Successors
3 Ill
Notas iniciais
–Quer, hum, ajuda? – O cara estava parado a frente da janela do carro que eu estava presa. Eu só conseguia ver abaixo de seus joelhos.
Achei aquele pergunta tão estúpida, que decidi nem ao mesmo cogitar respondê-la.
Eu estava morrendo de fome. Quero dizer, de medo.
Minha cabeça parecia que ia explodir de tanto tempo nesta posição. Resolvi sair do carro. Achei o botão e destravei a porta, agarrando a maçaneta.
Assim que o fiz, rastejei-me para fora do carro usando os cotovelos. Argh, aquilo era tão humilhante.
Consciência, ótima hora para calar a boca, obrigado.
–Você não parece bem.
Olhei para cima. Parado, bem a minha frente, estava um garoto aparentando ter um pouco mais da minha idade, de cabelos e olhos escuros. Okey, era um garoto bonito. Muito bonito, admito. Mas ele tinha acabado de arremessar uma mulher a 2 metros de altura, era um psicopata. Um psicopata muito lindo.
–Será que é por que eu acabei de sair de um carro que rolou umas cem vezes, derrapou na floresta e quando finalmente fui sair, a droga do meu pé estava preso. E depois de chutar até o inferno, ele solta e eu vejo uma mulher ser lançada a dois metros de altura. Então, me desculpe se não estou linda e maravilhosa. – Mesmo diante de um cara possivelmente maluco, meu lado sarcástico não se calou.
Ele me olhava estranhamente, até que murmurou.
–Deus – revirou os olhos. – Pensei que não fosse tão fresca.
Fresca? Eu sobrevivo a essa porra de queda, consigo arrebentar um banco com o pé e ele me fala uma coisa dessas. Eu posso ser tudo, menos fresca.
–Vou te mostrar quem é a fresca. – Rosnei como um animal enquanto ia a sua direção, com os punhos cerrados. Enquanto andava, senti meu pé machucado reclamar a cada passo que eu dava, mas ignorei.
Ele ergueu as sobrancelhas para mim e eu não sei por que, mas aquele gesto me irritou profundamente.
Eu empurrei seus ombros levemente por causa do meu pé machucado e ele estava perto o suficiente para agarrar meus pulsos e me prender. Não tive alternativa a não ser olhar para o seu rosto, enquanto seus olhos escuros me fitavam. E, embora eu estivesse morrendo de medo, não pude deixar de notar de novo o quanto ele era bonito.
Ele me virou ao contrário, como se estivesse me abraçando por trás. Eu já iria um chute em suas partes baixas, quando vi uma cena que fez meu estômago revirar.
Meu carro, o que tinha conseguido no meu primeiro pega há dois anos, estava a apenas alguns metros a frente de mim, completamente... fodido.
Percebendo minha reação o garoto riu pelo nariz, o som acariciando minha bochecha.
–É isso? O carro? – Ele usou a mão que não estava me segurando para mexer nos cabelos. – Bem, ele já era.
Com um impulso, me livrei de seus braços e fui em direção ao meu carro. Ou pelo menos o que restava dele.
As rodas rasgadas e furadas. A tinta estava totalmente descascada. Cada pedaço de metal estava arranhado. Vidros para tudo o que era lado. O capo estava como se tivesse levado umas cem tacadas. Resumindo, destruído.
Durante o acidente, eu não lembrei em nenhum momento do meu carro. Do estado que ele ficaria. Nem mesmo enquanto eu chutava o banco para arrebentá-lo.
Fui mais perto do automóvel e pude ver os estragos lá dentro. Os bancos da frente estavam rasgados e o volante estava apontando para um angulo esquisito. Até o meu CD preferido do Metallica foi completamente danificado, só sendo reconhecido por mim pela capinha, que por milagre se salvou.
Meus olhos alertas e desestabilizados passearam o resto do carro, quando senti uma respiração no meu pescoço.
Virei pronta para gritar com o ser quando percebi que o único ser vivo ali era o garoto que havia visto. E ele estava a exatamente 6 metros longe de mim.
Mas quando viu que eu olhei para trás, caminhou lentamente em minha direção com um sorriso sarcástico nos lábios.
–O carro é seu? – Perguntou, inocentemente.
–É. – Senti minha garganta ficar seca. – Era.
Sim, como você pode ver, eu estou mesmo abalada para dar uma resposta assim a alguém.
Uma onda de irritação me penetrou e depois de dissolveu em lágrimas. Me joguei no chão soluçando como uma criança pequena. Meu pobre carrinho... Morto.
Senti alguém sentando do meu lado.
–Está com dor? – Sua voz não demonstrava emoção.
