Superfície
4 Capítulo 4
Notas iniciais
As horas seguintes foram – para minha surpresa – incrivelmente boas e confortáveis. Conversar com o Nicholas, era simplesmente perfeito. Ele era engraçado, alegre e fazia eu me sentir tão segura, como se nada no mundo pudesse me machucar, me alcançar. Eu já tinha lhe dado o endereço da fazenda e agora não faltava muito. Eu precisava pensar em um plano. Ao contrário do que eu disse para o Nicholas, eu não tinha pensado em nada ainda. Como eu poderia distrair o Michael, pegar a Julie e fugir? Isso não ia dar certo. Passei os minutos seguintes em silêncio. Até que Nick o rompeu.
–Tem certeza que quer fazer isso? — ele perguntou. Parecia preocupado.
–Tenho sim. Nicholas ela é minha irmã... — tentei não parecer desesperada por ajuda, apesar de estar me sentindo assim.
–Eu sei... eu só estou preocupado com você. — ele suspirou.
–Não precisa ficar. Vai dar tudo certo você vai ver. — sorri, tentando convencer a mim que tudo ficaria bem, mas não estava tão certa disso.
–Espero que sim. — ele disse.
Virei-me para o lado e vi.
–Chegamos. — falamos juntos.
Sai do carro e Nicholas fez o mesmo, me abaixei até tocar no meu all-star amarelo surrado. Fechei os olhos.
–Me ajuda, por favor. — sussurrei.
–O que você está fazendo? — ele perguntou me encarando.
Levantei rapidamente e dei um sorriso amarelo.
–Nada.
–Então... Está pronta ?
–Sim... Quer dizer, não. — suspirei. Ele sorriu, me encorajando. — Nicholas... Eu sei que disse que não queria sua ajuda e... Naquela hora eu realmente não queria, mas... Eu não acho que consigo fazer isso sozinha... — olhei para o chão, esperando uma resposta.
Ele colocou a mão no meu queixo, levantou minha cabeça e olhou nos meus olhos. Os segundos seguintes foram simplesmente perfeitos. Quando ele encostou seus lábios nos meus, o mundo teve muito mais sentido. Não tinha mais problemas e o tempo parou. Ficaria ali parada, debaixo da garoa que começara a cair, para sempre. Não queria sair dali, por que aquele beijo, foi o melhor beijo e quando minhas lágrimas se misturaram ao beijo, o deixando salgado e ainda mais perfeito, quando finalmente eu percebi a verdade mais óbvia, quando percebi que todo esse tempo eu estava apaixonada por ele, desde o dia que ele entrou no bar pela primeira vez como aquele sorriso torto nos lábios, o ar nos faltou e nos separamos. Nossas respirações estavam irregulares e eu tinha um sorriso no rosto... Mas ele não.
–Claire... Eu preciso te contar uma coisa. — ele disse respirando fundo.
–Tudo bem... Pode falar. — eu disse confusa.
–Eu não posso te ajudar... — ele disse olhando para o chão. Sua mão ainda segurava a minha.
–Nicholas você precisa me ajudar. Eu não vou conseguir salva-la sozinha e você pode me ajudar e... — minha frase morreu.
–Me desculpa Claire. Eu sinto tanto... — ele disse, parecia tão frustrado.
Meus olhos se encheram d'água.
–Por quê? — murmurei, apertando sua mão.
–Não faz isso... Eu não posso explicar...
–Como não pode? Explica-me Nicholas... Porque eu estou tentando entender. — eu disse reprimindo as lágrimas.
Pensei em motivos horríveis, mas nenhum foi pior do que eu ouvi em seguida.
–Eu trabalho para o Michael. — o choro estava preso em minha garganta e eu simplesmente não conseguia respirar. — Ele me paga para te vigiar. Ele sempre soube onde você estava... Ele me encontrou lá no bar, eu precisava de dinheiro e ele disse que eu só precisava vigiar você e a Julie... Então não achei que tivesse nenhum problema...
–Você... Você que me bateu e sequestrou a Julie ? — falei tão baixo que mais parecia um sussurro. Fechei os olhos e tentei respirar.
–Não. Eu nunca faria isso com você... depois que eu te conheci melhor... eu me apaixonei.
–Bom seria se as pessoas soubessem amar como sabem fingir... — as primeiras lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto.
–Claire...
–Não. Você é um mentiroso... Você não está apaixonado, você é só um mentiroso...
–Até os mentirosos, às vezes falam a verdade...
–Não você. Me solta...
Tentei puxar meu braço, mas ele puxou a manga do casaco deixando meu antebraço à exposição. Ele olhou para meu braço e depois para mim.
–O que são essas marcas? — ele perguntou ainda mais frustrado.
–Nada... Me solta. — eu respondi.
–São cicatrizes... Queimaduras de pontas de cigarro.
–Nicholas...
–Não era sua mãe, era? – E de repente ele havia ligado os pontos.
–Nicholas, por favor...
–Era você. Era você que ele estuprava... — ele me soltou e levou às mãos a cabeça. — Meu Deus... a Julie não é sua irmã, ela é sua filha...
Eu cobri novamente meu braço com o casaco, enquanto chorava. Os olhos de Nicholas estavam cheios d'água.
–Eu... Esse desgraçado te tocou... E eu o ajudei... Meu Deus.
–É... Você ajudou. — virei de costas e comecei a me afastar, passando pelos portões da fazenda. — Adeus Nicholas. — murmurei enquanto andava.
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