Summer of 82
1 Amigável Sr. Strike
A maioria dos monstros aí fora, sejam eles imaginários ou não, costumam ter companhia, vizinhos ou famílias. Ninguém pode saber de verdade o que acontece na casa dos outros, por trás de cortinas e portas trancadas. Em especial no subúrbio.
Por detrás dos sorrisos e feiras escolares, todos escondem segredos. No subúrbio também. As coisas são estranhas por aqui.
No ano de 1982, a cidade chamada de Santa Tereza, é bem pacífica. Todos deixam a maioria das portas destrancadas, cada um se conhece por nome e as bicicletas da Caloi estavam vendendo como água.
Na própria bicicleta vermelha, Henry começou a manhã de sábado entregando jornais.
Era um salário suficiente para arcar com saídas para o cinema e revistas novas. Embora seu nome completo seja Henrietta, até seus pais a chamavam de Henry.
O cabelo loiro estava desarrumado e graças ao calor das férias, estava de shorts com uma camisa regata. Andava pela Rua Cidreira parando de tempos em tempos para colocar o jornal dentro das caixas de correio. Ao passar pela casa de Danny, viu o irmão mais velho dela lhe lançar o dedo do meio.
Chegou à casa do Sr. Strike.
Ele morava sozinho, mas a casa sempre parecia bem-arrumada e ele tinha boas relações com todos os adultos – Henry não se sentia tão segura perto dele. Deixou o jornal cair. Abaixou-se para pegá-lo e viu a notícia principal da primeira página. “Garoto de quinze anos desaparece em cidade vizinha – buscas continuam”. Os desaparecimentos dos adolescentes começaram há três meses e já haviam sumido quatro jovens.
Henry balançou a cabeça.
Ao levantar, o Sr. Strike sorria parado na sua frente.
Ela deu alguns passos para trás. Ficou aliviada que ele não se aproximou mais, mesmo ele nunca tendo feito nada em especial. Enrolou o matinal, mudando o peso nas pernas.
“Uh, Sr. Strike. Seu jornal.”
“Obrigado, Henry. Agradeço!”
Ele examinou o jornal. Henry examinou o homem a sua frente. Era gorducho, cabelo preto e muito pálido embaixo daquele sol, mas a terra no seu rosto estava em evidência. Devia estar fazendo jardinagem. Sr. Strike ergueu os olhos, passou a mão na nuca.
“Olha, se não for pedir muito... preciso de ajuda com uma mesa. Quero levar ela lá para baixo. Pode me dar um apoio?” Ele perguntou.
O seu sorriso era amigável.
Por aquele momento, sentiu se culpada por ter pensado algo negativo dele. Olhou para a casa. A hesitação durou alguns segundos só. Henry assentiu. Deixou a bicicleta na frente do gramado e entrou atrás dele.
Era uma casa antiga, o papel de parede parecia ultrapassado e os móveis cheiravam a algo velho. Nunca havia retratos na casa dele e desde que o conhecia, Henry imaginava o Sr. Strike como um homem solitário. A mesa em questão era de madeira, pequena e sólida. Estava parada no meio da sala de estar.
“Pegue daquele lado. No meu comando, certo? Um, dois, três.”
A mesa foi erguida e em passos curtos eles desceram a escada que levava ao porão. Ele foi de costas enquanto a garota vigiava seus pés para evitar um acidente. Os braços começavam a pesar, então ela a abaixou e eles fizeram uma pausa para recuperar o fôlego. A eletricidade não funcionava lá embaixo e a escuridão preenchia o espaço com todo o lixo que era guardado ali, desde várias caixas de papelão até potes e ferramentas.
Olhando em volta, conseguia ouvir o Sr. Strike falando algo sobre as luzes. Seu olhar parou em uma porta branca, com um cadeado na porta. Não entendia porque alguém precisaria trancar um cômodo quando se mora sozinho. Com um cadeado, ainda.
Retomaram o trabalho e ao passar pela segunda porta ao lado da trancada, ela deu outro olhar para lá. Ignorou o peso no seu estômago.
