Sunset

1 único


Nas férias de verão daquele ano, minha mãe pediu para que eu passasse com o meu pai a fim de conhecê-lo melhor. Ele morava no litoral e assim também conheceria o mar pela primeira vez.

Lembro-me que no início foi bastante legal, eu comi lagosta e nós fizemos mergulho para vermos o quão coloridos os peixes eram.

Com o passar dos dias, meu pai se distanciou e era comum ele voltar pra casa bêbado e terminar num sono profundo ainda no sofá. Não tinha forças nem de chegar até seu quarto.

Minha mãe ficou sabendo através de um telefonema em que ele atendeu bêbado. Ela depois ligou para mim e me pediu desculpas por ter acreditado que ele havia mudado, disse que logo providenciaria minha passagem de volta. Também disse para que eu avisasse se algo acontecesse, que não era pra esconder dela só por ser meu pai.

Mas, na verdade, não me importava se meu pai fosse um alcoólatra ou não, se eu finalmente teria o amor dele ou não com essa viagem maluca. O único motivo em que eu não avisei nada a minha mãe era que minhas férias não estavam sendo de todo ruim.

Eu conheci uma garota mais velha do que eu e, assim como era a primeira vez que via o mar ou comia lagosta, ela se tornou meu primeiro amor.

Tinha cabelos loiros de tanto surfar na água, piercings na orelha e um anel de coco no dedo. Seus seios eram maiores que os meus, suas curvas eram mais definidas; ela nunca se interessaria por mim, óbvio.

Contudo, ela notou que eu estava sempre sozinha e me chamava para andar com sua turma. Quase todo momento, ela esteve com os cabelos pingando e de pés descalços, abraçando sua prancha de surf.

Uma vez disse pra mim que achava o meu pai uma boa pessoa e pediu para eu não desistir dele. Eu obviamente não iria desistir, porque faria de tudo pra poder revê-la no próximo ano.

E quando estava prestes a partir, se lembrou de que eu gostava de um colar dela e foi atrás de um igual. Ela enlaçou o colar com um cristal de pingente idêntico no meu pescoço.

"Simboliza nossa amizade."

Disse sorrindo com aquele sorriso descontraído que ela tinha, talvez por já ter visto o sol se pôr e nascer mais do que eu já havia vivido em idade. E me beijou, um beijo singelo.

Eu sairia de lá muito confusa, porque nunca havia sentido algo assim por um garoto. Contudo, minha mãe e meu pai voltariam a não se falarem e, por conseguinte, não poderia vê-la no outro ano e nem nos próximos. Só me restaria carregar aquilo como uma lembrança de quando estava me entendendo como gente.

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