Submisso
70 Capítulo 70 - Coração Valente
Notas iniciais
Capítulo 70 – Coração Valente
—Já conseguimos acalmar o lobisomem e, no fim, foi até muito bom para nós o showzinho dele no Beco Diagonal. Quem diria que o tal Lupin estaria emprenhado de um veela? Três grávidos! As contas estão mesmo a nosso favor... Só não entendo o porquê de o mestre autorizar isso... Não faz sentido.
—Ora, cale-se mulher. O fato de ele te fuder, não significa que possa criticá-lo. Não queria que você estivesse aqui, mas não questiono as decisões dele, portanto, não as questione também.
Um vento frio e cortante os atingiu, fazendo os fios de cabelos vermelhos da voluptuosa mulher dançarem freneticamente. Estavam sozinhos, parados de pé em frente àquela parte da propriedade. Não seriam repelidos pela barreira, o que era ótimo.
—Eu quero apenas ver de perto o absurdo, a degeneração... Deveria tê-lo matado quando tive chance. Sabia que não serviria aos planos do Lorde, mas denegrir assim o nome da família...
—Ora, parece que ele finalmente terá alguma serventia ao Lorde, não é? – E ateou fogo nos últimos pergaminhos médicos oficiais que ainda estavam em suas mãos. – Olha, já confirmarmos o que desejávamos: ele está mesmo gestando um bebê fruto de uma união com a veela – ao que o comparsa rugiu de ódio -, mas a saúde dele está bastante fragilizada. Com uma visita como a sua, não acha que ele pode piorar e até perder o bebê? Isso iria destruir nossos planos.
— Ele não vai perder esse engendro, mas vai saber que, mais uma vez, me decepcionou.
—Só não vejo sentido em deixá-lo de sobreaviso. Aliás, por que permitir que a sua máscara fosse usada no...
—Ora, é divertido, mulher – interrompeu-a. – Quero que o traidor saiba que estou vivo e quando ele vier cuidar dos filhotes de serpente, como sempre fez, ele vai perceber que brinquei com ele também. Vai perceber que nunca poderá protegê-lo de mim.
—Já lhe disseram que tem severas tendências psicóticas?
—Ha, ha, ha... Não use seus estudos profissionais para me classificar. Assustar, aterrorizar, constranger, ameaçar... Tudo isso me faz sentir vivo. E o mestre também quer causa dor aos traidores do sangue, não se esqueça. Ele vai, pessoalmente, verter aquela vaca em pó.
Outra rajada forte de vento os envolveu, mas o repentino frio pareceu não incomodar o antes senhor de todas aquelas terras.
—Conseguirá não ser visto por tantos bruxos?
—Por favor, isso é algo muito fácil, mulher. Essa é a minha casa e só eu conheço os seus mais obscuros segredos.
—Então vá. Espero que esse seu capricho idiota não nos prejudique. Eu te aguardarei apenas por uma hora, depois disso, não me encontrará mais aqui. Diferentemente de você, eu estou viva.
A ruiva se sentou no chão gramado, tão gelado quanto o ar, enquanto o observava. O cretino era a encarnação da soberba e da violência, na mesma medida. Sabia que era uma jogada ruim e desnecessária. Alertaria-os, sem dúvida, contudo, parecia que nenhum dos seus comparsas estava lá muito interessado em raciocinar nos últimos dias.
Acompanhou os movimentos dele que, sem esperar mais, ergueu a varinha e conectou a sua magia à da ancestral casa, usando o poder da relíquia a si mesmo e à relíquia ancestral. Imediatamente, o céu escureceu.
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Ronald seguiu Severus para um cômodo na parte de baixo da casa. Era uma saleta, apartada da sala principal, que ficava mais no fundo da residência. Madeleine foi deitada num sofá e ele fez o mesmo com Hermione.
—Enquanto eu as avalio, entre em contato com seus superiores. Ali há outra lareira...
A indicação do professor o fez se voltar para a parede oposta à porta. Correu até a lareira, mais uma que conectava Prince's House à rede de flu. Ronald foi rápido. Informou sobre o ataque e sobre a possibilidade bastante real de um ataque à Toca. Imediatamente foi comunicado que o Departamento já fora acionado e que já havia aurores fazendo a varredura do local, ou seja, na sua casa. Não havia ninguém mais de sua família por lá, o que agradecia.
Dois aurores que guarneciam a Toca foram feridos, mas não lhe foi esclarecido nada acerca da gravidade das lesões, apenas que ambos estavam vivos. Precisou informar que a noiva e Madeleine estavam com ele, ao que foi orientado a permanecer onde estava.
—O Departamento enviará aurores para cá, professor. Não há como evitar isso. Como elas estão?
—Fisicamente bem. Há alguns arranhões na senhorita Granger, contudo, nada de gravidade.
—Então por que não acordam? – Questionou mais para si mesmo, em pura preocupação.
—Não se preocupe, Ronald. Garanto que estão bem.
Ronald já estava sentado no sofá que acolhia Hermione. Acariciava-lhe os fartos cabelos, enquanto sentia a sensação de alívio se espalhar por cada célula de seu corpo.
_Certamente a força da barreira protetiva de Prince's House as nocauteou. Elas acordarão em alguns minutos... Limpe as vestes delas e fique aqui, por favor. Não as deixe sair até eu retornar. Terei que obrigar Lucius a ingerir um pouco de poção polissuco. Apesar do que conversaram, creio não ser hoje o momento mais adequado para grandes revelações.
