Submisso
69 Capítulo 69 - Sábado de Sol
Notas iniciais
Capítulo 69 – Sábado de Sol
—Achei que já estivesse livre das náuseas.
A voz de Draco se avolumou em seus ouvidos, ecoando com força no banheiro. Ele, para variar, estava ali, meio vivo, meio morto, devido às contrações involuntárias do próprio corpo ao tentar expulsar sabe-se lá o quê.
Um leve frescor aliviou a sensação nauseabunda que não o abandonava. Era Draco que, atencioso, passava uma toalha úmida pela sua testa, bochechas e pescoço. Não gostava de admitir, mas ser mimado pelo loiro massageava o seu ego.
Com visível cansaço devido ao esforço, recostou-se no tórax marcado do seu veela, permitindo que aquela magia única acalmasse a ele e a suas pequenas ainda não nascidas. Draco sorriu, aprofundando os carinhos até que sentiu o moreno relaxar.
—Melhor?
—Sim, obrigado.
—Por que não me chamou, Harry?
O moreno nada disse, apenas respirou fundo. Ah, Draco tinha um aroma tão bom.
—Venha, vamos levantar. O chão está frio. Não é bom para vocês...
—Quando Rony vem?
—Calma, Harry. Mal amanheceu.
—já amanheceu faz tempo pra mim. Acordei com o enjoo.
—Tomou as suas poções?
—Sim, todas... Vai passar logo.
O moreno escovou os dentes quando sentiu que era seguro abrir o tubo de pasta de dente. Mal acabou, o marido o puxou num beijo demandante. Quase perdeu o ar!
—Ah, Draco!
Draco o apertou com força na medida certa, fazendo-o gemer ao perceber-se tão desejado, mesmo com um barrigão daqueles. O veela o queria com fervor, sabia disso. Mas se o deixasse prosseguir com certas ações, ah... Ele não veria Sirius.
Não tinha a menor ideia de como Draco conseguia beijá-lo com fervor, agarrar-se a ele e ainda tirar a própria roupa. Realmente era algo para se admirar!
—Não quer se juntar a mim na banheira?
—Não. Sei bem o que você tem em mente, loiro de farmácia – e sorriu sacana, indo em direção à porta e deixando Draco sozinho e muito, muito duro.
Na verdade, ele acordou bem mais cedo. Teve um pesadelo terrível sobre as suas meninas, o que o impediu de prosseguir dormindo. Não contou nada a Draco, pois recentemente vinha tendo pesadelos. De nada adiantaria alarmar o veela.
Decidido a desistir de tentar dormir, rumou então para o banheiro, relaxando num banho recompensador. Procurou não fazer demasiado barulho para não acordar o marido. Voltou depois ao quarto e, enquanto Draco prosseguia num sono tranquilo, aproveitou para já deixar a roupa que usaria separada.
—Mestre Harry, o senhor Weasley acaba de chegar.
—Obrigado, Dobby. Por favor, diga a ele que eu desço em alguns minutos.
Dobby assentiu e com presteza repassou o informe de seu amado mestre doncel. Ofereceu a Ronald um café, ao que ele aceitou. O ruivo estava visivelmente cansado, o que fez o elfo incrementar a bebida.
—Bom dia, Rony.
—Bom dia, Harry – e esperou o amigo descer a escada antes de abraçá-lo.
—Nossa, parece que você está maior ainda.
—Obrigado, Ron. Você realmente sabe como levantar o ânimo das pessoas.
O ruivo riu e disse algo sobre "estar enorme é bom" e arrematou com "quanto maior, mais rápido os bebês nascerão". Evidentemente, as gargalhadas se seguiram, pois o ruivo parecia estar com particular vontade de tirá-lo do sério. A última gracinha foi “você está mais para Goles do que para pomo, meu caro”.
Harry não sabia se o agradecia ou se o azarava e com essa duvida na mente o conduziu até a mesa que ficava no jardim. Dobby preparou um breve desjejum e o avisou de que tinha arrumado a mesa na área externa da casa, “Como o mestre Harry gosta, senhor". Ronald tomou o cuidado de trazer a sua xícara consigo.
—E Draco? Não me diga que seu esposo ciumento deixou você sair de casa só comigo?
—Para o seu governo, eu sairia de casa sozinho se eu quisesse – e tomou o cuidado de falar num tom baixo de voz, ao que Rony riu sacana.