Balancei a cabeça, limpando meu rosto das lágrimas.
–Quem é você? – Perguntei.
Olhei para o seu rosto que estava calmo.
Ele suspirou.
–Meu nome é Cristian.
Ignorando o fato de que ele não respondeu precisamente minha pergunta, continuei a perguntar:
–Como você...
Ele soltou um riso forçado.
–Como eu arremessei aquela mulher a dois metros de altura? – Sussurrou como se fosse um grande segredo.
–Bem, isso não é algo que eu possa explicar para você agora – suspirou.
Bati o pé que não estava machucado no chão com irritação.
–Por que não? – Questionei. – Por que sou nova e imatura demais ou por que é algo extremamente perigoso e sobrenatural?
Cristian uniu as sobrancelhas, contrariado.
–Se eu te dissesse que são exatamente esses dois motivos que me impede de ter uma conversa aberta e sincera com você, qual seria sua reação? – perguntou.
Virei o rosto, totalmente ofendida. Qual é. Ele nem tentou disfarçar.
–E você, vovó? – Falei com sarcasmo. – Quantos anos têm?
Ele estalou a língua em um barulho estranho, se erguendo do chão e oferecendo a mão para me ajudar.
Revirei os olhos com seu gesto cavalheiro irritante e me levantei sozinha.
Meu pé fraturado reclamou um pouco, mas nada que eu não pudesse suportas.
Não me permiti vacilar na frente dele. Não me pergunte o porquê, por que nem mesmo eu sei.
–Como eu disse, nova e imatura. – Cristian falou, me observando levantar com dificuldade.
–Só por que uma garota recusa você não significa que ela é nova. – Assim que pronunciei essas palavras, quis pegá-las de volta. – Ou imatura.
Tentei concertar, mas o estrago já estava feito. A frase não soou como eu esperava.
Cristian levantou as mãos em rendição.
–Se você diz.
Senti meu rosto esquentar e tentei rapidamente mudar de assunto.
–O que estava fazendo aqui na floresta?
Ele apertou os lábios fortemente.
–Vi o carro capotar. – Admitiu. – Vim ver o que tinha acontecido.
Ele claramente estava mentido. Mais uma vez não me pergunte como eu sei, por que novamente eu também não faço ideia.
Resolvi não deixá-lo saber que eu sabia que estava mentindo.
–O que a mulher dos Saltos Prada queria comigo? – Finalmente soltei a pergunta que mais me intrigava.
– Saltos Prada? – Sua voz era divertida. – A” mulher dos Saltos Prada”. Gostei disso.
– Não desvie o assunto. – Ralhei com ele, irritada.
Ele balançou a cabeça, fazendo os cabelos se desarrumarem. Aposto que muitas morreriam vendo essa cena, e confesso que por um momento quase ia pelo mesmo caminho, mas continuei firme.
–Não estou desviando de nada. – Vendo minha expressão assassina continuou. – Como eu vou saber o que ela queria com você? Talvez só te ajudar, querida.
É, talvez ele tenha razão. Por que não pensei remotamente que uma alma caridosa pudesse querer me ajudar? Ou duas? Por que eu sou uma pessoa cética.
Mesmo com tudo isso rondando minha cabeça, ainda tinha uma pergunta totalmente desconexa para mim.
–Como uma mulher anda de saltos Prada em uma floresta? – Balancei a cabeça, confusa.
Cristian maneou a cabeça negativamente, tentando segurar um sorriso claramente exposto.
–Por deus – ele sussurrou. – Mesmo com tudo que está acontecendo, você consegue pensar em uma pergunta estúpida como esta.
Não era uma pergunta estúpida. Realmente não era. Mas Cristian não era uma mulher para entender isso, tenho certeza.
–Você está começando a me irritar, sabia? – acusei com raiva.
Tudo o que eu falava e fazia era estúpido, afinal?
–Mas o que eu fiz? – Cristian sorriu marotamente com seus lábios vermelhos.
Engoli a vontade de lhe meter um soco. Querendo ou não, Cristian era minha única fonte de respostas.
–Nada. – Mordi a língua para me controlar. Meu sarcasmo estava transbordando, praticamente. – Por que você não pode simplesmente me contar por que você arremessou aquela mulher?
– Por que eu não quero. – Passou a língua nos lábios de um jeito irritante.
Aquilo estava se tornando cansativo para mim.
–Não vou mais falar com você até responder minhas perguntas. – Cruzei os braços de modo totalmente infantil.
–Tá bom. –Ele passou a mão nos cabelos castanhos, achando graça da situação.
Mexi a cabeça negativamente.
–Tô falando sério, Cristian. Você não acha que eu mereço algumas respostas?
Ele me olhou de relance.
