Submisso
57 Capítulo 57 – Vidro ao Redor do Coração
Notas iniciais
Capítulo 57 – Vidro ao Redor do Coração
“Não era mistério algum para o esnobe Malfoy que Remus Lupin era uma pessoa séria, racional e centrada, além de muitíssimo inteligente. Já era assim na adolescência. No pouco contato que tiveram em Hogwarts, costumeiramente o via com algum livro. Remus era um homem admirável, pois, mesmo sendo alvo de grande preconceito, sempre procurou ser gentil... Até com ele mesmo, que não merecia nem uma gotinha de toda aquela dedicação.
_Ah, eu... Bom, comprei algo para você também – e lhe enviou um pacote retangular e estreito.
Surpreso pelo detalhe, Lucius abriu o pacote e nele encontrou uma varinha.
_Comentei com o senhor Olivaras que pretendia presentar o seu filho com uma varinha parecida com a sua antiga varinha... Olmo e fibra cardíaca de dragão. Incomum, mas não tão rara, segundo o senhor Olivaras. Depois que a guerra acabou, o senhor Olivaras se dedicou a produzir muitas varinhas... Ele está com um aprendiz agora... Enfim, tive sorte, eu diria.
_Remus, não tenho palavras para agradecer...
_É um presente, Lucius. Não precisa me agradecer – e sorriu.
_Mesmo que não ache necessário um agradecimento... – E Lucius já estava bem perto dele, os olhos reluzindo interesse. – Eu creio ser deveras importante. Obrigado, Remus. Sinto-me muito querido e lembrado... Agradeço sim, imensamente.
_Use-a com moderação, pois ainda está se recuperando.
_Dedicado, bondoso, valente, determinado, atencioso... Você não tem defeitos, Remus.
_Oh, Remus! Ótimo que já tenha chegado e... – Severus saía da cozinha e só ao chegar mais perto dos dois, percebeu que, provavelmente, havia interrompido uma conversa mais... Íntima. – Interrompo? – E o toque mordaz fez o loiro sorrir presunçoso.
_Severus, sempre tão... Preciso...
_Algo ocorreu com Sirius?
_Não... Apenas continua a ser Sirius. Esther está lá em cima com ele...
_É verdade... A manhã praticamente inteira... – Completou Lucius.
Remus não notou o leve tom de reprovação na voz do loiro. Só de ouvir “continua a ser Sirius”, estremeceu.
_O que ele fez agora?
_Não se preocupe tanto, Remus... Ele está bem. Contudo, eu preciso muito mesmo ir a St. Mungus. Hermione entrou em contato comigo há mais menos uma hora. E não queria deixar Sirius sozinho...
Lucius bufou. Sozinho! Ele estava na casa, não? Será que não era mais capaz de controlar um doncel grávido? Por Merlin!
_Como vê, Remus... Minha mãe e eu somos parte da mobília...
_Ora, Lucius. Sabe muito bem ao que me refiro... Esther é uma dádiva, mas só Remus consegue, minimamente, controlar Sirius. Você o estressa, sabe disso.
O loiro não pôde negar aquela grande verdade.
_Vá tranquilo, Severus. Não sairei mais de casa hoje... Teddy ficará na Toca e eu vigiarei seu amado esposo. Com licença... – E sumiu escada acima, deixando os dois sonserinos na sala.
Severus aguardou mais alguns instantes. Queria ter certeza de que ninguém mais o ouviria. Ninguém mais além de Lucius.
_Comece a recomendação, Severus, afinal, está sendo aguardado em St. Mungus, não?
_Sem zombarias, Lucius Malfoy. Conheço bem cada uma de suas artimanhas...
_Não ouse feri-lo. Não ouse usá-lo. Remus não merece ser tratado dessa forma.
Severus deu três largos passos, invadindo o espaço pessoal do amigo e sendo mirado com surpresa pelos olhos cor cinza.