—Aham, senhor independente... Eu não me fiaria muito nisso, amigo. Seu marido é muito ciumento e dominador. Ele já está acordado?
—Oh, sim. Draco está acabando de se arrumar.
—E deixou você vir até aqui, na presença de um varão sexy e ameaçador, sozinho, sozinho?
—Rony, coma um pedaço de bolo e pare de dizer bobagens.
—Então eu não sou um varão sexy e ameaçador? Puxa, Harry, quanta maldade.
—Cale essa boca! – E sorriu.
Meia hora depois, o loiro os encontrou ainda alfinetando um ao outro. Os olhos cor cinza analisaram de leve o que o esposo degustava e deu-se por satisfeito ao perceber que eram apenas frutas picadas.
—Bom dia, Ronald.
—Bom dia, Draco. Estava aqui dizendo a Harry que a gravidez avançou bastante. Parece que, de um dia pro outro, os bebês cresceram absurdamente.
—Na verdade, Rony disse que eu estou enorme. Ah, sim, e que eu estou mais para goles do que para pomo de ouro – completou o moreno, sem poder esconder o leve tom de irritação.
—Amor, ele está certo. Harry está muito grávido, não é mesmo, Rony? E eu mal posso me controlar para devorá-lo.
—Oh, por favor! Pare de dizer essas coisas, Draco!
—É verdade, amor... Você está mais que comestível.
—Ei, escute aqui, doninha albina, uma coisa foi eu ter permitido que você ficasse com o meu irmão mais novo, outra bastante diferente é ficar divagando, na minha frente, sobre as pornografias que fazem juntos!
—Eu nem disse nada... Ainda...
—Não ouse continuar!
—Ora, são tantas possibilidades. Eu poderia começar falando sobre os lugares que...
—Draco Malfoy!!! – Ralhou Harry.
O ruivo piscou e o loiro sorriu. Ah, Harry era mesmo uma graça. O rosto dele estava pulsando numa vermelhidão quente.
—Certo, certo... Amor, coma um croissant e um pouco de queijo.
—Esse bolo está ótimo. Coma também, Harry.
—Vocês dois, parem já de me encher de comida!
Novos risos e novas reclamações se seguiram, até que, enfim, rumaram para o novíssimo carro de Draco Malfoy. O loiro resmungou sobre a pressa do esposo e que, caso fosse mais paciente, ele mesmo poderia conduzir o veículo até Prince's House.
Com o plano de viagem traçado, Ronald seguiu para o destino tão aguardado pelo amigo. Não era viagem longa, mas temeu que causasse algum mal estar ao grávido, por isso conduziu com máxima cautela e, felizmente, cerca de uma hora depois, já se encontravam na propriedade do matrimônio Black-Snape.
—Rony, você vai ficar?
—Sim, eu vou. Tecnicamente, estou a trabalho. Os aurores de campo foram reagrupados em Azkaban. Não há nenhum auror em Malfoy Manor agora, pois assim que eu cheguei, os dois aurores de campo reagruparam na prisão. Além dos feitiços de proteção, hoje eu sou o único responsável pela segurança dos senhores, ao menos até chegarmos à casa do professor Snape. Estamos trabalhando em escalas fatigantes e com poucos aurores nas ruas.
—Mas você nem é auror ainda, Ron? Não é perigoso?
O tom urgente de Harry ao deixar o automóvel fazia eco às preocupações de Draco.
—Não há nada para se preocupar.
—Como não? Pensei que Harry fosse nossa prioridade.
—Não há dúvida sobre isso, Harry é nossa prioridade. Mais aurores virão ao anoitecer, quando retornarmos. Relaxe, Draco. Hoje vocês apenas irão aproveitar o sábado de sol.
—É melhor entrarem, senhores, ou Sirius colapsará de ansiedade. E eu não estou com ânimo para lidar com situação semelhante novamente, não em tão pouco tempo.
A recomendação vinha de ninguém menos que Severus Snape. O pocionista se aproximou do veículo sem que percebessem e sustentava uma expressão de irritação. Sabe-se lá o que Sirius andava aprontando. Bem, sendo Sirius, as possibilidades eram indetermináveis.
—Bom dia padrinho...
Mais "bons dias" se repetiram, até que Snape conseguisse realizar seu intento de fazer com que todos entrassem.
—Seu padrinho está no quarto ainda. Ele também está lá em cima, com Lupin... – revelou num tom cansado e irritado, na mesma medida.