O quarto da mudança tinha uma luz vermelha no teto, varais cheios de fotografias enchiam as paredes. As fotos eram de pássaros, prédios ou cachorros. O Sr. Strike a fitava, parecia orgulhoso de sua arte.
“Quero me tornar um fotógrafo amador. Legal, não é?”
Henry assentiu.
Teve a vontade súbita de sair dali o mais rápido possível, não conseguia dizer, mas certa tensão pareceu ter sido criada e ela sentia a falta do ar limpo lá de fora. Disse algo sobre sua rota e foi saindo. O seu vizinho a agradeceu, sua voz profunda desaparecendo enquanto ela subia as escadas.
Ao sair para a luz do sol, todos os seus medos pareciam mais ridículos. Henry pedalou embora e forçou-se a não olhar para trás.
Eram seis da tarde quando o grupo se reuniu na Casa.
No topo de uma árvore de ramos grossos, a casa da árvore tinha sido construída quando as três tinham apenas dez anos. O pai de Beth havia a construído, e sete anos depois continuava sendo o local de encontro do trio. O cubículo era grande o suficiente para ficar só de joelhos ou por causa da largura, deitar por completo nas almofadas. Decorado com pôsteres de filmes do Spielberg, uma pilha de revistas científicas e um caixote de madeira como mesa.
Danny estava fumando um cigarro. O cabelo ruivo caía em uma trança, mas seu olho roxo deixava o rosto ainda mais esquelético. E Beth fazia suas unhas, a cor vibrante fazendo contraste com sua pele. Henry não fazia ideia de como ela jogaria Caçada naquela noite com um vestido límpido daqueles. Ia acabar sujando tudo.
“O que faremos estas férias?” Danny cuspiu a fumaça.
“Podemos ir ao bairro Azul. Jogar boliche.” Henry deu de ombros. Beth odiava o cheiro rançoso da fumaça, mas tolerava quase tudo se viesse de Danny.
“Podemos ir amanhã.”
“Combinado. As férias seriam melhores se tudo estivesse... bem, sabe?”
Com um suspiro de Beth e a sobrancelha de Danny se levantando, as suas amigas se entreolharam. Henry não entendeu a reação.
“Disse que ela mencionaria os desaparecimentos! Você me deve cinco reais. Vai dizer que está tudo conectado, interligado ou destinado a algo...” Danny riu. A piada não abalou Henry. Ela tinha uma obsessão com conspirações desde que sua babá havia lhe comprado às primeiras edições de revistas científicas aos sete. Eram histórias mirabolantes, mas algo nelas a atraía.
Beth revirou os olhos.
“Fala sério. Henry, nem tudo é uma conspiração.”
“Talvez seja. Houve dois desaparecimentos bem aqui na nossa cidade, mais dois fora da cidade. Perto demais para serem coincidências.” Henry disse. O brilho havia retornado a seus olhos.
Danny apagou o cigarro. Ajeitou sua jaqueta de couro, e curvou-se ficando de pé. A cabeça batia no teto, sendo a mais alta sempre reclamava sobre ampliar a Casa.
“Vamos. A Caçada vai começar logo.”
Henry saiu primeiro. Antes de segui-la, Danny virou-se para Beth. Jogou seu braço sobre o pescoço da garota mais baixa, um sorriso no canto dos lábios. Os pés de Henry desciam as escadas e o som ecoou até lá em cima.
“Posso ficar na sua casa hoje, madame?”
Beth não questionou sobre o machucado ou a repreendeu por não ter outro lugar aonde ir. Ela segurou um sorriso e assentiu.
A Caçada era algo que a vizinhança de jovens fazia desde verão passado.
Em uma época onde a Internet era difícil de conseguir e não havia jogos de tabuleiros suficientes para acabar com o tédio, eles inventaram A Caçada.
Perto da sete da noite, a lua começava a aparecer e todas as casas eram cercadas pelas sombras da noite. Armados só de lanternas, o jogo revolvia em tentar achar os outros e dar um tapa no ombro deles para ‘transformá-los’. Eles ajudariam a pegar o restante, até que o último em seu esconderijo ganhasse. O limite da área ia só ao bairro deles para tornar o jogo mais justo.
