Summer
4 Cap. 3. - O ínicio.
Notas iniciais
Narrado por Margo Jerry
Duas semanas se passaram desde que as aulas terminaram. Duas semanas se passaram desde que Éric pediu Savanah em casamento.
Estávamos dentro do ônibus fretado que nos levaria para a tão esperada viagem de formatura. O calor escaldante fazia escorrer suor pela minha testa e para piorar, nossa condução não tinha ar condicionado. Mas não, não, como se não bastasse enfrentar 6 horas naquele forno para chegar a ilha de Viena, eu ainda tinha de aguentar Savanah falando com Hannah sobre os melhores sabores de camisinha que elas já provaram. DA PARA ACREDITAR?
–Sem dúvidas é uva! — diz Savanah que esta sentada ao meu lado se debruçando no banco da frente para conversar com Hannah, que preferiu sentar-se com Ray, seu namorado exibido. — Você tem que experimentar, cara, é o melhor!
–Ah não Savanah, Hortelã é super-refrescante! — Responde Hannah sem o menor pudor considerando que Ray presta total atenção em tudo oque ela diz.
–Mas como? Já provei hortelã, não é tão bom!
–Ah por favor! Vocês podem parar de falar disso??! — interrompo.
–Margo, deixe as meninas! — fala Ray rindo.
Bufo e me reencosto no acento. Sempre me sentia como se fosse a excluída dos assuntos diante das minhas próprias amigas, a indiferente, a menos popular, e principalmente, a menos chamativa e bonita. Quem era eu perto da jornalista e da diretora do grêmio da escola? Eu era apenas a garota excluída que por um milagre de Deus é amiga das populares da escola. Não que eu não goste das minhas amigas, muito pelo contrário, mas as vezes acho que simplismente não pertenço ao mesmo mundo que elas. Hannah desfila com seu pomposo namorado jogador de futebol, Savanah chama atenção por onde quer que passe com seu ar superior de respeito e boa lábia. Mas...e eu?
Olho para os assentos ao lado dos nossos e vejo Oliver — que apesar de não ser realmente meu amigo pois conversamos algumas poucas vezes, ultimamente tem sido especialmente generoso comigo.
–Psiu — o chamo. — Psiu!
Oliver olha para mim. Aceno.
–Eai…- ele coça seu queixo tentando se lembrar de meu nome. — Margo, né?
–Isso! — rio.
–Anciosa para a viagem, Margo?
–Quem não está? — pisco pra ele.
E a conversa se encerra ali. Oliver nunca foi bom em puxar assunto com “estranhos”.
Viro-me novamente para minhas amigas tagarelando e tento prestar atenção para ver se ainda falam sobre assuntos...desnecessários.
–VOCÊ TEM QUE PROVAR UVA!!! — grita Hannah.
Coço a cabeça, aquilo já estava me incomodando.
Eu já ia pedir novamente para que parassem com aquela história ridícula quando percebo que um par de olhos azuis me observam. Olho de soslaio para trás e confirmo que Chuck Parson me observa. Todas as vezes em que o vejo olhando para mim me pergunto: “Por que?”. Por que mesmo depois estragar a minha vida ele continua sempre me observando? Porque insiste nisso? Será que ele planejava me destruir ainda mais?
Parson é, sem dúvidas, o maior pegador que eu conheço. É baixinho, mas sensualmente musculoso, usa alargadores não muito grandes e raspa por inteiro seus cabelos pretos. Sem contar as mais de 10 tatuagens que ele diz ter pelo corpo, apesar de serem visíveis apenas algumas em seus braços. Entenda, ele é o pior tipo de garoto que se pode arranjar neste mundo: Além de ser esplendidamente bonito, ainda carrega um ar tenebroso de perigo. Talvez seja por isso que sou perdidamente apaixonada por ele desde a 7ª série, apesar de tudo oque fez.
Viro-me para frente e encaro a estrada pelas próximas horas em silêncio, enquanto ao meu lado o barulho da farra e animação dos alunos são ensurdecedores. Será que eu era a única que gostava apenas de ler um bom livro e ouvir uma boa musica relaxante durante uma viagem?
Paramos em um posto de gasolina á aproximadamente 3 horas da ilha de Viena pelos meus cálculos. Quando o motorista nos libera para ir a loja de conviniência a primeira coisa que faço é ir até o banheiro lavar meus rosto.