Draco sabia que havia algo a mais... Algo havia acontecido para Severus estar com aquela expressão d e ter acabado de dar aula de poções para sonserina e grifinória.
—O seu hóspede está bem?
—Oh, sim... Bem até demais e com muita energia.
—Não entendo, padrinho.
—Aconteceu faz alguns minutos. Tonks mandou uma coruja informando que trará Teddy de volta apenas na parte tarde... E então, aparentemente, esse pequeno aocntecimento foi suficiente para que o caos desabasse sobre nossas cabeças, pois o meu hóspede demonstrou ser pior que um primeiro-anista da Lufa-lufa. Sabe, não tinha verdadeira experiência prática nesses rompantes veelas ciumentos deslocados.
—Vivendo e aprendendo, padrinho – brincou o loiro, puxando o esposo de leve pela mão.
O casal Potter-Malfoy subiu a escada. Harry estava ansioso. Finalmente reencontraria o padrinho e mais... Depois de alguns anos, reencontraria Lucius Malfoy, seu sogro. Nossa, como era estranho pensar no loiro esnobe dessa forma.
—Acho melhor fazermos assim: vá até o quarto de Sirius. Vou conversar com ele e depois eu te encontro. E relaxe, Harry. Ficou tenso por que, amor?
—Não fiquei tenso!
—Aham... E eu não sou atraente – e ao que o esposo arqueou a sobrancelha, o veela concluiu – logo, nos dois estamos mentindo, afinal, todo mundo aqui sabe que você me quer desesperadamente.
—Ai, Draco. Cale essa boca! – Devolveu, sem demonstrar nenhum pingo de irritação.
—Sabe, eu poderia calar a minha boca. E mais, calaria a sua boca também, mas o preço é alto – e o puxou, sussurrando-lhe obscenidades ao pé do ouvido.
Harry o empurrou e seguiu o camonho que o levaria até o padrinho, ao fundo podia ouvir as gargalhadas de Draco. O loiro se gabava porque ele, o famoso herói, havia ficado ruborizadíssimo ao ouvir a forma nada pudica, diga-se de passagem, pela qual o loiro gostaria de calar-lhe a boca. E então, com a face sustentando um rubro grifinório, o doncel chegou ao quarto do padrinho.
Com educação, deu leves batidinhas na porta, ouvindo um "entre, Harry" como resposta. Os olhos verdes foram rápidos em encontrar o objetivo bem diante da janela: o belo doncel, cujo braço estava enfaixado, dentre outros machucados que sabia estarem lá.
—Padrinho...
—Não faça essa cara, Harry. Estou bem – e o chamou para o abraço que tanto queria.
A cena era muito terna, na verdade. Dois belos donceles grávidos, esbanjando felicidade pelo simples fato de estar um na companhia do outro.
—Pensei que fosse ficar o dia inteiro lá fora, no jardim – começou o animago, conduzindo o afilhado para a cama, na qual se sentaram. – Do andar de cima não é possível ouvir nada, mas eu os vi chegar – completou apontando a janela. – Acho que o narigudo mandão silenciou toda a parte superior da casa.
Harry não estava lá muito interessado no que Snape tinha ou não feito. Estava mesmo muito preocupado com a saúde do padrinho.
—Quando Rony contou que havia se machucado eu fiquei preocupado, Sirius. Você não parece estar muito bem. Não deveria ficar de repouso?
—Harry, acredite, nem que eu quisesse conseguiria ignorar o repouso. Severus é um carrasco nesse sentido. Foi com muito sacrifício que me deixou sair do quarto!
—Está muito machucado, Sirius? Como está se sentido?
—Confesso que foi... Difícil. Agora estou melhor, mesmo... Muito melhor. Como viu, já até fico de pé! – Completou em tom ameno, mas Harry suspeitou que, infelizmente, o padrinho não falava por brincadeira.
Instantes depois, um eficiente elfo apareceu com uma pequena bandeja. Chá e bolo, um bolo que parecia divino só de olhar. Nossa, Harry engordaria horrores se continuasse a comer como estava comendo.
—Prove esse bolo, Harry. Esther é magnífica ao fazê-los! Devo ter engordado mais do que o necessário, desde que ela chegou.
—Esther? — Questionou, enquanto provava a sobremesa.
—A proclamada mãe do cretino esnobe emproado veela...
—De Draco?
