Submisso
73 Capítulo 73 - Albergue de luxo
Notas iniciais
Capítulo 73 – Albergue de Luxo
Lucius descia a escada trazendo o filho de Lupin bem seguro por uma das mãozinhas. Tinha levado o garoto para dar bom dia ao papai lobo, contudo, Remus ainda estava descansando. O “bom dia” ficaria para mais tarde.
Esther estava de pé, na sala, aguardando o seu novo filho chegar até o fim dos degraus. Quando ocorreu, beijou Teddy na bochecha, enquanto indicava que havia um visitante recém-chegado.
—Lucius, querido... Creio que temos visitas. A lareira se encheu de chamas verdes e então: veja só que jovem bonito saiu dela!
O patriarca encarou o “jovem bonito”. Certamente, beleza não faltava ao amigo de Draco.
—Senhor Malfoy – começou o jovem, ainda estupefato. – Hoje mais cedo, Pansy me contou sobre o senhor. Devo acrescentar que vê-lo vivo é deveras maravilhoso!
—Ora, obrigado. Creio ter sido melhor mesmo que a senhorita Parkinson o tenha preparado previamente.
Zabini sorriu, lembrando-se da reação que teve. Ele chegou a perder o ar quando ouviu que Lucius Malfoy estava “muito vivo, muito loiro e mais Malfoy que nunca”, nas palavras de Pansy.
—Mamãe, este é Blaise Zabini, amigo do meu filho, desde antes mesmo de terem nascido – e sorriu feliz por estar cada vez mais aprofundando sua nova mãe à trama familiar dos Malfoy e de seus “associados”.
—Blaise Zabini, um prazer, senhora.
Esther analisou o jovem a sua frente com olhos bastante críticos. Como não se surpreender com tamanha beleza? Ora, mais parecia estar diante de um daqueles modelos de capa de revista.
—Oh, o prazer é todo meu. Pode me chamar de Esther, sim? Nada de senhora.
—Esther será então.
—Posso ir brincar lá fora? – Questionou Teddy, interrompendo a conversa e chamando a atenção para si.
—Pode sim, Edward – respondeu prontamente Lucius, largando a mão da criança e ajeitando-lhe o cabelo (igualmente loiro platinado). – Só não se afaste muito da porta. As barreiras estão ativas e seguras, mas não quero arriscar.
O garoto correu feliz para a área externa, sob os olhos atentos do patriarca Malfoy. Blaise reconheceu nele uma genuína preocupação. Lucius se importava com o garotinho, tal como o fazia com Draco.
—O professor Snape está em casa, senhor Malfoy?
—Está sim, mas Sirius Black o manteve no quarto até agora.
—Não seja maldoso, Lucius – ralhou Esther. – Sirius acordou se sentindo mal hoje. Um daqueles enjoos matinais... O pobrezinho nem pôde comer os brioches deliciosos que fiz! Por sinal, vou pedir a um daqueles pequeninos que levem um chazinho de gengibre para Sirius. Sempre ajuda.
—Certamente, mamãe.
Assim que Esther os deixou sozinhos na sala, Blaise perguntou:
—Pequeninos? Do que ela falava?
—Ah, elfos domésticos. Imaginei que a senhorita Pansy Parkinson, além de tê-lo preparado para me encontrar fora do túmulo, fosse vir com você.
—Eu também, mas Pansy optou por ir direto para a Malfoy C. O., pois disse algo sobre “ter muito trabalho”, “estar sob muita pressão” e ainda que “precisava arranjar tempo para comprar os móveis necessários ainda hoje”, além de algumas “fofas roupinhas de bebê, para muitos bebês”.
—Parkinson funciona ainda melhor sob pressão.
—Não tenho dúvidas disso, contudo, ela tem seus momentos de bruxa frágil – divagou Blaise, o choro de Pansy preocupada com Theo ainda retumbando em seus ouvidos. – Enfim, eu já tenho as plantas da casa comigo. Não houve qualquer alteração pelo que pude observar. Será rápido e fácil. Espero que antes do almoço eu tenha o espaço do trio pronto.
Lucius o encarou enquanto o belo homem negro retirava das vestes um rolo de pergaminho. Depois, acompanhou o feitiço de aumento por ele proferido. Os pergaminhos foram dispostos diante deles, esticados no próprio ar, enquanto ambos se acomodavam no sofá da sala de entrada de Prince’s House.
—Essa saleta tem uma lareira própria e será ótimo para o que tenho mente. Aqui será o quarto estendido para o trio. Farei uma pequena área de convivência ao redor dela. Nada muito elaborado. Apenas um cômodo sofá, uma estante com livros... Algo assim. Bem aqui – e Blaise apontou para o desenho da referida saleta na planta do imóvel – vou dividir o ambiente com uma parede, assim teremos um espaço reservado para a suíte.
—Sim, sim... Ficará interessante. Contudo, sabe mesmo lidar com feitiços de expansão e construção de ambientes?
—Pode ter certeza disso, senhor Malfoy. Sou exímio nesses feitiços.
—Severus comentou comigo hoje mais cedo, antes de Sirius começar com enjoos intermináveis, que sua mãe pretende vir morar aqui também.
—Exatamente. Conhece-a muito bem, senhor Malfoy. Tentei demovê-la desse absurdo, mas não obtive sucesso.
—Ora, Blaise, pelo que Severus contou, Gustav não apenas invadiu a casa em Bristol, ele aterrorizou Theodore. Acha mesmo que Sophie o deixaria sozinho?
—Discordo da colocação do termo “sozinho”. Pelo amor de Merlin, ele está casado com duas bruxas bastante possessivas, uma veela e uma Weasley! Creio que o senhor não faça mesmo muita ideia do que isso representa. Eu já as vi no modo protetor algumas vezes e asseguro: é de dar medo. E também nós temos uma casa em Londres, herança do meu pai número 2. Nós estaríamos a uma lareira de distância de Theo, apenas isso. Compreende meu ponto de vista? Minha mãe não está sendo nada racional.
