Summertime
1 Capítulo 1
Notas iniciais
TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM.
- Ah, mas que merda, mas que merda!
Camilla procurou na mesinha ao lado da cama o maldito despertador que estava tocando muito, mas muito alto. Ao alcançar o aparelho, arremessou-o na maior distância que conseguiu, mas ele não parou de tocar.
- Puta que pariu!
Ela xingou novamente e saiu andando no escuro para mais um golpe naquele aparelhinho dos infernos. Respirou fundo e apertou o botão desligar. Dez horas da manhã, em pleno domingo, e ela de pé com um humor péssimo. Sua cabeça doía — certamente pela quantidade de vodkas e tequilas que havia consumido na noite anterior. Ou talvez por um certo outro motivo. Motivo esse que ela não gostava de lembrar, mas que parecia perseguir seus pensamentos de qualquer maneira.
“Não Camilla, não. Você não quer pensar nisso. Você não vai pensar nisso. A festa foi ótima, não foi? Foi, claro que foi. Não teve nada demais. Você só bebeu até cair, mas isso não é novidade. Isso! NENHUMA NOVIDADE.”
Ela pensava alto e andava de um lado para o outro do quarto, quando resolveu descer para tomar café. Não conseguiria mais dormir, precisava de alguma espécie de distração e aquilo era urgente. Sua mãe a avistou assim que desceu as longas escadas da casa.
- Bom dia meu anjo! – Ela disse com um sorriso.
- Só se for pra você! – Camilla respondeu irritada. Pedro riu.
- Nossa, mas que mau humor filha! O que aconteceu?
- Desculpe, mãe. Nem aconteceu nada. – Camilla disse sentando-se ao lado do irmão na bancada da cozinha.
- Aconteceu sim que eu sei. – Ela disse mexendo nos cabelos da filha que estavam extremamente bagunçados.
- Já disse que não aconteceu nada, mãe. – Ela mentiu.
- Filha, pode se abrir com a mamãe, somos amigas, não é?
- Somos, somos... – Camilla rolou os olhos. – Mas eu não tenho nada pra...
- ELA É CORNA! – Pedro gritou quase cuspindo os sucrilhos que estava comendo e rindo muito alto.
Em um surto, Camilla se pendurou no pescoço do irmão, estapeando o garoto. Sra. Munhoz tentou separar os dois, mas ela não parava. E Pedro ria. Ria muito, ria alto, e Camilla só estava ficando mais irritada com aquilo tudo.
- VAI SE FU...
- CHEGA VOCÊS DOIS! Parem de brigar AGORA ou teremos conseqüências sérias aqui. – Sra. Munhoz mudou a expressão e Pedro reprimiu o riso. – Pedro Lucas, sobe AGORA.
- Mas mãe eu tô...
- AGORA!
- Ah, tudo bem. – Ele bufou e subiu as escadas comendo uma maçã.
- Agora vamos ao o que aconteceu, filha.
- Eu não quero falar sobre isso mãe, é sério. – Camilla olhou piedosa e a senhora sorriu.
- Está bem, a escolha é sua. Mas qualquer coisa...
- ... Qualquer coisa eu falo, mãe. – A garota sorriu sem mostrar os dentes. – Vou subir.
Camilla entrou em seu quarto e foi direto para o banheiro. Tomou um banho rápido para tentar acordar daquele dia que provavelmente era um pesadelo qualquer. Colocou um short curto e uma blusa de moletom grossa e estava preparada para telefonar para alguma das amigas. Foi quando um toque suave na porta do quarto fez com que ela virasse sua atenção pra lá.
- Camis, posso entrar? – Pedro perguntou com as mãos nos bolsos. Camilla afundou a cara no colchão ao ver o irmão ali.
- Já tá aqui mesmo. – Ela respondeu simplesmente, mas ele não se moveu.
- Desculpa. É que foi inevitável te zoar e...
- ... Tudo bem Pedro, relaxa.
- Mas é melhor assim, não é? Aquele tal de Brian é um merda, fala sério.
- Eu sei. – Ela disse em olhar pra ele, que já estava abaixado em frente a sua cama.
