Submisso
55 Capítulo 55 - A Sábia Esther
Notas iniciais
Capítulo 55 – A Sábia Esther
Lucius observou pacientemente toda a movimentação da casa. Taylor e Parkinson já tinham ido e estavam apenas Esther e ele, pois Frederick avisara que ficaria na casa de Andreas. Como souberam disso? Bem, o mais que solicito Adam Taylor fez questão de ele mesmo ir até o neto da dona Esther, visto que Lucius não poderia deixar a casa e nem Remus ou Snape haviam retornado. Já Teddy, segundo solicitação de Molly Weasley, ficaria na Toca até o dia seguinte.
A solicitação da matriarca Weasley veio em bora mais que precisa, pois como fariam para cuidar do pequeno, sem Remus ou Severus, ele mesmo não saberia dizer. Não é que não fosse capaz de cuidar de uma criança, claro que não. O fato era muito simples: Teddy nunca o vira antes e nem à Esther. E, afinal, a senhora Weasley não deveria saber que ele, Lucius Malfoy, estava vivo e loiro...
Aquela demora toda só o deixava mais tenso. Algo grave ocorrera... Simplesmente sabia disso. E, de forma mais que clara, sabia também que Sirius Black causara, de algum modo inesperado e bastante Black, o grave problema.
_Fique tranquila, mãe. Ele está bem...
Esther estava realmente aflita. Era incrível como mal conhecer Sirius já a fizera cair de amores por ele. Por Merlin!
_Não fique tão preocupada. Sirius Black está bem.
_Assim espero, Lucius... Sabe, afeiçoei-me ao jovem. Foi uma empatia instantânea. Um homem grávido... Quem diria que eu viveria para ver tal feito...
O loiro gargalhou alto, pois o tom daquele comentário não lhe deixou de soar engraçado.
_Ora, ora, dona Esther... Para começar, no Mundo Bruxo é possível, já expliquei... E, além do mais, fala com se estivesse a ponto de nos deixar, a Frederick e a mim. Nada disso! A senhora é bastante jovem ainda e a conservarei saudável por longos anos.
Esther o encarou com carinho e o acariciou na bochecha. Ah, aquele homem... O seu novo filho... Como não amá-lo? Ela era excelente em avaliar a alma das pessoas, sempre foi. Por isso o ajudou antes e, pelo mesmo motivo, se conectou tão rapidamente a Sirius.
_Por isso mesmo, a senhora deve pensar na minha proposta... Nada mais de trabalhar sendo explorada como vinha sendo... E venda a sua casa. Agora eu sou o responsável por vocês... Mãe, permita-me cuidar da senhora tal como a senhora cuidou de mim.
_Lucius, não posso colocar sobre os seus ombros todo esse peso. São muitos os gastos, meu filho. A faculdade de Frederick exige bastan...
_Eu assumirei tudo isso, pode ficar tranquila.
_Já disse que não quero o seu dinheiro, Lucius. Quero apenas vê-lo bem e feliz.
_Ora, eu sei que não quer o meu dinheiro – e riu-se, pois talvez, ela e Frederick fizessem parte de um grupo pequeno de pessoas que não agia por interesse. – Apesar disso, dona Esther, eu o tenho em demasia e nada me faria mais feliz do que poder cuidar da senhora e de Frederick como vocês merecem.
Esther nada disse, apenas se calou. Acomodou-se melhor no sofá e mirou a lareira, perdida em pensamentos. As boas recordações sobre a vida na sua casa vinham acompanhadas por toda dor gerada pela perda do seu Fred. Ela poderia ser “bastante jovem”, como o novo filho mencionara, mas estava cansada sim pela idade. Chegara aos 70 anos depois de duras perdas e ainda se esforçava sobremaneira para Frederick ter um futuro melhor que o dela mesma.
Os olhos metalinos de Lucius a perscrutaram novamente. Ele sabia... Ah, ele sabia que Esther era uma mulher durona. Teria que usar de toda a lábia Malfoy para obter o que tanto desejava: sua família inteira, completa, bem junto dele: Draco, Esther e Frederick (agregaria Andreas, mas o jovenzinho tinha seus familiares e não acreditava que os mesmos gostassem muito de nunca mais saber dele!)... E faria de tudo para conseguir.
