Não me lembro como cheguei naquela posição, com ele me abraçando pelos ombros meio de lado e nossas cabeças encostadas uma na outra. Continuei andando e rindo. Ele devia ter contado uma piada, ou sei la. Éramos os primeiros da "fila" desorganizada que a nossa sala fazia quando voltada do intervalo ou das aulas livres para a sala. o bom era que todos se davam bem, então ninguém prestava muita atenção na gente, já que na verdade ele sempre fazia isso com todas as garotas. Mas ele fazia poucas vezes comigo, isso. Eu queria olhar pra ele. Mas estávamos muito perto um do outro, não ia dar muito certo. Ele ainda estava rindo, então eu também continuava rindo. Não sei de que, não me lembro de nada antes de chegar àquela posição com ele ao meu lado. Mas devíamos estar voltando do lanche, porque eu não estava com fome. Ou deve ser por que meu estomago parecia quase flutuar. Coisa ridícula e clichê, eu sei, odeiam isso também. Mas foi o que eu estava sentindo na hora, não posso fazer nada. Eu ainda queria muito olhar pra ele. Não olha não olha... Então ele virou o rosto um pouco para o meu lado, encostando sua bochecha em mim. Eu ri de novo. Chegava a ser quase hilário, eu juro. Então eu olhei pra ele. Ele tinha olhado um pouco para o outro lado novamente, então eu conseguia ver um pouco do lado esquerdo do rosto dele. Que eu nunca tinha olhado tão de perto, mas enfim. O corredor estava quase no meio, o que significava que nossa sala estava perto, mas ele ainda não tinha me soltado, então não reclamei. Ele provavelmente me seguraria ate eu falar 'me solta Lucca vai começa a aula', como ele fazia com as meninas. O bom e que eu sabia (ou simplesmente queria pensar assim) que era tudo na brincadeira. Desviei o olhar um pouquinho e vi que o professor de matemática e a coordenadora/psicóloga de horas vagas estava la também. Na hora eu pensei 'vish', por que ela estava com uma cara meio brava meio espantada, mas tentando disfarçar o espanto, mas eu não percebi que ela olhava diretamente para mim, já que ela se virou um pouco para falar com o professor. O engraçado era que eu lembrava exatamente quem eles eram, sabia que eles eram bons e engraçados, mas eu não tenho idéia de qual eram os nomes deles. Então eu percebi que ele tinha virado o rosto de novo, então olhei para ele. o que foi um erro (tecnicamente), já que nossas cabeças ainda estavam grudadas porque o braço dele ainda estava segurando meus ombros. E foi muito rápido, mas pra mim pareceu durar alguns segundos a mais do que deveria. Eu vi o rosto dele. Ate ai ok. vi os olhos primeiro, que me olharam por um segundinho sequer, e depois se fecharam. Ainda não lembro como cheguei naquela posição, com ele. Então olhei rapidamente para sua boca. Ela estava muito perto, tão perto que a beijei. Foi a primeira vez na vida que eu tomei coragem mesmo. E fiquei com ódio de mim mesma, porque durou menos de um segundo. Mas não importava, afinal, eu beijei o Lucca. Só que por causa disso, eu quase morri de vergonha. Ele deu uma risadinha. Acho que não era pra eu escutar, mas eu acabei escutando. Ate uns dias atrás, eu acreditava que eu não ficava corada. Por que eu nunca antes tinha ficado corada, e eu acreditava que era porque eu era uma sem-vergonha, ou que minha pele era um pouco morena, por isso não tinha o azar de conseguir a proeza que e você ficar vermelha como um pimentão. Ate uns dias atrás. Mas, acontecendo o que aconteceu, e tendo falado o que minha amiga falou, eu já não acreditava que eu não era capaz de ficar vermelha. e eu devo ter ficado um pouco vermelha, não nego. Pois fiquei com medo mesmo, e olhei pra baixo. Tudo estava saindo bem, ele não falou nada, como deveria ser então eu, fazendo o papel de constrangida e confusa (mentira, eu estava mesmo daquele jeito), sussurrei um desculpa que ele provavelmente só escutou, pois ainda estava com a cabeça grudada na minha (QUANDO ELE VAI ME SOLTAR, MEU PAI AMADO?!). Mas ele escutou. E ele respondeu com a pior coisa possível que ele poderia responder. Ele realmente acabou com o meu dia ali, somente naquelas nove palavrinhas sussurradas. Mas ele agiu como se nada tivesse acontecido, então eu também agiria. E foi o que eu fiz. Fiz um comentário irônico, e ri com ele. Como se nada tivesse acontecido.