- Você não parece triste... – Pedro disse ao levantar o rosto da irmã com uma das mãos.
- E não estou. – Camilla sorriu breve e Pedro riu.
- Então porque todo o escândalo?
- Ah, por nada. Eu gosto de ser uma drama queen, você sabe.
Camis sorriu e Pedro a acompanhou. Apesar das brigas, os dois tinham uma amizade incomum para dois adolescentes tão diferentes. Do modo deles, conseguiam se entender perfeitamente.
- Além do mais... – Camis continuou – Esse fim de relacionamento doeu muito mais nele do que em mim. – Ela piscou e desatou a rir, sem que o irmão entendesse.
- O que você fez? – Pedro arregalou os olhos, interessado.
- Pensei que seu informante já tivesse te dito... – Ela torceu o nariz. – Ah, eu sumi com as roupas dele, larguei ele no quarto amarrado na cama e... bom, isso foi devidamente fotografado por metade do colégio. – Camilla gargalhou com a cara do irmão.
- Você é impossível, garota! Isso foi incrível! – Pedro riu alto, sendo interrompido pelo celular da irmã que tocava alto ao seu lado. – Argh, é a Joana. – Ele fez cara feia dando o telefone pra irmã, que riu. – Vou pro meu quarto.
- Ok chuchu, vai lá. – Ela sorriu vendo o irmão sair do quarto falando sozinho. – Fala Joanex meu amor!
Camilla desligou o telefone feliz ao ficar sabendo que sua reputação estava em alta. Okay, ela era a mais nova vítima de Brian Portman, mas quem tinha saído por baixo nessa, era ele. Todos os presentes da festa estavam rindo da cara e da situação em que o garoto se encontrou depois da vingança de Camis. Ela não era a coitadinha, era admirada. Isso fez com que aquele domingo ficasse um pouco melhor.
“Está vendo, bobinha. Você se saiu bem dessa, muito bem por sinal. Agora todos os garotos vão saber se comportar perto de você, ui. Isso é incrível, não é? Claro que é.”
- ... Mas isso não muda o fato de que você é CORNA. – Uma voz extremamente irritante surgiu no quarto e Camilla não precisou nem virar pra trás pra saber quem era.
- Já ouviu falar em bater na porta antes de entrar, Lanza? – Camilla bufou virando-se para ele, que riu.
- Estava aberta meu bem. – Ele debochou.
- Meu bem. Meu bem. Vaza daqui Lanza, anda logo.
- Sabe... – Pedro disse sem mover um centímetro – Você é corna, mas pelo menos fez alguma coisa que prestasse. Fiquei chocado quando o Thomas me disse, hoje de manhã. Quem diria, CamillaMunhoz me surpreendendo. Fez uma coisa boa na vida, deu uma lição naquele Portman filho da...
- Ele é um merda, mas é melhor que você, Lanza. – Camilla disse encostando na porta ao lado dele. – Agora, não me estressa lindinho, some daqui.
- E se eu não quiser? – Ele perguntou segurando o rosto dela com uma das mãos, sendo levemente empurrado para trás.
- Lanza, não brinca. Eu posso ser muito pior com você do que eu fui com o Brian.
- Ah é? – Ele disse entrando no quarto e sentando na cama da garota. – Pago pra ver.
- Vaza. – Camilla respondeu irritada e Pedro riu.
- Esse é o seu melhor? Caramba docinho, você não é péssima nisso! – Pedro disse olhando nos olhos de Camis, que fulminaram de raiva. Ela odiava esses apelidinhos melosos e ele sabia disso.
- Eu vou contar até três. – Ela olhou para o teto quando ele riu. – Um...
- Eu não vou sair.
- Dois...
- Agora eu estou com mais medo de você, hem?- Pedro gargalhou.
- Três, tchau.
- N-Ã-O.
Pedro soletrou a palavra e Camilla não se conteve. Pegou um porta jóias de porcelana que estava na bancada e tacou na direção de Lanza, acertando-o na testa. O garoto caiu para trás na cama e o porta jóias se quebrou em mil pedaços ao tocar o chão, fazendo um barulho muito alto contra o piso. Camilla arregalou os olhos quando percebeu o que fizera.