—Racionalidade não conta na visão de quem está preocupado com o bem-estar de quem ama, senhor Zabini. E eu conheço sua progenitora faz anos, portanto, desista. Sua mãe não mudará de opinião.
Blaise respirou fundo e procurou se acalmar. Lucius estava certo. Sophie não mudaria de ideia.
_Onde ficará o aposento dela? Há magia bastante antiga aqui e as proteções de Prince’s House estão tinindo, devido ao reforço recente. Não vejo mais como expandir nada dentro da casa, ao menos não com real qualidade.
—Realmente, mesmo conhecendo com profundidade os feitiços de expansão, o resultado não ficaria lá muito bom. Deixaria Prince’s House um pouco deformada.
—Exato. E não acredito que tal alteração deixaria Severus feliz. Ele já está enfrentando muito stress atualmente, com o esposo doncel problemático e tudo o mais que ser Severus Snape atrai. O que pretende fazer então?
—Não vejo outra saída: vou criar um cômodo extra, colado à sala que será transformada no quarto do trio – e indicou um espaço que, na planta, era o espaço externo. Prince’s House ficaria maior. – Ah, e claro, com um banheiro próprio também, é óbvio. Minha mãe não é solidária o suficiente para dividir um banheiro com qualquer outro ser vivo.
—Não esperaria nada diferente. Suponho que um closet espaçoso também esteja em seus planos, correto? Sophie e eu temos o mesmo gosto refinado para os trajes.
O rapaz sorriu de lado, mordendo a língua para não consertar a fala do pai de Draco, afinal, o correto seria: “gosto exagerado para os trajes”.
—Sem dúvida alguma. Bem, mãos à obra... Não quero ter Pansy em meus calcanhares. Já tenho um prato cheio com a minha mãe.
—Ter um relacionamento romântico com a senhorita Parkinson diz muito sobre a sua tenacidade, senhor Zabini. Eu a tenho em extremo apreço, saiba disso.
—Tenho plena consciência de tal fato – rebateu Blaise, compreendendo muito bem a ameaça velada, ou descarada, de Lucius Malfoy.
—Cuide bem dela, Zabini. Nossos parceiros merecem total dedicação.
—Certamente. E o senhor Lupin? Está melhor? Soubemos do ataque e ficamos verdadeiramente preocupados – externou Blaise, bem informado por Pansy de todas as recentíssimas novidades.
—Está em franca recuperação. A gravidez de Remus é uma bênção da qual cuidarei com toda a minha habilidade sonserina.
—Não esperaria nada diferente do senhor.
Uma coruja os interrompeu. Era uma carta, uma carta para Lucius. De fato, não havia muitas pessoas que lhe enviariam cartas. Sem cerimônia alguma, o loiro rasgou o lacre e identificou a escrita fina do próprio filho.
—É de Draco.
—Ele está com problemas?
—Não, Zabini – e concluiu a leitura, antes de falar. – Meu filho acredita que eu já esteja forte o suficiente para que vasculhem a minha mente.
—A sua mente, senhor?
—Exato. Não sei quem orquestrou a minha subtração de Azkaban, tampouco dos motivos para tal empreitada. Talvez haja mesmo alguma informação em minha mente... Enfim, não tomarei mais o seu tempo. A sala fica logo ali.
—Até breve, senhor Malfoy.
Lucius acenou levemente com a cabeça e acompanhou a jovem serpente com os olhos, até Blaise sumir de suas vistas. Tinha muito que realizar naquele mesmo dia, logo, não poderia perder tempo algum.
Dirigiu-se ao escritório que determinou ser seu – pobre Severus – e logo tinha a lareira em pleno funcionamento. A mesa tinha uma nova pilha de pergaminhos. Certamente, trabalho fresco oriundos da Malfoy C.O. O ideal seria analisar cada um deles ainda hoje, além do fato de que tinha real pressa de se livrar de toda e qualquer função laboral, pois a Dra. Morse não tardaria em chegar. Desejava acompanhar de perto toda interação que ela e Remus teriam.
—Excelente modo de conduzir o seu trabalho, Dr.
A voz de Lucius saiu num tom cortante, frio feito uma navalha afiada.
—Esse aí atrás, tentando inutilmente se esconder, é...
—Senhor Malfoy, por favor, mantenha a calma.
—Não gostaria de lidar comigo irritado, Dr.
Lucius Malfoy manteve a voz distante e levemente irritada, mas por dentro se contorcia de rir. Foi realmente hilário ver a confusão e o pânico que uma simples chamada via flu causara.
—Creio que em algumas horas, o senhor incorreu numa boa quantidade de crimes.
—Crimes? Claro que não, senhor Malfoy. De forma alguma! Sou um grande defensor da lei e...
—Ora, cale-se, Taylor. Você praticamente o sequestrou... Andy, por que você está semidesnudo?
Andreas arregalou os olhos para a lareira, a cabeça de Lucius flutuando nas chamas verdes. Já a face dele mesmo estava, com toda a certeza, vermelhíssima. Sentia as bochechas queimarem de vergonha.
—Er... Bem... Adam e eu...
—Senhor Malfoy, por favor...
—Dr. Adam Taylor, leve Andreas para a casa dele, imediatamente. Depois, quando estiver recomposto, precisarei de seus serviços. Venha até Prince’s House, no fim da tarde. Temos muitos assuntos para conversar.
Quando encerrou a chamada, gargalhou alto. Ah, a face ruborizada de Andreas valeu o dia, assim como o olhar apavorado de Adam Taylor. Ainda de bom humor, voltou a usar o flu, embora agora não tivesse a intenção de se divertir. A tela sobre a mesa lhe indicou que podia entrar em contato sem se evidenciar. O momento chegaria, em breve.
