Sunshowers
6 Desabrochar
Já fazia alguns minutos que Luffy fitava a luz solar escapando das cortinas cor de creme em seu quarto. Um filete descansava em seu rosto, mas não o incomodou... na verdade o calor era agradável naquele outono cinzento.
— Bom dia, Luffy! — Sabo fazia o café da manhã e cumprimentou o rapaz assim que o viu saindo do corredor.
— Bom dia... — Andou sonolento até a mesa e se sentou.
— Acordou cedo hoje. — O rapaz mais velho servia a omelete para Luffy. — Sabe que hoje é sábado?
O mais novo grunhiu de boca cheia. — Não sou tão burro assim!! Sei que hoje não tem aula!!
— Então, por que já está de pé? — Sabo se sentou na cadeira à frente do seu irmão.
Luffy coçou o rosto incomodado, temia de seu irmão desconfiar de algo que mantinha oculto. — Tava com fome...
Sabo riu com a mentira, mas fingiu que estava convencido. Desde que se mudaram, Luffy agia de um jeito estranho, um pouco confuso. Contudo, Sabo não achava que era algo tão grave quanto as brigas que seu irmão se envolvera na escola passada, decidiu que ficaria quieto e esperaria pelo momento que ele o chamaria para conversar.
— Hoje a tarde vou pra casa de Sanji fazer um trabalho. — Lambia os dedos melados de mel e Sabo mandava parar com tapinhas em suas mãos.
— O amigo da marmita?
— Esse mesmo!! Aí, tá me machucando batendo nas minhas mãos assim!!!
— É porque você não para! — Rebateu enojado, depois recostou as costas na cadeira e voltou a segurar os talheres, nos quais Luffy quase sempre abria mão. — Você mostra esse lado porco pros seus amigos???
— O amigo da marmita só liga se eu comer rápido.
Sabo piscou os olhos sem entender e mudou de assunto. — Não esqueça de ir bem agasalhado, não vá pra lá como está agora. — Apontou o queixo para Luffy. — Sem camisa e de bermuda. Aliás, era para você tá de camisa pelo menos!! — Levantou-se buscando os pratos e levou até a pia para lavá-los.
Luffy observava seu irmão e pensava de onde ele tirava tanta força de vontade para continuar. Boa parte do chapéu de palha não chorar após a morte de Ace era que ele não se recordava de ver Sabo chorar na sua frente. Na verdade, estava sempre paciente e decidiu cuidar dele sozinho nessa nova cidade, sendo que antes ambos moravam com o avô. Por isso a promessa de não agredir ou arrumar confusão com ninguém na nova escola era tão importante, Luffy não queria dar mais trabalho... Não chorava ou demonstrava vulnerabilidade como Sabo, mas se aliviava através das brigas. Porém, seus novos amigos o faziam se sentir abençoado e por isso nunca mais recorreu à violência. Aquele dia que chorou com Usopp fora um dia de grande alívio espiritual, sua alma foi lavada e esperava que seu irmão lavasse a dele um dia.
— Sabo, deixa que eu lavo essas louças.
— Olha, parece que o menino primata resolveu ser civilizado hoje! Além de ter acordado cedo, quer lavar a louça por vontade própria!
— Não enche... e menino primata é sua mãe!
Era de tarde, Luffy saiu de casa agasalhado e com sua bicicleta. Andava em direção à casa de Sanji e notava as árvores das redondezas com cores flamejantes, pelo menos era assim que enxergava as cores das árvores dessa cidade nublada. Era até bonito de ver, não era à toa que Usopp gostava de desenhá-las...
Chegou na casa do amigo cozinheiro e ele o ajudou a guardar sua bicicleta na garagem. Cumprimentou o velho Zeff, tio e o responsável de Sanji, assim que o viu na cozinha preparando uma sobremesa que todos comeriam mais tarde. Zeff era dono de um restaurante e Luffy entendeu por que seu amigo loiro e de sobrancelha enrolada gostava tanto de cozinhar.
Os dois chegaram no quarto, Luffy se encontrou com Usopp e Zoro no chão. Usopp estava concentrado com um exercício, já Zoro inclinava as costas no pé da cama de Sanji e dormia com uma folha de exercício no rosto.
Sanji era organizado, mas naquela tarde havia muitas bolinhas de papel espalhadas pelo chão, livros e cadernos jogados de qualquer jeito e uma música barulhenta tocava no fundo.
— Senta, Luffy. — Ele disse e logo depois se sentou ao lado de Zoro, dando uma cotovelada nele para acordá-lo. Zoro acordou xingando Sanji de tudo que é tipo de nome, nem parecia que namoravam...
Luffy resolveu se sentar ao lado de Usopp, que ainda não havia notado sua presença. — Usopp!
O narigudo deu um berro de susto e todos começaram a rir. Porém, o novato notou seu olhar alarmado.