_Prometa-me que vai pensar com carinho na minha proposta, por favor...
Esther não chegou a concordar, pois a lareira refulgia em chamas verdes. O primeiro a sair dela foi Remus. Ele cuidou de ajudar Severus que vinha em seguida, amparando Sirius que, para todos os efeitos, parecia ter sido atropelado por uma manada de testrálios.
Antes mesmo que os hóspedes dissessem ou fizessem algo, Snape e a sua frieza cirúrgica, foi bastante esclarecedor:
_Meu amado esposo sofreu um pequeno acidente, causado pela sua própria torpeza – e encarou os presentes, perdendo-se alguns instantes na expressão astuta de Esther. – Ele repousará, no quarto, até a sua plena recuperação – e levou o doncel para o andar de cima, sem dar chance alguma para que Sirius o questionasse.
_Remus... – A voz de Lucius o chamou, ao mesmo tempo em que a mão dava batidinhas leves no confortável assento do sofá, bem ao lado dele, como se dissesse: “conte tudo, agora mesmo”.
O lupino se sentou. Na verdade, ele praticamente se largou sobre o sofá, tão estressado estava com os últimos acontecimentos. E então, quase pulou do assento ao se lembrar que tinha ignorado o retorno do próprio filho.
_Oh, Teddy! Teddy já voltou? Molly o deixou aqui? Ela... Ela te viu, Lucius?
_Por Merlin, tenha calma. Teddy está na Toca, não se preocupe. Fomos agraciados por uma feliz coincidência. Uma coruja foi enviada perguntando se Teddy poderia passar a noite com os Weasley e eu apenas respondi: “certamente, senhora Weasley”. Agora, conte-nos o que ocorreu, por favor. Demoraram tanto que já poderia imaginar algo assim...
_É mesmo, Lucius? E o “não fique tão preocupada”, ou o “Sirius Black está bem”?
_Ora, mãe... Eu conheço os Black de longa data e posso afirmar, com certo conhecimento de causa, que quando estão envolvidos com algo, podemos esperar situações tensas... Contudo, estando Severus por lá, nem Sirius seria capaz de causar muitos estragos.
Remus apenas sorriu diante da fala do loiro. Era bem verdade que Sirius era mesmo um causador de problemas nato, entretanto, não poderia afirmar que ele não causara muitos estragos. A paciência de Severus tinha ido para algum país distante e, pelo pouco que presenciou da interação do casal, parecia que demoraria bastante a voltar.
_Creio que teremos que lidar com um Severus extremamente irritado nos próximos dias... Nem ouso imaginar o que será, ainda mais porque, em alguns dias, retornaremos à escola. Sirius acabou se colocando numa situação de extremo perigo no hospital. Foi atingido pro um feitiço e foi toda uma sorte não ter perdido o bebê.
O profundo arfar da mãe de Lucius foi acompanhado de um “por Merlin” cheio de significado do esnobe patriarca. Depois de contar a pior parte, Remus se dispôs a relatar com brevidade o que tinha ocorrido, destacando a lenta recuperação que Sirius teria pela frente.
_Vou pedir aos pequeninos para que sirvam o jantar. Fiz um bolo delicioso para a sobremesa... Será o jovem senhor Sirius virá jantar?
_Não acredito, mãe. Conheço bem o Severus. Ele fará Sirius desejar estar de volta a Azkaban.
Enquanto o lupino assentia, Esther sustentava uma expressão novamente preocupada. Sabia o que aquela palavra significava. Azkaban... Era uma prisão. “Um lugar abjeto, tenebroso e pior que o próprio inferno”, segundo as palavras do seu filho lhe contara.
_Severus... Estou preocupado com ele, Lucius – e a voz de Remus saiu bem baixinha, como se o cansaço o impedisse até de falar num tom mais elevado.
Sábia como só ela sabia ser, Esther se esticou brevemente, pois tinha Lucius entre ela e o seu objetivo... Depois, já com uma das mãos de Remus entre as suas, o mirou com ar professoral, bem fundo naquela imensidão dourada... Ah, mais uma pessoa cuja alma valia a pena!
_Fique calmo... Não conheço bem nenhum de vocês, entretanto, posso afirmar que o casal lá em cima se ama muito. O senhor Snape...
_Severus, mãe, chame-o de Severus...
