Super-Protetores da Paz: A Busca pela Lesma do Mar
3 Você não está sozinha, Anaru!
CAPITULO TRÊS
A noite estava bem quente, era raro a temperatura corresponder ao dia calendário climático. Um grupo de adolescentes, três meninas e dois meninos, caminhava com seus uniformes e bolsas escolares, seguindo pelas ruas movimentadas até a sorveteria mais próxima.
Conversando animadamente, discutiam sobre o que fariam nas férias de duas semanas. A garota de pele morena e cabelos castanho-escuros disse que iria para o campo, passar um tempo com os avós. Outra, esta de madeixas mais claras e curtas, disse com um sorriso que ficaria em casa de dia e em festas de noite.
— Minha mãe vai me obrigar a viajar também— A voz soou mais baixa que as demais, parecia tímida em meio a tantos comentários, mas foi o bastante para que todos se silenciassem— Bem na época do evento de Nokemon.
— “Nokemon”? –Um dos meninos repetiu, obviamente sem entender a que se referia a palavra.
— A-ah, é um jogo– Naruko Anjou explicou-se, desviando o olhar para o lado. “Por que estou aqui mesmo..?” perguntou-se naquele instante, mas logo sua amiga lhe tirou do devaneio que a garota estava prestes a imergir, passando o braço sobre seu ombro para abraçar o pescoço dela, fazendo com que ela se aproximasse dos demais, já que estava caminhando atrás de todos.
— Ela é uma fofa, não?– Disse em um tom alto enquanto sorria, mostrando seus dentes brancos, apertando um pouco mais Naruko antes de a soltar. A ruiva se forçou a sorrir, mas não pareceu muito convincente– Se ignorarmos esses comentários, ela é legal.
Bastaram mais sete minutos até que chegaram à esquina que se localizava a sorveteria de seu destino. O estabelecimento era dividido em duas partes: o interior, com ar condicionado e perfeitas condições higiênicas, cuja pintura se baseava em azul e rosa pasteis e branco; e uma área a céu aberto, de chão compreendido de tábuas de madeira e algumas mesas redondas cercadas por quatro ou cinco cadeiras. Optaram por ficar neste último, acomodando-se em uma das mesas espalhadas no ambiente após fazerem pedidos de sundae, milk shake ou sorvete de massa, que logo chegaram à suas mãos, trazidos por um garçom.
A conversa seguia e, por mais que a jovem de cabelos ruivo-alaranjados, presos de forma incomum em um rabo-de-cavalo, tentasse se concentrar e comentar as aventuras contadas pelos colegas animadamente, era incapaz de impedir que seus pensamentos retornassem à pouco mais de dez anos atrás.
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Acordou de suas memórias por conta do celular que vibrava em seu bolso incessantemente. O aparelho era adornado por dois pequenos pingentes, e logo foi desbloqueado para que a ligação de sua mãe preocupada se iniciasse.
Provavelmente, caso estivesse se divertindo, a garota teria agido de forma rabugenta quando sua mãe pediu que voltasse para casa. Entretanto, antes mesmo da senhora comentar com a filha que desejava sua presença em casa naquela noite, afim de arrumar a mochila de viagem para as férias, Naruko já estava pondo-se de pé, com as alças da bolsa apoiadas no braço.
— Desculpem, preciso sair agora– Despediu-se de todos ao mesmo tempo, afastando-se do grupo a passos largos após deixar o dinheiro de seu milk shake de morango sobre a mesa. Talvez alguns tivessem tomado o ato como rude, mas ela não ligava.
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Durante a madrugada, quando a casa já estava silenciosa, a mente de Naruko estava barulhenta a ponto de impedir que a jovem dormisse ao menos uma hora. Tentou deitar de bruços, mas seus seios logo começavam a reclamar pelo peso de seu corpo sobre a parte delicada; tentou virar-se para a direita, encarando a parede cor-de-pêssego e a porta entreaberta, mas não demorou até que a visão se tornasse entediante; depois, mexeu-se na cama para deitar sobre o braço esquerdo, encarando a janela atrás das cortinas de tecido levemente transparente, o que a possibilitava de fitar a lua cheia.
Naquela posição, sua mente parecia menos turbulenta, talvez o luar beijando seu rosto lhe trouxesse calma, porém isso não a impedia de funcionar:
“Um ano já se passou…” lembrou-se do fato. “Sou uma tola, os outros com certeza já se desprenderam do laço que um dia já nos uniu. Eu apenas queria ser capaz de fazer novos amigos… Mas ninguém jamais vai alcançar os Super-Protetores da Paz”.
Sentou-se na cama, desprendendo o cabelo. Os fios deslizaram por suas costas, emaranhados entre si em alguns nós. A garota segurou uma mecha entre os dedos e tentou desfazer os nós. “Talvez eu vá viver assim para sempre”, teorizou enquanto encontrava dificuldade ao afastar alguns fios que insistiam em permanecer unidos. “Talvez eu queira viver assim para sempre…”.
Cansada de tentar dormir, por volta das três horas, afastou o edredom que cobria as pernas e seguiu até o outro lado do quarto, abrindo a mochila que descansava sobre a cadeira da escrivaninha, abrindo o zíper e tirando de lá o último objeto a ser colocado: seu velho console portátil, com a fita de Nokemon.
Foi automático, no instante em que ouviu a trilha sonora do Menu do jogo, um sorriso surgiu em seus lábios. Pequeno, discreto, mas ainda assim era um sorriso sincero. Era o que lhe reconfortava, saber que ao menos uma coisa ainda estava com ela, e que nunca seria diferente.
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— Naruko? – A voz invadiu o cômodo junto das batidas ritmadas na porta de madeira, que se abriu com um ranger lento. A senhora de cabelos castanhos, levemente acima do peso, logo que viu sua filha sentada no chão com as costas apoiadas na cama, com o video game sobre o colo ainda ligado, adentrou no quarto lentamente, ajoelhando-se e pousando a mão ternamente sobre o rosto da menor– Filha..?
Ela abriu os olhos lentamente, com uma expressão cansada ao endireitar-se. Já era de manhã, a Lua dava lugar para o sol, cujos raios invadiam o local e iluminavam o quarto. O músculo do pescoço da garota doía.
— Não conseguiu dormir?
Naruko respondeu com um sorriso constrangido, apoiando-se no colchão para se levantar e levar o video game, quase descarregado, de volta para a mochila.
— Quer que eu ligue para sua prima? Você pode ir amanhã, se preferir– Sugeriu.
— Não – A garota logo dispensou, fechando o zíper da bagagem não muito cheia– Eu vou tomar um banho apenas. Além do mais, este lugar em que ela mora está ficando famosos, foi um sacrifício conseguir a passagem de trem, não posso perder.
— Tudo bem, então. Vá direto para o banho, a senhorita tem mais uma hora e meia para estar na estação!– A mulher disse em um tom de ordem, contendo um pouco da parte brincalhona.
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