—O senhor tem poção polissuco pronta para o uso? – E ao que Snape assentiu, questionou. – E por quem ele se passará?
—Um bruxo qualquer. Tenho armazenado, para eventual necessidade, ingredientes específicos, assim como as poções mais complexas. É isso ou ser petrificado e trancado num armário, Lucius escolherá. Se bem que, caso tenha sorte, faço com que ingira a poção antes mesmo de lhe fornecer as vastas opções. Tranque a porta, por favor. Eu já voltarei.
Com pressa, Severus correu até o seu laboratório particular. Instantes depois, já alcançara o quarto de Lucius. O loiro estava relaxado, sentado na mesma cama na qual Remus ressonava. Não perderia essa oportunidade.
—Lucius, beba.
—O que está fa... – E, sem nem ao menos explicar mais nada, ou sem qualquer delicadeza, obrigou-o a ingerir a poção que trazia num frasquinho.
O veela pai logo foi dominado pela sensação nauseabunda de puro asco que a poção polissuco gerava. Conhecia-o muito bem. Irritadíssimo, deixou a cama e mirou a si mesmo num grande espelho próximo ao armário, outro novo componente do quarto que, agora, pertencia a Remus e a ele. Por Merlin, Severus o transformara num jovenzinho espinhento de 17 anos!
—Terá que explicar isso com riqueza de detalhes, Severus. Olhe para mim! Eu estou tenebroso!
Remus dormia tranquilamente, logo, nada viu daquela estranha situação. Snape apenas lhe entregou outro frasco, com mais poção polissuco.
—Farei isso, Lucius. Em alguns minutos. Por enquanto, por favor, mantenha-se oculto. Pegue a sua varinha e me aguarde lá embaixo. Pedirei a Esther que venha aqui e faça companhia a Remus até que ele acorde.
—Não deixarei Remus aqui sozi...
—Quer explicações ou não? – E ao que o amigo e calou, prosseguiu. – Ótimo então. Desça, por favor.
Lucius fez exatamente o que lhe foi tão gentilmente solicitado, embora não pudesse disfarçar a própria irritabilidade. Decidiu aguardar Severus de pé mesmo, colado ao último degrau da escada. E a espera não durou quase nada. Algo fazia com que o pocionista se movesse como se tivesse asas nos pés.
—Venha comigo, Lucius.
O veela o seguiu até um dos cômodos da casa. Severus parou diante da porta e falou com pressa.
—Esther e Frederick estão com Remus. Avisei a eles para não mencionarem o seu nome, nem ao menos supor que o conhecem. Sirius, Harry e Draco estão no quarto, minimamente informados de que precisaremos agir com cautela.
—E por que tudo isso?
—A minha casa foi atacada há alguns minutos, Lucius.
—Atacada?
—Aurores estão a caminho nesse exato instante e você acaba de ser promovido: agora é meu assistente particular. O que acha de chamá-lo de Frank?
Severus esticou o braço em direção à porta, mas Lucius o segurou pelo pulso. Caso o professor ousasse apenas dar informações tão superficiais, ah, estaria em maus lençóis.
—Severus, despeje logo toda a história. Como assim, “atacada”? Eu estava aqui, com você e com o...
—Aconteceu assim que você subiu as escadas.
—Eu não ouvi nada, nem ao menos senti qualquer perturbação...
Soltando-se das garras de Lucius, o pocionista finalmente abriu a porta. Com agilidade, fez com que o veela entrasse também. Não queria ter aquela conversa longe do aspirante a auror.
—O que houve com elas? Quem é essa criança?
—É o senhor Malfoy?
A pergunta de Ronald foi respondida com um balançar positivo de cabeça do professor, acompanhado por um quase “rugido” do “adolescente/assistente”.
—A criança é filha da Skeeter. Agora apenas ouça, Lucius, por favor. Como eu disse, a ação foi bastante rápida. Por sorte, eles atacaram as barreiras de Prince’s House no exato instante em que Ronald estava no jardim. Ele foi capaz de conter os ataques enquanto eu corria para ajudá-lo, mas eu não pude ver os atacantes. Creio que, quando perceberam que não teriam mais nenhum efeito surpresa, desistiram.
—O professor e eu restauramos a barreira e então Hermione e Madeleine... Estavam sujas de sangue e desacordadas...
—A barreira ancestral as repeliu, as de Malfoy Manor fariam o mesmo, quiçá pior, pois me recordo de meu pai tê-las reforçado e muito, quando ainda era vivo. Sabe-se lá qual conjuro poderoso a senhorita Granger utilizou para conseguir atravessá-la.
—Felizmente um que os nossos atacantes não conheciam – completou o ruivo, ao que Severus assentiu, por mais uma vez.
—Por isso me obrigou a tomar a poção polissuco. Aurores virão com certeza, não é?
—Já devem estar chegando. Por isso, Ronald, precisa me dizer agora: quem atacou a minha propriedade?
—Já lhe disse, professor. Foram Comensais da Morte.
O adolescente/assistente arregalou os olhos, enquanto Severus prosseguia.
—Pôde ver as máscaras que usavam?
—Pude sim, mas o que isso...
—Legilimens...
Lucius foi rápido o suficiente para amparar o grandalhão ruivo, antes que o mesmo caísse sobre a própria noiva. Teria uma conversa séria com o amigo de longos anos sobre etiqueta. Primeiro quase o fez engolir a poção polissuco com frasquinho e tudo, depois, sem nenhuma delicadeza, rasgou a mente do aspirante a auror.
—Por Merlin, Severus! Você me transformou num adolescente fracote – reclamou Lucius, gotinhas de suor brotando na testa devido ao esforço realizado.