_Certo. Severus me pareceu... Frustrado... É isso, não é?
Remus apenas assentiu, resignado e esclareceu.
_Ele está se culpando pelo o que aconteceu a Sirius.
_Ah, Severus... Ele ama a sua preciosa culpa. Foi assim com Lílian Potter... E está repetindo o mesmo comportamento com Sirius... – Concluiu Lucius, cheio de autoridade.
_Mas ele não tem culpa. Fiz questão de frisar esse fato mais que óbvio. Sirius infelizmente estava no lugar errado, na hora errada. Foi uma fatalidade. E agora... Agora temo que Sirius nas condições atuais não consiga lidar com o marido... Eu... Eu vou tomar um banho e mandar uma coruja para Molly...
_É o melhor... Vai te renovar... De qualquer forma, eu preciso falar com você e com Severus. Tome um bom banho relaxante e desça. Aguardaremos você para jantarmos juntos, sim?
Remus apenas assentiu ao pedido/ordem de Lucius e subiu as escadas. Não ouviu som algum, mas suspeitava que Sirius deveria estar desejando berrar a plenos pulmões. Quando queria, Severus conseguia ser bastante irritante.
Já na alcova do casal Black-Snape, o silêncio estava tão espesso, que alguém poderia espetá-lo com um garfo, caso desejasse. Depois de ter tomado um banho, quer dizer, ter sido banhado pelo marido, Sirius foi acomodado na cama, tal qual uma criancinha dependente.
O herdeiro dos Black viu um dos elfos da casa entrando rapidamente no quarto e recebendo instruções de Snape... Ignorou as palavras do professor, pois estava mais preocupado com a expressão gélida que o mesmo sustentava. Nossa, era mesmo de assustar. Dessa vez as coisas seriam mais difíceis entre eles.
Os cabelos longos ainda estavam úmidos e embaraçados, caindo sobre os ombros. O animago evitou até reclamar, mas teria resolvido aquilo om agilidade. Um simples feitiço e pronto: estaria com as melenas perfeitamente secas e penteadas. Contudo, agora nem ao menos tinha posse da sua varinha... Sem magia para o Sirius ou, pelo que entendeu, sobre o Sirius, pois o marido o tratou quase inteiramente à moda trouxa.
Nenhuma palavra... Nenhuma palavra foi dita por Severus desde a gracinha proferida na saída da lareira. Era irritante e angustiante lidar com o Ranhoso em total e completo mutismo. Ora, ele sabia que sua impulsividade era toda uma desgraça, mas será que o marido não entendia? Estava preocupado demais com a segurança dele, para pensar na sua própria... E na do filho de ambos...
Esticou uma das mãos em direção à mesinha de cabeceira e, mal o corpo se projetou um pouquinho para fora da cama, sentiu-se ser enviado de volta ao local anterior...
_Será que é assim tão difícil ficar quieto, Black?
Black? Fora chamado de Black? Oh, por Circe...
_Eu só queria pegar um pente, só isso...
_Há um feitiço sobre a cama... Permanecerá em repouso absoluto, querendo ou não.
_Você não pode fazer isso, Snape. Eu não estou inválido.
_Ainda não... Caso continue a agir feito um doidivanas, talvez consiga... – Completou, como se comentasse acerca do clima londrino. – Quando precisar usar o banheiro, os elfos virão. O mesmo ocorrerá quando sentir sede ou fome. As refeições serão trazidas nos horários determinados, assim como os medicamentos que precisará ingerir. Tenho ainda mais alguns poucos dias de férias. Aproveitarei esses momentos para evitar que atente novamente contra a vida do meu filho.
_Ora seu cretino! Como ousa? Está insinuando que eu não me preocupo com o meu filho?
Em dois passos tinha Snape colado a si. Os olhos escuros refletiam uma negritude jamais vista por Sirius.
_Não estou insinuando, estou afirmando... Não teste mais minha paciência. Ela se esgotou quando ouvi daquele medibruxo o quão perto de perdê-lo eu estive.
O filho... Então Snape só se preocupava com aquele bebê... Estava tão furioso que demorou a perceber que o marido começara a lhe pentear os cabelos. Tentou se afastar, mas sentiu dor no tórax... Com o braço livre da imobilização, puxou os próprios cabelos, fazendo o marido bufar.