Era de se esperar que com jovens sumindo, os jogos seriam cancelados. No entanto, a rebeldia adolescente era grande.
Eles eram invencíveis naquelas férias.
Henry correu ao soar do apito, passou por várias outras crianças que se espalhavam e gritavam insultos na noite.
Ela agachou-se embaixo de um canteiro de plantas no jardim de alguém. O tempo passou e o bairro ficou quieto. Só ao notar movimento do outro lado da rua, foi que Henry percebeu onde estava. A casa da frente era a do Sr. Strike.
Não tinha a intenção de espiar. Exceto que as janelas estavam abertas no calor e as luzes acesas.
Henry apagou sua lanterna e observou. Um menino talvez um pouco mais novo que ela estava procurando por algo na geladeira do Sr. Strike. O homem conversava com o garoto descontraído. Henry observou as mãos do Sr. Strike gesticularem enquanto ele falava.
Não percebeu quanto tempo estava parada ali. Ao sentir uma mão em suas costas, saltou no ar e teve que colocar a mão na boca para evitar uma praga.
Virou-se para encarar Danny e Beth.
“Vai se ferrar, Danny!” Henry exclamou. Seu coração parecia prestes a falhar de tanto esforço, mas o riso de sua amiga acalmou sua ansiedade.
Beth franzia os lábios. Com o rosto de um anjo fofo, ela parecia desaprovar abertamente a tática da ruiva.
“Você é tão fácil de assustar.” Danny falou orgulhosa.
Henry olhou para a casa a frente, mas o Sr. Strike havia desaparecido. Junto com o garoto.
Ela virou-se e saiu acompanhada por suas melhores amigas. Um peso começava a se instalar em sua mente, ela sentia um buraco no fundo do estômago. A boca tinha gosto de cinzas toda vez que tentava organizar suas ideias e as verbalizar, ela parecia desistir. Sozinhas na calçada, o silêncio foi quebrado ao chegarem perto de seus destinos. Henry o quebrou.
“Vocês acham que o Sr. Strike poderia ser o criminoso? Aquele que estão procurando?”
Danny riu. A risada morreu na rua quieta.
“Ele pode ser estranho, mas não tem cara de assassino.” Ela deu de ombros. Beth a olhava.
“Fala pra ela.” Disse, com uma cotovelada. Danny revirou os olhos.
Henry assistiu a interação em completa confusão. Como na maioria das vezes.
“Falar o que?”
“Meu irmão trabalha na loja de ferramentas, certo?” Danny franziu o nariz. Parecia frustrada. “Ele disse que o Sr. Strike sempre compra sacos inteiros de terra para ‘projetos de jardinagem’. Todo dia.”
“Isso... isso significa que pode ser ele. Quer dizer, quem precisa de tanta terra assim?!” A voz da garota subiu. “Nós devíamos fazer alguma coisa.”
“Tipo o que? Se formos à polícia ninguém irá acreditar mesmo. E nem temos certeza. É melhor deixar as autoridades cuidarem disso.” Beth balançou seus cachos. “Vem, Danny. Boa noite, Henry.”
Danny deu de ombros e foi ao encalço da outra. A casa de Beth Levesque era elegante, tudo tinha seu lugar e arrumação certa.
Danny se sentia uma intrusa.
Era mais pela gentileza excessiva dos pais de Beth, insistindo em outro prato cheio ou a sensação de que eles sabiam o quão disfuncional sua família era e tentavam compensar.
Ainda assim, a garota sempre era grata pelo saco de dormir que agora ficava sempre no closet de Beth e estava sempre pronto para ser armado a qualquer noite.
Enquanto ela armava seu lugar no chão, Beth aproximou-se. Trocou o vestido branco por shorts e uma camiseta velha amarela. Danny a fitou. Levesque era uma das únicas pessoas que podiam mandar em Danny e ela obedeceria sem reclamar.