—Bom dia, senhor Malfoy.
—Bom dia, senhorita Parkinson.
—Não há qualquer imprevisto até o momento, senhor. Teremos uma reunião geral no fim da semana e estou em plena elaboração de todos os balancetes necessários. Estarão todos prontos até amanhã. Já enviei alguns contratos novos para que o senhor possa analisar. O setor jurídico já os revisou e não encontrou nenhum tipo de impedimento. Basta apenas que o senhor verifique se há interesse ou não e, obviamente, em caso positivo, que dê seu aval.
—Sua capacidade organizacional é surpreendente, Parkinson. Terei esses contratos analisados o mais breve possível.
—No que lhe posso ser útil, senhor?
—Minha cara, o Dr. Taylor virá aqui no fim da tarde de hoje. Preciso que reúna toda a minha documentação pessoal, para que eu possa entregar ao Dr. De fato, o Dr. deve até ter cópias dos meus documentos, mas preciso ser cirúrgico no que empreenderei, sem margem a erros, compreende? Infelizmente, não tenho nenhuma documentação pessoal aqui comigo, tampouco o documento oficial que me declara inocente, obtido pela ação tão nobre de Harry Potter.
Pansy o encarou, a mente trabalhando em todas as direções.
—Enfim, não tenho nada aqui comigo. Ora, eu não estou vivo para o Mundo Mágico, certo? E ser um morto é bastante... Tedioso, compreende? Sei que Draco poderia trazer meus documentos pessoais, contudo, não quero que ele saiba ainda das minhas ações.
A loira sorriu de forma diabólica. Tinha uma boa ideia do que estava por vir.
—Assim que voltei ao Mundo Bruxo, optei por prosseguir nas sombras. Acreditei que era a melhor maneira de proteger Draco, entretanto, os recentes acontecimentos me fizeram repensar minha postura. Depois dos ataques, não posso mais continuar enterrado vivo, minha cara. Como posso ajudar se nem ao menos existo? Mesmo tendo sido preso em Azkaban, o perdão ministerial me livrou de qualquer culpa.
—E o senhor sempre foi uma bruxo poderoso, um bruxo influente e exímio articulador político.
—Exato, minha cara. Posso ajudar mais estando vivo! Severus não concorda comigo, evidentemente. Ele acredita que devo me manter na “saudável” condição de defunto, entretanto, não posso prosseguir dessa forma.
—O professor Snape apenas se preocupa com o seu bem-estar, senhor. A máscara da morte é fria, porém segura. Contudo, concordo com o senhor. Sua influência e capacidade de articulação são, obviamente, notórias... Além do mais, creio que quem cometeu esses ataques sabe o quão vivo o senhor está. E, convenhamos, ficar juridicamente vivo lhe dará maiores possibilidades de atuação, sem contar com a liberdade, senhor Malfoy. O senhor poderá agir sem a terrível preocupação de se ocultar, o que será maravilho, se me permite acrescentar.
—Exatamente como penso. É óbvio que não sou um tolo. Sei que voltar dos mortos significa me expor. Entretanto, minha cara, não posso mais ficar me escondendo, não quando estão atacando os meus entes mais estimados. Poderia obter esses documentos, sem levantar suspeitas? Inclusive o documento oficial do Ministério da Magia que declara o meu perdão?
—Devo manter sua solicitação em sigilo completo, correto?
—Correto, total e completo, incluindo Draco.
—Bem, esses documentos devem estar todos em Malfoy Manor, no cofre pessoal de Draco. Felizmente, senhor, tenho aqui alguns memorandos que requerem a assinatura do seu herdeiro – e sorriu com tanto frescor que um desavisado até acreditaria que tais assinaturas eram mesmo necessárias.
—Sempre competente.
Lucius não podia negar que a senhorita Parkinson o divertia.
—Devo ainda adicionar ao cofre alguns novos documentos – e a sonserina apontou para uma pilha de pergaminhos a sua esquerda. – Hoje Draco deve ficar em casa, estudando um pouco e paparicando o esposo gravidíssimo. Adorarei fazer uma visita. Creio que terei os documentos em tempo hábil. Não se preocupe, senhor Malfoy, os levarei pessoalmente.
—Obrigado pela eficiência, senhorita Parkinson.
—É sempre um prazer ser útil ao senhor. Creio que o senhor Zabini já esteja em Prince’s House, certo?
—Sim, sim... O senhor Zabini já se encontra aqui. Inclusive, Blaise comentou sobre ter sido informado acerca de minha volta dos mortos, hoje mesmo, um pouco mais cedo.
—Oh, sim. Eu mesma esclareci esse ponto, assim como ressaltei todas as relações interpessoais em desenvolvimento em Prince’s House, afinal, não seria agradável que as alterações que ele pretende realizar viessem a interferir na dinâmica dos moradores atuais, certo?
Lucius gargalhou alto. Ah, aquela jovem era mais venenosa que Draco. Toda uma verdadeira serpente.
—Novamente, obrigado pela eficiência.
—Obrigada senhor. Tenha um bom dia.
As chamas se apagaram e Lucius decidiu que tinha assuntos mais urgentes do que analisar os contratos enviados por Parkinson. Deixando o escritório para trás, foi até o quarto do senhor da propriedade. Educadamente, deu batidinhas na porta e aguardou. Não demorou muito para que a sua entrada fosse permitida por um “entre”, na voz de Sirius Black.
O aposento estava bastante claro. As cortinas haviam sido completamente abertas. Um Sirius com aparência cansada estava sentado no colchão, ainda trajava o pijama e sustentava uma perceptível carranca. Fosse o que fosse, o caprichoso Black ficava mesmo muito divertido quando agia daquela forma infantil.