—Ha, Ha, Ha... Não, não. Falo do pai do seu marido. Ela e o neto cuidaram de Lucius por meses. Esther é uma boa pessoa e estava curiosa para conhecê-lo. Sabe como é, você é uma lenda viva.
—Deixe disso, Sirius. Sou um bruxo como qualquer outro.
O animago se serviu de mais um pedaço de bolo, enquanto sorria de leve. Optou por não prosseguir naquele embate, ou teria que esclarecer ao afilhado, com riqueza de detalhes, o porquê de ele não ser, nem de longe, um bruxo comum e corrente.
—Oh, Harry, você está enorme!
—Ah, por favor, você também? Vou começar a me sentir tão gordo quanto o tio Vernon.
—Sua barriga cresceu bastante, afilhado.
—É verdade... Parece que nos últimos dias cresceu muito mais que o normal...
—Não falta muito, falta?
—Alguns meses, poucos meses. Se continuar a crescer assim, vou explodir – E sorriu.
—Parece que os grávidos estão se proliferando com muita facilidade... Você, eu, Theodore e Remus...
—Remus?
Enquanto Sirius voltava a rir da cara de espanto e horror de Harry, o lupino em questão tentava manter-se o mais sereno possível. Mal tinha acordado e fora bombardeado pelo mau humor do "prometido". Aparentemente, o fato de Tonks enviar uma coruja dizendo que só levaria o filho na parte da tarde era sua culpa... Vai entender a lógica do loiro.
O pior de tudo era que o tema continuava a ser requentado. Lucius estava bastante irritado com a proximidade de Tonks.
—Sua ex não pediu autorização, ela simplesmente avisou que vai trazer o nosso filho no horário que achar mais adequado para ela.
—Lucius, eu li a carta. Dizia apenas que devido a sérias complicações no trabalho, só poderia vir na parte da tarde.
—O que demonstra a falta de respeito. Edward precisa estar próximo dos pais dele, ora!
Frederick lançou um olhar à avó, um pedido mudo para que tentasse evitar maiores argumentações... Pelo pouco que conhecia do bondoso senhor Lupin, até a bondade extrema tinha limites.
—Lucius, Teddy voltará logo. Creio ser até bom que passe mais horas com a mãe – apaziguou a senhora, tentando fazer o loiro cessar com os comentários desnecessários.
—Remus, sei que não é o momento mais adequado, contudo, creio que não podemos mais esperar. Conversarei com Taylor e pedirei que agilize a dissolução final do seu vínculo com Tonks. Precisamos nos casar o mais rápido possível!
—O que está dizendo?
—Exatamente o que ouviu. Precisamos nos casar urgentemente. Não quero que a sua ex tenha todas essas liberdades contigo.
—Você está exagerando – rosnou baixo Remus, movendo-se na cama. – Dora não está com “liberdade” alguma na relação que ainda tem comigo, Lucius. Ela é a mãe de Teddy – e se moveu na cama.
—Não ouse – ralhou o veela, empurrando-o de volta à posição anterior.
Para um observador comum, dizer que o lupino estava sendo impedido de levantar por Lucius era, de fato, muito pouco. Caso pudesse, o veela o teria atrelado – para sempre – à cama (e obviamente com segundas, terceiras, quiçá quartas intenções).
—O que está fazendo, Lucius?
—Estou cuidando de você! Poderia, por favor, ficar deitado? Ainda não está curado, Remus.
—Lucius, eu só quero me recostar. Não vou sair do país, fique tranquilo. Na verdade, não sei nem se consigo chegar ao banheiro.
Esther interferiu, afastando o noivo mandão para ajudar Remus com os travesseiros, tudo ao som de intensas reclamações.
—Obrigada, Esther. Frederick, poderia verificar se Harry já chegou?
—Claro, senhor Lupin... Quer dizer, Remus.
Mal o garoto saiu, Lucius sentou ao lado do futuro esposo. Estava tão preocupado que até a magia dele demonstrava instabilidade.
—A doutora retirou algumas bandagens e o aspecto dos ferimentos melhorou bastante.
—Eu me recupero mais rápido que outros bruxos, Esther. E Lucius sabe disso, não é?
Os olhos dourados encontraram os olhos metálicos. Sim, ele sabia, o que não quer dizer que ficava menos preocupado. Com cuidado, o veela o acariciou na bochecha, sentindo como Remus precisava daquela ternura.
—O que não significa que você sairá daqui hoje, Remus. Como já avisei antes, não sou tão indulgente quanto Draco.