_Você queria pentear o cabelo, não?
_Vá embora...
_Ora, Black, esse também é o meu quarto – e jogou o pente sobre a cama, encarando-o com mais que evidente irritação.
Sirius sentiu as mãos grandes o pegarem pelo queixo, erguendo o seu rosto. Estava tão furioso com aquela situação que nem se deu conta... Foi rápido e inesperado, mas o som de um forte tapa foi ouvido. É, foi ele... Ele afastou com rispidez a mão do marido. E a sua magia... Ah, a sua magia se descontrolou, pois em instantes Snape fora empurrado uns bons três metros para longe dele.
_Não... Encoste...– E arfava, extremamente cansado pelo involuntário descontrole que teve. – Em mim...
As palavras de Sirius saíram tão frias quanto as que, anteriormente, Severus lhe destinara. O pocionista avaliou a situação... Ah, aquilo não podia acontecer. Deveria haver o mínimo de influência mágica sobre Sirius... Resignado, assumiria de uma vez que não o culpava, que tudo aquilo era o seu orgulho falando e não os seus verdadeiros sentimentos. E então, batidinhas leves na porta o impediram de cumprir seu intento.
Com passadas rápidas, logo chegara ao destino, abrindo a porta e encontrando a bondosa nova mãe de Lucius. A mulher trazia uma bandeja nas mãos e um belo sorriso no rosto, enquanto o mirava com aqueles mesmos olhar de antes, cujas íris mais se assemelhavam às das harpias, avaliadoras e predadoras... Não era por acaso que Lucius se afeiçoara tanto àquela senhora.
_Desculpe-me a interrupção... Eu vim jantar com Sirius – E óbvio que não havia ali um pedido, afinal “eu vim” é bem diferente de “eu poderia”.
A situação se desenhou de maneira muito clara: Esther estava ali para mandá-lo para longe de Sirius, pelo menos por enquanto. Na verdade, percebeu que a mulher sabia que retirá-lo do quarto era a atitude mais acertada a se empreender. Será que ela não era mesmo uma vidente disfarçada de trouxa? Começava a suspeitar que sim...
_Pode me ajudar, por favor. A bandeja está pesada...
Instantes depois, a bandeja foi direcionada para a cama, a mesma cama na qual o doncel grávido mais parecia um touro bravo!
_Lucius e Remus o aguardam lá embaixo para jantar. – E ficou ali, parada perto da porta, expulsando-o de forma sutil... E do seu próprio quarto.
Snape murmurou qualquer sobre “enviarei os medicamentos” e saiu do recinto. Já Esther se aproximou do animago e se sentou sobre o colchão. Depois, puxou a bandeja e a posicionou da forma mais adequada para que Sirius pudesse se alimentar.
_Respire fundo... – Pediu ela ao mais jovem, pois pôde sentir de longe o quão alterado ele estava. – Não deixe que a confusão de hormônios tire a sua serenidade.
As palavras dela fizeram Sirius, estranhamente, obedecer. Mesmo que fosse um rebelde nato, não poderia contrariar aquela senhora tão atenciosa.
_Melhor? – Perguntou a voz da nova mãe de Lucius, alguns minutos depois.
_Sim, obrigado. Eu... Eu não estou com muita fome...
_Ah, já imaginava. Por isso mesmo trouxe uma sopinha bem leve – e indicou um dos pratos, aproveitando para revelar o “presentinho” que trouxera para o doncel. – E também um belo pedaço de bolo de morango e creme caseiro... Tudo sem muito açúcar. Eu mesma o preparei para você.
Os olhos claros do animago brilharam quando viram o bolo... Nossa... E ele não estava com fome? Como não, se salivava só de mirar aquele pedacinho do paraíso em forma de bolo de morango e creme caseiro?
_Vamos começar pela sopa? Creio que gostará... É uma receita minha, sabe? Não gosto muito de sopas aguadas, portanto, bato alguns ingredientes e os misturo depois com o restando, assim a sopa fica mais encorpada. Afinal, uma sopa fica leve devido aos ingredientes que utilizamos e não ao excesso de água... Creio que será do seu agrado. Quer que eu te ajude, ou você consegue sozinho? – Perguntou, indicando o braço direito imobilizado.
_Ah, não se preocupe. Eu consigo me virar bem com a mão esquerda, obrigado...