—Está tudo bem, Sirius? Está um pouco pálido...
—Está tudo bem, Lucius... É só o meu destino terrível desabando sobre mim!
Severus saía do banheiro com uma toalha de rosto nas mãos. A expressão demonstrava preocupação.
—O drama não combina com a coragem grifinória, Sirius.
—Isso tudo é sua culpa.
—Sei, sei... Vamos, você ainda está um pouco instável. Deite-se.
—Eu não quero me deitar, Sev. Estou deitado já faz tempo demais – e ficou de pé com rapidez, talvez rapidez demais para um doncel grávido e ainda se recuperando de alguns ferimentos.
Sirius se amaldiçoou, mas agradeceu quando teve os braços fortes do marido ao redor de si. Nossa, aquele estava sendo um dia de merda, não que ele fosse falar isso em voz alta, afinal, o marido detestava quando usava certas palavras.
—Calma agora, Sirius.
Acordou enjoado demais. Nada do que fizessem parecia acalmar o bebê, nem mesmo o chá enviado por Esther. Estava sendo um horror completo e ele tinha certeza de que havia vomitado até as refeições que tivera em Hogwarts, quando ainda era um estudante regular da Grifinória.
—Não é melhor levá-lo para St. Mungus? Ele parece mais pálido ainda.
—Não, Lucius. É apenas enjoo matinal – disse Severus, enquanto acomodava o esposo rebelado, mas amolecido, na cama.
—Desde cedo?
—É. Creio que estamos enfrentando um enjoo bastante forte e debilitante. Sirius vai ficar bem quieto aqui até se sentir melhor.
—Eu não estou doente para ficar deitado o dia inteiro, Severus.
—Eu sei – concordou Severus, a toalha agora sendo passada com cuidado sobre a testa do doncel. – Eu não disse que você está doente. Sua gravidez nem tem sido tão terrível no que se refere aos enjoos. Estamos apenas num dia peculiar, certo?
—Peculiar meus ovos... Uma porra de dia do inferno!
—Cachorro, quer que eu costure a sua boca?
Lucius se aproximou. A barriga de Sirius já era proeminente e o doncel, apesar de pálido e mareado, tinha uma luz própria. Acompanhou com interesse a forma como o amigo cuidava do esposo. Imaginava que, em breve, seria ele a fazer o mesmo com o próprio companheiro.
—Sev, o seu filho se aliou a você... Vocês dois querem me manter enclausurado!
—Sirius, você já está delirando. Tente regular a sua respiração, vamos.
O pocionista acariciou o esposo com ternura, enquanto o ajudava a respirar com mais calma, sobrepondo as ânsias terríveis que ainda o consumiam. Ainda sem ligar para a presença de Lucius, Severus usou as mãos grandes para prender os longos cabelos de Sirius, evitando que o incomodassem tanto. Depois, convocou uma poção de seu estoque no banheiro, a qual o animago ingeriu sem deixar de reclamar, é claro.
—Ah, Sev... Suas poções são uma porcaria.
—Claro, claro. E você é todo um especialista em poções, certo?
—Posso não ser um especialista, mas essa aqui, por Merlin! Ela tem sabor de merda de Trasgo.
—Nem quero imaginar como você foi capaz de chegar a tal conclusão.
—Porra, Sev, pouco importa qual é a merda. Está uma merda mesmo.
—Ah, essa língua... Definitivamente, vou costurar sua boca, Sirius.
—Você gosta mais da minha boca sendo bem útil, Sev.
Lucius gargalhou alto. Já Sirius sorriu fracamente, ao sentir mais um carinho do marido em seus cabelos. Minutos depois – e mais alguns palavrões adicionados -, o doncel caiu num sono abençoado, sob os cuidados de Severus.
—O que deu a ele?
—Apenas uma leve poção para conter a náusea, adicionada a uma poção calmante.
—Se já tinha a poção pronta, por que não deu a ele antes?
—Na verdade, o que viu agora foi Sirius ingerindo essa poção pela terceira vez. As tentativas anteriores acabaram ali – e Snape apontou o local no qual, antes, havia um tapete – ou dentro do vaso sanitário. Os elfos devem trazer o tapete em breve, já limpo. Sinceramente, pensei que Sirius não pararia de sentir ânsias de vômito nunca mais. Contudo, finalmente estabilizou. Após toda essa tortura, o estômago dele se acalmou – e conscientemente, Severus acariciou a barriga que abrigava o filho de ambos. – Prepara-se, Lucius. Logo, logo será a sua vez.
—Narcisa teve seus enjoos também, Severus, mas nada assim. Ele está mesmo bem?
—Sim, eu já chequei. Tenho uma teoria sobre os altos e baixos de Sirius, mas ele é forte – e finalmente encarou os olhos frios de Lucius. – Não creio que tenha vindo até aqui para se certificar da saúde do meu esposo – completou asperamente.
—Severus, você está bem? Até sua magia parece descompassada.
—Lucius, vamos conversar lá fora, por favor.
O quarto foi deixado e logo Lucius voltou ao escritório. Pediu a Severus que se sentasse e fez o mesmo.
—Vamos Lucius, diga logo o que tem para dizer. Se é sobre aquela loucura de se revelar, eu...
—Não é loucura.
—O jovem Weasley não pode ser usado como exímio intelecto ao conjecturar boas ideias, Lucius. Ele era deplorável em poções.
—Severus, admita: você teria reprovado até a si mesmo em poções!
Severus lhe lançou um olhar feio, mas nada disse.
—Esse é um assunto já definido. Vou voltar ao mundo dos vivos o mais rapidamente que eu puder, então, apenas aceite. Sabe, Draco me escreveu hoje e não pude ser contrário aos argumentos do meu filho. Preciso de suas habilidades, caro professor carrasco.
—Minhas habilidades?