“Doeu?” Beth perguntou. Fez menção de tocar seu lábio rachado, e Danny sabia que seu rosto devia estar em brasas. Ela negou, deu um passo para trás e bateu com a cintura na escrivaninha, os itens nela chacoalhando, barulhentos com o impacto.
“Uh, nós devíamos... dormir, certo?”. Ela foi se deitar, a garganta seca.
As luzes foram apagadas e Danny demorou a dormir aos sons da respiração pacífica de Beth.
O Bairro Azul era um subúrbio parecido com Santa Tereza, mas com shoppings, fliperamas, restaurantes e um lugar para jogar boliche que era o favorito do trio. Era o primo de primeiro grau descolado do bairro pequeno em que eles viviam. Indo de bicicleta, chegaram lá em menos de quarenta minutos.
O boliche tinha um sinal luminoso, já aberto às duas da tarde.
Oito pistas de madeira, com pinos sendo derrubados em uma balada incessante que pareciam canhões.
O lugar estava lotado de adolescentes querendo comer algo bom ou apenas divertir-se nas máquinas de Street Fighter, ao lado das pistas.
Enquanto suas amigas faziam suas pontuações, Henry esperava sentada no banco com a bola de boliche entre as pernas. Ela olhava para as garotas sorridentes de seu colégio, comparando-as com seu próprio rosto cansado.
Perto da lanchonete, Simon East ria ao lado de seus amigos. Era um garoto qualquer que sempre via nas aulas de História, antes das férias acabarem com os únicos momentos em que os dois conviviam no mesmo espaço. Um garoto gentil e bonito, o rosto bruto e quadrado. Ele era um mistério que Henry gostaria de saber mais.
“O que tá olhando?” Danny sentou-se.
Henry tossiu.
“Nada. É minha vez?”
“Talvez estivesse olhando Simon East. Sabe, podia tentar falar com ele?” Beth riu.
“Quem tem tempo para garotos, mesmo?” Danny bufou. Mordeu um pedaço de sua pizza. Quando o braço de Danny saiu da frente da garrafa de suco, foi quando Henry viu a propaganda no lado da bebida e seus olhos arregalaram.
Ela pegou a garrafa, fitou a foto do menino embaixo das palavras DESAPARECIDO.
Antes que Danny pudesse protestar sobre seu suco, Henry colocou tudo para fora. Explicou do garoto que havia visto na outra noite, e mostrou a foto do desaparecido.
“É ele. Tenho certeza.”
“Tem mesmo?” Beth pegou a garrafa. “Devíamos ir à polícia então.”
“Uh, desculpa. Ouça de alguém que já passou por isso: sem provas, sem crime.” Danny mordeu o lábio. Ela raramente mencionava sua situação familiar, e como previsto, evitou seus olhares. “Eles não irão acreditar.”
“Precisamos de provas então.”
“Olha, sendo realista agora. Se existe mesmo um psicopata aí fora caçando jovens, gostaria de lembras as duas que nós somos jovens.”
“Precisamos fazer algo, Beth! Poderíamos entrar na casa dele e...”.
Os olhos da outra se arregalaram ao ouvir isto. Beth soltou um riso frio.
“Vocês podem até querer parar na delegacia, eu não. Nada de crimes.” Ela cruzou os braços decidida.
“Ok, e se eu e Henry arrombássemos a casa dele e você ficasse de vigia? Huh?” Danny a lançou um sorriso encantador.
Beth mordeu o lábio. Ela pareceu ceder e ser convencida. Levantou-se e andou até a pista de boliche, não sem antes dar um último aviso.
“Ótimo. Tudo bem, mas se vocês me fizerem ser presa... juro que vou acabar com as duas.” Beth disse e fez sua jogada contra os pinos.
O Sr. Strike acordou às sete da manhã, saiu de casa, trancou a porta. Estava já vestido com o uniforme azul de encanador, uma mochila jogada sobre o ombro. Entrou em seu carro e saiu da garagem seguindo rua abaixo.
O trio saiu detrás do jardim de Henry Byers onde se escondiam e correram até o gramado de Strike.
“Se ele voltar, vou dizer o que?” Beth exclamou.