Severus desfez o a ligação mental com Ronald, ao que o ruivo gemeu incomodado. As imagens dos comensais lhe enchiam a mente. Não podia acreditar naquilo. Será que não teriam paz nunca em suas vidas?
O adolescente já estava a ponto de fraquejar, quando o ruivo se reergueu, o rosto demonstrando claramente que não havia gostado por ter sido pego sem ser avisado.
—Weasley, você pesa demais! O que você come?
—E o que ele não come? – Murmurou Hermione, focando a atenção de todos em si mesma. Ronald praticamente a agarrou, beijando-a com vigor.
Lucius apenas se afastou alguns passos, afinal, do ponto de vista do seu atual corpo, o aspirante a auror era tão gigantesco quanto um trasgo. Posicionou-se ao lado de Severus e então notou, com mais acuidade, que a expressão dele não pressupunha nada de bom.
—Como ela está?
—Madeleine está bem, Hermione. E você?
—Estou bem... E o auror Pitt?
—Não fui informado... Hermione, o que aconteceu?
A castanha sentiu sobre si o peso dos olhos escuros do professor. Notou enfim a presença de um jovem cuja identidade ignorava, mas optou por nada dizer. Saberia dele logo.
—Professor, desculpe qualquer transtorno. A Toca foi atacada e os aurores tentaram impedir que entrassem na casa, mas eles... – E respirou fundo, as cenas estressantes ainda muito vívidas na mente. – Madeleine ficou tão assustada! Ela se agarrou a mim e só o que pude fazer foi protegê-la.
—Quem, Hermione? Quem atacou a Toca?
—Foram comensais, professor... Eles a queriam. Eles queriam Madeleine. Eu fiz tudo o que podia, mas se não fosse o auror Pitt... Lançaram uma maldição cortante para me ferir e fazer com que eu me afastasse de Madeleine. Pitt se jogou na minha frente e recebeu todo o impacto. Por Merlin, havia tanto sangue... – E olhou pra si mesma e para Madeleine. Apesar de limpas agora, era como se seus olhos ainda vissem tudo completamente rubro.
—Quantos comensais, Hermione?
—Dois conseguiram entrar na casa, Rony. Pitt nos ajudou muito mesmo. Consegui correr com Madeleine até a cozinha, de onde aparatamos.
—Como conseguiu atravessar a barreira de proteção?
A pergunta do adolescente não foi respondida imediatamente. A castanha lançou um olhar curioso ao “jovenzinho” que, irritado, bufou e murmurou um “sou Lucius, agora Frank, assistente de Snape”, fazendo Hermione sorrir.
—Eu me vinculei a magia de Rony – respondeu com o rosto ruborizado.
—Agora sim estou surpreso... – Devolveu o patriarca Malfoy, cheio de admiração. – Excelente jogada, de fato. Ousada, muito complexa e...
—Inatacável! – Completou o ruivo, cheio de orgulho.
Severus ignorou o entusiasmo. Estava absorto em suas próprias divagações. Deixou-os conversarem por mais alguns segundos, antes de interromper. Estava com um péssimo pressentimento e olha que nem acreditava em tais sensações.
—Ronald – o chamado foi tão profundo, que silenciou a todos. – Há alguma novidade nas investigações sobre o caso de Lucius?
—Como assim, sobre o meu caso? – E a mente sagaz de Lucius Malfoy logo conectou as informações. – Severus, quem você viu?
—Ronald, responda, por favor.
—Bem, professor... Sobre o caso de Lucius Malfoy, nada ainda. Contudo, antes de Azkaban ser vertida em um rio de sangue, meus superiores e eu verificamos dois comensais que, assim como o senhor Malfoy, deveriam estar mortos. O primeiro investigado está realmente está bem morto e enterrado... Já o segundo, não. Até havia um corpo, mas não era o corpo da pessoa identificada na lápide e nos registros legais.
—De quem você está falando? – Apressou Lucius.
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“—Já disse que estou bem, por Merlin!
—Não, Theodore... Você não está bem.
—Vocês não podem me obrigar a fazer algo que eu não desejo.
—De fato, eu não poderia, tampouco Sophia, mas sua esposa veela pode.
Snape o deixou sozinho com os próprios pensamentos caóticos. O quase aborto retumbava em seu coração, ao mesmo tempo em que buscava encontrar alguma fortaleza dentro de si. Todo o passado com relação ao pai o enregelava. Dava-lhe um medo de morte só pensar no que estava por vir.”
Estava ainda atordoado pelas palavras do professor, quando as suas esposas voltaram. Falaram algo sobre massagens e o absurdo de ter alguém estranho tocando o que era delas. Ignorou. Na verdade, pouco se importou com os acontecimentos que então se sucederam. O cansaço era demasiado, tanto físico, quanto mental.
Deixou-se vestir por elas. Deixou-se erguer da cama por Blaise. Deixou-se alimentar por Sophia e Molly. Deixou-se embalar pelo pesadíssimo sono que, incrivelmente, prosseguia sobre si. Foi um sono pesado e sem sonhos dessa vez.
—Olá, querido... Acordado? Como está se sentindo?
Theodore acordou confuso. Aquela voz... O que a senhora Weasley fazia ali?
—Molly, trouxe o que você pediu.
—Ah, ótimo. Deixe aí na mesinha, por favor.
O sonserino reconheceu a outra voz também. Era sua segunda mãe, na verdade, uma das poucas pessoas com quem sabia que poderia contar de forma incondicional.
