Sun Flakes

1 Believe in the Sun


Notas iniciais
Olá, sejam bem-vindos!
Espero que gostem, é minha primeira história na categoria.

“Você para de acreditar no Sol quando ele está coberto pelas nuvens?”

“Não.”



O reino do Sol costumava ser conhecido pelas luzes encantadoras que se estendiam por toda a região. Cada Guardião tinha seu reino, e o reino do Sol vinha a ser um dos mais importantes, anteriormente. Desde que a Lua havia surgido, o Sol surgira em seguida. Mas ambos viveram sem alguém que fosse digno de cuidar das forças. Tempos depois, quando os humanos começaram a habitar a Terra, a Lua havia se decidido e finalmente concebeu seu Guardião, homem cujo o nome ainda era anônimo e havia se tornado a voz da razão desde então. O Sol, com mais demora, ainda estava na esperança de descobrir quem viria a ser o tão esperado guardador da terra; mas então veio, uma garota, a certa garota que se lembrava de todo o passado menos de sua morte.

Seu nome era Migin Flare, uma garota bela, de aparência — anterior — muito atrativa. Seus cabelos eram quase dourados e caíam pelas costas magras, descendo acima das coxas, não ultrapassando este limite. Os olhos eram castanhos-avermelhados e ela possuía lábios rosados. O que fazia jus ao nome era sua principal característica, a qual todos conheciam: sua falta de paciência.

Na manhã em que a jovem acordou nas águas esverdeadas de uma das praias europeias, sua aparência já não era mais a mesma. Seus cabelos dourados foram trocados para um forte tom de laranja, como as flamas na área mais resfriada do fogo. Seus olhos adquiriram a coloração do sangue e seus lábios não possuíam a pintura rosada, e sim, uma neutra. Como se estivesse anêmica, doente. A mudança que ela pôde sentir mais clara, não fora a física, mas a psicológica. Migin sentira-se mais forte, porém, perdida. Apesar de tudo, se sentia intensa.

Ela não conseguia lembrar-se da morte, mas lembrava-se de toda a sua vida. De sua infância correndo pelos jardins designados pelos novos artistas do palácio, de sua mãe lhe dando as mais rígidas ordens com zero tom de cuidado na voz, seu pai decidindo como ela deveria agir perante ao público, suas criadas lhe ajudando o tempo todo e suas irmãs lutando pela coroa da herdeira. Outra coisa que Migin se lembrava, era que ela havia falecido aos dezessete anos de idade.

De alguma maneira, na mesma manhã da praia europeia, ela havia acordado em vestes brancas. O vestido era longo e possuía um corte que mostrava toda a região do colo, cobrindo o peito com rendas suaves que caíam sobre a pele quase albina. Ela se lembrava do espartilho que usara, mas não sentia mais os puxões para alcançar a cintura fina. Na verdade, ela não sentia mais dores. As mangas brancas desciam pelo cotovelo para, enfim, abrirem-se e deixar o antebraço livre. Os longos cabelos, agora alaranjados, estavam presos somente na parte de cima, com duas tranças se ligando na traseira da cabeça. Dois pequenos hibiscos presos às mechas

E, ao acordar perdida, a primeira vista que teve do mundo fora a da Lua, que parecia estar ali para avisá-la de algo. E foi o que ocorreu. Só assim ela recebera de volta as memórias de sua vida e lembrara seu nome. Ao seu lado, uma pequena flor que parecia ter acabado de brotar. Quando seus dedos esguios tocaram as pétalas, pequenos raios de sol brilharam em toda a planta, e os cabelos da garota esvoaçaram. Naquele instante, ela havia descoberto que, toda flor que ela segurasse, continha uma magia diferente. Algo lhe dizia que as flores tinham coincidências com os motivos da jovem ter se tornado uma Guardiã. Talvez fosse apenas o Homem da Lua lhe dando mais um sinal.

Ah, e o Homem da Lua? Migin não o escutava. Ignorava todas as suas tentativas de ajuda e qualquer contato. Ela apenas não aceitava o fato dele possuir toda a razão, enquanto ela era taxada como invisível. A Lua e o Sol eram os dois astros mais importantes, mas parecia que o Homem da Lua recebia todo o crédito enquanto Migin se camuflava no nada.

