Suggestions
1 Capítulo 1
E quantos segundos nas horas de um dia nós perdemos?
— Que barulho foi esse? — pergunta com sua voz meio rouca, do outro lado linha.
Não deveria ter escolhido o orelhão da frente de casa. Se eu tivesse ido naquele perto da farmácia ela não teria ouvido.
Observo o movimento da rua. É engraçado que a cidade a antítese da minha casa; tudo seguindo o seu roteiro. A pessoas mais cuidadosas já se trancaram em suas casas. O vento sopra tranquilamente. Entretanto, dentro da casinha cor de abóbora, do outro lado da rua, o caos persiste. Posso ouvir os copos se quebrando. Ele não deveria ter bebido tanta vodca.
O som é horrível. Ela não deveria ouvir.
— ele está quebrando tudo de novo. Pra variar. — estico o fio do telefone, até que eu possa me sentar no meio-fio e descansar as pernas.
— E da última vez sobrou alguma coisa?
— Sei lá, acho que só aquelas baixelas de porcelana, que eu guardava no armário, de baixo da pia. Ele começou a beber depois que eu surtei, por causa de uma garota que eu o vi paquerando ontem, perto da biblioteca.
Ela ri. Não deveria
A brisa fria passa pelas minhas pernas nuas, levantando o vestido.
— É sério, Verbena. Preciso da sua resposta, sabe.
— Eu sei, Louise.
— Então você sabe que tem que fazer sentido. Porque se não fizer, pra que vai servir.
— Não sei, Lô. Tô pensando ainda.
Ouço seus suspiros — me parecem um tanto entediados — do outro lado da linha. Sei que ela quer me ajudar. Verbena é a única pessoa que me resta.
— minha vida está espatifada — choramingo, não consigo respirar direito — minha casa tá virando um campo de guerra.
— meu Deus do céu! Não chora, Louise.
— eu estou aberta sugestões porque nada que eu tento dá certo. Que merda! — grito, tremendo de raiva.
As coisas não deveriam estar desse jeito
— tá bom, eu vou pensar em alguma coisa. Mas não chora, tudo bem?
— tudo bem. Vou fazer o que, né? Até porque no final do dia a vida é uma lição. Eu tenho que ir agora. Minhas unidades já foram quase todas embora.
— Tudo bem, pudim. Boa noite. Amanhã eu chego aí — ela responde e desliga.
...
Agora, o que sobrou já está organizado no lugar. Sentada à mesa, fecho os olhos e tento me lembrar de antes desse tormento começar. Eu era livre e insatisfeita com a minha felicidade. Estava tudo de boa, mas eu me achava insuficiente. Então apareceu ele. Felipe, com aquele jeito esquisito de me olhar. Me senti profundamente atraída — mais por seu cabelo desgrenhado, na verdade. Eu só precisava de alguém que me tirasse da rotina. Bem, ele me tirou, mas não era para quebrar minha casa toda e tentar me bater. Tudo estava tão bem antes dele começar a grana toda em vodca. Tudo estava tão perfeito antes dele se mudar para minha casa.
Tudo ilusão.
Agora tenho que esperar a tarde toda, quando Verbena chegar, para poder pensar sobre as suas sugestões. Ela tem a resposta de como me livrar disso tudo. Eu sei que tem.
Ela é a minha salvação
...
Me encolho no sofá, já cansada de tanto limpar. Às vezes eu sinto que eu só preciso ficar sozinha e quieta. A tv não tem nada de interessante. Eu só quero dormir em paz. Verbena chegará
E atrapalhando minha calma, ele aparece. Todo descabelado, fedendo a cigarro.
— Por que você tá assim comigo? Você é tão fria. Olha a zona dessa casa.
É mesmo? Além de tentar roubar meu coração, a única coisa que ainda posso chamar de minha, quer me fazer de empregada.
— Cara, me deixa em paz. Eu só quero ficar aqui quietinha, posso? — resmungo, puxando o cobertor sobre minhas pernas.
Então, por que raios ele não pode ver isso do meu ponto de vista? Ele não pode entender que ver seu rosto tão, tão perto me dá agonia. Eu só preciso que ele seja paciente. Não que me bata.
— Eu mando aqui, Louise. Você vai ficar em casa e limpar isso tudo.
— Mas que droga! — explodo — não tá vendo que eu preciso do meu espaço. Você anda dando mole pra todas as garotas do campus, e eu ser sua empregada aqui em casa? Escuta aqui, mande aquela garota que tanto te liga, esfregar suas roupas no tanque de lavar roupa. Você que quebrou a casa inteira. A minha casa. Na casa que você chegou de convidado cheio de folga, e não quis mais sair. Você não manda aqui cosa nenhuma!
Não vejo suas mãos se aproximarem do meu pescoço. Eu só sinto o ar quase ir embora. Ele vai me matar. Seus olhos arregalados injetados de raiva, me encaram. Eu o empurro com os pés, com o que me sobra de força. E então eu apago.
...
— Você deveria joga-lo pela janela, não acha?
Verbena prende seu cabelo castanho enquanto abre uma das cortinas.
— Então essa é a sua sugestão? — minha voz está mais rouca do que o normal. Dói para falar. Dói até para respirar.
— Não. Na verdade eu ia dizer pra você chamar a polícia. — diz ela, agora sentando na beirada da cama.
— Olha, eu não sei se fui eu ou os sentimentos dele. Não sei. Acho que provoquei aquilo tudo. Não vou chamar a polícia.
— Olhe para o seu pescoço, não acho que você fez isso sozinha. E se fez, eu acho que devemos te internar, Lou.
— Não sei — digo, deitando novamente — eu quero que isso acabe.
Porque eu só fiquei em silêncio, enquanto observava o meu mundo explodir
Por que não pude ter visto isso tudo pelo seu ponto de vista? Não deveria ter acabado assim. Era para termos tido paciência. Sentado e conversado, como pessoas normais. Mas não. Fiz tudo errado e agora minha vida está estraçalhada.
...
— Fica longe de mim, Felipe. Tá vendo o que você fez? — grito, enquanto ele se aproxima mais e mais.
— Louise, por que você fez essa bagunça toda comigo? Eu não era assim, olha o que você me transformou?
Não há para onde correr. Ele cheira a álcool e seu corpo é muito pesado, em cima de mim. E eis que surge uma ideia. Minha única saída. Verbena não está aqui para me ajudar. Somos apenas nós dois.
Eu o empurro contra a janela frágil. No começo, ele até tenta me puxar, mas por fim, ele se junta a chuva de vidro quebrado, no jardim.
...
— Louise! — o grito de Verbena ecoa pela casa, avisando sua chegada — o que desgraça você fez?
Desço a escada um pouco vacilante. Demoro alguns instantes para terminar de absorver o que aconteceu, há algumas horas. É hora de encarar os fatos.
— Pois, aceitei sua sugestão. — digo, dando um beijo em sua bochecha — eu o joguei pela janela. Agora estou aberta à mais sugestões.
De início sua expressão é um pouco confusa, mas aos poucos, um sorriso divertido brota em seus lábios.
— Hm... Então, agora vou lhe sugerir um sorvete de passas ao rum.
Fale com o autor