Sufocada

1 Mentes Presas


Será que poderíamos tomar um sorvete em frente à Catedral? Enquanto os pombos pousam, bicam algo no chão, os carros passam e as nuvens continuam seu trajeto sem se importar com nossas lágrimas.

O céu parece tão escuro. É só o fim da tarde e sempre chove lá pelas 17 horas. A cidade começa a se acalmar, quando for 22hrs e só haverá alguns jovens por essas ruas petropolitanas. As lâmpadas projetando suas luzes alaranjadas nas ruas e avenidas vazias. Eu já disse o quanto essa cidade fica linda nesse horário?

Mas vamos nos concentrar no agora. Vejo que tuas lágrimas caem no mesmo ritmo que as minhas. E se eu me aprofundar só mais um pouco no teu olhar, verei que nossos motivos são semelhantes.

O que fizeram com nossas matas? Onde está a verdadeira essência? Lembro-me quando corríamos em um campo esverdeado e saudável, enquanto apostávamos chegar a um ponto tão distante. Nesse trajeto ríamos, nos empurrávamos e tropeçávamos. Mas logo estávamos de pé novamente, pois ninguém queria ser a mulher do padre. Hoje as crianças permanecem sentadas em frente a uma TV ou tela de computador, com os olhos vidrados em bonecos e suas mãos em comandos quase que automáticos em suas mentes.

Você se lembra da última vez que correu em um parque?

Você se lembra da última vez que sentiu falta do vento batendo em teu rosto, do suor escorrendo pela face, do sorriso descontrolado brincando em teu rosto?

Lembra?

Pois me lembro. E sinto falta. Falta de quando eu vivia. Falta de quando eu tinha um pouco mais dessa tão procurada liberdade.

Eu acho que nesse tempo todo, a felicidade esteve presa dentro de nós. Criamos prisões para nossas próprias mentes, correntes para raízes imaginárias. Criamos um cercado em volta de nós, pintamos eles com a imagem do mundo lá fora e começamos a dizer que vivíamos ali.

Igual ao zoológico.

Você também se sente assim, não é mesmo amigo? Vejo teu olhar vazio. O meu também está assim. Vejo teus lábios ressecados. E o sorriso tão forçado sem sustentação. Não precisa sorrir para fingir que está tudo bem. Eu sei que não está.

Eu sinto.

Dê-me sua mão e vamos chorar nossas lamentações juntas. Eu sei que você se sente preso. Eu sei o quanto você queria apenas se libertar. Eu sei que parece tudo perdido, mas não está. Talvez em algum lugar, exista um canto longe de toda essa civilização tão alienada, tão controlada, tão automática. Mas enquanto nós não apostamos nossas corridas lá, deve haver algum campo aqui perto para deitarmos e sentir o sol batendo em nossas faces.

Talvez você queira ignorar aqueles dois pombos transando a nossa direita, se levantar e buscar dois sorvetes para nós. Mas se você quiser permanecer sentado nesta escada, observando o vai e vem dos carros e ônibus, também podemos. Se quiser falar algo, vou escutar. Se não quiser, permanecerei aqui.

Talvez quem sabe um dia, não poderemos improvisar nossa própria liberdade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.