Suicide Chain
6 Cigarros
Notas iniciais
A voz dela ecoou em minha mente por muito tempo, e a cada vez que ela falava, fazia crescer o ser sádico dentro de mim. E esse ser buscava prazer, queria prazer, ele necessitava se satisfazer. Passei dias vendo os suicídios sem parar, eu me lembrava de cada um deles, seus rostos, suas histórias, seus fins. Alguns preferiam falar de suas famílias, e como eram suas vidas na escola.
Eu não mais ia para escola, e muitos amigos também não, algo sobre ser uma doença contagiosa, e, principalmente, medo.
Só comia quando era necessário, mal tomava banhos, minha garganta ficou seca pelo grande tempo que passei sem falar, e nada da minha vida mais existia além daquele site, daquelas pessoas, e obviamente, a sempre constante terceira voz em minha cabeça, me clamando para si, para seu mundo.
Dez dias atrás eu finalmente acordei. Meu "segundo eu" deu espaço para mim, e eu pude finalmente me libertar. Eu estava magro, quase como um moribundo, eu estava sujo, fedendo, e não via a luz do sol pelo que pareciam décadas, por isso eu estava mais pálido que o comum.
Por isso eu decidi sair de casa. Tomei um banho, comi a maior refeição de minha vida, para alegria de minha mãe, e fui para o shopping da cidade. Chegando lá entrei na primeira livraria que achei e simplesmente me sentei numa poltrona, agarrando o primeiro livro em meu alcance e comecei a ler, com meus fones de ouvido na música Breathe Me.
Duas horas depois, perto do fim do livro, que tem 247 páginas, um dos vendedores me interrompeu, dizendo que eu não poderia ler um livro todo ali, então eu o fechei e coloquei sobre uma bancada, e, ironicamente, foi então que vi o título: "Ninguém Morre Sozinho"
Saí dali direto para uma daquelas pequenas estações que vendem sorvete, e comprei o primeiro que vi, uma casquinha de chocolate com uma cobertura sólida, que era muito bom, paguei e saí.
Sem saber o que mais poderia ser feito naquele dia, terminei o sorvete sobre o calmante sol de umas das áreas não cobertas do shopping. Uma mulher estava ao meu lado, e fumava um cigarro. O que eu estava fazendo não tinha motivo, mas eu pedi a ela um cigarro e tentei fumar aquilo. Eu puxei a fumaça com toda a força que tinha, e me engasguei completamente, passei quase um minuto tossindo, e mesmo assim eu continuei a tentar, continuei até conseguir, a mulher já havia saído dali, por isso tive de pedir para outras pessoas que estavam no local por um pequeno cilindro branco de prazer.
E assim eu tornei aquele meu hábito e vício, e fumar me ligava ao mundo real, deixando a segunda personalidade de lado. Eu assistia aos vídeos de manhã, e a tarde ia ao shopping fumar. Via raramente alguns dos meus antigos colegas de classe, e descobri que dois deles já haviam se matado, além de muitos outros alunos das outras salas.
Terminei minha maratona aquele dia e voltei para casa, e, ao contrário da rotina, fui olhar no site para ver se encontrava alguns da minha escola.
Depois de algumas páginas de vídeos eu vi, o nome Merilan Cristopher pulou em meus olhos. Ela era uma garota estudiosa, estava no último ano, e iria cursar medicina. Eu me lembrava dela, pois um dia ela me ajudou com meus deveres atrasados e também com uma certa carência que eu estava sentindo.
Ela sempre tinha um livro na mão e costumava escrever no tempo livre. Apesar de ser focada nos estudos, ela fora mal tratada por um playboy qualquer no início da adolescência, e por isso cultivava o hábito de sair e namorar muito. A falta de interesse do pai por ela era compensada pelo super-protetorismo da mãe, e assim eram os dias da garota, as vezes nos livros, as vezes em outras camas.
Merilan, a garota que um tempo já havia ocupado minha cama, se matou da forma que muitos adolescentes sonham, mas não realizam. Ela cortou seus pulsos tão profundamente que o sangue jorrava deles, e inundava suas roupas. Apesar disso sua expressão era serena, como alguém que encontrou a paz, e eu acredito que foi isso que aconteceu com ela, e muitos outros, ao encontrarem a pessoa que, à mim, só trazia pesadelos.
Naquela noite não foi diferente. Eu dormi após uma janta comum e um banho. Deitei em minha cama como qualquer ser humano comum, mas eu sabia que nenhum daqueles outros sete bilhões de pessoas tinha uma noite como a minha, pois eu era assombrado pelo fantasma de meu passado, e a cada pesadelo ela me obrigava a me lembrar mais disso, e cada vez mais meu antes enevoado passado se tornava claro como água em minha frente.
Não que eu devesse me orgulhar dele.
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