—Sophia querida, gostaria de me ajudar?
—Ah, claro! Se isso vai ajudar aos meus dois bebês, quero muito contribuir.
Algo havia acontecido enquanto esteve fora do ar... De onde tinha saído toda aquela intimidade com a qual sua mãe eleita e sua sogra se tratavam?
—Theozinho... Acordou mesmo?
—Acordei sim, Sophia... Onde estão Gina e Gabrielle?
A voz saiu pastosa... Era como se até o ato de falar fosse muito cansativo. Ao contrario da voz amolecida, o seu corpo parecia ter saído de uma batalha contra Comensais da Morte, tamanha a tensão em cada pedacinho de carne que o compunha.
—As suas esposas deram uma saidinha, querido. Pedi que trouxessem certas ervas muito comuns, mas que devem ser coletadas no máximo 1 hora antes de serem maceradas. Como não podem sofrer influencia mágicas, não pude trazê-las via flu.
Sophia se aproximou da enorme cama na qual Theodore estava deitado, sentando-se com muita folga no colchão, exatamente do lado esquerdo do jovem grávido.
—Como devo proceder? — Indagou a belíssima mãe de Zabini.
—Bem, primeiramente temos que livrá-lo de qualquer impedimento a absorção do unguento. E sem magia, pois devemos evitar qualquer influencia mágica desnecessária.
—Ei, ei... Sophia! Pare! — Pediu o grávido, ao mesmo tempo em que tentava evitar que Sophia lhe tirasse a parte inferior do pijama. – O que está fazendo, por Merlin?
—Ora, você ouviu: nada pode atrapalhar a absorção do unguento, portanto, sem roupas. Nós estamos apenas seguindo uma das recomendações médicas para o seu caso.
—E desde quando me deixar nu é uma recomendação médica, Sophia?
Molly riu alto, seguida pela mãe de Zabini. E ainda rindo foi até a cabeceira da cama, pegando uma delicada garrafinha de vidro que, instantes antes, fora deixada lá por Sofia.
—Certamente não, querido. Contudo, o seu corpo ainda esta sofrendo devido à instabilidade mágica. O medibruxo recomendou sessões de massagem para relaxar completamente os seus músculos, evitando maiores transtornos e potenciais complicações. O unguento diminuirá a dor e te ajudará a ficar o mais confortável possível. Acreditamos que com três ou quatro sessões você estará novinho em folha.
—Exatamente, Theozinho.
—Eu realmente não vejo a necessidade de massagens – e tentou se recostar na cama, mas parou no meio do movimento, devido à fisgada sentida nas costas. Doeu feito um inferno.
—Sei, sei... E essa careta de dor? Não me diga que está ensaiando para a próxima atração teatral da região? Desista meu caro. Molly e eu vamos fingir não ter ouvido o que disse sobre a massagem ser desnecessária. O medibruxo nos explicou como devemos realizar o procedimento, portanto, não se preocupe.
—Querido, não pode agir de forma displicente com a sua saúde. O doutor até tinha designado uma enfermeira para vir aqui e realizar a massagem, mas Gabrielle não gostou nadinha. Já Gina disse algo sobre "preservar a sua intimidade" e completou com "nenhuma enfermeirazinha de quinta ficará apalpando o nosso marido"— revelou a mulher, ao passo que o marido em questão desejava se afundar no colchão, tamanha a vergonha. – Bem, veelas tem um comportamento bastante possessivo e disso todos sabemos, contudo, admito: minha filha me surpreendeu. Nunca pensei que a Gina pudesse ser tão ciumenta. Perdi uma boa meia hora convencendo-a de que não era necessário fazer uma reclamação formal contra o medibruxo devido ao suposto “tratamento obsceno” indicado.
Enquanto Sophia mal conseguia parar de rir, Theo não estava acreditando no que as próprias esposas fizeram com ele: passar por homem debilitado e frágil que, além de ser o único grávido de um trio com duas mulheres, era o alvo do domínio de ambas. Por Merlin... Teria sido expulso da sonserina, caso ainda estivesse em Hogwarts.
—Eu não quero parecer mal agradecido, entretanto, se Gina e Gabrielle afugentaram a enfermeira, por que não se ocupam elas mesmas dessa massagem então?
Sophia ignorou as reclamações e se dispôs a abrir os botões da parte superior do pijama de Theo.
— Sophia!
—Chega, Theo. Pare de bobagens... Já te vi sem roupa inúmeras vezes e não creio que Molly, depois da família que tem, se surpreenda com nada que você esconda debaixo do pijama.
—Ai, ai... Querido, fique tranquilo. Se tanto pudor tem, usaremos uma toalha. Mas o unguento tem que ter total contato com a pele, ou não será eficaz.
—Não podemos esperar as duas voltarem para...
—Theodore Nott, suas esposas não conseguiriam fazer essa massagem em você, ao menos não como se deve. A não ser que você deseje terminar sendo devorado por ambas, entendeu ou quer que eu desenhe com esquemas didáticos para tornar mais fácil a sua compreensão? Agora pare de bobagens, pois estamos falando da sua saúde e da saúde do meu neto.
E dessa vez até mesmo Molly ficou mais vermelha que o ruivo Weasley.
—Ótimo que tenha compreendido. Vou retirar o aparelho agora e depois o recolocaremos. Severus foi categórico sobre estarmos atentos aos níveis mágicos.
—Não se preocupe, Gabrielle estará de volta em breve, Sophia.
