Summer Song
1 Canção de verão - parte 1
Notas iniciais
Em Agosto era precisamente o final do verão japonês, que por sinal era muito, muito quente. Mas também significava que os estudantes estavam em plenas férias por todo o país. Contudo, infelizmente a herdeira de Mitsumasa Kido não poderia desfrutar desses prazeres joviais. Não por enquanto.
Saori, apesar de ter o privilégio de frequentar um colégio para moças em Tokyo, não tinha a melhor das frequências devido a sua conturbada vida, que se tornou dupla após seu despertar como deusa Athena, além de seus afazeres para com a Fundação de seu avô. A moça tinha duas pilhas de papéis diferentes.
Claro que as coisas da Fundação Graad eram maiores, piores e mais trabalhosas. Entre acordos com outras empresas nacionais e internacionais, parcerias, ações e contas e funcionários a pagar, Saori passava horas e horas trancada naquele escritório que antes pertencia ao seu avô adotivo. Sua vida adulta começara mais cedo do que o esperado, no final de seus 12 anos mais ou menos. Na época ela não passava de uma criança que sabia pouco, mas agora era diferente. A senhorita Kido já havia amadurecido bastante e administrava a Mansão e a Fundação com destreza. Até mesmo as coisas estavam em ordem no Santuário.
Porém não podia dizer o mesmo de seus estudos. Então, para que ela pudesse passar de ano, sem muitos problemas, e se formar, foi estabelecido um acordo no qual ela faria trabalhos e provas a parte em casa, quando tivesse tempo. O problema era que só tinha esse tempo justamente nessas benditas férias de calor insuportável.
— Ah... Agora só faltam... Cinco trabalhos. – Ela pausou e respirou fundo antes de continuar. – E todos são de história... – Saori bagunçou os cabelos, completamente agoniada.
Até um tempo atrás, sempre tinha ajuda de Mii, a Saintia de Golfinho. Mas pedira a ela que ficasse no Santuário durante aquela semana para que reportasse qualquer acontecimento relevante quando voltasse para seu posto de deusa. Ou seja... Estava por conta própria olhando para um monte de rabiscos infinitos que deveriam ser a sua caligrafia.
— Estou tão cansada que nem escrever mais eu consigo... – Ela disse olhando para parágrafos e parágrafos onde japonês se tornava grego e depois uma mistura bizarra de inglês e alguma outra coisa.
A menina deu-se por vencida e deitou a cabeça por cima dos papéis. Queria fechar os olhos e dormir até o seu aniversário de 20 anos. Pelo menos assim, ela já estaria formada... Ou não.
Do outro lado da Mansão Kido, no corredor onde se encontravam os aposentos dos hóspedes, Shun fazia uma faxina simples em seu quarto. Não era por que as coisas andavam sossegadas que ele deveria ficar sem fazer nada. Não gostava de dar trabalho para as empregadas da casa e insistia em arrumar tudo. Inclusive lavava, passava e guardava as próprias roupas. Até mesmo estava pondo os lençóis na varanda e batendo neles para tirar a poeira.
Era quase como uma terapia e assim mantinha a mente ocupada, já que não estava lendo nenhum livro no momento também. Começou a cantarolar uma música que ouvira no rádio recentemente. Falava sobre o verão e de como era incrível se divertir com os amigos numa praia. Coisa perfeita para um dia quente como aquele. Adolescentes normais da mesma idade que a dele estariam indo para o mar nessas folgas, ou viajando para o interior. Lembrou-se que Seiya comentara que as crianças do orfanato teriam um dia especial no litoral, algo semelhante a uma excursão e ele iria ajudar Miho a ficar de olho nos garotos. Mas conhecendo o Pégasus, com toda a certeza ele iria aproveitar para relaxar, e tentar conversar mais com a amiga de infância. Segundo o próprio Seiya, Miho andava estranha com ele. Mas quase todos, exceto pelo sagitariano, sabiam que era apenas ciúmes que a garota tinha dele sempre que inseriam o nome de Saori na conversa, mesmo ela sendo quem era.
E falando na Senhorita Kido, a própria veio bater na porta do quarto de Andrômeda. Desistiu de todos aqueles papéis demoníacos.
— Senhorita? – Shun indagou surpreso.
— Shun... Sayako está limpando o meu quarto agora, então não tenho como ficar lá... – Ela disse, visivelmente exausta. – Tem problema se eu ficar aqui com você um pouco?
— Nenhum, senhorita. Já estou no final da faxina...
— Obrigada! – A jovem jogou-se na cama de lençóis verdes e deitou o rosto no travesseiro macio. – Sua cama é bem mais confortável que a minha... Acho que vou me mudar para cá.
Ela dizia em tom brincalhão. Mesmo sendo uma deusa, Saori foi criada, até certo ponto, como uma garota normal. Porém tendo que arcar com muitas e diversas responsabilidades.
Mas ela não via problema em relaxar de vez em quando. E Shun era seu cúmplice.
— Se Tatsumi ouvisse isso, daria uma bronca em nós dois... – Ele respondeu, sem jeito e terminando de organizar os seus pertences.
— Não, não daria... – Saori respondeu já sonolenta. Estava realmente muito cansada. Abatida de tanto ler e de tanto pensar.
Shun entendia isso só de olhar para ela. Sorriu e sentou-se na beira da cama e olhou para a dona da casa, que prontamente adormecera. Devia ser frustrante cuidar de tudo praticamente sozinha. Acariciou cuidadosamente a testa da jovem, passando pelos fios arroxeados dos cabelos dela.