—Sim, suas habilidades em legilimência.
Snape apenas encarou o patriarca Malfoy com uma expressão de desagrado.
—Vamos lá, Sev...
—Não se atreva a me chamar assim, Malfoy – rebateu o professor friamente, o desagrado triplicado.
Lucius riu com gosto. Era impossível não provocar o amigo com o “apelido”. Ele conhecia Severus muito bem. O austero professor tinha o corpo rígido de pura tensão.
—Só estava tentando fazer você relaxar, Severus.
—Mesmo? Um desavisado não teria percebido – e rilhou os dentes.
—Severus, é sério: você está muito tenso – e num bater de varinha, dois copos com whisky de fogo se aproximaram magicamente dos magos. – Não discuta e beba comigo. Sou o mais velho, então obedeça.
Severus respirou fundo ao sentir o líquido encorpado adentrar seu organismo, relaxando-o quase que imediatamente. Nem ele mesmo tinha percebido o quanto precisava de uma bebida.
—Melhor? – perguntou o loiro alguns minutos depois.
—Sim.
—Ótimo, “20 pontos para sonserina”, ou te agradaria mais um “menos 50 pontos para a grifinória”?
O pocionista sorriu. Todo um milagre que Lucius, evidentemente, comemorou com mais uma dose da bebida que compartilhavam.
—Creio que toda a tensão acumulada ao longo dos últimos dias, mais o estado de Sirius hoje, o tenham deixado mais amargo que o habitual, caro amigo.
—Não posso discordar, nobre Malfoy.
—Agora que você já tem uma bebida de qualidade em seu sistema, ouça-me, por favor. Eu errei muito na vida, Severus. Abraçar os ideais puristas do meu pai foi um deles, nem de longe o único. Felizmente, pude redirecionar minha rota de vida. Juro que pensei que minha mudança não havia sido rápida o suficiente para me safar de uma colisão fatal. Chegou a um ponto que eu tinha certeza de que a morte me levaria, ainda que não pudesse definir pelas mãos de quem: do Ministério ou do Lorde das Trevas. No fim, fui mandado para Azkaban, perdi minha esposa e aceitei, de verdade, que eu merecia cada punição que me fora infligida. E então, veja só onde estou agora. Aqui, vivo e bem, com a minha família aumentada. Não vou questionar se mereço ou não, até porque não importa mesmo. Vou agarrar essa possibilidade e lutar por ela, protegê-la acima de tudo.
—Você sempre fica emotivo quando bebe, Lucius.
O loiro o encarou e percebeu que agora era o amigo quem estava tentando “aliviar” o peso da conversa. Entrando no clima, ergueu o copo levemente, antes de sorver mais um gole.
—Eu agradeço e muito o seu apreço por minha pessoa, Severus. Você cuidou de mim e ainda cuida. Contudo, sou o patriarca Malfoy, meu caro. Não posso mais me escusar de minhas responsabilidades. Draco, Esther, Remus, Frederick, Edward, meu novo filho ainda em gestação... Até Harry Potter faz parte de minhas profundas preocupações. Preciso ser proativo. Preciso que vasculhe minha mente. Sei que há algo nas entranhas de minha memória que poderá nos ajudar...
—Não o fiz antes devido ao seu estado de saúde, Lucius. Não se julgue bem só porque andou pulando a cerca atrás de certo “lobinho”.
—Avalie a minha saúde então, caro amigo. Caso queira certificar sua avaliação, posso solicitar à Dra. Morse que me avalie também, ou até madame Pomfrey. Ela é extremamente competente e pode atestar que estou bem, Severus.
—Lucius, quando Esther o acolheu, você não fazia ideia de quem era. Eu temo que minha intrusão em sua mente o prejudique, que, de alguma forma, possa afetar o seu atual equilíbrio mental.
—Isso não vai acontecer. Estou no pleno comando de mim mesmo, Severus.
O pocionista liquidou sua bebida e fez o copo flutuar até a mesa mais próxima. Cansado de argumentar com o patriarca Malfoy, decidiu então conceder uma possibilidade.
—Tudo bem, Lucius. Vou fazer, mas não hoje. Antes que eu adentre a sua mente, você precisará se fortalecer. Conheço bem das suas capacidades de oclumência, afinal, é quase um dom natural, certo?
—Sim, de fato, inerente a todos os veelas. Apesar de eu mesmo não ser um exemplo de poderosa herança veela, ela está em mim também.
—Você usará esse tempo para se fortalecer. Aprofunde-se em seus pensamentos, controle-os e concentre-se em criar um acesso para mim. Quando conseguir, aí sim, eu o avaliarei fisicamente e, caso esteja tudo bem...
—Aí sim usará de toda a sua legilimência comigo, sem freios, até encontrar o que precisamos para evitar mais desgraças.
—Exatamente. Não posso colocar sua vida em risco, Lucius. Draco não me perdoaria e eu tampouco me perdoaria. Já foi terrível perdê-lo para a morte uma vez.
—Creio que você também ficou um pouco emotivo, não é? – e sorriu com malícia, enquanto terminava sua dose também.
Severus ignorou o comentário, aproveitando para se aproximar da lareira. Sob um cinzento e atento olhar, jogou flu e logo as chamas mostraram uma sala com móveis bem usados, cobertos com mantas e almofadas coloridas.
—Professor?
—Bom dia, senhorita Granger.
—Bom dia, professor. Bom dia, senhor Malfoy.
—Espero que já esteja recuperada – prosseguiu Severus, os olhos atentos à Hermione.
—Oh, sim. Completamente. Madeleine também está ótima. Gui, Fleur e Victoire estão aqui. A senhora Weasley decidiu voltar hoje. Ronald foi até Bristol para buscá-la. Na verdade, ele vai tentar fortalecer a barreira já existente na mansão dos Nott. Nós estamos preparando o almoço e as coisas ainda estão um pouco fora dos eixos aqui, mas se ajeitando.