Theodore quase morreu de vergonha ao ser despojado das poucas roupas que trajava. A face queimava refletindo o próprio constrangimento, mas foi ignorado solenemente pelas mulheres presentes. Contudo, a vergonha se esvaneceu quando a sensação agradável de relaxamento começou a se espalhar por cada pedacinho do seu corpo.
Braços e pernas, pescoço, pés e mãos, todos os dedos... Foi até virado de lado com gentileza... A dor que sentia arrefeceu bastante. Amoleceu de verdade com os cuidados sobre si. Perdeu-se em seu deleite e o cansaço novamente o dominou. Voltou à infância e ao colo de sua mãe. Ela era tão bonita...
“_Mamãe, olha só!
Viu a si mesmo ainda criança correndo em direção à bela mulher de cabelos claros.
—Oh, que bela flor, Theozinho. Muito bonita mesmo...
Amava aqueles sonhos. É, ele sabia que era um sonho, pois Celina estava morta há muitos anos.
—Mamãe, ele não vai me machucar mais, né?
—Não vou deixar, meu amor. Ele está em Londres agora... Não virá a Bristol atrás de nós. Sabe quem vem amanhã para brincar com você?
—Quem?
—A tia Sophia trará Blaise!
O garotinho sorriu feliz e fez uma carinha tão fofa que a mulher sucumbiu. O Theo criança foi pego no colo e abraçado com muito amor, recebendo um doce beijo na bochecha.
—Você é meu maior tesouro, Theo. Meu único amor. Meu sol – disse-lhe num sussurro, aproveitando para se inebriar no delicioso cheirinho do filho.
Então o céu claro e de com um azul envolvente, escureceu. Tudo virou trevas em instantes. O Theodore adulto já não sabia se era sonho ou pesadelo.
—Por que o céu tá escuro? Já anoiteceu, mamãe? – E como logo o céu voltou à normalidade, completou – ué, já é dia de novo?
A habilidosa bruxa sabia bem o que era aquilo. Ela tinha modificado a barreira ancestral, afinal, era também uma Nott e gerou o herdeiro daquela nobre casa tenebrosa.
—Ouça bem, Theozinho – com uma das mãos, retirou de si mesma um colar do qual pendia um belo pingente azul. – O céu ficou escuro porque a mamãe fez um pedido.
—Um pedido – e enquanto conversava com o filho, Celina se afastava mais da propriedade.
—Sim. A mamãe pediu ao céu que avisasse quando o seu pai se chegasse.
Andou com ele por mais alguns minutos, ambos ouvindo ao fundo os gritos vindos de dentro da casa. Eram de Gustav, chamando-a. Theodore os seguiu bem de perto, sendo igualmente afetado pelos gritos e pelo desespero de Celina.
_O papai chegou?
Com pesar, Celina o colocou no chão. Theo estava tremia de medo e dos olhos brotavam lágrimas. Estava aterrorizado com a possibilidade de o pai encontrá-lo.
—Shiii... Theozinho, calma.
—O papai é mal... Ele... Ele...
—Meu amor, preste atenção – e colocou o colar em volta do pescoço do filho. – Você vai correr até o nosso esconderijo, você se lembra dele?
—Do nosso esconderijo?
—Isso mesmo, você se lembra, não é? – E Theo assentiu. – Ótimo. Quando chegar lá, você vai segurar a minha pedra da sorte bem, bem forte mesmo, entendeu?
—Você vai comigo, mamãe?
—CELINA!!!
O grito de Gustav Nott fez o pequenino estremecer de pavor, agarrando-se com força à mãe. Era possível ver sem muito esforço os hematomas que lhe adornavam os bracinhos. Celina o abraçou com força e o beijou, para, em seguida, segurar decidida a própria varinha.
—Vá agora, Theozinho.
—Não vou sem você, mamãe.
—Precisa me obedecer, entendeu? A mamãe te ama muito, meu sol – e correu em direção ao casarão.
Theodore via como ele mesmo, uma criança, corria em direção oposta a do casarão, chorando sem nem ao menos saber o porquê. E ele mesmo chorava, igualmente sem compreender com exatidão o motivo.”
—Por Merlin, Theo! Theo, por favor, de novo não...
—Calma, amor. Ele está estável...
—Mas ele está sonhando de novo, Gabrielle. Eu sei que está e você também.
O gestante abriu os olhos acordando pela segunda vez no que esperava fosse o mesmo dia. Novamente, sentia-se confuso. Sonho? Lembrança? Não era capaz de definir.
—Oh, meu amor!
Gina o abraçou com cuidado e o beijou. Já Gabrielle se manteve de pé próxima à cama, bem ao lado dos dois. A veela sustentava uma expressão indecifrável, o que o deixou temeroso.
—Gina, deixe nosso marido acordar como se deve, já estamos quase na metade do dia.
—Não há queda na magia, o que é ótimo – disse feliz a ruiva com os olhos fixos num aparelhinho no criado mudo, para logo em seguida ser puxada da cama pela veela. – Foi bom termos conectado o medidor à sua aliança, Theo.
—Theo, tome um banho e depois desça. Assim que Molly e Sophia chegarem vamos todos almoçar. Molly não gostou das ervas que trouxemos – e sorriu para Gina. – Depois, mon amour, nós iremos conversar seriamente.
Não foi uma sugestão, fato que Theodore e Gina sentiram na pele e na magia. A ruiva se deixou ser conduzida porta afora, ainda que tenha reclamado por Gabrielle ter sido muito seca com o “nosso Theozinho”.