No exato momento em que seu nome fora pronunciado, Draco adentrava o quarto, sem qualquer tipo de cerimônia. Já Esther lançou ao loiro mais jovem um escrutínio detalhado. Ah, como duvidar de que aquele “belo exemplar de homem” era filho do seu Lucius?
—Bom dia. Desculpem-me por entrar assim, mas anunciei minha chegada duas vezes. Como não houve resposta, acabei por...
—Não se preocupe, Draco. O seu pai está reclamando tanto que não teríamos ouvido nem seus gritos...
Draco foi até Remus e o cumprimentou, deixando claro que a ausência da barba o deixara mais jovem.
—Harry vai gostar de vê-lo assim. Além de parecer bem mais jovem, há algo a mais... Está levemente diferente, Remus.
—Ora, e não poderia ser de outra forma, não depois de tudo – respondeu o veela pai, ante a atenta mirada do lupino.
Apesar de saber que o prometido não ficava muito a vontade com o assunto: “a verdade sobre a natureza lupina de Remus Lupin”, Lucius estava decidido a esclarecer todos os detalhes, não só para o filho, mas para o mundo inteiro, caso fosse preciso.
—Draco, está é a minha salvadora – começou Lucius, apresentando Esther com toda a reverência que a mesma merecia. – E, para todos os efeitos práticos e emocionais, minha mãe e sua avó. Sem ela, eu não estaria aqui hoje.
O herdeiro Malfoy aproveitou para cumprimentar e agradecer àquela senhora. Afinal, sem ela, o pai ainda estaria perdido, talvez até mesmo morto.
—É mais que um prazer conhecê-la. A senhora o salvou para mim. Tenho uma dívida eterna contigo.
—Ora, não me deve nada. Apenas fizemos o que qualquer pessoa faria.
Lá estava aquele traço solidário, cujas pessoas que o tinham julgavam ser comum a todo e qualquer ser humano. Eram realmente tolos em sua bondade. A humanidade era cada vez menos humana.
—Então, o rapaz que eu encontrei no corredor, Frederick ele disse, é o neto da senhora?
—Sim, ele mesmo.
—Preciso agradecer adequadamente a ele também. Graças a ambos meu pai está aqui hoje, saudável e...
—Saudável até demais – resmungou Remus.
Lucius abraçou o filho e o conduziu o mais próximo que pôde do seu lobinho. Depois, com um sorriso que há muitos anos Draco não via ornamentando o rosto do patriarca, anunciou:
—Draco, Remus e eu decidimos nos casar.
—Claro, decidimos. Foi uma decisão fruto de conversas e, por fim, completamente consensual... – Resmungou mais uma vez o lupino, fazendo Esther gargalhar. – Digo que houve todo um debate democrático.
—E em breve a família aumentará – continuou Lucius ignorando as reclamações, fazendo Draco arregalar os olhos. – Remus está grávido.
O grávido em questão bufou de frustração. Ora, era melhor anunciar logo no Profeta Diário.
—Como assim?
—Draco... Não tenho magia veela em alto nível com você, mas parte dela também me constitui. E Remus é meu novo parceiro mágico. De fato, sempre foi, não é? Contudo, meu amor pela sua mãe e a relutância de Remus em se assumir completamente fez essa ligação passar despercebida.
—Isso é surpreendente. E você o engravidou? Então sua magia veela é mais forte do que imaginávamos, Pai.
—Não creio. Remus é um lobo ômega.
—Minha nossa... Um ômega? Mas Remus não é casado com uma mulher?
—Por pouco tempo...
Os loiros continuaram a debater sobre as habilidades dos ômegas e sobre como Lucius era todo um veela de sorte. Até Esther tinha se interessado pelo assunto, opinando e perguntando uma ou duas coisinhas. Contudo, o lupino alvo dos ditos comentários não parecia estar gostando nada da temática da conversa.
—Querem parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui?
—Desculpe-me, Remus. É que a notícia é mesmo surpreendente. Sabe, no terceiro ano, Severus nos passou um ensaio sobre lobisomens. Lembro-me de ter enfatizado as relações de poder entre os lupinos. A hierarquia numa alcateia é deveras interessante. Segundo os livros, ômegas eram difíceis de encontrar. Classificavam os ômegas como raridades muito desejadas.
—De fato o são – concordou Lucius.