“Inventa algo. Diz que quer aprender jardinagem.”
Henry tirou dois walkie-talkies de sua mochila e entregou a Danny e Beth. Havia os ganhado no Natal passado e elas só usavam nos jogos noturnos de Caçada, mas poderiam ser úteis agora. Enquanto Beth andava perto da calçada, Danny e Henry se aproximaram dos fundos da casa.
A porta da cerca dos fundos batia na altura do pescoço de Danny. Ela a abriu esticando o braço por cima com a maior facilidade.
O jardim dos fundos estava coberto com flores coloridas, plantas e grama recém-plantada pelo que parecia. Um monte de terra no formato de uma cova tinha uma pá cravada na terra.
“Não temos tempo de procurar lá.” Danny indicou a cova. Estava sussurrando mesmo sendo de dia, parecia apropriado.
Ao lado, encostada na cerca que separava o terreno de Strike do terreno dos Byers, havia um galpão de madeira. A tinta já havia sido descolorida, e a porta estava trancada com outro cadeado dourado. Danny aproximou-se. Henry observou enquanto a garota tirava um canivete suíço do bolso e mexia nas opções até uma ferramenta fina e metálica ser a única levantada.
Danny forçou o cadeado.
“Isso funciona mesmo?” Henry perguntou.
A garota não respondeu. O som do cadeado sendo aberto e um olhar dela foi sua resposta. Henry entrou no galpão. Tinha o mesmo tipo de bagunça do porão, com objetos, móveis e porcarias espalhadas por todo o espaço. Ela olhou tudo, tentando tocar o mínimo possível.
Não sabia o que procurava. Olhava por acaso e foi em aleatório que jogou alguns suéteres rasgados para um canto. Por baixo deles, havia uma camiseta cheia de sangue. Danny ficou de vigia e não viu de imediato. Henry pegou a camiseta do Invader Zim, pequena demais para ser de um adolescente ou adulto. Ela retornou para a porta. Tinha a impressão de ter o corpo amortecido, devia ser algo parecido com um estado de choque.
Danny virou-se.
“Isso é...? Droga.” Ela sussurrou.
Na frente da casa de Strike, Beth ouviu o motor antes de ver o carro voltando. Quando pensava em atravessar a rua, o carro preto de Strike já fazia a curva. Ela olhou em volta frenética. Andou pelo lado esquerdo da casa, oposto a onde suas amigas estavam. Espremeu-se contra a parede, torcendo para que ele não viesse onde ela estava.
Beth ficou quieta. A porta de um carro abriu, fechou-se e um alarme soou na rua. Passos ecoaram silenciosos na grama, e ficaram mais altos enquanto vinham exatamente na direção onde ela estava. Beth viu que não havia saída para frente e voltar para encarar um suposto assassino não era opção nenhuma.
A janela atrás de si estava destrancada. Beth a abriu, subindo por cima da batente e fechou de novo devagar, bem a tempo de se espremer no chão embaixo do vidro e sentir o suor escorrer pelo pescoço. Uma sombra passou por cima dela. Alguma coisa parecida com metal foi remexida. A garota ficou parada por tempo suficiente para sua posição encurvada lhe dar dores. O barulho cessou. A sombra desapareceu por onde tinha entrado, e Beth respirou fundo várias vezes.
O rádio estalou em sua cintura. Esquecendo-se dele, a garota tremeu e colocou a mão acima do coração. Estava disparado. Ela pegou o rádio.
“Beth? Está na escuta?”
“Onde vocês estão?! Strike está de volta. O Sr. Strike voltou.” Ela repetiu baixo. Houve estática por alguns segundos.
“Onde você está?”
“Na casa.”
Um barulho interrompeu a transmissão, e então Beth ouviu a voz de Danny.
“Dentro da casa? Por quê?!” Mais uma interrupção. Outra voz. “Estamos no fundo. Abra a porta pra nós.”
Beth levantou-se.
A casa tinha as luzes desligadas, só sendo visível os contornos dos móveis pela luz que irradiava pelas janelas. Andando devagar, Beth foi tateando a pia até passar pela porta da cozinha e entrar em um ambiente mais escuro.