—Theodore não pode viajar ainda.
—Sabemos disso, professor. E ele não vai. É que com os ataques, bem, a senhora Weasley decidiu antecipar a volta.
Severus pareceu genuinamente aliviado.
—Ótimo. Espero que estejam seguindo minhas recomendações.
—Blaise está aqui, Severus. Pode questioná-lo sobre a saúde de Theodore pessoalmente, caso deseje.
—Ele já está aqui?
—Sim, está lá embaixo, naquela saleta pouco utilizada. Ele veio para viabilizar mais hospedagens no seu albergue de luxo – e sorriu ladino.
Hermione acompanhava a interação com divertimento. Aqueles dois pareciam gostar mesmo de alfinetar um ao outro. Bem, talvez fosse algo típico entre sonserinos.
—Farei o seguinte, Severus: vou ceder meu escritório para que converse com a senhorita Granger. Enquanto isso, pedirei a Blaise que o aguarde para que possa lhe informar sobre Theodore – e se levantou, caminhando rapidamente até a porta. – E claro, farei o que me pediu e em breve serei alvo de suas habilidades. Senhorita Granger, sempre um prazer.
Hermione acenou levemente ao ver o loiro deixar o local.
—Professor, desculpe a curiosidade, mas... De onde o senhor está fazendo essa chamada via flu?
—Obviamente, de Prince’s House. Não acredito que muitos outros lugares estejam autorizados a uma conexão com a Toca, tendo em vista a segurança que paira sobre a residência Weasley.
—Oh, claro. É que, bem... O senhor Malfoy disse “vou ceder meu escritório”...
—Lucius Malfoy é um bruxo bastante peculiar, senhorita Granger. Ele ignora o fato de que é meu convidado. De fato, já se assenhoreou de “pedaços” da minha própria residência. Não ficaria muito surpreso se, por acaso, eu viesse a receber uma ordem de despejo.
Hermione riu do tom falsamente indignado do pocionista.
—Sei que é prematuro de minha parte incomodá-la hoje, contudo, creio que não podemos mais esperar. Esses ataques não me fazem compor nenhum belo cenário mental...
—De forma alguma é prematuro. Eu ia mesmo entrar em contato com o senhor, professor. Hoje ainda...
—Ótimo então. Precisamos conversar pessoalmente. Poderia, após recepcionar Molly Weasley, vir a minha residência?
—Claro, professor. Estamos a uma lareira de distância, afinal.
—Traga o maldito livro purista consigo. Listei todos os ingredientes que precisaremos, mas... Não considero a rede de flu o modo apropriado para explicar o que realmente faremos, compreende?
—Estarei aí, senhor. Algum problema se eu comunicar a Ronald? Ele está bastante preocupado depois do ataque. Acredita que ele já me mandou cinco corujas? E nem estamos na hora do almoço ainda.
—Temo que, caso fosse o meu esposo a ser alvo direto de um ataque, eu faria o mesmo. Comunique ao futuro auror, mas tranquilize-o. Será apenas uma conversa... Casual.
O tom de voz de Severus Snape distava e muito do que ele realmente dizia. Nem de longo teriam um conversa casual, disso Hermione tinha certeza. Compreendeu no mesmo instante que falariam sobre o que ocorre em St. Mungus. Levaria todas as suas pesquisas e suposições. Snape era brilhante. Juntos encontrariam alguma luz em meio às trevas.
—Certo, professor. Até mais tarde.
—Até mais tarde.
A lareira se apagou e Severus se serviu de mais uma dose do caríssimo whisky de fogo. Já havia se passado uma hora? Duas? Não fazia ideia. O dia mal começara e já tinha a mente tumultuada. Problemas com Sirius, Theodore, Lucius, Remus... Isso sem mencionar a chegada iminente de Sophia, mais as duas esposas ciumentas-possessivas que, tinha certeza, Theodore Nott fizera de questão de arranjar para levá-lo à loucura.
—Ok, ok... Respire, Severus Prince Snape – disse a si mesmo, antes de sorver de uma só vez o conteúdo do copo.
Com alguma serenidade retornando ao seu sistema, Severus deixou o escritório. Ia fazer o caminho de volta para o quarto quando se lembrou de Zabini. Resignado, desceu as escadas e se dirigiu ao local no qual supostamente encontraria seu ex-aluno.
Por mera educação, deu leves batidinhas na porta. Um suave “entre” foi o sinal para que adentrasse o cômodo. Não pode deixar de se espantar com a mudança já feita. Havia mais espaço, sem dúvida. E de onde saíra aquela parede, já com uma bela porta e pintura?
—Bom dia, professor.
—Bom dia, senhor Zabini. Vejo que já realizou grandes mudanças aqui.
—Sim senhor. Venha ver.
Severus o acompanhou até a porta que, antes, simplesmente não existia.
—Aqui é a suíte do trio. Usei um complexo feitiço de expansão nesse ambiente, realizando uma verdadeira maravilha, não é mesmo?
—Sem sombra de dúvidas.
Quando Blaise abriu a porta, o dono da residência realmente se surpreendeu. O espaço ali dentro era adequado para iniciar a vida de uma pequena família.
—Presumo que ali é o banheiro? – perguntou Snape, apontando para uma segunda porta.
—Isso mesmo. E ali, na outra porta, fiz um pequeno quarto para o bebê. Não sabemos quanto tempo o trio ficará aqui, não é?
Um som de aparatação chamou a atenção dos dois. Logo Severus reconheceu um dos seus elfos domésticos. O “pequenino” mal se equilibrava devido à quantidade de pacotes que carregava.
—Senhor, entregas – e deixou inúmeros pacotes sobre uma mesinha pro ele mesmo conjurada.