_Bem, mas parece que pentear o cabelo já não é tão fácil assim, certo? Vou ajudá-lo com isso... Posso? – E ao que Sirius assentiu, veio uma nova pergunta. – Onde deixa guardado o pente?
Antes mesmo que Sirius pudesse dizer “o cretino do meu marido o jogou sobre a cama”, Esther o encontrou e pegou. Com agilidade, ela ordenou as melenas do animago, destacando que o aroma dos fios era de “outro mundo, de tão delicioso”. “Que shampoo incrível você usa!”, ao que o vieram boas risadas, pois o dono das melenas perfumadas sabia que aquele delicioso aroma era a sua natureza de doncel.
Pouco depois, os dois degustaram a sopa leve. E nossa, estava deliciosa... Os elfos nunca tinham preparado tal iguaria antes... Não era uma simples sopa, não mesmo.
_Está divina! Nossa, que sabor... E eu nem sou muito fã de sopas...
_Que bom que gostou... Se quiser mais um pouco...
_Oh, não... Obrigado... Eu ainda quero provar o bolo. A senhora também comeu tão pouco...
_Querido, por favor, chame-me de Esther... Eu já estou bem abusada e te chamando de Sirus, não é mesmo? – E até o animago riu. – Eu não tenho muito apetite durante a noite. Na verdade, nem costumo jantar. Lucius me obrigou a, pelo menos, ingerir um pouquinho da sopa que fiz para você.
Sirius estava identificando ali um comportamento inusitado. Ela lhe fizera um suco, depois sopa e bolo. Ah, ele pediria para ser adotado por ela, caso aqueles mimos prosseguissem.
_Esther, não estou reclamando, ao contrário... Estou me deliciando com a sua gentileza, mas, por favor, não se dê ao trabalho de fazer tanto por mim. Não precisa fazer nada disso e...
_Ora, eu sei que não preciso... Eu faço porque gosto. Amo cozinhar, Sirius. Eu trabalho com essa arte. Com toda essa situação, Lucius pediu para que eu deixasse o emprego de lado... “É só por um tempo, mãe, ao menos até descobrirmos os culpados e podermos contê-los”... Ai, ai... Tentei argumentar, contudo, tentar dissuadir Lucius é tão fácil quanto esperar respostas positivas de um rochedo.
_Ha, ha, ha...
O tempo passou rápido e logo já estavam na sobremesa quando um dos elfos apareceu com as poções que Sirius deveria ingerir. O animago nada disse, apenas as tomou sem discutir. O elfo em questão aproveitou para levar a bandeja de volta à cozinha.
_Mais tranquilo?
Sirius assentiu e, sem perceber, começou a falar sobre o comportamento do marido. “Ele é um grosseiro”... “Autoritário, narigudo e controlador”... “Acha que eu sou um doidivanas!”... “Costuma me tratar como se eu fosse um inválido”... “Quer fazer tudo por mim, Esther... Não duvido muito que chegue a querer pensar por mim”... “Absorve responsabilidades que não são dele e sempre me exclui, mesmo tendo prometido que não o faria”... “Nunca compartilha nada de relevante comigo, só quando eu exijo”... “Tenho medo por ele. Temo pela segurança dele. E ele não entende isso, pois desconsidera minha preocupação. Na verdade, deve assumi-la como se fosse um simples capricho da minha parte”... “Severus deve pensar que eu sou só um nobre sem cérebro. Ora, eu sobrevivi por anos em Azkaban justamente por não ser sem cérebro”...
Esther apenas permaneceu calada. Sabia que ele precisava desabafar... Ela ficaria ali, ouvindo e guardando que extravasasse todo aquele sentimento ruim. Ah, manter sentimentos tão negativos dentro de si mesmo não era nada bom, especialmente para um grávido.
_Sabe, Esther, eu não sabia que era um doncel... – E o tom de voz de voz de Sirius mudou, ganhando tons mais profundos. – Eu nunca soube até bem pouco tempo, alguns meses atrás somente... E Severus quer que eu aja como se tivesse sido criado para parir e esperar o maridinho em casa? Ah, não posso acreditar... Nós dois, ele e eu... Nós dois lutamos juntos contra o maldito Lorde das Trevas, por Circe! Ele deveria saber como eu me sinto a respeito de tudo isso – e indicou a si mesmo e a sua própria glória doncel.
