Summer Vacation
10 Capítulo 10
Notas iniciais
O hospital parecia ter sido invadido pelas Escolas de Samba do Carnaval do Rio de Janeiro – o qual Kiera havia feito uma matéria sobre no seu primeiro ano na faculdade -, com pessoas agitadas na sala de espera, funcionários correndo pelos corredores, e os telefones que não paravam de tocar. Apesar da agitação a sua volta, ela só pensava em chegar ao quarto de seu pai.
Antes de sair de casa, Kiera ligou para Kyle para contar-lhe que seu pai já havia acordado, e os dois combinaram de encontrar-se no hospital. Dylan levou Kiera até lá, e não saíra de seu lado nem por um segundo. O momento embaraçoso na cozinha foi deixado para trás pela euforia que tomava conta de seu corpo ao pensar em ver o pai.
Quando estavam quase chegando as portas do elevador, escutam alguém gritando.
– Kiera!
Era Kyle.
Kiera abriu um sorriso aliviado. Ela não queria entrar no quarto de seu pai sem seu irmão ao seu lado. Ela não sabia o que esperar do estado de seu pai, e precisava do apoio do irmão mais velho.
O elevador chegou e Kiera e Dylan entraram, segurando as portas abertas para Kyle.
Assim que Kyle entra no elevador, coloca seus braços ao redor de Kiera e segura sua irmã caçula como se ela dependesse daquilo para respirar. Desde que Kiera nasceu, a mãe dos dois sempre disse que eles tinham um tipo de ligação especial. Não daquelas fictícias que via-se nos filmes, mas daquelas que só família pode sentir. Que com um abraço, sem sequer uma palavra, eles comunicavam-se perfeitamente. Eles, de alguma forma, sempre foram o refúgio e o porto seguro de um e outro. Mesmo com a diferença da idade, mesmo com interesses distintos e manias estranhas, eles sempre estiveram ali um para o outro.
Agora, no elevador, era um dos momentos em que nenhuma palavra precisava ser dita. Apenas o abraço que os dois compartilhavam era o suficiente para dizer o que se passava com cada um. O medo, o alívio, a angústia, a felicidade. Tudo era silenciosamente comunicado através de um simples abraço.
Dylan, encostado em uma das paredes do elevador, perto do painel de botões, olhava admirado à cena a sua frente. Ele conviveu com Kiera e Kyle desde os seus dez anos, e naquela época eles já eram unidos – com pequenas brigas, sim, mas sempre unidos –, mas agora, treze anos mais tarde, aquela união deles se fortificara, deixando-os mais fortes. Com tristeza, percebeu que, provavelmente, ele tinha uma parcela de ajuda em torna-los tão próximos. Depois daquele verão, ele percebeu, Kiera deve ter encontrado forças no irmão para seguir em frente. Aparentemente, ela resolvera guardar seu segredo de seu irmão. O motivo, ele não sabia, mas Dylan tinha absoluta certeza que Kyle já teria vindo tirar satisfações com ele se soubesse o que tinha acontecido. Agora, outra pessoa que deve ter se tornado um alicerce de Kiera, era Billie Joe. Esse sim, a julgar pelo olhar que lançou a Dylan quando o viu, com certeza sabia o que tinha acontecido há quatro anos. Dylan não poderia culpa-lo, ele também olhava daquela mesma maneira para o espelho quando se lembrava de suas escolhas naquele verão.
As portas do elevador se abriram, tirando Dylan do transe que seus pensamentos o causaram, e fazendo os irmãos Haver seguirem na direção do quarto onde estava seu pai.
Chegando a porta, Kiera puxa uma respiração longa, coloca a mão na maçaneta, e entra seguida somente de Kyle, já que Dylan resolveu dar um tempo para a família.
Olhando pelo quarto, Kiera percebe a mãe descansando em uma poltrona perto da cama onde o pai está. Seu coração falha uma batida quando enxerga Charlie. Aparentemente, ele está bem, mas ela ainda sente um aperto no coração ao ver o pai deitado numa cama no hospital.
Com Kyle ao seu lado, segurando firmemente sua mão, ela aproxima-se da cama, em um estado de saudade e medo. Kiera coloca a sua mão direita sobre a esquerda do pai, que está em cima do colchão, ao lado de seu corpo adormecido.
Kiera olha na direção do irmão com a pergunta em seus olhos: “Ele não tinha acordado?”. Kyle aperta a mão da irmã e responde baixo, levemente:
– Ele deve estar cansado Kie, provavelmente só está tirando um cochilo, mas não se preocupe, ele acordou do coma.
Com a movimentação no quarto, Charlie abre os olhos, formando pequenas fendas que não conseguem focar ligeiramente.
Kiera olha para o pai, implorando para que ele lembre-se de quem ela e Kyle são. Por favor, Deus, pensa, deixe que ele se lembre de nós.
– Hey, corujinha, — olha para Kiera – meu pequeno Kyle, — então para Kyle – vocês não aprontaram nada por aqui que aborreça sua mãe, não é?! – pergunta com a voz fraca, rouca.
Kiera solta uma risada nervosa antes de atirar-se para cima do pai. Kyle faz o mesmo em seguida, juntando-se àquele abraço debilitado.
– Sentimos a sua falta – diz Kyle para suprimir a impossibilidade da irmã de pronunciar algo além de fungadas.
– Eu senti falta de vocês também, minhas crianças. – responde Charlie, emocionado por ver seus dois filhos junto de si.
– Você me deu um baita susto, papai – Kiera consegue murmurar em meio às lágrimas.
– Eu sinto muito, corujinha, eu não quis fazer isso.
– Está tudo bem, mas você vai ter que comprar uma blusa nova do Batman para mim. A minha outra está toda suja de lágrimas e maquiagem borrada. Eu acho que aquela máscara para cílios nunca vai sair – diz Kiera, fazendo uma careta brincalhona.
Charlie ri da sua pequena menina. Ela não mudou nada.
*****
Dylan ainda está no corredor esperando quando Kiera sai do quarto.
– Oh, você ainda está aí – diz ela, surpresa ao ver que Dylan não foi embora.
– Como ele está? – Dylan pergunta preocupado. Charlie sempre foi uma espécie de segundo pai para ele.
– Melhor, mas bem cansado. Deixei Ky com ele um pouco, eu meio que não dava à ele chance de abrir a boca. Você sabe, eu fico tagarela quando estou nervosa.
Dylan assente com um pequeno sorriso nos lábios.
– Então... você vai ficar aqui? – Kiera pergunta.
– Eu não sei – ele franze a testa – Eu queria vê-lo, mas está tudo bem se eu não conseguir checa-lo hoje, afinal hoje é um dia para a família.
Kiera olha incerta na direção de Dylan, tentando descobrir o que exatamente ele ainda está fazendo aqui.
– Ah.. ok, então. Bom, eu vou à cantina, preciso pegar o iogurte que a mamãe pediu e um chá gelado para mim. Mamãe estava dormindo quando nós chegamos, mas eu acho que ela acordou quando eu comecei a falar sobre o Batman – dá um pequeno sorriso, então para um momento, não sabendo ao certo o que fazer – Você quer vir junto à cantina ou esperar aqui?
Dylan abre um enorme sorriso, que faz com que ela sinta-se instantaneamente bem.
– Claro, seria ótimo te acompanhar.
Fale com o autor