Suicidal Desire
1 Capítulo Único- Incerto.
Notas iniciais
A respiração entrecortada, por hora era a única coisa que poderia ser ouvida. Agora o recinto claro com paredes descascadas era preenchido com os gritos da multidão que observava a atitude insana de um garoto iludido. Espremia uma carta entre seus dedos, nelas contidas todas as palavras que nunca conseguiriam ser ditas.
As lágrimas se mantinham em seus olhos, antes apaixonados, agora cheios de ódio. Ódio de si mesmo por ter sido tolo, ódio por ter sido usado e desiludido. Ele era uma pessoa podre agora, e todas as coisas podres devem ir para a lixeira.
Balançava o corpo lentamente no parapeito da janela de vidro, agora em cacos que perfuravam algumas áreas de seu corpo, esperando o momento exato para acabar com aquele seu sofrimento estupido. Ele não sentia dor, não sentia nem um mísero formigamento, pois a verdadeira dor estava em seu peito, latejando e suplicando pela própria morte.
Seu coração? Esse estava em estilhaços igualmente a janela em que se perdia.
Suspirou duas vezes olhando para o céu cinza acima, ele se manteria firme até o último segundo. Faltava pouco, muito pouco para tudo aquilo acabar, apenas precisava que ele aparecesse e presenciasse o seu fim. O fim que ele havia causado.
Seus orbes caminhavam pelas ruas cheias de pessoas, buscando-o. Os detalhes eram cada vez mais notáveis, para ele.
O vento que soprava contra o balanço, fazendo-o se remexer, as mães que passavam mais depressa, tapando os olhos dos filhos... Sua mão livre caminhou por entre os grãos de vidro espalhados pela superfície de onde estava sentado, auxiliando-o a se levantar, no exato momento em que seus olhos encontraram os de Louise.
Era uma sintonia perfeita, e uma ironia desconexa. Seus pés estão cada vez mais perto do ar. Não continue caminhando, ou seu fim logo se apresentará a ti.
Continue lutando, não de mais passos. Não se aproxime, não...
E então, todos ali presenciaram a queda de um anjo, mas esse não partira dos céus, e sim do inferno. Um anjo com asas quebradas, que ainda não aprendera a voar.
Sirenes, sangue e horror.
Saiam de perto, ele precisa ser socorrido imediatamente.
Era tão irônico, o causador de sua ação fora o único a lhe ajudar, justamente por ser o único que poderia fazê-lo. Reconhecido como Thomas Jewels, de 17 anos. Câmeras e matérias, imediatamente retratando sua escolha suicida. Sua última visão, atrapalhada por borboletas e paranoias. Insano. Mas quem pode culpa-lo? Insano... Cada vez mais insano. Seus olhos cerrados, e batimentos cardíacos quase inexistentes.
Apagou-se do mundo, antes ouvindo a voz de Louise chamá-lo, carregando-o para um mundo irreal. Recordações... Recordações sobre a tarde que planejava dizer tudo o que sentia para Louise e foi surpreendido. Recordações sobre a desaprovação de sua mãe quanto sua orientação sexual. Menosprezado, desentendido. Jogado fora.
Sim, ele costumava criar coragens lendo letras de música.
Elas diziam para ele ser forte.
Elas diziam que ele não precisava temer.
Droga, assim como todos os que o cercavam sequer a música o compreendia.
E foi por esse motivo que ele preferiu desfalecer no silêncio. No silêncio gritante de seus pensamentos.
Pensamentos o cercavam mesmo na inconsciência.
Nem o fim poderia o livrar daquilo, e sua falsa existência era incerta...
Algo lhe vem à mente.
Louise lhe vem à mente.
Você está condenado a eternidade, meu caro.
Foi em uma noite de quinta-feira que tudo começou. À porta de sua casa, Thomas tocava diversas e diversas vezes a campainha, ansiando que Louise o atendesse quanto antes para que assim acabasse com tudo aquilo.
Eles estudavam juntos, e era muito raro que um dos dois não comparecesse, mas o objeto de fascínio do outro acabou por fazê-lo, preocupando-o.
Com uma mochila nas costas e uma expressão preocupada, Thomas se apressou em dizer que precisavam conversar.
Foram cinco anos de uma paixão reprimida... Ele se sentia como se fosse explodir caso não lhe dissesse logo.
