leve tapa no ombro de Clark e entrou na sala de Perry White. O grito que o chefe deu na entrada do repórter esportivo quase explodiu o tímpano de Clark. Enquanto isso, ficou parado observando Lois trabalhando. Admirava o jeito como ela era concentrada, mas se preocupava com a irritação da mulher.
—Dissociação é com cedilha — disse Clark, tímido e gaguejando.
—É? Droga, maldito corretor que não corrige quando deve. Valeu, Clark.
—De nada.
Clark acenou se despedindo e caminhou, cabisbaixo, para sua mesa do outro lado da redação. De repente, sua audição ouviu um grito de socorro. Vinha do outro lado de Metropolis. Deixou seus papéis e a caneta em cima da mesa e saiu para o elevador.
Sozinho no elevador, tirou a gravata.
...
Joseph Martin era um bandido qualquer que Stone City quando se mudou para Metropolis a fim de mudar sua vida, iniciar uma nova jornada com trabalhos honestos. Ele não fazia ideia que essa mudança viria da forma mais radical possível. Joseph não era mais um bandido qualquer. Nem humano ele era mais. Isso se devia a Metropolis.
A cabeça de Joseph Martin foi consumida por radiação, assim como seu corpo. O ex-bandido de Stone City era literalmente uma Caveira Atômica e gostaria de devolver o favor explodindo toda a cidade. As balas que os policiais disparavam eram alimento para sua força radioativa. Ele ria. Suas mãos variavam entre verde e roxo, estava tão quente quanto uma usina nuclear.
Os tiros pararam e Joseph Martin ria. Concentrando energia, jogou uma bola radioativa na direção da barreira de viaturas. Todos os policiais escaparam com vida, mas havia uma cratera no meio da rua. Prestes a lançar outro ataque, percebeu as pessoas mudando o foco da atenção. Um velhinho de óculos escuros e cabelo grisalho apontou para o céu.
—Olhem! É ele!
Parecia um ponto azul ofuscado pela luz do sol. Um ponto que foi se aproximando até fazer o pouso do herói na cratera criada pelo Caveira Atômica. O riso de Martin sumiu quando identificou o Superman em seu uniforme azul de capa vermelha tremulando como uma bandeira. As pessoas — incluindo os policiais — aplaudiram e gritaram de euforia com a chegada do Homem de Aço.
—Estava pensando quando você viria.
—Não quero te machucar, Caveira.
—Que bom. Isso facilita meu trabalho.
O Caveira Atômica correu na direção da cratera e arriscou um soco, mas o Superman desviou sem dificuldade. O segundo soco foi bloqueado com a mão do kryptoniano. Caveira aumentou a intensidade da radiação, queria queimar o Homem de Aço. Foi uma ação inefetiva. Superman o jogou para frente e cruzou os braços.
—Que tal facilitar o meu trabalho e se render?
—Nunca!
O próximo soco do Caveira Atômica atingiu o rosto do kryptoniano com força. O seguinte também, jogando o Homem de Aço para fora da cratera. Joseph estava gostando e chutou o corpo do Superman. No entanto, o herói bloqueou o chute e voou carregando o Caveira de ponta cabeça. As pessoas aplaudiam o ato, alguns até estavam rindo da situação.
—Mas que… Me solta!
—Eu pedi para se render.
O Superman voou mais alto carregando o Caveira Atômica de cabeça para baixo. O vilão tentava se libertar atirando rajadas de radiação contra o Homem de Aço, mas sem sucesso algum. Joseph fechou os olhos por alguns segundos. Quando os abriu novamente, se viu sendo jogado num chão arenoso no meio do nada.
—Temos dois minutos antes do exército chegar. É melhor se render logo.
—Por que não me mata logo, hein? Seria muito fácil para quem consegue entortar o cano de uma arma sem esforço algum.
—Eu não vou te matar, Caveira.
—Por que não? Na verdade, por que você é tão escoteiro? Que tal dominar Metropolis? Ou o mundo! Seria fácil demais.
Kal-El nem se deu ao trabalho de responder, ouvindo a aproximação dos helicópteros militares pelo ar e o comboio com caminhões e tanques por terra. Estimava que chegariam em 50 segundos.
—É exatamente por ser fácil demais que não faço isso.
O Caveira aproveitou que o Superman estava de costas e arriscou mais um soco. Novamente foi bloqueado, desta vez o Homem de Aço revidou com um golpe tão potente que o desacordou imediatamente. Puxou ar e soprou para esfriar a radiação corporal do inimigo. Poucos segundos depois, os militares cercaram o lugar e apontaram suas armas para os dois intrusos.
—Abaixem as armas, cavalheiros — pediu o Superman sem elevar a voz. — Está tudo sob controle.