Sirius não se deu conta de que Esther o conduzira de leve para os travesseiros, acomodando-o com delicadeza... Tampouco notara que teve os pés levemente erguidos sobre um travesseiro. E nem reclamou quando uma manta confortável o cobriu.
_Você é um homem valente, Sirius... E o seu marido também...
_Sim, ele é... Ele é mais do que isso, eu diria...
A mente do animago lhe encheu de imagens de Severus nos áureos anos de espionagem para o Lorde. Ele soube disso depois, evidentemente, quando o saudoso Dumbledore reorganizou a Ordem da Fênix. Snape era todo um cretino imponente, cujos olhos escuros sempre pareciam lhe desafiar... “Olhe para mim, Black... Eu estou arriscando mais que a minha própria vida para ajudar o filho dos Potter. E você?”
_Eu nunca conseguiria competir com a astúcia dele, nem com a inteligência dele. Não sou um mago tão brilhante assim e, bem, Severus é, apesar de todos os defeitos, um homem de valor... E o que me entristece é que... Bem...
_Vamos, Sirius... Diga...
Perguntou-se o motivo de estar ali, abrindo a sua alma para uma pessoa que mal conhecia... Deveria ser Remus no lugar dela, não? Ou Harry? Bem, talvez o destino lhe tivesse brincado com uma nova amiga inesperada...
_Entristece-me reconhecer que para Severus eu, Sirius Black, não tenho valor algum. Sou apenas a pessoa que trará o herdeiro dele ao mundo... Mesmo que ele nunca tenha demonstrado o quanto desejava um filho, parece que é só o que importa agora: esse bebê!
Esther sorriu ante a confusão que aquele casal estava fazendo. Oh, como eram inexperientes em relacionamentos. Era tão fácil identificar os problemas que ambos não conseguiam resolver...
_Não culpo o meu filho, de forma alguma. Amo-o com fervor desde o momento que soube da sua existência...
_Por quanto tempo vocês namoraram?
_Como?
_É, você e o seu marido... Por quanto tempo namoraram?
Sirius se ruborizou de vergonha... Como diria àquela senhora que, devido às circunstâncias, ele foi casado sem nem ter anuído?
_Nós... Nós não namoramos... – E resumiu minimante a sua história e a de Severus...
_Não?
_Bem... Foi uma questão complicada. Digamos que foi um casamento arranjado... Não tivemos relacionamento algum antes de nos casarmos, há alguns meses atrás...
_Hum... Entendo... Então vocês não se conhecem muito bem, ao menos não na intimidade... – Esther não estava perguntando, estava afirmando. – Sabe, às vezes, vivemos por anos com alguém e não a conhecemos de verdade. Eu, por exemplo, só fui compreender certos comportamentos do meu falecido marido, anos depois de estarmos casados...
_Por quanto tempo a senhora foi casada?
_Ah, eu me casei muito jovem, com dezessete anos... E assim permaneci por longos 35 anos... Não me casei novamente, pois não tinha mais paciência para esse tipo de intimidade. Namorei depois da viuvez, mas nada que tivesse seriedade. E depois, bem, digamos que eu precisei me voltar para o meu neto...
_35 anos? Nossa... Toda uma vida...
Esther sorriu, lembrando-se dos detalhes bobos da vida a dois. Compartilhara intimidade era tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexos que os fracos de coração não conseguiam levar adiante um relacionamento longo.
_Casamentos são feitos de concessões, todo o tempo. Não podemos fazer tudo o que desejamos, pois temos que pensar também em nossos parceiros. E essa parte em especial, a de ceder, é a mais trabalhosa... Somos muito apegados ao “eu, eu e eu”. Contudo, compreendi depois de alguns anos que num casamento, ceder não é perder, abdicar ou se submeter... É, apenas, conceder, meu caro. Não estou dando conselhos, Sirius. Estou apenas contando o que eu vivenciei e aprendi com a minha própria experiência... Sabe, o seu marido é mesmo durão. Eu não o vi se romper em pedaços quando te trouxe de volta, mesmo com você, desculpe-me por dizer, parecer ter sido vítima de um acidente grave de carro...
