Sunday

3 Capítulo 3


A segunda vez que se viram foi no final de semana seguinte. A semana em si, foi torturante, as aulas monótonas, os amigos de sempre, as tardes tediosas, mas finalmente sábado combinaram de se encontrar.

O contraste entre as roupas puídas de Anne e seu rosto angelical a tornava simplesmente fabulosa. Seus cabelos anelados se derramavam sobre o casaco cinza, posto por cima de uma blusa verde-escura estampada e uma calça jeans meio rasgada.

Eram só as duas naquele primeiro momento depois que a mãe de Anne as deixou em frente ao shopping, pois elas se encontrariam depois com os amigos. Enquanto isso, andavam a esmo pelos largos corredores bem iluminados, parando aqui e ali para falar das roupas feias e bonitas que viam.

No último andar havia o cinema, e perto da entrada havia um pequeno corredor usado pelos funcionários. Anne disse que era ali que sempre se sentava com seus amigos, um lugar mais isolado do shopping onde podiam conversar em paz. Mas quase sempre eram expulsos de lá por algum segurança chato.

Agora se sentavam as duas, lado a lado nas sombras espessas, sob o chão de granizo do shopping. Permaneceram em silêncio por longos minutos, até que, corando de nervosismo, Katheen estendeu sua mão até chegar na coxa de Anne onde repousava a mão dela.

Os dedos se entrelaçaram. Era tão bom sentir a pele macia e o toque delicado uma da outra. Kathleen engoliu em seco enquanto debatia internamente se devia ou não fazer o que queria. Seria uma pena interromper bruscamente aquele momento tão bom. Mas devia ao menos tentar, ela preferível isso a ficar ali imaginando as diversas possibilidades e nada fazer.

Fazer o que, aliás? Beijá-la. Era o que ela mais queria, tocar nos lábios quentes de Anne, sentir seu gosto, enlaçá-la pela cintura. E o por que era obvio: estava apaixonada por ela. Apaixonara-se em um dia, veja que estranho. E durante toda a semana não pensara em outra coisa senão na sua imagem, relembrando extensamente cada palavra, cada sorriso, cada toque casual.

Agora seu coração martelava desesperadamente contra suas costelas.

–– Anne.. – começou, mas nada disse. Não era preciso falar, não seria capaz de falar. Apenas uma ação poderia transmitir-lhe aquela intensidade que guardava dentro de si.

Quando a menina virou o rosto, Kathleen olhou-a o mais fundo que pode nos olhos. E em seguida, tal como se pretendesse mergulhar nos extensos olhos negros dela, inclinou a cabeça levemente e tocou seus lábios.

Foi mais extraordinário do que Kathleen poderia imaginar em seus mais exuberantes sonhos. Suas bocas se moviam num ritmo tal como se todo mundo dependesse da harmonia que gravitava entre elas.

Ambas souberam exatamente o momento em que deveriam para, se separar e se encarar. Mas não havia nenhuma negação nos olhos de Anne pelo que ela podia identificar. Transmitiam apenas ternura, aceitação, assim como ela. Lentamente, Anne se curvou para recostar-se no colo de Kathleen e assim permaneceram por alguns minutos até que o celular de Anne tocou.

Perto dos amigos dela (agora já amigos de ambas), ela agiu normalmente. Já Kathleen, se mostrava ligeiramente desligada, sorrindo para o nada. Mas foi bruscamente arrancada de seus devaneios ao ouvir um pedaço da conversa de Helen e Anne:

–– Você sabe que vou sentir muita falta de você, não é? – perguntava ela enquanto se abraçava a Anne.

–– Sei sim, mas olhe, vamos continuar nos vendo de vez em quando e conversando e tal... – então ela notou o olhar de Kathleen e desviou o assunto. Parecia estar tentando evitar algo – Acho que estou com fome, vamos comer?

–– Como assim vai sentir falta? – perguntou Kathleen, vacilante

Foi um momento de tensão tangível.

–– A Anne vai para a Inglaterra, ela não te contou? – perguntou Helen, que nada notara de estranho.

–– Vai para a Inglaterra? – repetiu Kathleen lentamente, como se tentasse colocar as palavras de modo que não parecessem como facas sendo lançadas nela, o alvo.

–– Vou morar lá por alguns anos. Parto na segunda-feira. – Anne parecia finalmente ter destravado seus maxilares e agora falava para o chão.

Kathleen arfou. Não. Era a única palavra que sua mente conseguia estruturar. Não.

O tempo passo rápido. Horas depois – não, não podia ser, haviam passado-se apenas minutos! – ela estava saindo do carro da mãe de Anne, estacionado em frente à sua casa. Kathleen deu um fugaz beijo na bochecha de Anne, seu corpo todo tremendo levemente com o saber que aquela seria a última vez que a veria, provavelmente.

Ficou como um espantalho, pregada no chão na rua silenciosa enquanto via o carro desaparecer na esquina. Uma pequena umidade se propagava pelos seus olhos. Mas não, não ia chorar. Essas coisas acontecem, pensou.

Passou muitas e muitas noites pensando nelas. Não foram poucas as manhãs em que ela acordou lembrando-se do seu nome. Parecia que para todos os lugares que olhava, via um pouco de Anne. Todos os sorrisos se tornavam sem graça.

Mas o tempo é rei, o tempo tudo cura. Em alguns meses, Anne era passado. Passado apenas enterrado, não morto.

Kathleen chegara finalmente aos 22 anos. Anos tortuosos e incertos haviam se passado, mas agora se considerava feliz. Mais feliz do que a média das pessoas. Tinha uma mulher. Tinha uma casa. Teria em breve uma filha. Tinha tudo, porém no fundo não tinha nada. Faltava algo, ela sabia, mas deixava essa incerteza pinicante bem no fundo da mente.

Andava agora pelas ruas da Inglaterra, procurando algum cafezinho em que pudesse se sentar e ler algumas das revistas sobre design que comprara, uma merecida pausa do trabalho que a levara até Londres.

Carregava com dificuldade o monte de revistas, e quando seu celular tocou, atrapalhou-se toda. Foi para encostar-se em algum lugar para poder se arrumar que, distraída, trombou com uma mulher alta de cabelos castanhos. E olhos... olhos muito familiares. As revistas se derramaram no chão, Kathleen nada pode fazer. No estado em que se encontrava, seria difícil falar qualquer coisa que não o grito:

–– Anne! – e correram para se abraçar.

FIM

Notas finais
Pois é. Acabou no terceito capítulo. Apesar de eu ter algumas boas idéias para continuação.
Espero que tenha agradado a alguém.
No mais, obrigada a todos que leram *-*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.