Andrômeda sentia sempre uma necessidade de ser cauteloso e carinhoso com Saori. Quando a tratava como deusa Athena, era respeitoso. Mas quando ela se mostrava desse mesmo jeito que chegou a seu quarto, Shun assumia outra postura. Não uma de melhor amigo, algo mais íntimo, como um irmão. E como irmão, queria fazê-la se sentir bem. Por isso desligou as luzes deixando a varanda aberta e saiu do quarto com uma muda de roupas para tomar banho.
O verão veio com tudo e estava absurdamente quente agora que a tarde havia começado! E já era o segundo banho que Shun iria tomar. Retirou a roupa que usava e arrumou-a do lado para depois levá-la para a lavanderia. Antes de entrar no chuveiro, deu uma olhada em seu reflexo no espelho.
Seus olhos estavam melhores do que na semana anterior, menos fundos e mais verdes. Notou que perdeu peso novamente. O lado bom era que isso o deixava livre para comer mais doces. Contudo sabia que a sua atual condição não iria mudar, não tão cedo. E não cabia a ele escolher.
E após um profundo suspiro, entrou no chuveiro para uma rápida ducha.
Quando saiu do banheiro, usava uma bermuda jeans e uma regata amarela. Como seu cabelo havia crescido desde abril, conseguiu amarrá-lo deixando apenas um pouco na parte da frente. Sorriu perante a outro espelho, que ficava pendurado no corredor, e não resistiu em fazer algumas caretas. Queria ver se era mesmo parecido com um filhote de coelho, como costumavam lhe dizer. Mas ao ouvir os passos de alguém chegando, logo parou e disfarçou. Era Ichi, que estava resfriado e não parava de espirrar. Ele cumprimentou o amigo e depois se enfiou em seu quarto, que ficava há alguns passos de onde Shun estava.
— Nossa... Ele parece estar mesmo mal. Será que está tomando os remédios certos? – O virginiano perguntou a si mesmo, sabendo que o Cavaleiro de Hidra era severamente atrapalhado e costumava confundir coisas, como colocar sal na massa do bolo, ao invés de açúcar. O mais gritante era quando ele se esquecia de que existiam coisas que não deviam fazer quando usavam o Hashi, como nunca “espetá-los” no arroz ou qualquer outra comida. Um dia Ichi fez isso e tanto Sayako quanto Tatsumi olharam muito, muito feio para ele e deram uma bronca gigantesca. Lembrar de tal fato o fez rir rapidamente. Era legal quando esses momentos descontraídos se faziam presentes na vida deles.
Enquanto rumava para seu quarto pensava se Saori ainda estaria lá. Sorriu ao ver que sim. Ficou encostado na porta a observando. O dia estava bonito, apesar de quente. Quem sabe não fosse uma boa oportunidade para uma merecida folga? Pensou um pouco mais e teve uma idéia. Decidiu ir até o quarto de Saori e pegar uma muda de roupas para ela trocar.
Sem que ninguém o visse, entrou no cômodo levemente cor-de-rosa. Saori tinha alguns bichinhos de pelúcia, inclusive um que fora ele quem dera de presente. Que bom que ela o guardava com tanto carinho.
Andou até o armário e separou um conjunto de roupas e um chapéu que ela costumava usar nos dias de sol. Deixou o aposento e voltou ao seu, acomodando os tecidos ao lado de Saori na cama. Cauteloso, ele aproximou-se dela e sussurrou.
— Saori...? Acorda Saori... Saorin...- Disse se assemelhando a uma criança.
— Hm...? – A jovem abriu os olhos e os esfregou. – Nossa... Desculpe, Shun. Eu acabei dormindo...
— Não tem problema. Eu trouxe uma roupa para você trocar.
— Trocar? Por quê?
— Por que vamos dar uma volta. Você merece depois de estudar tanto.
— Aonde vamos?
— Vamos para a praia.
— Praia?
Os olhos de Saori brilharam ao ouvirem tal palavra, que soava como uma salvação. Fazia anos que ela não ia a uma. Certa vez, enquanto estava em Atenas, Julian a convidou. Porém, teria que admitir, não se sentiu a vontade. Saori sabia o que ele ainda sentia por ela, e não negava que o rapaz amadurecera bastante desde que se conheceram. Eles se davam bem como amigos, mas devido a inúmeros fatores ela não sabia se seria correto deixar-se levar por sentimentos do tipo.
Esse tipo de assunto era corriqueiro na mente de Kido. Antigamente, pensou que poderia estar apaixonada por Seiya. Mas depois de muito tempo refletindo percebeu que não era assim, pois a ligação que tinham ia muito além disso. Exatamente como era com Shun. Os três nunca conviveram juntos por muito tempo durante a infância, mas ela tinha tantas lembranças com os dois, especialmente com o Cavaleiro de Andrômeda.
A única diferença era que parecia que ele tinha cabelos dourados em uma época tão distante, mas tão presente.
Mas não precisava pensar nisso agora! Eles iam à praia! Praia! Ela pediu licença para se trocar enquanto o sorridente e satisfeito Andrômeda arrumava uma mochila com toalhas, um pouco de dinheiro e doces. Muitos e muitos doces que ele guardava longe dos olhares alheios na parte de cima de seu armário.
Em questão de segundos os dois andavam pelo bairro até onde poderiam pegar um táxi. Fizeram isso escondido dos olhares críticos de Tatsumi. Shun queria que Saori experimentasse andar com mais liberdade, e por isso a convencera a ir com ele até determinado ponto no veículo. Apenas para saírem daquelas ruas rodeadas de mansões...
Ela precisava de ar puro.
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