A chuva estava forte.

No rádio, os anúncios de mais chuva para esse mês não paravam de passar. As gotas cantavam decididamente enquanto o vento seguia a melodia sem parar.

Era para ter sido uma simples viagem de férias, mas bem, papai simplesmente se esqueceu de consultar a previsão do tempo antes. O carro derrapava na estrada molhada, e papai se preocupava com um possível alagamento na cidade. Mal chegara no lugar onde deveríamos ter feito acampamento, e o céu desabou, fazendo a gente ter que dar meia-volta de volta para a cidade, dessa vez por um atalho que um policial do local comentou.

Papai parou o carro no meio da estrada, meu corpo sendo jogado para frente até voltar para trás.

Era um cavalo,pelo visto ainda filhote, deitado no meio da estrada. Seu pelo preto estava sujo e machucado, como se o pônei já tivesse sido atropelado. Mamãe, com seu extremo amor pelos animais, saiu imediatamente do carro, falando que deveríamos ajudar o pobre potro. Com o grande animal na parte de trás do carro, saímos apressados até um veterinário nada próximo da cidade.

Meu desespero com o pobre animal era tanto que comecei a cantar desesperadamente a abertura de Cavaleiros do Zodíaco: Pegasus Fantasy.

– É isso! – Disse a mamãe, com certo entusiasmo. – Vamos adotar ele, querido. Seu nome será Pégaso.

Enquanto isso, eu ainda gritava “Saint Seya!” loucamente, enquanto o veterinário olhava para mim de modo estranho.

É claro que a chuva não deixou tudo muito barato. A tempestade fez nosso pequeno apartamento humilde ficar totalmente destruído e precário, com cheiro de mofo em todos os cantos. Tivemos que nos mudar para uma pequena e bonita casa em uma cidade bem próxima da estrada onde encontramos Pégaso, o pégaso que não sabe voar. Para minha surpresa, nessa mesma cidade morava Alice, minha amiga que conheci quando ainda estava na creche.

– Deixa eu ver se entendi direito, Amanda. – Disse Alice, com o ar sério que ela sempre teve. – Você adota um potro e dá o nome a ele de Pégaso? Sério? Daqui a pouco você adota um cachorro e coloca o nome de Coragem, o cão covarde.

– Não seria uma má ideia, Alice. – Eu falei, com o nariz empinado. – Retirando a parte de que meu pai tem alergia a pelos de gatos e de cachorros. E aliás, não lembro que tenha algum desenho com pégaso.. é, retirando My little pony.

Com um grito de sua mãe falando para se retirar do telefone, Alice desligou falando que nos veríamos amanhã, na praça. Pégaso estava no veterinário, mas sairia amanhã pronto para tudo.

Logo meus ouvidos escutaram a linda melodia de papai, tocando em seu piano. Papai era músico. Quando ele tocava, parecia que até as estrelas paravam para escutá-lo: atentas, piscando tão rápido que nem se via piscar. A lua brilhava mais forte, em total atenção, não deixando nenhuma nuvem que quisesse apagar seu brilho chegar perto. Até mesmo os objetos mais barulhentos como a porta, que sempre range quando alguém passa, ficava silenciosa, apenas escutando papai e seu piano.

Amanhã. Pensou Amanda, com um sorriso no rosto.