Me olho no espelho sujo. Cabelos e olhos profundamente pretos, bochechas rosadas e queixo alongado, boca extremamente vermelha. As vezes me pergunto se sou bonita o suficiente para arranjar um namorado e, ao mesmo tempo, as vezes me pergunto o porque fico me preocupando com essas coisas. Mas o problema está em ver todas as suas amigas saindo com seus namorados e falando sobre camisinhas quando eu nem mesmo sei direito oque é um beijo.
Jogo mais água em meu rosto, estou ficando paranóica.
Quando volto para a loja, avisto minhas amigas sentadas em uma mesa comendo e bebendo com mais 4 pessoas: Seus respectivos namorados Éric e Ray jundo a Oliver e...Chuck Parson?!
Desvio o olhar na mesma hora, não posso me sentar na mesma mesa que Chuck Parson!!! Não posso ficar a poucos centímetros do cara que estragou minha vida!!!
Respira, inspira.
Respira, inspira. Mantenha a calma.
Eu já ia dar meia volta para voltar para o ônibus e espera-las lá mesmo quando Oliver percebe que ia me aproximar da mesa e grita, abanando a mão: -Hey Margo! Venha aqui!
Gelo. Não tenho escolha, dou um sorrizinho sem graça e me dirijo em direção a mesa.
–Aonde pensava que ia, moçinha? — Hannah cutuca minha barriga com o dedo. — Ia deixar suas melhores amigas sozinhas?
Pego uma cadeira da mesa ao lado para sentar-me ao lado dela enquanto dou uma resposta esfarrapada: — Vocês não estavam sozinhas, tem os garotos! E eu estava com sono, queria cochilar nesse pequeno intervalo…
Estou exatamente de frente para Chuck e meu coração dispara. Sinto que ele me observa, mesmo sem olhar em sua direção. Aliás, olho para meu colo e sem jeito ponho minhas mãos desconfortavelmente sobre a mesa com os dedos entrelaçados, meu tronco está totalmente ereto, não consigo parecer calma.
A conversa rola solta e espontânea na mesa, mas simplismente não consigo prestar atenção. A única coisa em que conseguia me concentrar era meus próprios pensamentos. Já fazia anos, mas eu me lembrava muito bem daqueles gélidos olhos azuis penetrando na minha mente junto a todo o estrago que ele causou. Será que Chuck tinha ideia do impacto que aquilo tinha causado na minha vida?
–Margo? — Savanah estalava os dedos na frente da minha frente. — Terra chamando. Saia do mundo da lua!
–Ah! — exclamo e volto a mim. -Eu só estava...pensando.
–Perguntávamos sobre suas aulas de piano. — diz Ray.
Toda terça-feira a noite eu fazia aulas de piano. Tocar para mim era como relaxar a alma, sair do extress da rotina e apenas me desligar. Tocar musica nunca foi só simplismente tocar, era meu porto-seguro.
Antes mesmo que eu pudesse comentar sobre o tema, minha espinha arrepiou:
–A Margo toca piano? — perguntou Chuck. Sua voz era tão áspera e grave que era impossivel passar despercebida em uma discursão, por exemplo. Me lembro como se fosse ontem de quando pude sentir sua boca quente em meu ouvido sussurrando com essa voz sedutora.
–Toco. — respondi brevemente.
–Desde quando? — rebateu.
–Desde...sempre, eu acho.
–Se sempre tocou, porque nunca me contou?
Fiquei meio sem resposta.
–Porque não era importante. — menti.
Ele deu um meio sorriso. -Adoro pianistas.
Corei num vermelho tão vívido que se pudesse, coraria ainda mais por ficar daquele jeito. Ele gostava de me provocar! Poderia ter dito “Adoro piano”, mas não, ele gostava era de “pianistas”.
Percebendo o clima estranho que havia ficado na mesa após o elogio, Éric mudou de assunto:
–Já são 10:25, o ônibus parte daqui 5 minutos, acho melhor voltarmos!
Todos concordamos e nos levantamos da mesa. Da loja de conviniência a condução andamos em silêncio e quando chegamos lá apenas nos sentamos normalmente e continuamos a conversar.
Todos estavam animados para farrear a noite inteira nas baladas, praias, parques de diversão, piscinas e tudo mais, menos eu. Eu só queria cavar um buraco no chão e enfiar minha cabeça dentro.
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