—Quem entregou? Reforcei as barreiras. Apenas pessoas específicas podem entrar e muito menos ainda podem nos entregar qualquer coisa!
—Oh, senhor, quem entregou foi aquela senhorita jovem muito bonita e muito mandona, senhor.
“Pansy Parkinson” pensaram os dois magos no recinto.
—Certo, certo. Ela tem livre acesso. Obrigado.
—Certamente, Pansy enviou tudo o que preciso. Da louça do banheiro aos lençóis da cama. Creio que em mais uma hora eu consiga terminar aqui. Já o quarto da minha mãe, bem, esse eu terei que realmente construir. Precisarei ir eu mesmo comprar o material. Sei que não posso contratar ninguém para me auxiliar, então, não será tão rápido assim.
—Blaise Zabini, eu mesmo o ajudaria, caso não tivesse com um problemático “albergue de luxo” para administrar.
Blaise gargalhou com aquela precisa definição.
—Falando em problemático, como Theodore está?
—Ele acordou bem e parece finalmente estar entrando em sintonia com as esposas. Acredito que Theo esteja começando a perceber que merece ser amado.
—Ótimo. Irei a Bristol em breve.
—Não acha perigoso ficarmos lá?
—Não acredito que Gustav Nott tenha interesse em fazer mais nada com o filho. Por algum estranho motivo – e Severus tinha grandes suspeitas de qual motivo seria –, ele deseja que Theodore permaneça vivo. Conversei com Hermione Granger hoje mais cedo. Ela mencionou que Ronald Weasley iria a Bristol hoje para tentar fortalecer minimamente a proteção da mansão.
—Sendo assim, parece não haver mais problema.
—Não é bem assim, Blaise... Apesar de tudo, há risco real. Gustav tem a relíquia ancestral dos Nott. Devemos estar muito mais alertas. Ele não vai voltar tão cedo a incomodar Theodore, mas estejam sempre perto dele e a uma lareira de distância de um local mais seguro. Eu voltarei a Bristol para avaliar a saúde dele. Até lá, mantenha o retorno de Lucius sob sigilo. Eu mesmo contarei ao trio e a Sophie. Agora, volte ao seu trabalho. Temos que ter tudo pronto, ou Sophie ficará irritada.
—Merlin nos livre disso!
O riso em conjunto parecia ter sido combinado. De fato, o professor e o ex-aluno conheciam Sophie muito bem. A mulher não era nada fútil como gostava de aparentar ser, mas realmente se irritava com facilidade e, geniosa como era, nunca tiveram consequências positivas das demonstrações de irritabilidade da “viúva negra”.
—Oh, Severus, que bom que está aqui. É o almoço de Sirius. Sei que ainda está um pouco cedo, mas Lucius me contou que os enjoos foram realmente graves, então, é melhor ter algum alimento no estômago, não é?
—Realmente, é melhor sim. Esther, não precisava se incomodar com isso. Os elfos devem fazer esse trabalho, não a senhora – reforçou Snape, ao ver a mulher sair da cozinha com uma bandeja nas mãos, bandeja esta que logo pegou.
—E desde quando ajudar ao seu esposo é um incômodo? Bem, faça-o comer tudo. Eu preparei um almoço bem leve. Quer que eu sirva o seu almoço também?
—Não, obrigado. Não estou com apetite para nada no momento. E, por favor, descanse... Não deve se preocupar com nada disso.
Esther sorriu para Severus. Sabia que o austero professor ficava mortificado com o fato de ela não “sossegar”, ou, como Lucius lhe dissera recentemente, “não agir como convidada”. Ah, mas era impossível não fazer absolutamente naquela casa. Só de imaginar ficar o dia inteiro “descansado” a fazia engasgar de puro de tédio. Sempre fora uma mulher ativa, não mudaria seu modo de ser porque estava fora da sua antiga residência.
—Fique tranquilo. Vou agora mesmo me sentar lá fora e relaxar.
O pocionista agradeceu novamente e rumou de volta ao quarto. Com um feitiço rápido, fez a bandeja levitar atrás de si. Logo depois, estava de volta ao próprio quarto. Abriu a porta com cuidado e fez com que a bandeja fosse disposta sobre uma superfície adequada, adicionando um feitiço para conservar a temperatura.
Na cama do casal, a mais bela imagem o arrebatava, impedindo-o até mesmo de fechar bem a porta. Sirius ressonava tranquilo, o corpo visivelmente relaxado. Ah, o esposo era mesmo uma aparição. Não, mais que isso: Sirius era a corporificação da tentação. Como resistir? Ele queria resistir? De fato, não.
Com cuidado subiu na cama e se recostou. Acariciou o belo rosto do doncel e, como se estivessem coordenados, Sirius se virou para ele, abriu os olhos com vagar e, assim que o reconheceu, sorriu cheio de amor. É, era impossível resistir ao animago que, até mesmo sem ter a intenção, o deixava excitado.
—Vejo que acordou...
Logo o doncel tinha as mãos de Severus sobre si, um delicioso carinho no rosto, que seguiu para o cabelo. Ah, ele poderia ronronar, caso fosse um gato.
—Como está se sentindo?
—Melhor, bem melhor... Que cheiro bom é esse?
—É o seu almoço.
—Almoço? – E se espreguiçou o máximo que pôde, para se enrolar em Severus em seguida. – Está tarde assim, Sev?
—Não tanto, mas os enjoos foram terríveis. Precisamos acalmar o seu estômago com uma refeição leve.
Sirius escalou o corpo de Severus, fazendo-o de colchão. Encaixou-se perfeitamente nele, sentindo cada pedacinho que pôde da pele do marido. Primeiro beijou-o na boca, mordiscando o lábio inferior aprisionado com desejo entre os dentes.
