Se eu fosse exatamente como alguns anos atrás, anos em que eu não precisava deixar de viver minha vida fútil, eu definitivamente estaria com um sorriso estampado no rosto neste exato momento.

Ao olhar por minhas vagas lembranças, uma onda de arrependimento passa por cada célula de meu corpo.

Tola. Iludida. Ingênua. Isso era o que eu era. Continuo sendo mesmo depois de tanto tempo indagando o porquê de a razão ter me abandonado.

O pesar da consciência por ter cometido um ato indesejado... Eu não deveria ter me deixado levar por meras palavras, mas como eu negaria a meu coração sendo que suas batidas eram mais altas que minha voz?

Tola. Iludida. Ingênua. Enganada!

Mais um adjetivo para descrever minha incapacidade de sequer levantar a cabeça outra vez, literal e figurativamente.

Não havia nada mais no quarto bagunçado onde eu me encontrava sentada no chão, contra a parede e abraçando as pernas – o rosto escondido nos joelhos. No carpete rosado encontravam-se infinitos cacos de diversos tamanhos caídos de um espelho. O espelho quebrado ainda segurava alguns pedaços trincados e estes mostravam meu reflexo.

A vontade de dar outro soco no objeto, até ele quebrar-se completamente, era imensa, assim não mostraria-me a aberração que ando sendo ultimamente.

Aberração. Mais um adjetivo.

Sobre a cama, o edredom em uma desordem indescritível era coberto por inúmeras fotos rabiscadas de preto e de retalhos pequenos de alguma fotografia ou outra ainda não rabiscara.

A luz do sol poente iluminava bem as paredes esverdeadas do quarto e exibia perfeitamente cada mancha de sangue na parede – manchas com formatos de mãos. Sangue da tentativa mal sucedida de um suicídio estava respingado pelo carpete, formando uma grande mancha vermelha ao lado de meu corpo.

Minha mão, revestida pelo pano de uma camiseta velha, estava intacta em meu colo. Sangue fora jogado fora num ato mal pensado. Talvez se eu tivesse cortado o antebraço seria melhor, não teria que agüentar a dor aguda de um ferimento profundo.

Quantos mais ferimentos eu teria que agüentar? Como se já não bastasse os vários buracos em meu coração? São feridas que realmente não se fecham. Nunca se curam. E para piorar, a dor é insuportável. Lágrimas nunca param de escorrer pela minha face, e parece que se elas cessassem, eu iria acabar sentindo falta.

Não tenho sossego, nem quando durmo. Meu sono é perturbado por pesadelos tremendos e as dores dele acabam se tornando reais. A água do banho já não tira a tensão do corpo como antes e sempre parece que falta ar para preencher meus pulmões.

Nenhuma distração me faria melhor do que eu já não estou, mas era preciso terminar o ato iniciado. O meu andar sobre os joelhos prejudicou ainda mais a dor, já que os cacos do chão ralaram e cortaram minha pele.

A banheira encontrava-se cheia e a água quente. Tirar os pijamas velhos e curtos não foi um sacrifício, mas desenrolar a camiseta da mão, dolorido. O calor da água foi o bastante pra me lembrar de mais dor. Era como o calor de um corpo,daquelecorpo em especial, mas não tão aconchegante quanto braços macios a minha volta.

E talvez tenha sido assim como o momento mais desejado se tornou realidade. O calor daquela água era tudo o que eu mais precisava naquele instante e isso já foi o suficiente para eu prender a respiração. Afundei com a maior leveza e graça possível — meu fim não podia ser trágico – e, sob a água, deixei com que meus pensamentos me levassem através do impossível. Ar já não faltava, havia se esgotado. Tudo ficou mais fosco e escuro. Não havia mais calor, muito menos frio. Apenas... Morte.

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