- PUTA QUE PARIU, VOCÊ É LOUCA? – Pedro gritou segurando a testa com uma das mãos e Camilla viu que escorria sangue da sua sobrancelha.
- A CULPA É SUA! – Ela gritou mais alto e meio desesperada, correndo em direção a ele.
- Tira a mão de mim, sua louca! – Pedro disse quando ela se aproximou.
- Eu nem encostei em você, seu ridículo! – Camis reclamou e Pedro entrou com Lucas no quarto.
- O que foi isso? – Henrique arregalou os olhos vendo a testa do amigo sangrar.
- A exterminadora de homens resolveu achar outra vítima. – Pedro debochou e Camilla fechou os pulsos, mas se conteve.
- Eu mandei você sair, Lanza. A culpa é TODA SUA. – Ela gritou.
- Minha? MINHA? Ah, que ótimo! – Pedro riu sarcástico. – Sua loucura não é culpa minha, Camilla.
- Dude, eu nunca vou entender vocês dois! Vem aqui Pedro, vamos descer! Acho que tem um kit de primeiros socorros na cozinha... – Pedro disse e Pedro levantou, seguindo-o.
- Louca... – Ele murmurou e Camilla rolou os olhos.
- Idiota. – Ela respondeu alto e ele não virou pra trás.
Então a porta se fechou num baque ensurdecedor. Lucas estava em pé ao lado da cama, com as mãos nos bolsos. Camilla se abaixou para pegar os pedaços maiores do porta jóias no chão.
- Não fale nada. – Ela disse e Lucas sorriu, ajudando-a.
- Eu não ia dizer nada. – Ele suspirou. – Mentira, eu ia. – Ele riu e ela também.
- Eu não fiz por mal, juro. – Camilla sentou-se encostada na cama e Henrique a acompanhou.
- Eu sei que não. – Ele sorriu.
- Mas eu nunca imaginei que minha mira estivesse assim tão boa... Ou que ele fosse idiota o suficiente pra ficar parado quando viu o negócio voando na direção dele. – Ela riu sozinha. – Você acha que eu sou louca, não é?
- Não. – Henrique riu. – Talvez um pouco.
- Muito, você quer dizer.
- Depende da situação.
- Ele me provocou. – Camilla bufou e Lucas riu alto.
- Vocês dois são muito idiotas.
- Eu nada, ele que é. – Camis fez bico e o garoto a abraçou de lado.
- Você parece uma garotinha de dez anos dizendo isso. – Ele riu. – Aliás, vocês dois ficaram presos naquela época, agem como se tivessem dez anos.
- Nós nunca nos demos bem, baby. E nunca vamos nos dar. – Camilla rolou os olhos.
Camilla conhecia Pedro e Lucas desde pequenos. Eles sempre estudaram no mesmo colégio, e sempre foram amigos de seu irmão. Desde aquela época, ela e Pedro sempre brigaram. Não no início, porque eram muito novos, mas foram necessários poucos meses para que começassem a se odiar. As coisas pioraram na adolescência, onde os eles assumiram posições bem diferentes no colégio. Ela, a queridinha, a garota popular que todos conheciam. Ele, o loser meio bad boy que faz um estilo totalmente diferente dos capitães de time, mas que tem sua fama. A amizade de Camilla e Lucas, por sua vez, sempre esteve intacta. Nenhum dos dois sabia explicar exatamente o porque, mas ainda eram amigos. Thomas chegara no colégio tempos depois, e se uniu ao quarteto que algumas das melhores amigas de Camilla não suportavam. E foi assim que a distância entre os dois que já era um fato, se concretizou, e desde então Pedro e Camilla não podem ficar juntos por muito tempo no mesmo ambiente sem que alguém saia moralmente ferido – ou pelo menos bastante irritado.
- Eu vou descer pra ver como ele está, ok? – Lucas disse levantando e Camilla apenas assentiu com a cabeça.
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