Sukeban
1 único
Havia uma garota que meus olhos seguiam com curiosidade. Ela estava sempre com pressa ou surrada; era uma típica delinquente de cabelos descoloridos e que usava como uniforme uma saia até as canelas. A primeira vez que a vi foi no clube de fotografia, peguei-a fumando na sala e a luz solar que atravessava os vidros das janelas fazia com que seu cabelo parecesse fogo. Ela deve ter conseguido entrar por conta de um descuido nosso de não termos trancado a porta e, provavelmente, aproveitou que não havia ninguém para fumar escondida. Ademais, eu tive uma sensação estranha ao vê-la, talvez porque era miúda e magricela. Mas a energia que exalava dela, sentada na mesa do professor com o cigarro pendido nos lábios, era forte e esquentava todo o interior daquela sala.
— O que tá olhando?
Corei por notar que a encarava e não dizia nada, mas antes que eu me explicasse, ela deixou o clube e somente o cheiro do cigarro ficara pra trás. Não deu tempo para perguntar seu nome.
Ela estava sempre com pressa.
Uma vez, no corredor, nos esbarramos porque ela veio correndo por trás de mim. Seu cotovelo pontudo bateu no meu braço e tropeçamos até cairmos juntas, lembro que eu carregava algumas papeladas que um professor pediu e que ficaram espalhadas pelo chão.
— Não olha onde anda?
E mais uma vez ela se foi antes que eu perguntasse seu nome. Naquele dia ela tinha um curativo no nariz.
Eu não conseguia entender o que sentia por uma pessoa completamente estranha. Tinha minhas amigas, mas nenhuma fazia com que meus olhos as seguissem e estudassem todos os seus movimentos como eu fazia com aquela garota. Muitas vezes eu a via correndo no pátio lá do terraço e inclinava o meu corpo além do parapeito só para tentar pegá-la com minha mão.
Fiquei doente.
Não compreendia o que se passava comigo, mas disse a minha mãe que não iria mais a escola quando me parecia um ambiente tão hostil. Minhas amigas telefonaram para mim, uma delas até chorou, mas eu disse que não voltaria.
— Não vai sentir falta da gente?
Com essa pergunta, notei que nunca as amei. Eu não me sentiria triste se eu parasse de vê-las todos os dias. Mas talvez eu sentiria falta da delinquente que movimentava meus olhos castanhos.
Certo dia fiquei tão doente em relação às minhas paranoias, que passei a ficar de cama. Numa noite, alguém tocou a campainha e ouvi minha mãe dizer muito feliz “ela vai adorar te ver”, não, eu não vou adorar. Eu não queria uma visita de uma amiga da escola naquele momento, eu só queria desaparecer.
Ouvi a porta do quarto sendo aberta e fechada, não pude ver quem era, porque olhava para a parede e até me senti mais aliviada por ela não ter ligado a luz do quarto. Não queria que visse meu estado e depois contasse para o resto do grupinho.
Mas eu não esperava que ela deitasse ao meu lado e pressionasse seus seios nas minhas costas, seios pequenos por sinal. Sentia também o seu hálito na minha nuca e me arrepiei quando ela passou a roçar seus lábios na minha pele.
— Quem é?
Perguntei, pensando que não podia ser nenhuma das minhas amigas, não quando apalpava um dos meus seios e fazia com que eu soltasse um gemido. Elas achariam isso nojento, por isso concluí que seria a delinquente.
Mas, de repente, ela se foi. Não sentia mais nada me tocando e nem o calor de seu corpo me envolvendo.
Nem mesmo a sua energia espremida naquele quarto.
Até em sonhos, ela não me dizia o seu nome.
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