—Chega desse assunto, por favor. Nunca tive a intenção de revelar a minha condição. Fiz um excelente trabalho até poucos tempo, mas Lucius não se importou muito com isso, como pôde notar.
—Bem, creio que devo chamá-lo de mamãe, certo? – E riu-se, acompanhado pelos demais ocupantes do cômodo.
—Não ouse, Draco.
—Estou brincando, Remus. Papai, o senhor deve ter batido algum recorde. Numa mesma manhã conheci a minha nova avó e tio, além de ganhar uma nova mãe e um irmãozinho.
Esther sorriu feliz diante da leveza com a qual o mais jovem encarou a novidade. Percebeu o quanto Draco amava e respeitava Lucius... Era realmente uma relação de amor de verdade.
—E o seu esposo, filho? Eu ainda não o vi. As ações de Harry Potter me livraram de todos encargos negativos da justiça bruxa.
—Lucius, não se esqueça de que, a despeito do indulto, você está oficialmente morto – relembrou-o Lupin.
O lobinho tentou fingir que nada tinha acontecido consigo, mas todos perceberam como tentou camuflar uma expressão de dor num bocejo.
—Draco, leve mamãe para conhecer seu esposo. Irei em breve. Muitos aurores vieram com vocês?
—Não, apenas Ronald. Pode ficar despreocupado ao andar pela propriedade.
—Rony está sozinho? Ele nem é autor ainda... – E dessa vez Remus não conteve um gemido baixo e sofrido. Aparentemente, continuar a falar estava cobrando uma alta fatura.
—Bem, logo estarei com vocês...
—Claro, papai. Vamos? – E estendeu o braço em direção a senhora.
Esther aceitou a gentileza e beijou a bochecha de Lucius antes de sair. Remus se manteve silencioso. Já imaginava que o veela o reprenderia por não estar descansando como deveria.
—Eu só me mexi rápido demais, Lucius. Não precisava expulsá-los do quarto.
—Quando eu expulsar alguém da nossa alcova, pode ter certeza: não usarei de gentilezas.
—Eu estou bem, dentro do possível.
—A Dra. Morse deixou indicações severas para a sua recuperação. Você, inclusive, deveria estar dormindo neste exato instante. Creio que já extrapolamos bastante, não é mesmo?
Os olhos claros do lupino encontraram os do esnobe Malfoy. Curiosamente, não viu neles nada além de genuína preocupação. Por isso, resignado, respirou fundo e disse as palavras que o emproado mais gostava de ouvir.
—Sim, você está coberto de razão, Lucius.
—Ótimo que concordamos. Poção para dor e um bom cochilo vão te fazer sentir melhor.
—Poderia, mais tarde, pedir a Harry que venha me ver?
—Claro que sim. Pelo que entendi, Draco e Harry ficarão aqui o sábado inteiro.
O veela voltou a se aproximar para lhe ministrar a poção. Depois que Remus a sorveu, aproveitou para beijá-lo com lentidão, bem nos lábios. Acariciou-o no cabelo e permitiu que a magia antiga e selvagem fizesse seu trabalho, embalando o lupino num sono restaurador.
—Durma tranquilo, meu precioso companheiro – concluiu, antes de beijá-lo novamente.
Com cuidado, saiu do quarto e desceu a escada. Um só aspirante a auror não seria problema algum. Aliás, Ronald sabia que vivia ali. Como Draco dissera, poderia nadar tranquilo pela propriedade.
A voz de Severus o atingiu com força. Fosse o que fosse, o pocionista estava muito envolvido com a temática.
—Então assume que ele foi sequestrado para tal ato?
—Sim, professor – respondeu categórica Hermione Granger.
A voz da jovem era acompanhada por sons de estalidos. Granger falava com Snape via lareira.
—O que os seus superiores pensam a esse respeito, Weasley?
—No momento, estamos mergulhados no caos. O ataque a Azkaban abalou profundamente o Departamento. Enfim, os meus superiores estão muito assoberbados com os últimos...
—Encurtando, ignoraram o que lhes disse.
—Exatamente, professor – concordou Ronald.
—Professor, o que importa agora é conseguirmos reverter o feitiço. Skeeter e Shumpike podem ser de grande valia.
—Enviarei por Ronald o que tenho acerca do feitiço. Verá que é bastante complexo. Precisa estudá-lo a fundo a fim de que possamos realizá-lo.