–Sinceramente? – Tomou fôlego. – Acho.
Vendo meu olhar de esperança o fez continuar:
–Mais eu não sou a pessoa certa a respondê-las...
Fiz uma careta. Sério que ele veio com esse papo pra cima de mim?
Nesse momento eu tinha duas opções a seguir.
1) Continuar nesse bate volta com o garoto que arremessou uma mulher de saltos Prada á 2 metros.
2) Tentar ir embora dali, encontrar Mason, cuidar dos meu ferimentos e fingir que nada aconteceu.
Yeah, eu vou embora. Também vou encontrar o Mason e com certeza vou cuidar dos meu machucado. Mas, sinceramente... esquecer? Pode apostar que não. Vou investigar isso a fundo. Com ou sem ajuda.
Me virei para Cristian.
–Sabe o quê mais? – Mordi o lábio com força. – Tenho que tentar voltar para a pista. Tentar encontrar o meu amigo.
– Espere. – Ele segurou meu braço antes que eu pudesse dar um passo. Seu rosto estava neutro. – Não esqueceu nada, não?
– Obrigada. – Um leve sorriso tomou seu rosto perfeito. – Por não responder minhas perguntas e ser um imbecil comigo.
Seu sorriso se derreteu. Ele estalou os dedo, antes de murmurar sinistramente:
–De nada, Alysson.
Se eu me arrepiei? Não, imagina. Eu só quase desmaiei.
Ia chingá-lo de um nome feio, quando percebi. Eu não havia falado meu nome para ele.
Cristian começou a se deslocar, andando ao lado oposto da floresta.
–Espera aí! – Foi minha vez de gritar.
Mas já era tarde, pouco a pouco, sua silhueta foi ficando mais escura até desaparecer completamente. Optei por não segui-lo. Ele me assustou um pouco quando falou meu nome.
Cristian havia me deixado no meio da floresta, sozinha.
Virei-me para frente e tive de novo a visão privilegiada do meu carro destroçado novamente. Foi aí que eu ouvi.
–Aly! Cadê você? – Gritou uma voz preocupada e rouca, acho que de tanto gritar.
Vi vislumbres de lanternas adentrarem a parte escura da floresta onde eu me encontrava.
–Estou aqui! – Gritei de volta, ainda olhando lamentavelmente para o meu carro.
Mason apareceu dentre as árvores com uma expressão de alívio.
Ele veio até mim andando rapidamente, mas na metade do caminho desistiu e correu em minha direção. Jogou seus braços em volta de mim, me abraçando fortemente. Fiquei com a cabeça encostada em seu peito por um tempo.
Pude ver Cris e Eddie parados um pouco atrás da gente, constrangidos.
Assim que Mason viu meu carro ferrado, se afastou um pouco e olhou em meus olhos, antes de me abraçar de novo.
–Sinto muito, Aly.
Sorri tristemente. Ele é meu melhor amigo. Sabe quanto o meu carro significa pra mim. Ou significava.
–Você está bem? – Sussurrou em meu ouvido, apena para eu escutar.
Mason tocou me corte na minha bochecha levemente, manchando um pouco seu dedo médio e indicador de sangue. – Desculpe.
Encolhi-me em seus braços reconfortantes.
–Fisicamente mais ou menos. – Meu pé começou a latejar. – Estou com o braço dolorido e o pé torcido.
Ou quebrado, adicionei mentalmente.
–Vamos sair daqui. – Mason disse, por fim. – Convenci os caras do local não chamarem a policia, mas não posso confirmar nada. Estou com o carro de Eddie. Vamos.
– Mas e Nessie, ela... – comecei a protestar, mas ele me calou com um olhar.
– Depois.
Decidi ouvi-lo.
Começamos a andar lentamente, seus braços ainda por cima de meus ombros.
Assim que olhei o meu carro, meu coração apertou e eu parei de andar. Mason percebeu minha movimentação e seguiu meu olhar.
–Aly, isso é lixo – suas palavras eram suaves, mas me machucaram.
Ele percebeu.
–Me desculpe. – Falou rapidamente.
–Tudo bem, Mase. Você está certo – balancei a cabeça, conformada.
Ele relaxou os ombros.
–Depois mando alguém pegá-lo. – Prometeu.
Assenti, enquanto íamos em direção ao carro de Cris. Ele, Eddie e Cris me bombardeavam de perguntas e mais perguntas, mas eu quase não ouvia.
Eu tinha minhas próprias perguntas. Sem repostas, é claro.
Mas a que mais me perturbava... Quem era Cristian? O que ele queria comigo? Como ele é capaz de fazer o que faz?
Eu ainda não sei, mas aposto o fantasma do meu carro que vou descobrir.
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