Ainda estava amarga por ter sido enrolada nesta confusão. Ela nem queria ter vindo.
Com as janelas fechadas, hesitou na escuridão. Retomou sua caminhada. Ao virar as costas para o corredor que levava aos quartos, sentiu-se apavorada.
Por um instante, teve a impressão de uma presença atrás de si. Conseguiu imaginar uma mão desconhecida saindo do corredor para alcançá-la. Virou-se. O corredor estava vazio e silencioso.
Beth estava a alguns passos da porta dos fundos. Fechou os olhos e imaginou Danny. A batida na porta a despertou, e ela quase chorou de alívio ao ver o rosto das duas a encarando pelas fresta da persiana.
Henry e Danny entraram na casa. Danny colocou o pulso no braço de Beth. Esfregou o braço dela com seu polegar, estranhamente gentil.
“Você está bem?” Ela franziu a testa. A preocupação em seu rosto e o calor de sua mão mexeu com Beth, e ela engoliu em seco.
“Sim. Sim, tudo bem.”
As duas viraram-se para Henry apreensivas. A garota examinava a casa com suspeita. Pela primeira vez, Beth viu a camiseta ensanguentada. Cobriu sua boca com a mão.
“Ah minha nossa.”
“É do garoto.” Henry assentiu. “Precisamos chamar alguém, nós...”.
Os olhos cinzentos e castanhos que fitavam Henry ficaram paralisados. A visão de suas amigas estendia-se para algo atrás de Henry.
Já sabia quem era antes de virar-se, mas não contava com o olhar no rosto do Sr. Strike. O homem parecia pálido e doente, suor escorria pelas suas bochechas e os dentes se arregalavam em um sorriso tenso. Os olhos profundos desapareciam debaixo das sobrancelhas.
Ele sorriu ao ver o trio.
Fez sua figura parecer ainda mais perturbadora, a sombra de sua estatura passando por cima até de Danny.
“Garotas, o que estão fazendo aqui? Hein?” Seus lábios se esticaram.
As três não desgrudaram os olhos do Sr. Strike. Deram pequenos passos em recuo, mas o homem avançava no mesmo ritmo lento. Um pé de cada vez. Henry mostrou a camisa.
“É sua?” Ela perguntou. Queria uma resposta.
Percebendo o item, o encanador a fitou vendo através dela. Seus olhos estavam desfocados por alguns segundos. Henry conseguia perceber Danny negando com a cabeça, tentando fazer com que a loira ficasse quieta. Beth tinha os braços interligados com Danny, que completava a fila segurando o pulso de Henry.
O encanador lambeu os lábios.
“Tenho que pedir que se retirem.” A voz mais baixa que um sussurro.
Os passos demorados de todos mantinham uma distância entre as jovens e o vizinho lunático. A situação passou-se em segundos, pareceu mais. Henry virou a cabeça só um pouco para fitar as duas.
“Vamos, meus pais chegam à noite.” Ela falou baixo.
O Sr. Strike deve ter ouvido ou nunca planejou ter as deixado partirem do começo. Com um apito agudo, o machado de lenha em sua mão cortou o ar. As três cambalearam para trás, o terror preso na garganta. O grito delas nunca veio, porque em seguida o vizinho avançava para uma nova tentativa, batendo a lâmina onde o pé de Henry estava um segundo atrás. O piso de madeira virou lascas.
“Anda, anda!” Danny puxou Beth e Henry pela parte de trás de suas camisetas e correu para a porta. Danny sentiu a porta abrir-se uma fresta antes do machado passar voando com um som agudo e atingir a batente da porta. Danny tentou puxar a maçaneta e encontrou a resistência do aço bloqueando a abertura.
Elas tropeçaram ao redor da sala de estar. Em completo pânico, desviaram por trás do sofá enquanto o Sr. Strike tentava remover o machado da porta.
Talvez porque o porão estava mais perto, talvez pela falta de raciocínio quando o medo tomou conta, ou pela possibilidade de que Strike ou até a última que passou pudesse ter trancado a porta dos fundos... Elas desceram as escadas.