—Estudar a fundo qualquer assunto não é problema algum para Hermione – acrescentou o ruivo, ao que a castanha sorriu.
—Concordo... Eu já iniciei a seleção dos ingredientes e, felizmente, ainda temos algum tempo. Até breve.
—Até breve, professor. Ron, peça desculpas a Harry por mim. Pensei que poderia ir vê-lo hoje, mas sem a sua mãe aqui, optei por ficar na Toca, assim o seu pai pôde voltar ao Ministério. Requisitaram a presença dele.
—Imaginei que fosse acontecer. Madeleine está bem?
—Está. Fique tranquilo. Os aurores estão aqui. Qualquer problema, eu aviso. Cuide de tudo.
—Sem problemas, amor.
A chamada via flu foi encerrada e só então Lucius se juntou aos dois homens na sala. Severus fez uma careta de desagrado assim que o viu.
—Não ficou acertado que ficaria no quarto com Remus? Você não pode ser visto, Lucius!
—Draco esclareceu que apenas o jovem aspirante a auror estaria aqui hoje, então, não vejo motivos para ficar enclausurado no quarto, Severus. Além do mais, já estou farto de me esconder. Eu não fiz nada de errado, ao menos nada que mereça prisão domiciliar como punição.
—Lucius, nós sabemos que não fez nada de errado, contudo, ante da situação...
—Sabe, creio que o senhor Malfoy tenha razão. Ele não deveria estar se escondendo.
—Bebeu whisky de fogo no café da manhã, Weasley?
—Não professor. Eu não bebo em serviço – respondeu à altura, sorrindo ladinamente. – Andei pensando, sabe... Talvez, revelar que o pai de Draco está vivo e bem faça com que nossos nebulosos inimigos reajam e, por fim, se mostrem.
—Por favor, Ronald Weasley, não seja tão inocente. Evidentemente haverá alguma reação, mas daí a assumir que os fará se identificarem é um pouco de exagero. Temo que ocorra algo como o que deixou Remus naquele estado.
—Severus, estamos andando em círculos. Em breve a prole do meu filho nascerá e, infelizmente, ainda não avançamos um milímetro sequer em descobrir quem está atrás de nós. Anunciando que voltei ao mundo dos vivos os fará revelarem-se.
—Concordo com o senhor Malfoy.
—Vocês dois estão completamente loucos. Acaso se esqueceram do que soubemos através do ministro russo? Acaso a vida deles vale tão pouco? E a da criança? O fato de ser filha da odiosa Skeeter não a faz menos digna de proteção.
O veela se enfureceu. Severus era mais que um amigo. Considerava-o um irmão, mas não admitiria que ousasse insinuar tal absurdo.
—Estamos todos nervosos hoje, portanto, vou ignorar o que acabou de dizer, Severus. Você é um homem inteligente e perceberá que não perdemos o juízo.
—Nos devastará perdê-lo novamente, Lucius.
—Não irão me perder novamente, Severus. Eu tenho motivos de sobra para permanecer exatamente onde estou, vivo e saudável.
O pocionista esfregou o rosto com as mãos, um claro sinal de frustração. Era sério: os veelas e os donceles iriam levá-lo á loucura!
—Lucius, seja razoável.
—Não me esconderei mais, Severus. Enviarei uma coruja a Adam. Ele peticionará ao Tribunal e em breve voltarei a estar legalmente vivo.
—Bem, eu vou reforçar os feitiços externos. Com licença, senhores...
A saída de Ronald deixou um breve silêncio, mas logo o sábio professor voltou a dar conselhos.
—Pense bem no que fará, Lucius. Há muito em risco. Seu filho não nato, por exemplo. Temo por você, meu caro. Na verdade, temo por todos vocês.
—Sei disso, amigo, mas não se preocupe demasiado. Faremos como eu disse e verá que conseguiremos salvar a todos no fim. Bem, vou enviar uma coruja para o meu advogado que, de fato, deveria estar aqui. Aquele mequetrefe sequestrou Andy e sabe-se lá Merlin o que fez a ele.
—Não esqueça que você o afugentou com a atuação: veela sanguinário assassino em caça.
O loiro riu alto e anda rindo voltou ao escritório. Disse algo sobre Adam ser um “pervertido” e que lhe tornaria “eunuco” caso fizesse algum mal ao jovem que, veja só, também considerava como parte da própria família.
