Notas iniciais
bom, fiquei um bom tempo sem escrever, e realmente nao estava no humor completo, pode ter ficado meio bosta, mas mesmo assim esta ai, quando eu estiver bem eu melhoro.

— Murilo...

O que você faz quando um ser sombrio aparece no seu computador? Ou melhor, como você se sente?

É algo assustador, meu coração acelerou, meus olhos se abriram completamente, minha mão começou a suar, minha respiração ficou ofegante e minhas pernas começaram a tremer. Se a simples aparência dele causou essa reação, quando ele falou meu nome eu praticamente me levantei e saí correndo do meu quarto.

A presença dele, por mais que não fosse tangível, era sensível e arrepiadora. Sua voz grossa e rouca chegava a reverberar nos cantos mais obscuros e secretos do âmago do meu ser, trazendo a tona todos os medos que eu tinha na infância e aqueles da minha adolescência, cada espaço disponível em minha mente para pensamentos foi ocupado com estratégias para puxar a tomada do computador sem aquilo ver, pois era assim que eu me sentia, como se ele olhasse para mim com tal intensidade que saberia a ação que eu teria antes mesmo de ela começar a ser executada. Aquele olhar via dentro de mim, meus pensamentos, meus sentimentos, meus medos e paixões, tudo, eu era uma folha branca com palavras escritas de forma clara na tinta mais preta, que ele lia com uma facilidade assustadora.

— Oi? — Minha voz foi dois tons abaixo do normal e tremida, não que eu pudesse ter evitado.

Ele demorou para responder, a morte faz cada coisa em seu tempo. Isso eu afirmo por mim, eu tinha certeza que aquele ser era a morte encarnada, com cada cicatriz e marca em seu corpo mostrando alguém que lutou contra a morte em si.

A cada segundo que passava minha ansiedade crescia, meu horror aumentava e minha esperança decaía, em proporções iguais. Quando sua voz finalmente veio, fazendo com que eu libertasse o ar preso em meus pulmões, a voz já naturalmente amedrontadora chegou misturada a um toque de imperialismo, como se ele me ordenasse a fazer alguma coisa.

— Nós precisamos conversar sobre Alice.

E mais uma vez minha cabeça foi preenchida com uma sensação de vazio, e eu pude ouvir... Não, eu não estava ouvindo, eu estava sentido o que aquele ser que queria expressar, quase como se seus pensamentos fossem reproduzidos em minha cabeça.

“Veja bem, Murilo, você já deve ter percebido que eu sou um ser que pertence ao lado da morte, para ser específico, eu sou um dos seres que seu povo chama de ceifadores; eu devo garantir que a vida de alguém dure o quanto deve durar, nem mais nem menos, e no fim levar sua alma para onde merecer.”

As palavras, ou melhor, o contexto que ele transmitiu para minha mente, veio de forma lenta o suficiente para que eu compreendesse e refletisse a cada frase, e depois de uma rápida pausa, e de perceber que eu já não tinha mais sentidos, pois não via nada, não tinha tato, nem mesmo ouvia alguma coisa, ele voltou a mandar quase que como ondas de rádio na freqüência que meu cérebro captava.

“Eu estou aqui pelo motivo de haver um desequilíbrio nessa equação. E esse desequilíbrio provém de Alice, que de alguma forma conseguiu se tornar uma entidade que se fortalece muito a cada pessoa que se mata por ela, ou então assiste aos vídeos e pensa sobre ela. Digamos que ela se tornou praticamente uma religião, mas isso você já sabia.”

Eu acenei mentalmente, ainda sem entender aonde ele queria chegar, mas lentamente me acalmando em relação ao contexto geral, ele não parecia querer me fazer mal, ao menos não no momento.

“Nós já tentamos de toda forma eliminar Alice, mas ela tem seus meios de permanecer viva, e investigando isso até o fundo, descobrimos que esse meio é você, Murilo. Da mesma forma que ela conseguiu se tornar algo tão poderoso, ela deixou uma parte disso em você, e essa é provavelmente a razão de sua conexão tão profunda com ela, e essa parte a impede de finalmente cair.”

Eu tenho certeza que nesse momento eu estava respirando acelerado, meu coração novamente estava batendo descompassado. Era óbvio o que aquelas palavras significavam, eu era a razão das mortes, não apenas da forma como eu pensei, em que eu havia enviado aquele vídeo, mas eu também era a fonte da vida-pós-morte dela.

Percebendo meus pensamentos, ele voltou a se expressar. “Se acalme, não estou aqui para levar você, até porque o seu tempo de vida ainda não acabou. Eu estou aqui apenas para alertá-lo sobre tudo isso e te dar uma proposta. Eu não posso falar sobre o que há na vida após a morte, mas a religião cristã acertou sobre o suicídio ser um dos fatores que leva a essa vida ser horrível, por isso as pessoas decidem por Alice. Mas caso você acabe com sua vida, por ter feito um bem ao equilíbrio planejado, podemos garantir que você será tratado com todas as honras possíveis.”

Pelo que pareceram horas aquelas palavras rodavam pela minha mente, e ele ainda continuava ali, sempre presente, esperando minha resposta. Quando eu senti que poderia voltar ao normal, ou ao menos o máximo normal permitido pelos conflitos dentro de mim, e disse que compreendia, e então tudo voltou ao que era antes, eu estava na frente do computador e o horário não havia mudado.

Respirei fundo e me levantei, andei até a cama e procurei todas as formas de me imaginar sumindo, talvez alguma delas funcionasse e eu simplesmente nunca tivesse existido.

— Você prestou atenção no que ele disse? Você sabe que ele é um mentiroso certo? — Aquela voz, naquele exato momento, me fez pular de susto, nada mais importava, eu apenas deveria fingir que não estava ali, que ela não estava ali, para que ela se fosse e eu pudesse pensar. Ela se aproximou da cama e eu puder realmente a sentir sentar ali, como se fosse corpórea agora. Então seu tom foi de boa garota se fazendo de má para uma total ameaça. — Olhe para mim e diga que você não acreditou no que aquele maldito disse.

Notas finais
eh, foi mal mesmo o cap bosta