*

Vou fingir que nada aconteceu. Nada aconteceu, já que ela também estava rindo do comentário que ela mesma fez, então não devia ter acontecido mesmo. Que estranho. Foi estranho na verdade, por que não foi como a outra menina... Claro né seu anta, a outra menina foi um beijo de verdade, com ela não. Foi um selinho, ou quase isso. Na verdade acho que aquilo não devia ser nem colocado como selinho, mas enfim. Eu ainda estava segurando ela. Pergunto-me porque diabos eu estava assim com ela. Mas ninguém ligava, era normal, éramos todos amigos a ponto disso, e ninguém achava estranho. Talvez porque eu, ela, e duas outras pessoas nos conhecessem desde a terceira ou quarta serie. Mas eu não lembro como são os nomes deles... Na verdade, nem o da menina que eu beijei antes, nem do resto dos amigos. Estranho mesmo. Eu só lembrava o nome dela. O professor de mat. estava na porta da sala e a coordenadora também. Nem percebi que eles estavam olhando para mim e para a menina. Passei por eles e entrei na sala, indo para o meu lugar, na parede, do outro lado da sala. Nem lembrei que ela estava abraçada comigo ainda, ate ela falar 'me solta Lucca', rindo. Eu ri também e soltei-a, só que fiquei com um pouco de frio onde ela estava encostada, quando ela saiu. Que estranho, eu normalmente não fico com frio.

De novo não me lembro de como cheguei ali, na sala da coordenação, com a menina do meu lado, tecnicamente, já que ela estava com as pernas pra cima do sofá azul e um pouco longe de mim. A coordenadora estava sentada na nossa frente, numa das cadeiras azuis. A porta do meu lado estava fechada, então deveríamos estar ali para uma coisa seria. O que será que ela queria?... O professor de matemática passou pela porta atrás da coordenadora, que levava a sala dos professores. Mesmo a porta estando fechado para eles não ouvirem, tinha a janelinha de vidro pela qual ele podia ver. Ele sorriu e balançou a cabeça. Estranho. O que tinha acontecido? Deixa-me pensa... Ah e, eu beijei a Anne. Cara, eu to com Alzheimer. Só pode. Como quase esqueci isso? Isso era pra ter acontecido, a tipo, três anos. Ela que queria, na quinta serie. Eu disse que tudo bem... Não me importava, eu acho. Não lembro direito. Mas ela parecia com medo, ou estar sendo obrigada a isso, quando me perguntou de novo, algumas semanas depois. Foi estranho, ela pareceu meio bipolar nos dias seguintes, hora triste hora pulando de alegria. Era realmente estranho. Depois de algum tempo ela pediu de novo. Não, ela não. A amiga dela e minha... Não lembro o nome, não adianta. Mas o que eu to fazendo aqui mesmo? Não lembro. Não lembro como cheguei aqui. Não lembro o que fiz no intervalo de tempo entre eu sentando na cadeira e eu acordando aqui com elas. Olhei para a Anne. Ela também não parecia saber o que estava acontecendo... Ela ta me chamando. Ta olhando pra mim, o olhar dela ta triste. Não triste como ela ficou quando estava meio bipolar. Comparado aquela tristeza, essa daqui era muito maior. Que estranho, que estranho. Ela é sempre tão alegre. Muito estranho. A coordenadora pediu para ela sair, ela levantou com dificuldade e saiu. Ainda vou descobrir o que houve com as costas dela e por que ela tem se sentado e levantado com dor de umas semanas pra cá. Se bem que ela parece melhor do que há umas duas semanas. Ela levantava da cadeira só porque era obrigada. Mas fazia uma cara de dor horrível para se levantar. E demorava um monte, também. Sempre tentando não fazer forca no lugar machucado, pelo que parecia. A coordenadora ta me perguntando alguma coisa. Eu não sei o que e, mas nego mesmo assim. Ela assente, e me fala que posso voltar para a sala. O que foi que eu neguei? Porque eu neguei? Eu sinto que não devia ter negado, mas algo no meu cérebro me fez negar, ali.