Trancaram a porta ao passar. Pulando os degraus na medida do possível, elas pararam na parede dos fundos onde uma estante de metal suportava cerâmicas.
“Ajuda aqui.” Henry pediu. Indicou as prateleiras.
Danny e Henry puxaram a estante com toda a força possível e a jogaram contra a escada. O barulho da cerâmica quebrando ecoou pelo porão e Beth desejou que alguém ouvisse.
Como ninguém parecia ter ouvido nada até agora, ela culpava as férias e as malditas famílias que haviam viajado para fora da cidade. As estantes bloqueando os degraus era um conforto a mais, não importa o quão inútil.
As três garotas se amontoaram no meio do cômodo. A respiração soava em seus ouvidos, suas mãos estavam interligadas e os braços entrelaçados buscando o conforto das outras. Por dois minutos, talvez ainda mais, nada aconteceu.
O mesmo porão com o quarto vermelho e a porta trancada. Menos de dois dias haviam se passado desde que Henry havia ajudado Strike e descido até ali – e agora ela retornava ao porão no seu pior pesadelo. Parecia surreal.
Um momento de espera.
E então um estrondo veio de cima quando o homem arrombou a porta e correu para baixo. Ele hesitou impedido pela estante caída, e começou a escalar por cima.
O porão não tinha janelas. Nenhuma outra saída visível.
Um soluço foi emitido por uma das garotas.
Strike plantou os pés na frente da escadaria. Não carregava nenhuma arma e seu olhar parecia delirado.
“Gostava de vocês, garotas. Até tentarem arruinar minha vida. Realmente... sinto... muito.” Ele forçou um sorriso.
Além do esperado que elas iriam morrer naquele momento, não passou na cabeça de ninguém o que iria acontecer em seguida. Até Henry, a aficionada por teorias alienígenas. A garota que consumia material fantasioso como hobbies, jamais imaginou aquilo.
A boca do Sr. Strike abriu-se dos dois lados, como uma faixa de papel sendo rasgada. Os cantos de seus lábios se rasgaram, de dentro de sua garganta quatro tentáculos parecidos com as pontas de uma estrela do mar saíram por trás das gengivas. Um material que parecia esponjoso e envolvido em uma gosma negra faziam contraste com seus olhos mortos e a pele rasgada e cheia de sangue seco. Os dentes caíram em tinidos no chão.
As garotas paralisaram.
Não houve resposta ou tentativa de luta no primeiro momento porque o choque tomou conta delas e as deixou vulneráveis e incapazes de qualquer reação. Uma língua cheia de saliências esticou-se como um chiclete e agarrou o braço coberto de couro de Danny. Os pés da jovem eram arrastados pelo chão enquanto ela forçava o calcanhar no piso e tentava impedir que a criatura monstruosa a puxasse para perto. Danny gritava com o rosto cheio de nojo.
A visão de Danny nesta situação despertou Beth. Ela olhou em volta, gritou para Henry acordar enquanto jogava objetos para os lados. Encontrou o que procurava e correu para o antigo Sr. Strike. Danny chegou tão perto que sentiu o bafo daquela aberração, os quatro tentáculos envoltos em dentes e pronto para triturar tão perto de seu rosto. Ninguém viu a faca cortando em exatidão a língua de Strike. Só ouviram o uivo desesperado dele.
Beth arrastou Danny para trás pela cintura. Henry tirou a língua cortada do braço de sua amiga, que agora exibia uma cicatriz circular ao redor do braço direito. A manga da jaqueta estava queimada, exibindo a pele em carne viva. Danny recusava-se a choramingar, mas sentiu os olhos arderem com a dor da pele.
“Tem um isqueiro?” Henry perguntou. Pegou a lata de aerossol caída aos seus pés, o queixo retesado.
O monstro avançou. Beth pegou o isqueiro de Danny e deu para ela. Danny encolheu-se no colo de Beth. Henry pensou em tantas coisas para dizer, mas ações falam mais que palavras em certos momentos. Com um olhar intenso beirando a um colapso nervoso, ela mandou uma chama de fogo na direção de seu antigo vizinho, agora irreconhecível.
