Supérstites
1 Prólogo
Notas iniciais
O medo toma conta de mim, mesmo sabendo que o certo era fugir, ir sem as pessoas que amo não me parecia certo, não era certo, me fazia queimar por dentro de dor.
Depois da morte do meu irmão, e o rebaixamento social de mim e meus pais, só me restava imaginar nossa morte, seja por fome, sede, frio ou doenças. Mas isso não me afetava, estava ao lado das pessoas que mais amo no mundo e que sempre estiveram ao meu lado em todas as situações. Por que deveria os deixar agora, logo nessa situação em que estamos?
—Não quero ir, mamãe.
—Cassie, você precisa ir, você sabe que é o certo a se fazer. Esses senhores nos ofereceram ajuda, mas só tem um lugar no barco. Você é jovem, tem dez anos, ainda tem a vida inteira pela frente, querida. Eles vivem num navio enorme, você vai amar. Vá! Não se preocupe conosco, ficaremos bem.
—Escute sua mãe, Cassie. Queremos o melhor para você. Se apresse, daqui a alguns minutos o sol nasce e vão nos levar embora, você já estará longe quando chegarem, nós inventamos algo, filha. Vá!
Depois de abraçá-los, fiz como me disseram e fui com eles. Os homens no barco pareciam desapontados enquanto me levavam rapidamente em direção ao enorme navio. Assim que lá chegamos, uma mulher nos recebeu e assim que me viu abriu um grande sorriso. Era como se não visse uma criança há muito tempo.
Ela me levou para tomar café da manhã e me ofereceu um casaco, como o clima estava frio.
Um homem se aproximou. Pelas roupas que usava e pela postura superficial, deduzi ser o capitão daquele navio.
—Sério? Uma criança? De que ela servirá?
—Acalme-se, Jim. A garota acabou de chegar, não a deixe com uma má primeira impressão.
—Pouco importa isso, Laura! Por que uma criança? Por que não alguém mais útil?
—Podemos treina-la desde cedo. Eu acredito nela, ela consegue ser uma de nós.
—Desculpe-me interromper, mas ainda estou aqui, sabiam? Como assim ser uma de vocês? Quem são vocês?
—Ah, Garotinha ingênua! Somos os rebeldes não pacíficos. Ainda acha que consegue ser uma de nós?
O homem sorriu pra mim como se estivesse propondo um desafio.
Desafio aceito.
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