Succubus : Esperança.
1 Capítulo 1 - A mansão da senhora Leona parte I
“Eu vou começar de uma maneira fácil de entender.
Estamos em guerra.
Precisamos de água, comida, de luz.
Vivemos nessa enorme possa de lama, há anos. Nos alimentamos dos restos. Somos tratados como vermes.
Nos roubam, levam nossas crianças e matam nossas mulheres em praça pública.
Dilaceram-nos até que achem nossas centelhas, e então roubam-nas, e nos deixam mais uma vez, sem esperanças
Estou dizendo aqui, e agora. Vamos tomar o que sempre foi nosso. E era nosso porque as divindades queriam assim. Não vamos deixar mais que nos subestimem, não vamos deixar, mais uma vez, que nos apaguem.” – Feiticeira nebulosa.
A noite era tempestuosa em Nonehill. Os galhos das árvores balançavam ao sabor do vento brusco. As gostas de chuvas eram grandes e pesadas, caiam nas janelas como se fossem pequenas pedras de gelo.
A lareira estava acessa, e todas as crianças estavam ao redor dela, contando estória de terror.
- Não sei se quero ouvir mais. – Disse uma das crianças.
- Não seja boba, é apenas uma estória, isso não existe de verdade. – Disse a mais velha dentre elas.
Uma freira se aproxima e então as avisa.
- Está na hora de dormir. Amanhã será um longo dia.
As crianças relutam, um pouco. Mas acabam cedendo ao sono e ao medo. Acompanhadas pela Irmã Dora, elas vão ao banheiro, escovam os dentes e são todas levadas ao dormitório feminino, onde mais vinte meninas estão prontas para dormir.
- Agora moças, está na hora da oração. Peçam a Deus, uma noite tranquila, bons sonhos e dispocisão para amanhã.
Todas elas se ajoelham ao lado direito de suas camas e fazem uma prece em silêncio. Então minutos depois, fazem o sinal da cruz e se acochegam em seus cobertores de lã e pena. E então a luz se apaga. Apenas uma discreta lamparina é deixada ao lado da única porta do imenso quarto. Ela queima lentamente e ilumina quase nada do quarto.
A chuva lá fora, aumenta e os galhos mais finos das árvores caem e arranham as janelas do dormitório.
Sinky, a mais nova das meninas, está acordada, com a cabeça coberta e apenas seus pequenos olhos azuis para fora. Apesar do medo de todas elas, ninguém se atreve a falar ou fazer qualquer coisa, elas apenas forçam os olhos e esperam ansiosas pelo sono. E quando ele chega dormem profundamente.
As seis horas da manhã, irmã Leila chega para acordá-las. Abre as cortinas com força. O sol nem nasceu ainda.
- Acordem ! Hoje temos o dia cheio. Espero todas vocês no saguão em cinco minutos. Hoje está frio. Portanto usem suas roupas de inverno e não se atrasem !
Leila está sempre com péssimo humor. Nunca ri, nem faz brincadeiras. É a primeira freira a acordar e a última a dormir. É também uma das primeiras religiosas que chegou em Nonehill . Gosta de estar presente em todos lugares ao mesmo tempo, é como uma sombra, quando você pensa que está sozinha ou tem uma brecha para comer um doce sem que ninguém te veja, ela aparece, te olha de forma desaprovadora e então some.
As garotas sabem o que acontece com quem se atrasa para o café da manhã. Principalmente se a Irmã Leila é que lhes acorda. Todas elas pulam da cama, dobram seus cobertores, sacodem seus travesseiros, e deixam o lençol branco esticado ao máximo. Correm até o banheiro, escovam os dentes e penteiam o cabelo, fazem uma trança única, predem com uma fita vermelha na ponta. Elas fazem isso todos os dias, nos mesmos horários e todas juntas. Então voltam correndo, em passos quase sincronizados, vão até seus pequenos armários e pegam suas roupas de inverno, vestem e correm em passos ritmados até o saguão. Apesar do tempo ser rigidamente sincronizado, correr no convento é extremamente proibido. E então em exatos cinco minutos, estão todas elas em fila indiana, na frente da escada do saguão.
- Tomaremos nosso desjejum, e então vamos até a mansão da senhora Leona. Ela precisa de serviços de limpeza. E nos dará em troca, comida o suficiente para a ceia de natal.
As meninas se alegraram, o natal estava próximo, e teriam um enorme e farto banquete. Leila estava parada na frente delas, segurando uma régua grande de madeira, explicando como seria feito a divisão das tarefas na mansão. Mas Sinky estava com a mente longe. Estava pensando no enorme peru dourado de natal que teria naquela enorme mesa de madeira, no salão de festas. Ela podia sentir até o cheiro dos temperos sendo assados junto a carne tenra e úmida da ave. Sua mente só voltou ao corpo quando a irmã disse:
- Mas Sinky ficará com a filha mais nova da senhora Leona. Ela é muito doente, e precisa de companhia.
Foram então toda para o refeitório, onde café com leite quente, e broas de côco as esperavam. Após o humilde desdejum foram todas, levadas por quatro carroças até mansão da senhora Leona. O caminho era relativamente longe, e as meninas tinham poucas oportunidades de sair do convento. A manhã estava nublada e fria, e uma brisa fina e congelante forçava as folhas marrons dos galhos cairem sobre as poças de lama que ficaram da ultima tempestade.
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