Sugar

1 Capítulo único


Nico nunca fora muito fã do Natal. Não tinha certeza do porquê. Mas a data lhe trazia uma espécie de melancolia, que provavelmente vinha de sua vida antes de sair daquele hotel. Porém, não era de seu interesse descobrir a causa de tudo aquilo; sentia que, se soubesse, seria pior.

Apesar de ser bem sucedido em ignorar quase todos os Natais, naquele ano não conseguiu dizer não à Hazel quando esta tentou arrastá-lo para as compras natalinas. Sabia que ela provavelmente não iria insistir se ele dissesse que não se sentia bem para toda aquela festividade, mas preferiu acompanhá-la.

Ela tinha decidido fazer suas compras em Miami, que provavelmente era um dos únicos lugares dos EUA não atingidos por tempestades de neve naquela época do ano. Estava empolgada comprando lembranças por várias lojas, sempre pedindo a opinião de Nico em diversas coisas, mas nunca era respondida com a mesma empolgação.

— Você está bem? — ela perguntou quando estavam tomando capuccino em um Starbucks.

— Eu não sou muito fã do Natal — Nico admitiu dando de ombros.

— Você não precisava ter vindo então! — Hazel contestou, silenciando-se em seguida. Nico não replicou, apenas tomou mais um gole do seu cappuccino. — Bom — ela disse se levantando após um tempo —, eu não vou te obrigar a fazer algo que não lhe agrada. Você pode ficar por aqui, eu estou terminando minhas compras de qualquer maneira. Volto daqui uma hora, pode ser?

Nico aquiesceu e Hazel lhe deu um sorriso confortante, enquanto se levantava e saía da lanchonete. O garoto resolveu ficar ali por mais um tempo; se tivesse sorte, as pessoas simplesmente lhe ignorariam pelo fato de quase se dissolver nas sombras.

Ficou sentado pelo que pareceram ser horas, extremamente irritado pelas terríveis músicas natalinas que tocavam no rádio. Estava quase decidindo sair dali e encontrar Hazel depois, quando um grupo de menininhas, de no máximo cinco anos, entrou pela porta da lanchonete, com bacias de doces em formato de bengala nas mãos. Todas vestiam vestidos idênticos de cor vermelha com detalhes em verde escuro, e tinham o cabelo preso em um rabo de cavalo. Estavam aparentemente acompanhadas por uma freira, que entrou por último e corria constantemente os olhos de uma para a outra.

São de um orfanato, provavelmente, Nico pensou. Sua atenção fora logo desviada das garotas e voltou a olhar para o copo vazio de cappuccino.

— Quer um docinho? — ouviu uma vozinha lhe perguntando.

— Não, obrig... — Sua voz falhou quando olhou para a garota. Ela não era mais alta que a mesa, tinha a pele branca e os olhos negros, assim como os cabelos, que eram ondulados.

Assim como Bianca.

Não era só a semelhança física, porém. Algo dentro de Nico dizia que era Bianca a garota que estava agora na sua frente lhe estendendo um balde cheio de doces com olhinhos pidões. Ele tinha certeza que era Bianca. Podia confundir outras pessoas, mas ela nunca lhe passaria batido. Ele tinha plena certeza que era o espírito de Bianca dentro daquele minúsculo corpo de garota de cinco anos.

— E aí? Quer ou não? — ela insistiu, esticando o balde ainda mais.

— Sabe, eu vou mudar de ideia — Nico remexeu no bolso, procurando por algumas moedas e quando as achou as estendeu pela mesa. — Vou querer dois.

O sorriso da garotinha se iluminou e ela rapidamente tirou duas bengalinhas de dentro do balde e as entregou para Nico.

— Obrigada, moço — ela agradeceu animada.

— Hey — ele chamou antes que ela se fosse —, como é o seu nome?

— Bianca — ela respondeu sem pensar duas vezes.

Nico não ficou surpreso. Já imaginara que ela responderia algo desse tipo.

— Bianca. De onde você vem?

— Eu moro num orfanato — ela disse com um leve tom de tristeza na voz.

— Mas está tudo bem em morar em um orfanato. Você... você vai ter uma ótima vida mesmo vivendo em um, ok? — Nico não sabia por que estava dizendo aquilo. Aquela era só uma garotinha qualquer cujos pais provavelmente morreram. Não era a sua irmã Bianca.

— Ok, Nico. Espero que adoce seu Natal com nossos docinhos. — ela disse com um sorriso e então deu as costas. Nico ficou surpreso.

Ele jamais tinha dito o próprio nome a garotinha.

Sorriu de leve e deu uma mordida no doce. Então, Bianca estava viva. Realmente viva. Renascera em um novo corpo e agora tentava ser ainda melhor do que já era. Isso deixava Nico mais aliviado, ao contrário de triste, como ele anteriormente imaginava. Bianca o deixara, isso não era mentira, mas ela estava por aí, adoçando a vida das pessoas, assim como um dia ela adoçara a dele.

Nico tivera a sua vez.

Agora o mundo precisava de Bianca.

Notas finais
Espero que tenham gostado! :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!