_Ele é uma pessoa boa de verdade. Considero-o um amigo, um amigo muito fiel, tal como você, Lucius. Remus me ajudou num momento muito difícil... Esteve ao meu lado quando achei que mais ninguém estaria... Sinto por ele verdadeiro respeito. E mesmo te considerando um irmão, não vou permitir que o machuque.
_Fique tranquilo, Severus. Não causarei dor alguma a Remus, ao contrário. Amigo, estou sinceramente interessado. Tal como me senti com Cissa... – E a expressão que sustentou não deixou dúvida alguma ao pocionista.
_Oh, por Merlin, Lucius. Esse olhar não! Você não vai descansar até tê-lo, não é?
_E você vai me ajudar, Severus. Agora vá encontrar Hermione... Pansy chegará em breve.
_O que Parkinson... Ah, esqueça. Depois conversamos.”
Severus aparatou, ignorando a lareira. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, era urgente. A carta que Hermione lhe enviou foi curta e objetiva. “Professor, algo urgente em St. Mungus precisa da nossa atenção. Encontro-o lá.” E só... Mais nada havia sido escrito. E, por Merlin, estava falando de Hermione, aquela que sempre utilizava quilos de pergaminho em trabalhos escolares!
O ambiente hospitalar nunca lhe pareceu tão intragável quanto naquele dia. Talvez o fato de ter levado o esposo dali, ainda no dia anterior, meio quebrado, machucado... Bem, certamente esse fato terrível lhe dera motivos suficientes para o hospital se ornar insuportável.
Mal chegou ao corredor no qual ficava o quarto dos pais de Madeleine, percebeu que a urgência envolvia os aurores. Nulan, Drake, Weasley... Todos eles sustentavam expressões nada agradáveis. Ora, pelo que Adam Taylor lhe contou, não havia mesmo motivo para exultar de felicidade, mas assim também já era exagero. Por que, por Merlin, aquelas faces tão aborrecidas?
_Senhor Snape, que bom que pôde vir – e Nulan lhe pareceu muito sincero.
_Hermione está lá dentro. Os medibruxos não conseguem entender como foi possível e... Na verdade, nem nós.
_Do que está falando, Ronald?
_É melhor que entre e veja por si mesmo, senhor Snape – e Drake indicou a porta. – A chefe está lá dentro, sugando da noivinha do novato toda a informação possível.
Severus apenas adentrou o local, encontrando uma Hermione já mais corada e recuperada do susto do dia anterior, um medibruxo com expressão de “o que está acontecendo aqui?”, Rita Skeeter no mesmo estado comatoso e, no local onde deveria estar o professo Voronin, eis que jazia outra pessoa. Alguém que, definitivamente, não podia mesmo estar ali.
_E aí, professor Snape, Beleza?
Beleza era o termo mais inadequado para a presente situação... Com poderia estar beleza diante daquilo? Agora entendia o rosto dos aurores, o de Ronald e, obviamente, a face contorcida de Hermione que refletia nada mais nada menos do que genuína incompreensão.
_Tonks, como está?
_Estou bem, professor...
_Pensei que... Ainda estaria desfrutando da sua licença... – Snape falava, mas sem sequer mirar a jovem auror.
_É, eu deveria... Contudo, precisei votar ao trabalho antes do término da minha licença.
_Professor – e a voz de Hermione saiu bem baixinha. – Queria muito ir visitar Sirius hoje, entretanto, creio ser mais prudente reavaliarmos a situação...
_Certamente, Hermione. O que aconteceu? – Perguntou o pocionista, ainda sem conseguir tranquilizar os próprios neurônios.
_Ah, professor Snape – começou Tonks. – O doutor nos comunicou que, sem que houvesse qualquer intervenção mágica, esse estranho fato ocorreu faz algumas horas. É, estamos lidando com algo escandaloso aqui, não acha?
A auror[1], cujos fios de cabelo rosa-chiclete pareciam ter um brilho próprio, apontou a cama, abarcando com o gesto o paciente que nela se encontrava. As íris escuras de Snape nem precisam seguir a indicação, pois não havia conseguido se desconectar do homem que jazia deitado, inerte... Alheio ao caos que a sua revelação causara.