Com seus poderes descobertos e a importância não dada, a garota recebeu seu reino. Um local fechado entre montanhas, possuindo as mais fortes colunas douradas que ela já havia visto. O castelo teria, no mínimo, seis andares. E mais as altas torres. Não possuía um portão, até porque nunca recebia visitas. E mesmo que fosse para receber, ela teria de chama-los, pois ninguém era bem-vindo no reino sem sua permissão. Mas Migin também não era muito amistosa e possuía poucos contatos. No grande hall de entrada, um globo vermelho por inteiro. Em outros reinos era possível notar que os diversos globos possuíam inúmeros pontos amarelos espalhados pelos continentes. Aqueles pequenos pontos indicavam as crianças que possuíam crenças no suposto guardião. No caso do reino do Sol, o globo não possuía um ponto sequer.

E era duvidável se haveria algum dia.

Vá ao Polo Norte, soou a voz em sua cabeça.

Migin estava em seu glorioso momento matinal sentada em frente aos grandes vasos que rodeavam o hall. O globo vermelho girava ao centro, fazendo poucos ruídos em meio ao silêncio. Seus dedos estavam enlaçados às pétalas dos girassóis altos enquanto pequenos raios de sol se depositavam sob a terra, vindos de suas mãos esguias.

O Homem da Lua nunca a chamava, ou a qualquer outro Guardião, mas era a suposta voz da razão, então haveria algum motivo concreto para a surpresa. Migin continuou a energizar suas flores enquanto franzia o cenho, tomando cuidado para não jorrar luminosidade demais. Seus olhos flamejantes encararam o céu de imediato, analisando a lua que brilhava intensamente acima do teto de vidro.

— Por que deveria? — Perguntou a garota, emburrando-se enquanto cruzava os braços acima do peito.

Desistiu de olhar para a lua quando se passaram minutos sem resposta alguma. O Homem da Lua era assim: ditava ordens e sumia. A garota procurou não se estressar, pois era aí que seu corpo se iluminava e esgotavam suas energias por culpa da irritação. E ela não gostaria de causar este tipo de problema que sempre trazia destroços.

— Muito obrigada pela resposta, voz da razão — disse a jovem para o nada, quase em um murmuro.

Seus pés descalços a guiaram até o globo, onde checava todo dia e encontrava sempre a mesma resposta. Nenhum ponto amarelo surgira naquele dia. Naquele e nos outros milhares de anos em que esteve acompanhando a evolução humana. Todas estas mudanças e nenhuma crença em sua existência.

Migin já havia ouvido sobre os outros Guardiões. Ela sabia da existência do Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Fada do Dente, entre outros. Também já ouvira falar dos Guardiões que tiveram seus reinos perdidos por já não existirem mais entre os humanos. Estes eram o Gato da Sorte, Chupa Cabra, Lã Munhequita e outros vários que nunca mais foram vistos. Migin apenas possuía seu reino por ter sido a segunda Guardiã a surgir no mundo. Ela mal sabia se o Homem da Lua também tinha seu palacete na imensidão além da própria lua.

Mas para que ir ao Polo Norte? Gelo e fogo não combinam, isto é fato. Por mais que a garota odiasse ouvir qualquer palavra do Homem da Lua, ela tinha de cumprir com as ordens, pois, mesmo que não assumisse, ela sabia que ele estava certo. De alguma bizarra maneira.

A garota olhou para o horizonte e notou as nuvens cobrindo as montanhas que cercavam seu castelo. O mais interessante da área toda, era que o reino era uma parte do espaço sideral, como um planeta, mas não exatamente um. Então o curioso das nuvens invadirem o local, era que não eram nuvens comuns, mas eram do Claude, o Guardião.

Praticamente todos os antigos guardiões que conheciam Migin gostavam de provoca-la, sabendo de seu temperamento. Outros guardiões sequer a conheciam (o que lhe era um prazer, já que tinha em mente que eles fariam o mesmo). Claude era um de seus piores inimigos, vivia colocando nuvens em sua visão. Mas Migin havia parado de se incomodar de uns tempos para cá, pois ela sabia que Claude era como ela: invisível. A única diferença era que ele faria de tudo pela devida atenção. E o outro fato que a fazia aturá-lo era porque ele era uma de suas únicas companhias, além de suas flores.

Uma nuvem se dissipou em sua face, fazendo seus olhos se fecharem de imediato. Em sua mente, cedeu para que o garoto adentrasse o reino. Assim que os abriu, encontrou a imagem de uma criança encostada à uma das colunas douradas. Suas vestes brancas fazendo contraste à luz solar que rodeava o reino. Claude era o Guardião mais novo que Migin já havia visto, e imaginava que fosse o único também.

— O que te devo nesta tão ilustre visita? — Perguntou a garota ao cruzar seus braços.

— Não vim por brigas desta vez — disse o garoto ao caminhar de um lado para o outro. — Aliás, algo muito curioso aconteceu, e queria saber se ocorreu a ti também.

— E foi…?