O sonserino percebeu que a loira estava realmente estranha, mas nada disse. Apenas respirou fundo e decidiu seguir o “indicado” pela esposa, até porque, convenhamos, não seria capaz de ignorar. A veela o tinha bem dominado.
Não foi sem esforço que se pôs de pé e alcançou banheiro. A banheira já estava repleta de água e de uma suave espuma. Obra dos seus elfos, certamente. Despiu-se do pijama, um novo, pois notou que não o conhecia. Só poderia ter sido obra de Pansy. O dia estava mesmo bonito, ainda que estivesse mais frio do que gostaria.
Entrou rápido na banheira, apreciando o balançar desenfreado das folhagens pelo vidro de uma das janelas. A água quente ajudou sua musculatura a relaxar ainda mais. Lembrou-se com mais força de Celina. Ah, será que a sua mãe aprovaria a gravidez? Juntando o pouco que podia se lembrar dela, não via motivos para que não amasse o futuro neto ou neta.
Celina era uma mulher forte e decidida, mas também muito doce e carinhosa com ele. Como gostaria de tê-la viva, por perto, sempre tendo na ponta da língua o que ele precisava ouvir. Fisicamente, ficava feliz por ser mais parecido com ela... Na verdade, gostaria de ter a coragem daquela mulher vivaz que um dia foi sua mãe.
—Ela me chamava de sol – e sem perceber acariciou a própria barriga. Já havia ali uma perceptível elevação.
Pensava na mãe e no que sentiria quando pegasse o seu próprio filho ou filha nos braços. Estava tão relaxado que chegou a cabecear de cansaço... Sonolento, não foi capaz de determinar se o céu havia mesmo escurecido por alguns instantes, ou se fora ele mesmo rumando para o mundo de Morfeu.
Decidiu que era ele mesmo quase dormindo de novo e se pôs a, realmente, se banhar, antes que acabasse se afogando por dormir na enorme banheira. Com uma esponja começou a se limpar pelos pés, subindo pelas pernas. Demorou-se uns bons dez minutos nisso até que sentiu que já era hora de descer e almoçar. Instantes depois, Theo foi bruscamente empurrado para baixo.
A mão grande e nodosa o segurava com força pelos cabelos e o submergia sem pena alguma. Fazia força para se soltar e sair da água, mas não conseguia. Estava enfraquecido ainda e, fosse quem fosse que tentava afogá-lo, usava magia, disso tinha certeza. O esforço resultou numa verdadeira confusão no banheiro, com água e espuma para todo lado. Já estava desistindo quando foi içado com uma dor no couro cabeludo.
Tossia com desespero, mas o tempo para respirar foi curto. Voltou a ser submergido e opôs menos resistência. A tortura durou mais alguns minutos, até que seu corpo realmente amoleceu. O seu atacante percebeu e o puxou com força da banheira, jogando-o de qualquer jeito contra o piso gelado do banheiro.
Não sabia qual era a sensação mais agonizante: o desespero por respirar ou o estremecer violento do seu corpo, devido ao choque térmico. Tentou ficar de pé, mas foi impedido pelo agressor. Um soco? Um chute? Ambos e muitos outros se seguiram... E Theodore só pensava em proteger seu filho. Por que não conseguia gritar? Onde estavam Gabrielle e Gina? Elas saberiam que estava com problemas, não?
—Fraco... Não é digno de levar o meu nome.
Oh, aquela voz... Impossível... Impossível... Ele deveria estar tendo outro pesadelo.
—E nem se dê ao trabalho de chamar as suas senhoras, Theodore. Fiz questão de tirar as duas do meu caminho, antes de chegar até você.
O cabelo molhado se colou ao rosto quando o ergueu para, em pânico, reconhecer o dono daquela tenebrosa voz. Sentiu o coração acelerar e o ar faltar ainda mais.
—Não se iluda: você é um gay nojento. Deixar que uma veela se refestele com o seu corpo. Um homem de verdade não aceitaria ser empalado e emprenhado por uma mulher híbrida, uma veela – e o puxou pelos cabelos, encarando-o bem de perto. – Ah, você sempre foi uma decepção, filho...
Gustav sorriu maldosamente e o levantou. Theodore mal conseguia sustentar o próprio peso. O pavor que aquele monstro lhe gerava o fazia perder o controle das emoções e das ações. Estava em pânico. É, talvez fosse mesmo um fraco.
Theodore não conseguia reagir. O ódio que Gustav sentia pela prole estava ali, explícito, no fundo dos olhos dele. Nunca foi capaz de compreender o motivo, mas agora pouco importava. O que ele tinha feito com Gina e Gabrielle? Não... Não... Não podia ser real!
—Você envergonha o meu sobrenome! Amaldiçoo o dia em que você nasceu!
Theodore tentava se afastar, mas o pai sempre foi mais forte que ele e, ao invés de soltá-lo, reforçou o agarre com raiva, uma das mãos resvalando costas abaixo e chegando até as suas nádegas.
—Se desejava tanto ter um pau dentro de você, eu teria te entregado a alguns comensais de gostos tortuosos.
—Me solta! – Rogou desesperado, mas o pai levou os dedos até sua entrada e o penetrou rudemente, rindo do sofrimento dele.
Não conseguiu gritar... Era como se a sua voz tivesse sido contida pela força monstruosa do patriarca Nott.
—Como é ter a relíquia da família dentro de você? Talvez te faça ser um Nott, não é? – E quanto mais Theo tentava empurrá-lo, mas ele o machucava. – Realmente, você nunca foi um verdadeiro Nott. Oh, vai gozar, filho? – E usou mais força ainda, a palavra filho dita como se proferisse uma imperdoável.