O fim do romance com Jana. Fora esse o motivo para que ele não comparecesse, e esse o motivo que o encorajou a fazer o que fez.
Fora um beijo fraco, que logo se tornou violento. Seus corações trabalhavam de forma desconforme, enquanto contornavam com possessão a boca do companheiro.
O ofego de quando se afastaram era impossível a ser contido, e assim o fizeram, jogando contra a face do outro um ar quente e olhares vestidos por confusão.
–Não... –Foi o que Thomas disse, antes de observar o corpo desnudo do garoto que tanto amava aproximar-se do próprio.
Apenas uma noite de sonhos, e logo acordou, desesperado, apressando-se para voltar para casa.
Era um curto caminho, moravam perto um do outro, em uma distância de três ou quatro casas, nada relevante, porém o caminho foi traçado com lentidão pelo garoto que ainda não acreditava no que estava lhe acontecendo.
Pequenos e calmos raios solares surgiam do céu até então escuro. Foi a última visão que teve antes de assistir a porta da frente ser aberta pela mãe, com uma feição preocupada.
–Entra logo. –resmungou ela, dando-lhe espaço. –Onde esteve, garoto?
–Mãe, eu tenho dezessete anos! Eu sei me virar sozinho, não acha?
–Onde esteve, garoto? –Elevou o tom, jogando-o contra a poltrona da sala.
–Na... Na casa do Louise.
Um silêncio atormentador invadiu os ouvidos maternos...
Aquelas marcas no corpo do filho... Aquele sorriso patético... Aquele cheiro.
–Não me diga que...
–Me desculpe, mãe. –Tropeçou entre as palavras, abaixando o rosto. –Eu não queria te decepcionar, é só que...
“Eu o amo.”
Sua voz ecoava na própria mente, depois de dizer aquilo. E despencou com uma forte pancada, sendo tomado de sua realidade.
Mais tarde, ainda naquele dia acordou, percebendo a casa excessivamente silenciosa.
Gritou pelo nome de sua mãe, mas a sua voz era abandonada.
Gritou pela irmã, mas... Por que o fez se ela já está morta?
Elas haviam o abandonado... Definitivamente o abandonado.
E o garoto em que esperou se refugiar assustou-se quando por descuido deixou que o outro visse seus lábios encontrando os de outra pessoa.
E aquela página vazia, em que escrevia uma carta ridícula que nunca poderia ser entregue a alguém foi levada com ele, quando ele saltou daquela janela estúpida.
E tudo o abandonou, e ele se sentiu sozinho novamente.
Abriu os olhos, cegos pela claridade.
Os que o cercavam fitavam-no com preocupação, e esses eram médicos.
Ao seu lado, o destruidor de sua vida, Louise Liendson.
–Você! –Gritou, aguçando seus sentidos.
Liendson o repreendeu com o olhar e tentou lhe acalmar, mas era inútil. O outro estava em berros, pedindo que se afastassem.
Ele tentava se mover, mas não conseguia. Havia algo morto nele.
Algo morto, além de seu coração.
–A culpa disso é sua... –Resmungou, deixando escorrer uma lágrima.
–Mas eu não te fiz n...
–Ele está em choque pós-traumático. –Anunciou o médico responsável por todo o procedimento, pedindo que o seu auxiliar anotasse tudo em uma caderneta hospitalar. –Pode ter lapsos na memória. O remédio também possui efeito alucinógeno.
As informações, aos poucos eram digeridas pelo cérebro que trabalhava com lentidão.
Alucinações... O homem ao seu lado...
–Esperem! –Gritou. –Louise, aquilo realmente aconteceu?
E fato por fato foi narrado e ouvido, gerando espanto e uma negação à pergunta de Thomas.
Pobre Thomas, esse nunca entendeu se sua história fora apenas uma alucinação, ou se todos à sua volta preferiram esconder a verdade dele. Também nunca conseguiu se manter perto dos amigos e família, isolando-se assim que recebeu alta.
Isolado... Anos isolados... Anos isolados, mais que tudo desperdiçados, apenas para voltar a ser o tolo que sempre foi.
Seus pensamentos são suicidas. Seu corpo é morto.
Ele não se movia, na noite em que acordou ao lado de Thomas. Nem ele, e nem o seu coração.
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