— O Homem da Lua me disse para ir ao Polo Norte — disse ao fixar os olhos cinzentos na direção dela. — Isso foi agora há pouco.

Migin já não se sentia mais tão confiante em si mesma. Ela já estava preocupada pelo Homem da Lua ter lhe dirigido a palavra, mas agora que sabia que não fora a única, aquilo se tornava de pior nível.

— Você vai? — Prosseguiu o garoto.

— Isso não é da sua conta, Claude — respondeu rígida e voltou seu olhar para o globo.

— Eu sei que não confia em mim, Migin, mas se o Homem da Lua disse, é importante…

— Ele nem sempre é a voz da razão! — Retrucou a garota. — Por que devo escutá-lo?

Um silêncio prolongado se estabeleceu no local enquanto Claude brincava com as mechas pretas do cabelo. Seu lábio estava preso entre os dentes, como se estivesse concentrado.

— Alguma vez ele esteve errado? — Perguntou por fim.

Migin não respondeu, mas em seguida, apenas se concentrou na própria mente e expulsou Claude de seu reino.

Não vou me estressar, não vou me estressar, pensou.

Mais uma vez, olhou para o céu e notou a Lua ainda pairando no teto de vidro. Respirou fundo, fechou os olhos e se concentrou no Polo Norte.


Foi só quando sentiu a friagem bater contra seu rosto e evaporar que teve certeza de que havia chegado. Abriu seus olhos e encontrou-se na neve, derretendo o amontoado ao seu redor. Parou durante um tempo para entender o que estava ocorrendo quando ouviu músicas natalinas e conversas altas de longe.

A garota começou a andar em direção a ponte, caminhando logo para o castelo. Quanto mais perto chegava, mais altas ficavam as conversas. Ainda se aproximando, olhou para cima e nenhum sinal da Lua por perto. Mas ela sentia que estava fazendo o certo, mesmo em meio à bagunça que era sua mente naquele momento.

Migin encontrou os portões abertos e adentrou o castelo, agora já livre da neve que se derretia ao seu redor. Dois seres estranhos — que mais pareciam Yetis — estavam recepcionando, e ao abrirem a boca, falaram algo em sua língua, que infelizmente, Migin não entendia. A garota parou para dar uma olhada no Polo Norte. A última vez em que esteve lá já fazia, literalmente, séculos. Papai Noel e ela não tinham muita intimidade, tanto que ela não o chamava pelo apelido Norte, mas já haviam se conhecido antes em reuniões dos Guardiões mais antigos. Fora ele, Migin não conhecia ninguém por ali. Apenas por seus nomes, mas não por intimidade.

E a casa estava totalmente lotada. Vários dos Yetis andavam por ali servindo comes e bebes, mas que Migin não se sentia na vontade de prova-los ainda. Ela queria saber o propósito de ser enviada ali, pois aquele local estava em festa, e ela nunca fora convidada para festas. Pensou ter visto o Coelhinho da Páscoa, mas ele já havia caminhado para fora de sua visão quando pensou em pedir qualquer informação.

Migin já estava caminhando há um bom tempo enquanto tocava uma música bem natalina em seus ouvidos repetidamente. Faltava pouco para sua paciência se esgotar e ela sair dali sem qualquer resposta para os motivos do Homem da Lua. Sentou-se em um dos sofás e resolveu pegar uma taça com leite que estava sendo servido. Quando foi colocar a bebida em sua boca, não sentira qualquer líquido em seus lábios. Afastou a taça e analisou o conteúdo, vendo que estava completamente congelado.

Franzindo o cenho, posicionou os dedos acima da superfície congelada e derreteu o leite, preparando-se para bebê-lo de uma vez. Mas, novamente, estava congelado. A garota analisou o local, tentando ver se isso estava ocorrendo com mais alguém, e notou que era apenas com ela. O clima não estava tão frio para congelar sua bebida.

Quando tocou novamente sob a superfície, derreteu o leite e segurou firmemente a taça, olhando ao seu redor. Ainda estava descongelado, então resolveu colocar em sua boca de uma vez. Quando o líquido entrou em contato com seus lábios, ela sentiu o frio beijar seu rosto e notou que, quem quer que fosse que estava brincando com ela, havia feito seus lábios congelarem. A garota posicionou a mão inteira acima da taça e derreteu todo o leite, incluindo o próprio vidro.

— Wow, nunca vi ninguém fazer isso antes — soou uma voz atrás de si, um tanto risonha.

Migin virou-se e encontrou um garoto de moletom azul com resquícios de gelo localizados sobre o tecido. Seus cabelos eram brancos como a neve e ele tinha fortes e brilhantes olhos azuis. Seus lábios eram roxos, como se estivesse passando frio, e a pele, pálida demais. Segurava um bastão de madeira também de superfície congelada e tinha um sorriso malicioso no rosto.