Theodore o empurrava. Doía, doía muito. Não entendia... Por que doía tanto? Por que sentia seu corpo se rasgar com aquela intromissão?
—Oh, sua veela é mesmo muito possessiva.
—Pai...
A palavra foi o gatilho para que Gustav se enfurecesse mais ainda. Tirou as mãos dele e Theo conseguiu se arrastar para um dos cantos do banheiro. Estava ofegante e abraçava a si mesmo tentando se proteger daquele monstro, mas o monstro queria feri-lo.
—Nunca mais me chame de pai! – E bateu nele mais uma vez, agora diretamente na face.
—Por favor... – E apanhou de novo.
Gustav então ergueu a varinha, encostando-a no coração do filho. Encolheu-se, imaginado que agora morreria. Detestava-se por ser tão fraco, por nunca ter conseguido enfrentá-lo. Agora seria o seu fim... E ele nunca conheceria o seu bebê.
—Theodore, abra!
Gustav se aproximou do rosto do filho, rangeu os dentes e sussurrou:
—Sempre sortudo... Não terá sorte para sempre.
Ainda paralisado pelo medo de morrer, o Nott mais jovem acompanhou o desenlace daquele momento terrível: Gustav aparatou com extrema facilidade, afinal, ele tinha a relíquia ancestral e o deixou ali, dolorido e humilhado.
—Abra agora mesmo ou vou arrombar a porta.
A segunda voz era o som da salvação. E seu salvador não foi ninguém menos do que o homem que sempre o protegeu das garras do próprio progenitor.
—Afaste-se, Theodore. Terei que usar um bombarda.
Sem conseguir se mover, Theodore tentava respirar, mas estava sendo dominado pela dor e pelo pânico. A porta foi aberta de forma brusca, na verdade, não sobrou muito da porta depois do poderoso feitiço, e, em segundos, tinha uma toalha sobre si, enquanto seu corpo prosseguia tremendo violentamente.
Severus Snape poderia ter encontrado um cenário ainda mais devastador, apesar de que a visão do seu ex-aluno nu, muito machucado, em choque e tremendo no chão frio do banheiro não fosse nada agradável. Enrolou-o com uma segunda toalha e, cheio de cuidado, o pegou no colo, tirando-o daquele lugar.
—Professor, o que eu faço? Lanço um enervate nas duas?
—Ainda não, Blaise. Vá atrás de Sophia e Molly e verifique se está tudo bem, rápido.
—Coloque-o aqui na cama, professor – indicou Pansy, enquanto via Blaise correr para fora da casa.
Questionou-se sobre o fato de Blaise não ter aparatado, mas então focou novamente sua atenção em Theo. Havia hematomas no rosto e nas costas, alguns bem feios. O rosto dele então, ah... O lado esquerdo testava bastante machucado e sangrava. Gabrielle e Gina teriam um ataque quando o vissem.
—Ajude-me a secá-lo.
Poucos segundos foram suficientes para terminar de secá-lo. Pansy floreou a varinha e logo tinha essência de murtisco nas mãos, ao que Severus agradeceu. Já Theodore sentia raiva de si mesmo. Sentia pena de si mesmo. Sentia nojo de si mesmo. Pouco se importou em ser revirado pelo professor, em sentir a magia dele o invadir para verificar seus sinais vitais. Naquele momento, só queria sumir da face da terra. Era mesmo tão fraco?
—Professor, Theo está bem? Eu vi sangue e...
—Calma, Pansy. Ele está fisicamente estável. E o bebê também está – E fixou os olhos escuros no seu ex-aluno.
Ah, era incrível como a mente de Theodore perdera toda a proteção. Mostrava-se aberta e acessível para ele agora. Nem precisou de muito esforço para confirmar suas suspeitas. As imagens eram claras e fortes. As palavras ditas ao ex-aluno foram tão cortantes quanto facas bem afiadas.
—Não vou usar mais magia nele, a não ser que seja extremamente necessário – determinou, encarando o aparelhinho sobre o criado mudo. Ali indicava os níveis mágicos de Theodore.
—Professor, foi mesmo ele?
—Sem dúvida alguma, Pansy. Por favor, pegue algo para que eu possa vesti-lo.
A loira atendeu prontamente ao pedido e lhe entregou um pijama azul claro. Logo o irmãozinho estava vestido, embora ainda estremecesse como se estivesse nu e sozinho em meio a mais fria neve.
—Quer que eu acorde as esposas dele?
—Os níveis mágicos estão estáveis... Creio ser melhor aguardar um pouco. Caso acordem agora, nada as impedirá de virem aqui imediatamente e...
Pansy entendeu o que o professor tentava explicar. O vínculo triplo era poderoso demais e Gabrielle não era qualquer veela. Naquele exato instante, mesmo dormindo, elas compartilhavam as sensações terríveis que Theodore experimentava e, caso não o acalmasse primeiro, as duas mulheres, ao invés de ajudar, poderiam potencializar o problema.
—Certo, professor. Não as acordarei agora e, caso acordem antes de o senhor sair do quarto, farei o possível para que aguardem. Vou deixá-los sozinhos.
—Obrigado, Pansy. Por favor, entre em contato com o seu chefe e comunique o que aconteceu.
Pouco depois, eram apenas Theodore e seu antigo professor no quarto. O silêncio permanecia e Severus apenas o observou por algum tempo. As ações que empreendeu foram temerárias, mas não se arrependia. Quando identificou a máscara de Gustav Nott uma estranha certeza lhe veio: Nott não estava morto.