Sirius sorriu, apenas seguindo as palavras de Esther, querendo descobrir o caminho que as mesmas estavam traçando e, principalmente, o destino ao qual chegariam.
_O seu marido me lembra do meu falecido esposo... Todo um general, mas, na verdadeira intimidade, ele se desvelava em cuidados com a família. E nisso, o seu marido também se assemelha muito a ele. Você foi imprudente, sabe disso, não?
_Eu sei... Eu sei, por Circe... E não sabe como me arrependo por...
_Oh, não, não... Não diga mais nada! Não estou te recriminando. Não se pode mudar o que aconteceu, portanto, cuide de tomar mais cuidado daqui para frente. Como você me contou, a sua nova condição é mesmo nova... Até para você. Sabe, eu o vi bem, o seu marido... Eu o vi bem quando chegaram do hospital, Sirius. Os olhos dele refletiam genuína preocupação... E a maneira como ele te segurava e envolvia, ah, meu caro, ouso dizer que você é uma das pessoas mais queridas e amadas do mundo. Severus está preocupado contigo, Sirius...
_Será mesmo? Será que não sou só uma parideira para ele?
As gargalhadas de Esther encheram o quarto... Ah, como estava se divertido...
_Tenho certeza do que digo... Creio que ele não quer dar o braço a torcer... Enfim, ele está muito preocupado com você, mas não quer demonstrar para não dar mais força ao seu comportamento... Bem, desculpe mais uma vez o que vou dizer... Ao seu comportamento impulsivo. Ele está sofrendo por não saber lidar com você, meu caro, pode acreditar nisso. Talvez ele até se sinta responsável, Sirius...
_Então, pelo que diz, Severus está deliberadamente usando o nosso filho para me punir por ser tão... Impulsivo... – E quis morder a própria língua, pois ele mesmo não se achava, para nada, impulsivo.
Esther apenas sacudiu a cabeça, positivamente.
_Severus está sofrendo por mim? E ele se sente responsável por tudo o que aconteceu? Mas isso não faz sentido algum...
_E você não se julga brilhante? Ora, creio que você finalmente entendeu... Quando há amor num relacionamento, nossos comportamentos perdem um pouco de sentido... Por exemplo, por que você foi ao hospital, mesmo com o seu marido pedindo para que aguardasse em casa?
Sirius não compreendia bem o rumo daquela conversa... Sentia-se conversando com Molly Weasley, por Merlin. Deveria apresentar aquelas duas, o mais rápido possível.
_Severus não quis me contar a verdade... Ele estava se colocando em risco, mais uma vez. Eu... Eu só queria estar lá e ajudá-lo, de alguma forma. Tive medo por ele, sabe? Estava aqui, sem notícia alguma... Na hora eu... Eu não pensei em mais nada... Isso é ser impulsivo, eu sei... – Reconheceu, por fim.
_Sim, é... Mas não há nisso nenhum pecado. É apenas... Humano. E você está grávido, mais suscetível aos rompantes de sentimentos. Eu costumava chorar copiosamente sempre que queimava o arroz – e riu com fervor, sendo acompanhada por Sirius.
_Severus está furioso, Esther. Ele tem motivos, eu sei...
_Concordo, mas ele está mais furioso com ele mesmo, pode acreditar... O que também não faz muito sentido, mas ele te ama, Sirius.
O animago deixou que aquelas palavras o envolvessem como um cobertor quentinho. Ficou mais algum tempo conversando com ela sobre coisas bobas, até que o sono o venceu. Esther sorriu e o beijou na testa. Depois ficou de pé, acomodou melhor os travesseiros e rumou para porta do quarto, encontrando ali o “autoritário, narigudo e controlador” marido de Sirius.
_Ele já dormiu? – A voz de Snape saiu num tom baixo.
_Sim, dormiu. Ele estava esgotado... Desculpe se fui intrusiva antes, quando subi...
_Não há o que desculpar. Na verdade – e lançou os olhos escuros e analíticos sobre o esposo doncel – ele parece estar mais calmo. Eu só tenho a agradecer os seus cuidados. Sirius pode chegar a ser bastante extenuante, pode acreditar em mim.
Esther apenas sorriu... Ah, como adorava aquela máscara que Severus usava quando falava sobre o esposo... A de: “eu não me importo muito”, era uma das mais engraçadas. Lucius lhe contara tanto sobre Snape que, bem... Ela simplesmente podia compreendê-lo de forma bastante objetiva.