Os gemidos de Severus logo o incentivaram a prosseguir. Precisou ter cuidado para não prejudicar as lesões já praticamente curadas, mas não houve maior problema. Logo estava muito bem acomodado, tirando do caminho as incômodas vestes.
—Sirius, o que... Aaah... O que está fazendo?
—Apreciando a paisagem?
—Tire as mãos daí, cachorro.
Sirius o tinha exatamente onde queria: sob si, semidesnudo e sem reação ao ter o falo massageado com a pressão adequada, nos pontos certos.
—Ah, Sev, não seja chato.
—Sirius, saia daí... É melhor que você consuma algum alimento.
O animago impediu Severus de afastá-lo. Com um movimento rápido, abocanhou o falo do marido, tendo como resposta um rosnado intenso, quente e lascivo que só o incentivou a prosseguir num bom uso da própria boca.
O falo longo e pulsante era uma delícia de provar. Sirius queria fazer aquele homem que tinha pra si se derramar de prazer. Com os lábios sugando, com a língua lambendo o máximo que podia... Ah, ele sabia: Severus não conseguiria resistir por muito tempo.
O sobe e desce ganhou ritmo e o professor se entregou completamente àquela dança libidinosa. Com destreza, Sirius se dispôs a fazer um trabalho completo, massageando e sugando as suas bolas. Não foi capaz de conter os gemidos. Aproveitou para enterrar as mãos no sedoso cabelo do doncel, conduzindo-o no cadenciar que mais lhe agradava.
Quem visse Sirius Black ali, naquela posição tão submissa, poderia assumir que o animago se encaixava perfeitamente no papel. Oh, não havia maior inverdade. Ele sim era completamente submisso aos desejos do esposo.
—Sirius... Eu vou... – E puxou-lhe pelos cabelos, a respiração acelerada quase o fazendo sufocar.
Sirius foi puxado e acomodado no colchão. Com pressa, ele sentou e puxou o marido com uma necessidade terrível.
—Fode a minha boca, Sev.
Por um segundo, o tempo congelou para o professor. Lá estava o doncel, delicioso como um doce pecado, sentado sobre os próprios pés e abrindo aqueles lábios carnudos e desejosos do seu pau.
Como resistir? De fato, ele queria resistir? Não, nunca. Nem mesmo se se empenhasse com força sobre-humana, seria capaz de conter o efeito que Sirius tinha sobre ele. Ele atiçava seus instintos mais primitivos.
—Desse jeito – e chupou três dedos lascivamente.
Sem esperar mais, Severus se posicionou para, literalmente, foder a boca do esposo. A ereção que sustentava já doía, desejosa de atenção.
—Vamos, Sev. Enfia logo esse pau bem aqui. Eu quero a sua porra escorrendo pela minha garganta, quente e viscosa...
—Shiii... Você realmente tem uma boca muito suja, cachorro.
Não demorou muito para Sirius estar novamente sugando o falo de Severus com vigor. O ritmo era completamente diferente agora, mais rápido e quente.
—Você é perfeito, Sirius... Aaah, por Merlin!
Só de ouvir o marido falar daquele modo o fazia endurecer mais ainda. Ele até tentou se tocar, mas um aceno negativo de cabeça o fez parar. O maridinho o queria duro e sem gozar.
—Mais rápido, cachorro. Isso, muito bem...
O doncel estava derretendo com os sentimentos que pipocavam sob a própria pele. Naquele mesmo dia, quando tivera uma terrível e quase interminável sessão de enjoos, Severus foi atencioso e paciente. Ele cuidou de cada detalhe, confortando-o como podia.
Nunca pensou que teria uma felicidade desse tipo. Quer dizer, em determinado momento de sua vida, ele, Sirius Black, pensou que morreria em Azkaban. Depois, já quando estava livre e a guerra tinha acabado, veio a estranha doença e a revelação de que era um doncel. E então o casamento com Snape, a gravidez.
Ah, sua vida foi uma secessão de acontecimentos inacreditáveis. Ser alvo do amor de alguém como Severus era mais um desses “acontecimentos inacreditáveis”. O pocionista não era de efusivas demonstrações de afeto, tampouco de arroubos românticos. O seu homem era de ações. Era assim que conseguia enxergar o quanto era amado.
Severus era um homem astuto, sagaz, o inventor do sarcasmo e inteligentíssimo. Severos era um homem que não demonstrava sentimentos a qualquer um, não mesmo. Era um privilégio ser alvo dos sentimentos do tão renomado professor. Queria apenas fazê-lo atingir o céu, tal como ele atingia com cada atenção recebida, com cada pequeno detalhe que lhe fazia acreditar que toda a dor havia ficado para trás.
—Huuum... Sirius!
O marido enfim gozou em sua boca, tal como ansiava. Sugou até a última gota, rogando para que fosse capaz de não se derramar por inteiro também, sem nem ao menos se tocar. Ele não tinha conseguido nem mesmo abaixar as calças e agora o tecido roçando em sua pele já incomodava.
Mal se recuperou um pouco, Severus agiu rapidamente. Acomodou Sirius na cama, deitando-o com cuidado. As mãos com dedos longos logo chegou à calça do pijama, abaixando-a em seguida. Sirius não estava usando roupa de baixo, ao que sorriu.
O doncel estava duro e gotejando, toda uma visão. Engoliu-o com pressa, já degustando aquele néctar que era apenas dele. Sirius se contorcia sob ele, proferindo incoerências.
—Sev!
Não demorou muito para se embebedar... Tão delicioso! Tão viciante! Ah, seu doncel era puro êxtase. Nublado pelo prazer, beijou a barriga inchada e linda e se apressou para dominar os lábios ainda trêmulos pela força do orgasmo.
Os dois se perderam em carícias, com muitos beijos e toques. Sirius se aninhou em Severus, aproveitando a presença dele o máximo que podia.
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