— Quem é você? — Perguntou Migin ao cruzar os braços. — Você que estava congelando minha bebida?

— Quem é você? — Ele retrucou. — Eu que deveria saber sua identidade primeiro, já que está em minha festa e eu não te conheço.

— Esta é sua festa?

— … Sim. — Ele arqueou uma das sobrancelhas. — Quem é você?

— Migin Flare! — Uma voz rouca soou logo atrás dela e a jovem se virou de imediato. — Vejo que já conheceu nosso mais novo Guardião.

A palavra havia soado como um soco repentino. Guardião. Migin não havia se imaginado muito na situação de sentir inveja de qualquer um que fizesse parte deste grupo, mas agora que estava na festa de um novo selecionado, já não conseguia se sentir confortável com o peso que pendia em suas costas. Por que ela nunca fora chamada para ser Guardiã? Por que o Homem da Lua fazia este tipo de coisa? Sua morte não fora tão impactante à ponto de torna-la uma Guardiã oficial?

Seus olhos flamejantes se fixaram aos frios do garoto à sua frente. Ele segurava no centro de seu bastão congelado enquanto suas pernas estavam cruzadas. Seu sorriso pairava sob o rosto enquanto uma das sobrancelhas estava arqueada de modo desafiador.

— Este rapaz é Jack Frost — Norte tocou as costas do moletom congelado do mais jovem. — Derrotamos o Bicho Papão com sua ajuda. Por isso a comemoração!

Bicho Papão era outra personagem que Migin não se lembrava tão bem. Ela nunca participou de lutas contra ele pois quem recrutava para este tipo de batalha era o Homem da Lua. Mais um dos motivos para Migin imaginar que ele não gostava dela. Mas a garota também se lembrava de que o Bicho Papão surgira quase na mesma época que ela, apenas um pouco antes, pois sua primeira luta fora com o Homem da Lua. Luz contra escuridão, e a Luz vencera, como sempre seria.

— Mas o Bicho Papão já não fora derrotado? — Perguntou a garota e notou que Jack parecia confuso com o assunto.

— Sim, mas ele voltara com tropas e tudo mais. Chegou a quase nos deixar sem a esperança que transmitimos — disse Noel com um tom de tristeza na voz. — Mas, graças ao Jack, conseguimos fazer com que várias crianças voltassem a acreditar em nossa existência. Agora está tudo perfeito!

Então eles puderam sentir um pouco de minha dor. Mesmo que por um curto período de tempo, pensou Migin.

— Como você não soube sobre a Batalha? — Perguntou Jack ao se aproximar um tanto. — É o assunto mais falado ultimamente entre os diversos mundos.

Norte adquiriu em sua face uma expressão de desconforto. Migin mordeu o lábio inferior e olhou para o lado, tentando não se irritar com aquela pergunta.

— Migin não é uma das nossas mais ativas — disse Norte. — Mas é muito sábia.

— Hm… eu acho? — A garota questionou mais a si mesma do que aos dois. — O isolamento não me permite vivenciar muitas experiências.

Jack estava com o rosto inclinado, como se tentasse entender a situação que ali se passava. Norte já estava mais rígido com o comentário. A garota já não ligava para o que estava ocorrendo, até mesmo porque não queria causar mais intrigas.

— Então você é uma das antigas? — Perguntou o garoto, passando as mãos sobre os cabelos brancos como neve.

— Cheguei logo após o Bicho Papão — respondeu a menina ao abraçar seu próprio corpo. Seus braços atravessando a seda clara de seu vestido.

— Como nunca ouvi falar de ti? — Mais uma pergunta vinda do garoto.

Migin afastou-se e segurou seus braços, um tanto magoada perante a situação.

— Jack, melhor irmos cumprimentar os outros convidados — Norte sorriu de canto, tentando amenizar a situação. — Venha, vamos deixar Migin em paz.

O garoto deu de ombros como se não precisasse daquela resposta e saiu caminhando junto do maior. Migin ali ficou, plantada no chão e observando o local ao seu redor. Ela não tinha contatos com os outros além de Claude, então era estranho comentar qualquer coisa relacionada à sua vida. Até porque de sua vida ela não sabia muito. Apenas do que veio após, e que ela não gostava nada.