_Ah, não se preocupe... Apaixonei-me por ele assim que o vi. Ele tem tanta vivacidade, não? É um prazer compartilhar a companhia dele... Creio que Lucius ficará com ciúmes, mas não posso conter o meu instinto maternal quando vejo o seu esposo.
Severus a encarou e não viu nada além de verdade na bondosa senhora. Aliviou-se... Precisava de mais alguém assim junto dele, em especial naquele momento tão confuso. Tinha a cabeça cheia com as informações que Lucius lhe contara acerca da conversar com Adam Taylor... Estava tudo rumando para o caos novamente e, de forma alguma, permitiria que Sirius sofresse algum dano.
_Ainda que eu não saiba a verdadeira natureza do seu temor, sei que o senhor está muito preocupado com ele. Senhor Snape...
_Severus apenas, dona Esther.
_Então, apenas Esther, Severus... – E ao que o professor assentiu, as palavras prosseguiram. – Pode contar com a minha ajuda, no que precisar. Conversamos bastante e pude acalmá-lo um pouco. Mas ele é bastante agitado, não?
_Sirius é frenético, eu diria. Tenho até medo de o bebê puxar esse comportamento, por Merlin!
_Bem, vou deixá-los para que descansem. Boa noite, Severus.
_Boa noite, Esther. Mais uma vez, obrigado.
A porta foi fechada e Severus foi ao banheiro. Perdeu longos minutos se banhando... Sua mente estava fatigada de tantas informações. Não poderia creditar. Não de novo... Contariam a Draco e a Hermione. Deixariam Harry de fora, assim como Sirius. Pelos menos por enquanto...
Concordaram em não contar aos dois devido ao estado no qual se encontravam. Harry mal estabilizara o descontrole na pressão arterial e Sirius, bem... Os hematomas e a fratura falavam por conta própria. Não poderia deixar de encontrar em tudo aquilo um pouco de ironia do destino...
Saiu do banho trajando vestes leves. Ainda estava cedo para se recolher, mas o dia Havaí sido todo um caos. Sua magia precisava se restabelecer de tantos impactos e seu coração, bem... Seu antes enegrecido coração batia apressado, temeroso de que o Sirius pudesse sentir mais incômodos do que, certamente sentiria, devido aos ferimentos. Vê-lo machucado fazia sua alma se contrair em exasperação.
Chegou ao leito e se acomodou com muito cuidado. Cogitou até a possibilidade de dormir em outro recinto, para que assim o esposo ficasse mais confortável na cama. Contudo, seu corpo e alma não conseguiriam passar muito mais tempo longe dele. Estava bastante irritado com a forma de agir de Sirius, entretanto, o manterá junta a si e o faria compreender que não era um mago comum, por Merlin.
Falhara nisso... Falhara nisso largamente. Felizmente, havia tempo de consertar. Os dois estavam sãos e salvos, então não perderia ais energia alguma nos fatos passados, mesmo que reiteradamente os utilizasse para fazê-lo refletir sobre os próprios atos. Sabia que tinha culpa sim em não auxiliado o esposo a compreender, de fato, todos os matizes da doncelaria. Ah, o faria daqui pra frente. Mesmo que Sirius não gostasse...
Divagava acerca das possibilidades vindouras, quando foi arrebatado pelo toque quente em sua orelha. A língua do esposo traçava um caminho e ao longo do lóbulo, numa manobra deliciosa e sensual.
_Sev, me desculpe... – Sussurrou o animago, bem baixinho, a voz engraçada, típica de quem acabava de acordar.
O pocionista não pôde evitar a sensação de regozijo que o contagiou. Apesar das palavras ásperas que trocaram, Sirius não queria mais que fosse embora, ou que não o tocasse.
Sirius não se mexeu muito, pois ainda sentia dores, mas se encostou ao corpo do marido, aproveitando para apoia a cabeça naqueles ombros largos. Já Severus o recebeu na mesma hora, envolvendo-o com cuidado e proteção, perdendo-se no doce perfume das longas melenas escuras.
_Desculpe-me também, Sirius... – E o beijou castamente nos lábios, acomodando-o da melhor forma possível, o coração finalmente pacificado pro todo o amor que se professavam.
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