_Espero que não haja mais nenhum morto-vivo por aí...
O tom jovial e repleto de saudável brincadeira utilizado por Nymphadora, nem de longe conseguiu aliviar a tensão da atmosfera... Afinal, como é que ali, naquela cama de hospital, jazia Stanislau Shunpike?
++++++++++++++++++++++++++++++++
O dia de Draco foi tão cheio de idas e vindas que mal teve tempo para respirar. Foi à empresa pela manhã, sendo surpreendido pelo furacão em forma de mulher: Pansy Parkinson. A mais que competente chefona, é... Era duro admitir, mas ela tinha o controle da situação, simplesmente o fez ficar horas assinando documentos e encontrando com alguns acionistas para depois, com a cara mais deslavada do mundo, dizer que ele “estava dispensado”, pois “iria encontrar com o Presidente da empresa”... Ora, quem mais seria além do patriarca Malfoy?
_Pansy... Explique-me, por favor, como será possível tal proeza?
_Já conversei com o senhor Malfoy e estamos oficialmente transferindo o escritório central para Prince’s House. É claro que é tudo bastante... Improvisado, eu diria, mas daremos conta. Combinamos que você virá aqui por alguns momentos apenas, afinal, alguém precisa figurar como administrador, contudo, é o senhor Lucius que assumirá o trabalho daqui por diante. Já conectei as lareiras da sua sala com a do escritório particular do Professor Snape.
O loiro não pôde sequer questionar... Ora, nem se quisesse o faria. Quem em sã consciência o faria?
_Estamos implantando um sistema modificado trouxa de contato direto por imagem... Como foi mesmo que o senhor Malfoy chamou? Creio que disse... Cânteras...
_Cânteras?
_Ou seriam câmbaras...
_Câmbaras... Por Merlin, Parkinson, do que está falando?
_Câmeras! É isso mesmo... É interessante, Draquinho. Eu ficarei aqui no escritório central e o seu pai em Prince’s House. Eu terei acesso direto a ele, obviamente, mas ficarei a maior parte do tempo aqui mesmo. Já tenho tudo comigo, bem reduzido – e deu batidinhas nas vestes. – Assim você terá mais tempo para a faculdade, para Harry e as meninas. Ah... Já estou com saudade do seu esposo gostoso. Como ele está? – E os olhinhos de Pansy brilharam em expectativa.
Ainda tentava compreender se a habilidade de emendar um assunto no outro com tanta facilidade – e velocidade – era algo natural às mulheres ou se, por Merlin, era mais uma das estranhas qualidades da amiga.
_Harry está incontrolável. Além de me obrigar a jogar quilos de chocolate fora, hoje pela manhã anunciou que desejava ter aulas de direção trouxa. Consegue acreditar nisso? O meu esposo gestante gemelar, o herói que é sempre o alvo dos psicopatas de plantão, quer ficar andando por aí num veículo trouxa, uma geringonça perigosa e potencialmente letal... Ah, Pansy... Eu preferi evitar uma discussão e simplesmente o deixei falando sozinho.
_Draquinho, tenha paciência com ele. Estamos todos tão envolvidos com os problemas – e o rosto da loira se contraiu num estranho pesar. – Enfim, tenha paciência com ele, sim?
_Eu tenho uma paciência infinita, mas é difícil manter minha serenidade quando Harry age dessa forma tão... Temerária.
_Draco, o que você esperava? Ele é um leão, ora. Mime-o bastante quando chegar a casa. Amanhã não precisa aparecer por aqui... Agora apenas respire fundo e vá concluir suas outras atividades do dia que, vejam só, não são poucas – e de onde ela tinha tirado aquele extenso pergaminho com anotações sobre o que o loiro deveria fazer no presente dia?
Draco murmurou algo como “você me assusta, Parkinson”, mas foi solenemente ignorado.