A criatura pegou fogo. As labaredas o queimaram vivo e ele caiu no chão se debatendo, até não se mover de novo. O brilho do fogo fez os olhos das garotas arderem, e elas recuaram cambaleando. Vivas.
Houve silêncio. Não de reverência, e se fosse, não por Strike.
Beth abraçou Danny. Henry olhou para trás. Para a porta com o cadeado. Olhou para suas amigas, Danny agora de pé, com a cabeça descansando na curva do pescoço de Beth.
Tinha chegado até aqui.
“Vão para casa.” Henry falou. As duas olharam para Henry. “Vão, descansem. Resolvemos tudo depois.”
“Você não vai entrar aí.” Beth sussurrou. Sua voz parecia prestes a quebrar. Ela não balbuciou, no entanto. Não aguentaria perder ninguém, nenhuma das duas.
“Se houver alguém lá dentro, precisamos saber. A polícia não vai acreditar mesmo. Vou só entrar e olhar.” Henry tentou acalmar as duas.
Danny secou os olhos. Sua jaqueta estava coberta em sangue.
“Anda logo então.” Ela se aproximou do cadeado, pegou seu canivete.
Beth olhou para Henry furiosa. Suspirou irritada enfim e as seguiu. Não podia odiar suas amigas, elas faziam decisões idiotas e agora não era o momento. Sabia que quando colocasse a cabeça no travesseiro, aquelas imagens estariam presas em suas retinas, mas não agora.
A porta se abriu com um estalido.
Ninguém se mexeu. Henry deu alguns passos para dentro.
Era um quarto antigo, com uma cama coberta por um lençol, móveis envelhecidos e tantas fotografias vintage nas paredes. Homens e mulheres em roupas típicas dos anos 60, sorrindo com cortes de cabelos ultrapassados.
Havia uma passagem sem porta para outro cômodo, e elas conseguiram ver azulejos azuis de banheiro.
O lugar parecia ter certa tensão. Como se algo fosse pular de qualquer canto, elas talvez estivessem sendo afetadas pelo que havia acontecido há minutos atrás.
Não, não era isso.
Como uma televisão no mudo, dava para sentir algo ali. Mesmo no silêncio.
“Vamos embora, por favor.” Beth choramingou.
Henry continuou avançando para o banheiro no final. O trio mantinha os braços dados, músculos tensos e prontas para lutar ou fugir ao menor sinal de perigo. O banheiro tinha uma pia podre, um vaso em pior estado e uma banheira. A cortina da banheira fazia um círculo e estava fechada.
“Já vi filmes o suficientes. Sei como isso acaba.” Danny suspirou.
Apesar do clima pesado, Henry ficou feliz de vê-la falando. Estava voltando ao normal.
A garota encostou a cortina de plástico com a ponta dos dedos, deslizou os anéis pela barra e eles fizeram barulho ao se moverem.
Na banheira havia uma garota. Ela tinha um rosto com feições asiáticas, o cabelo repicado como Joan Jett. Suas roupas estavam em frangalhos, mas ela não parecia machucada de nenhuma forma visível.
O trio a fitou.
Beth aproximou-se mais da estranha, ignorando o puxão de Danny em sua manga.
A adolescente parecia mais velha e retesou-se um pouco para longe. Beth entendeu o recado, ajoelhou-se ao lado da banheira com certa distância e forçou um sorriso.
“Ele se foi, ok? Não vai machucar você.” Ela falou. Os olhos ardiam ao tentar manter o contato visual, a garota ainda não havia piscado.
Pela primeira vez, a estranha reagiu. Franziu a sobrancelha.
“Claire? Byers... se foi?” As palavra soaram desconfortáveis, como se não usasse a voz em muito tempo.
Danny e Beth congelaram. Olharam para sua amiga. Henry fitava a estranha. Não parecia ter motivos para não acreditar nela, ou não confiá-la. Deveria ter.
Porque Claire Byers era sua mãe.
Fale com o autor