Sentia-se infiel ao passado, como se ele fosse afastado dela para que suas dúvidas permanecessem eternamente. O Homem da Lua nunca lhe dera respostas, e ela também não conseguiria imaginar qualquer uma que fosse precisa. Só pensava que estaria aguardando o momento em que tudo fosse revelado. Mas a situação com Jack Frost lhe fora a gota d’água. Alguém mais novo que ela e já sabia de tudo que lhe fora separado durante a origem. Estavam celebrando uma vitória de algo que ela nunca ouvira falar antes! Por que não a chamaram para a batalha? Seria Migin fraca demais para o posto?

E o pior daquela celebração fora ouvir da boca de Norte que ele quase fora apagado. Mas ressurgiu em seguida, assim como os outros Guardiões mais conhecidos pelas crianças. Eles nunca saberiam o que era ser ofuscado de verdade. Não enquanto houvesse a voz da razão. Não enquanto houvesse o Homem da Lua, o poder que a fazia parecer um mero floco de neve em uma avalanche. Aquele que fazia com que ela sumisse do mundo, de qualquer um dos mundos.

— Perdão… Ai! — Disse alguém ao esbarrar nas costas da jovem.

Migin virou-se e encontrou uma jovem vestida em trajes coloridas e metálicas, como se fossem pequenas penas espalhadas pelo corpo. Seu sorriso era encantador, como se o conjunto de dentes fosse o ideal, separado especialmente para ela. Mas quando Migin mirou seus olhos, encontrou espanto, medo, tensão. A garota e a Fada dos Dentes nunca foram muito próximas, mas a outra parecia condená-la apenas pela expressão.

— M-Migin! — Disse ao tentar sorrir, mas sem afastar a expressão de susto. — O que te trouxe aqui?

— Meu portal — respondeu a jovem e seguiu encarando o rosto da outra.

— E-eu… preciso ir. Nos vemos por aí! — Disse ela e saiu voando na direção oposta.

O que me trouxe aqui, afinal, Migin olhou para cima, questionando o Homem da Lua. Você esperava minha humilhação?

Era o que ela imaginava estar tendo: apenas o desprazer de ter todos ao seu redor encarando-a com desdém e arrogância refletindo em suas auras. Migin resolveu que seria melhor se ela fosse se isolar em algum canto, assim não teria de lidar com tantos olhares.

A garota passou pelas colunas do castelo e encontrou um banco repleto de neve, e sentou-se ali, derretendo cada pequeno floco. Assim que a neve havia passado para o estado líquido, a grama apareceu no lugar e Migin sorriu, posicionando sua mão, levemente, sobre o solo. Três flores de fogo brotaram, brilhando radiantes.

— Por que não está lá dentro? — Questionou uma voz e a garota ergueu seus olhos brilhantes, avistando Claude à sua frente.

— Por que você não está?

— Não me senti confortável — admitiu e passou os pés sobre a neve, fazendo rodopios com a ponta.

— Mesmo motivo — a garota abriu um curto sorriso para confortá-lo, mas não sucedeu.

Claude aproximou-se dela e sentou-se no lado congelado do banco, puxando seus joelhos para o peito. Migin não suportava o garoto, mas também não suportava vê-lo naquele estado, tão deplorável.

— Quer saber? Vou buscar biscoitos para nós — sorriu e notou que os olhinhos do pequeno brilharam.

Migin colocou-se de pé, caminhando para dentro do aposento de Norte. Assim que passou pelas colunas, encontrou a multidão interagindo entre si com taças de leite em mãos. Passando pelas pessoas, aproximou-se da mesa dos aperitivos e encontrou pequenos biscoitos de gengibre em formatos variados, e pegou os que pareciam flocos de neve.

Antes que pudesse voltar para fora, uma gritaria surgiu próxima, e logo, todos estavam rodeando o centro da sala. Migin avistou Claude correr para perto e colocou dois biscoitos em suas mãos, ignorando o que se passava ao redor. Mas o garoto não pareceu seguir seus passos.

— Vamos para fora, aqui está lotado de gente — a garota sugeriu e ele seguiu parado, olhos fixos na multidão. — O que houve?

— Migin, você não deveria estar aqui — afirmou o garoto, dando um passo para trás. — Você deve ir embora!

Confusa, a garota ajeitou as mangas de seu vestido e franziu o cenho.

— Claude, o que houve?

Incomodado, o garoto suspirou duas vezes antes de fazer contato visual com a jovem.

— Houve um roubo — comentou. — Roubaram os globos de neve do Norte.

— E por que eu não deveria estar aqui? — Questionou-o e avistou o garoto levantar a mão, indicando o centro da sala.

Migin estreitou os olhos e sentiu sua respiração falhar ao ver o motivo. Acima do globo central, encontrou uma figura faiscante. Sua cabeça passou a doer e ela percebeu que era uma de suas flores.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Até mais.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.