— Luffy! Nós estamos fudidos!!! Só tem burro aqui!!!
— Você não está achando que logo "eu" serei o salvador de vocês, né?! — Retrucou com ênfase no "eu".
Ao ouvir isso, Usopp começou a coçar a cabeça desesperado. Infelizmente, naquele grupinho de amigos não havia ainda o responsável por ser o nerd.
Já era noite e eles descansavam a mente da sua forma. Sanji fumava na sacada de seu quarto, Zoro dormia na cama dele, Usopp mexia na internet pelo celular e Luffy pousava a cabeça em seu colo. O narigudo achava que ele estivesse dormindo, mas na verdade o chapéu de palha o observava pelos cantos de seus olhos negros. Luffy notou que Usopp diria algo e fechou esses olhos rapidamente.
— Já são 20:00 horas, tenho que ir pra casa senão minha mãe vai me deixar surdo!! — Balançava seu amigo no seu colo, achava que estivesse dormindo.
Os dois se levantaram e Sanji notou que estavam se arrumando para partir, abriu a sacada para falar algo com Usopp.
— E como tá indo seu quadrinho?
— Ah! — Coçou a nuca, envergonhado. — Eu tive que mudar um monte de coisa!!
— Sério? O quê por exemplo? — Assoprou a fumaça do tabaco para cima.
— Antes eu me inspirava muito no livro do Dom Quixote, agora me inspiro em outra pessoa.
— E quem seria?
— O Luffy! — Usopp exclamou contente.
— Em mim? — Luffy piscava os olhos, enquanto apontava um dedo para si.
— Sim, Luffy, ele até mesmo usa um chapéu de palha, não é legal?
— Simmmm. — Os olhos do novato brilhavam, já Sanji pensou se Usopp não estava chamando Luffy de doido indiretamente, já que Dom Quinxote era um lunático.
Os dois rapazes se despediram do casal e depois de Zeff quando desceram as escadas. No entanto, assim que chegaram na garagem, Usopp tateou seus bolsos e não sentiu seu celular, depois procurou na mochila e não encontrou.
— Que merda, esqueci meu celular...
Como Luffy estava mais próximo da porta que levava para o interior da casa, disse ao amigo que buscaria para ele. Subiu as escadas e notou que a porta do quarto de Sanji estava meio aberta. Abriu um pouco mais para poder entrar e viu que não havia ninguém mesmo a luz estando acesa, mas achou o celular de Usopp sobre a mesa de estudos e pegou para partir.
De repente, ouviu um barulho na sacada e resolveu puxar para o lado uma cortina a fim de ver se havia alguém lá fora para dizer mais um tchau, mas sentiu um buraco na barriga quando encontrou Sanji e Zoro se beijando.
Luffy sabia que os dois namoravam, mas nunca os havia visto se beijando. Algo estranho tomou seu corpo, sua boca amargou e parecia que teria uma dor de barriga. Por instinto, saiu correndo e se encontrou com Usopp lá fora, ele já havia tirado as bicicletas da garagem.
— Que foi, Luffy? Parece que viu uma assombração.
Luffy respirava fundo e não conseguia raciocinar direito, mas pegou sua bicicleta de Usopp e começou a pedalar sem nem ao menos lhe entregar o celular. O outro estava achando tudo muito estranho e resolveu dormir na casa dele.
Foi difícil convencer sua mãe, mas conseguiu quando Sabo tomou o telefone, falando de forma tão educada e polida com a mulher, que ela sentiu que seu filho estava em boas mãos.
Durante a noite, o corpo de Luffy desabrochara e ele sentia coisas novas. Sem pensar muito em qual desculpa daria, se meteu no futon de Usopp, que estava ao lado de sua cama, e envolveu seus braços no seu torso moreno. Seu amigo dormia no frio sem camisa que nem ele, mas sua pele era quente.
— Luffy?
— Estou com frio.
Usopp girou o corpo e ficou cara a cara com ele, sentiu sua respiração descompassada mais a sua pele gelada e suada. Luffy tremia.
— Estou com medo. — Confessou o chapéu de palha. Usopp enlaçou suas mãos nas dele e se aproximou.
— Não precisa ter medo.
Por fim, o beijou... várias vezes e até mesmo se tocaram...
A sensação que Luffy tivera era quase a mesma de quando chorou com Usopp naquela tarde no terraço da escola. Naquele momento parecia que não havia máscaras, nem sorrisos falsos, uma felicidade fingida, mortes, arrependimentos, autocobranças de ser uma pessoa melhor... Nada. Havia apenas ele, da forma mais genuína, como se tivesse acabado de sair do útero de sua mãe. Tão puro e frágil com várias sensações e desafios para experimentar e enfrentar.
Luffy estava apaixonado e era isso que o fazia se comportar tão estranhamente desde que conheceu Usopp.
Fale com o autor