—Vocês ouviram. Abaixem as armas! — gritou alguém com bastante autoridade. Lentamente os militares obedeceram. — Ora essa, abaixem logo! Todos sabem que nossa munição não é eficaz contra ele.
Kal-El identificou o homem grisalho com roupa camuflada. A identificação no uniforme também denunciava seu nome.
—General Lane.
—O que veio fazer aqui? E por que trouxe ele?
—Ele se chama Caveira Atômica. Digamos que a Stryker não está apta para receber uma bomba atômica como ele.
—Então acha que o exército tem condições para essa coisa? Sabe quanta papelada vou ter que assinar por ele?
—Tudo bem, general. Eu levo ele de volta e ponho em risco milhares de vidas, inclusive a de sua filha.
—Não. Droga. Me dá um minuto.
Sam Lane foi falar com um subordinado de confiança. Alguns militares olhavam curiosos para o Homem de Aço, tanto admirados por sua postura perfeita e atitude calma quanto intimidados por ser tão alto, forte e poderoso. Quando o kryptoniano sorriu, viram humildade nele.
—Bom dia — desejou ele.
—Certo. — Lane suspirou. — Odeio quando você faz isso.
—Isso o quê?
—Usa a minha filha contra mim.
—General, usei um exemplo entre milhares.
—Tá, tá. Algemem essa criatura.
—Obrigado, general Lane.
—Vai logo. Assumimos daqui.
Com um sorriso, o Superman alçou voo para longe.
...
O sol radiante iluminava o início de tarde em Metropolis. Sobrevoando a cidade, o Superman observava as pessoas caminhando e seguindo com suas vidas. O local onde confrontou o Caveira Atômica foi devidamente evacuado e isolado para limpeza e reconstrução.
Clark ouvia tudo. Os dedos digitando nos teclados do Planeta Diário. As conversas mundanas entre casais ou entre jovens. A respiração das pessoas. Ouvir tudo isso, mesmo que intrusivamente, o fazia sorrir e se sentir mais humano. Não era fácil viver num mundo de papel, em que cada toque um pouco mais forte poderia amassar aquele planeta. Isso o arrepiava, o deixava preocupado. A concentração sempre estava no máximo.
—Desce, gatinho.
O Superman ouviu aquele pedido vindo do outro lado de Metropolis. Era mundano e sem perigo, mas ele foi verificar. Numa árvore, um gato de pelo branco com mancha cinza no corpo estava deitado e não sentia preocupação em descer. Já a menina, no solo, gritava por ele. Estava acompanhada da mãe, que olhava preocupada para o felino.
—Ele vai descer, filha. Aqui, bichano.
—Olha, mamãe!
A menina apontou para o Homem de Aço flutuando até o gato na árvore, tirando sem dificuldades e sentindo as garras perfurando de leve seu uniforme. Pousou e entregou o felino para a criança.
—Prontinho, menina. — Super não escondeu a simpatia no sorriso.
—Obrigada, senhor Superman — agradeceu a criança.
—Obrigada. — A mãe também sorriu e levou a menina e o gatinho de volta para casa.
...
Clark ajeitava a gravata enquanto subia de elevador de volta à redação do Planeta Diário. Sentia-se leve depois de um fim de manhã agitado, com direito a uma ameaça a Metropolis, a ajuda do exército e um ato de gentileza com um gato preso na árvore. Sorria à toa quando a porta se abriu e viu Lois entrando no elevador. Já não parecia mais tão impaciente quanto mais cedo naquele dia. Kent imediatamente curvou os ombros.
—Uau, por que a alegria?
—Nada. É só que é bom ser elogiado pelo senhor White.
—Ah, claro. E essa colônia nova é para impressionar alguém?
Clark olhou com surpresa para ela. Não esperava que logo Lois Lane fosse sentir o cheiro de uma colônia que ele passou rapidamente para esconder o cheiro de suor — pode ser o Homem de Aço, mas o calor afeta a todos.
—Você sentiu o cheiro da colônia?
—Foi para me impressionar?
—Não, é que a minha antiga colônia acabou e eu tive que comprar uma nova. Apenas isso.
—Entendi.
Depois de dois segundos de silêncio, a porta se abriu novamente. Lois foi à frente.
—Mas você gostou? Uma opinião feminina é importante para a próxima colônia que eu escolher.
—Quer saber? Sendo sincera, combina com seu jeito, Kent.
Clark sorriu, feliz com mais um elogio no dia.
—E amarra o cadarço quando sair.
—Pode deixar.
Notas finais
De novo falando sobre Superman & Lois, acho que chegou num momento bem oportuno por causa da onda de versões alternativas e malignas do Superman. Omni Man, Capitão Pátria e, ah, olá, filmes do Zack Snyder. Ironicamente o medo de um Superman maligno é um dos temas da série, mas não é algo mal desenvolvido.
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