Mal Lucius sumiu do seu raio de visão por atingir o andar superior, um estrondo terrível fez a parte de baixo da casa reclamar em protesto. Ele mesmo, despreparado pra o baque, sentiu os joelhos dobrarem com o impacto no andar inferior. O barulho o ensurdeceu por alguns instantes, impedindo que raciocinasse com a agilidade exigida. Contudo, o susto o tirou do ar por míseros segundos.
Atordoado, correu até a área externa de Prince's House. Os escudos de proteção apresentavam sinais do fulminante ataque sofrido. Havia muita magia, poderosa de fato. E lá estava Ronald Weasley, toda uma fortaleza. O jovem mantinha a varinha erguida em direção ao céu ensolarado do belo sábado, usando de toda a sua habilidade para proteger Prince’s House.
Ah, ele precisaria rever seus conceitos sobre aquele jovem ruivo. O melhor amigo de Harry Potter foi capaz de manter o escudo erguido, apesar do ataque sofrido. Como pôde, Severus se juntou a ele. Conhecia bem o funcionamento dos escudos de proteção, afinal, quem melhor do que o senhor daquela casa para requisitar o poder das proteções ancestrais?
—Weasley! Pôde identificar o que causou isso?
Ronaldo balançou a cabeça positivamente, enquanto respirava agitado, agradecendo internamente pela ajuda recebida. Já estava ali há alguns segundos e não achava que poderia suportar sozinho por mais tempo.
Com felicidade, Ronald sentiu a magia de Snape unir-se a sua, fortalecendo e tornando eficaz seu feitiço defensivo. Aprendeu boa parte deles muito antes de entrar na academia. Foi ainda durante a luta contra Voldemort, quando Hermione, Harry e ele se lançaram às cegas numa busca pelos pedaços de alma do tenebroso Lorde.
Foi necessária mais magia do que imaginavam para restabelecer as proteções danificadas. A magia defensiva utilizada na propriedade assumiu a forma de um escudo praticamente translúcido, não fossem as erupções de pura energia que agora possibilitavam que o vissem. Felizmente a proteção ancestral os manteve a salvo do ataque.
Quando não mais ocorriam erupções mágicas, Severus e Ronald guardaram as varinhas e se encararam. A face do professor era de raiva e frustração. Já a do aspirante a auror apresentava uma combinação bem diferente, pois lhe era impossível não se sentir aliviado e até mesmo um pouquinho feliz.
—Impediu toda e qualquer aparatação?
—Sim. Inclusive as autorizadas. A magia ancestral da minha casa as restaurará assim que a barreira for completamente renovada.
—Fale Ronald. O que houve?
—Bem, professor... – E se sentou sobre a grama mesmo, de tão cansado que ficou. – Foi tudo muito rápido. Eu já tinha reforçado os feitiços básicos de proteção e me concentrava nos mais complexos, quando os vi. Eles tentaram me atingir, mas foram impedidos pelas barreiras mágicas. Eu imediatamente me pus em posição defensiva e eles perceberam que não seria nada fácil passar pelas barreiras, demandaria tempo. Um tempo que não tinham, pois o Departamento é comunicado no exato instante em que alguém sob alta vigilância é colocado em risco. Então, talvez por pura diversão, lançaram os feitiços que danificaram as barreiras, mas que não teria sido mesmo capaz de destruí-la... Eram dois comensais da morte.
—Comensais?
—Isso mesmo, pude ver as máscaras...
—É capaz de identificar as máscaras?
Ronald não conseguiu responder. A barreira voltou a dar sinais de estar sendo agredida. E qual não foi a terrível surpresa de ambos. O ruivo ficou de pé de forma abrupta e correu desesperado.
Severus o seguiu como pôde. Não conseguia acreditar. Diante dele a cena era grotesca. Ronald ajoelhado no chão, acomodava da forma mais confortável que pode os corpos inconscientes que ultrapassaram a barreia, numa inacreditável e bem-sucedida aparatação não autorizada.
—Elas estão feridas!
Severus se ajoelhou também, a grama fofa afundando sob o seu peso. Foi rápido com a varinha e logo percebeu que poderiam ficar um pouco menos aterrorizados.
—Calma, esse sangue não é delas. Venha, vamos levá-las para dentro agora mesmo – e já se adiantou, carregando a criança nos braços.
Furioso, Ronald ergueu a noiva com todo o cuidado que pôde. Havia sangue nas vestes, na pele e até no cabelo... O que havia acontecido com Hermione?
Fale com o autor