*

Que ódio. Estou chorando. Ódio, ódio, ódio. E mais, to chorando na frente da coordenadora, sentada naquele velho sofazinho azul. Porque estou chorando? Não me lembro... Só lembro que ela me chamou aqui... Então eu falei alguma coisa pra ela... O que era?

*

Era importante eu chegar logo la. Estava fazendo prova, eu acho. Mas não me lembro. Por que eu não me lembro, caramba? Tem alguém la. Na coordenação, tem alguém la. Esta chorando, eu acho. Dou ou para a diretora, conversando com a moca da recepção. Continuo andando, por que e importante chegar la tão rápido? Não me lembro...

*

Por que eu não me lembro? Eu sei que e importante. Eu tenho que lembrar... O que eu tenho que lembrar? O que ele me disse. Logo apos o beijo. O que ele disse?

*

O que alguém disse logo apos o beijo? Porque alguém estaria conversando com a coordenadora sobre isso? Espera, eu reconheço essa voz... É ela quem esta ali.

*

Importante, não importante, sem importância... Era algo assim. Começava com importância...

*

Ela estava falando do nosso beijo com a coordenadora. Porque ela faria isso? Sinto que menti. Por quê?

*

Não tem importância... É. É isso. Não tem importância, e mais algumas palavras. Que palavras eram? Por que eu não me lembrava...?

*

Não tem importância, ela diz. Tem sim... Sinto que tem importância. Porque tem importância? Eu quase...

*

...Não senti nada, também. Era isso, ele não sentiu. Ele devia ter sentido, era minha ultima chance. E agora...

*

Não tem importância, eu quase não senti nada também. Porque eu falei isso? Era mentira, eu sinto sim. Eu senti sim.

*

Agora ele vai me tirar à única coisa que minha mãe me deu, por que o Lucca não sentiu nada. Por que ele não sentiu?... Eu tinha certeza...

*

Eu senti, sim. Eu gostei. Foi bom, foi suave... Que gay. Não importa, foi mesmo... Ela parou de chorar. Dei mais um passo e consegui ver ela.

*

A coordenadora me olhou com pena e medo. Claro, eu estava começando a ser rodeada por água... Estava desaparecendo.

*

O que era aquilo? Não pode ser, eu devo estar louco. Água rodeando ela? Não, impossível... Ela estava desaparecendo.

*

Porque você não sentiu? Por quê? Agora e tarde, eu vou desaparecer. Eu conseguia ver ele, e sentir a diferença de calor para minhas lagrimas quentes e a água fria do mar.

*

Ela estava indo embora. O que ela era? Por que não me contou?... Eu amo ela. Eu sei que alguma coisa eu sinto por ela... Não sei se e amor. Mas é forte. Ela estava chorando.

*

Ele me olhava. Eu queria gritar com ele. Queria afogá-lo naquela água, que se enroscava em mim. Ele estava parado. Por que ele não fazia nada?

*

Ela desaparecia mais. Onde a água formava um casulo em volta dela, desaparecia depois de um segundo. Muito rápido. 'Eu te amei', falei pra ela.

*

Ele falou alguma coisa, mas eu não consegui escutar. Era para ele ter desmaiado. Todos que me vêem na transformação desmaiam. Porque ele complica mais ainda?...

*

'eu senti' falei pra ela. Ela sorriu. Um sorriso dolorido. Ela estava sofrendo. Então a água cobriu completamente ela, e eu não percebi que estava chorando ate cair ajoelhado no chão, estático. Eu a perdi. Perdi o amor da minha vida, que estava tentando me mostrar isso ate agora.

Eu me lembro de tudo, agora.

Notas finais
xD
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!