Ouvir da boca de Ronald Weasley que o corpo verificado não era o do tenebroso comensal só lhe impulsionou. A pressa era tamanha que nem teve tempo de ralhar com o ruivo por não tê-lo dito uma informação tão pertinente. Não soube como conseguira chegar tão rápido à cidade de Bristol, mas assim o fez.
Encontrou a nobre casa dos Nott numa suposta paz. Pansy e Blaise namoravam próximos à lareira e, evidentemente, se espantaram com a sua chegada abrupta. Em alguns minutos, localizaram Ginevra e Gabrielle desmaiadas no chão da cozinha. Deixou Blaise e Pansy para trás e correu desesperadamente. Era ele, só podia ser ele.
Quando chegou ao quarto não encontrou Theodore de imediato, mas identificou a cama desfeita. Então ouviu sons abafados vindos do banheiro. Rapidamente estava diante da porta: trancada. De fato, não estava apenas trancada. Havia um feitiço poderoso ali. E então, assim que conseguiu entrar, encontrou o ex-aluno num estado triste e lamentável.
—O seu pai não merece ter você como filho, Theodore – relembrou com força, tentando controlar a própria raiva e frustração. – Ele abusou de você ao longo de inúmeros anos. O que ele fez hoje foi apenas mais um dos abusos...
Severus se sentou ao lado dele e, surpreendentemente, o abraçou.
—Todos estão bem. O seu pai só queria agredir você... Desculpe-me por não ter sido mais rápido.
Ah, o contato com aquele homem austero, mas protetor, fez Theodore desejar ter tido um pai de verdade, um pai que o protegesse daquela mesma forma. Não pôde mais se conter, agarrou-se a Severus e se permitiu ser consolado, acalentado e reconfortado.
—Tente se acalmar. Toda essa tensão não faz bem a vocês. Refiro-me ao bebê e às suas esposas.
—Elas estão mesmo bem?
—Theodore, você foi agraciado com o amor de uma veela e de uma Weasley. Weasleys são fidelíssimos à família e os veelas então, além de muito fiéis, são extremamente ciumentos. Há um vínculo triplo entre vocês, uma magia muito antiga. Caso elas estivessem sofrendo, você saberia imediatamente. Gustav as nocauteou com um feitiço poderoso. Ele quis se certificar de que elas não incomodariam. E você... Veja só você: continua inteiro, mesmo depois de ouvir os absurdos que ele disse. Não se deixe dominar pelas palavras dele, não mais.
—Não consigo enfrentá-lo como... Como a minha mãe fez.
—Seu pai não conseguiu fazer de você um seguidor das trevas, tampouco o fez com a sua mãe. Celina era uma mulher surpreendente, Theodore. E você tem mais dela do que imagina.
—Não... Eu sou um fraco, professor.
—Você possui inúmeras características peculiares, meu caro, mas nunca foi um fraco... Na verdade, você sempre foi uma fortaleza por suportar o trato daquele maníaco, Theodore.
Fortaleza? Era isso o que Severus achava dele, de verdade?
—Ouça-me bem: ser forte não é apenas pegar uma varinha e proferir feitiços. Você superou a vida amarga que teve. – E o mais jovem sonserino não controlou novas lágrimas. – E superar é ser extremamente forte, Theodore.
Nos longos minutos que se passaram, permitiu-se chorar por si mesmo, pela sua mãe e pela desgraça que era ter qualquer vínculo com aquele ser nefasto. Mesmo se sentindo um lixo, havia uma centelha de luz em meio às trevas: seu bebê continuava vivo. Ali, exatamente naquele momento decidiu que ele não seria um pai como o seu próprio era.
—Theodore – começou Severus. – Vou te dar uma poção calmante – e floreou a varinha, tendo logo uma poção vindo em sua direção.
—Não precisa – e se desenlaçou do ex-professor, recostando-se nos travesseiros. – Eu... Eu... Só não consigo acreditar que... Ele...
Secou as lágrimas teimosas que teimavam em cair e respirou fundo. Sentia o alívio gerado pelo uso da essência de murtisco, embora não pudesse curá-lo de forma imediata. Precisava ser prático agora, prático e objetivo. A segurança da sua família estava em jogo.
_Professor, essa casa já não é segura. Ele tem a relíquia e não há barreira aqui que o contenha... Eu deveria ter reivindicado a relíquia quando tive a chance. De alguma forma obscura, ele foi até o maldito túmulo e a recuperou.
—Vamos pensar numa solução. Primeiramente, você precisa descansar – e olhou para o aparelho cujo indicador começava a cair. – Parece que todo esse transtorno está enfim cobrando o seu preço. Seus níveis mágicos caíram levemente.
—Só estou cansado...
—Então beba essa poção e descanse. Beba agora mesmo...
Theodore nem precisou pegar o frasquinho, pois Severus cuidou para que só tivesse que beber o seu conteúdo. O seu corpo relaxou imediatamente e, antes que perdesse a consciência, segurou uma das mãos do seu salvador, expressando o que já deveria ter sido dito há algum tempo.
—Muito obrigado, por tudo mesmo... Gostaria de ter um pai como o senhor...
Severus sorriu de leve ao sentir o s dedos de Theodore escorregar de volta à cama. Aproveitou para cobri-lo e acomodá-lo de forma mais confortável no colchão.
—De fato, todo um lufa-lufa de coração valente... – E saiu do quarto, preparando-se para enfrentar a “trupe nervosa” que, sem sombra alguma de dúvida, o aguardava.
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