_Você tem aulas de direção e aulas na faculdade. O seu dia será bastante corrido, portanto, não vou lhe exigir tanto. Já passa da agora do almoço. Vá para as aulas e depois conversaremos melhor sobre como funcionará essa transferência. Eu preciso ir a Prince’s House. Oh, por Merlin... E ainda tenho que voltar para a casa do Theozinho. Sabe, precisamos juntar os dois, Theo e Harry. Vai ser divertido apostar em quem faz mais manha. Tenha um bom dia, chefinho, pois o chefão me espera. Ah, mande beijinhos para o seu esposo gostoso – e aparatou, deixando-o ali.
Resignado, aparatou também. Como Pansy tinha deixado bem evidente, teria um dia daqueles. E nem chegou a almoçar. Optou por fazer mais algumas aulas de direção trouxa, assim obteria a autorização mais rápido e poderia servir de condutor para o esposo. Não queria que Harry, com uma barriga já considerável, ficasse atrás de um volante. Era deveras arriscado para a saúde dele, ainda mais depois da evolução tensa da gravidez.
Horas mais tarde, quando já estava na faculdade e comia um lanche apenas para tapear o estômago, notou a falta de Hermione... Mais uma vez. Entraria em contato com ela naquele mesmo dia. A sabe-tudo faltando daquela forma? Ah, isso não era anúncio de nada bom.
Já as aulas se passaram tediosas naquela tarde morna. Ainda mais porque sua mente, masoquista, lhe brindava imagens de um Harry seminu e muito disposto a fazer o tudo o que ele desejasse.
Mal acreditou quando, depois do que lhe pareceram eras inteiras, a última aula terminara. 18:00... Um dia inteiro se fora. E ele voltaria para casa com uma carga imensa de leitura para realizar... Por Merlin, começava a agradecer a Pansy pelas futuras folgas. A redução no trabalho seria mesmo muito positiva para que não enlouquecesse.
Antes de voltar a Malfoy Manor, se dispôs a conversar com alguns colegas de turma. Aproveitou para enviar uma carta para Blaise do correio da faculdade, afinal, precisava saber como Theodore estava. O “Theozinho”, como dizia Pansy, era potencialmente problemático e, tal qual Harry, estava grávido. Precisou ainda pegar emprestado na biblioteca um volume grande e, segundo a funcionária, bastante raro, acerca de fungos e suas propriedades medicinais no preparo de poções curativas.
Lembrou-se que, antes mesmo de iniciar o curso de medimagia, questionou-se sobre a necessidade da disciplina “A Fabricação de Poções e Seus Usos Práticos”, na qual estudava, dentre outros temas, a ação dos fungos. E por que se questionou? Ora, muito simples: ele não estudava com o objetivo de se tornar um pocionista...
Curiosamente, foi o pocionista Severus Snape quem lhe explicara, na época, a necessidade de tal disciplina. Agora ele entendia o quanto conhecer do tema era vital, pois, para tratar adequadamente os pacientes era fundamental prescrever as poções corretas, assim como conhecer seus elementos e a interação dos mesmos com o organismo mágico...
Quando aparatou em casa, já passavam das 18:30. Deixou a bolsa sobre um dos sofás e vasculhou com os olhos o ambiente. Encontrou apenas o silencioso vazio. Estranhou, é óbvio. Afinal, Harry estava sempre por ali, esperando que chegasse a casa, disposto a conversar e a compartilhar com ele de um bom momento a dois.
_Dobby! – E o chamado saiu com urgência, pois não encontrar Harry ali na sala lhe deu ideias estranhas, embora seu veela lhe dissesse que o moreno não estava em perigo.
O pequeno elfo apareceu em seguida, mas a mente do loiro já avançara em seus pavores, imaginando o esposo fugindo no carro novo.
_Senhor...
_Dobby, Harry está...
_O amo Harry está em casa, senhor.
_Sim, eu sei. Mas por que não está...
_Oh, o amo Harry dormiu o dia inteiro, senhor. Fiz como mandou e não faltou nenhuma poção, mas o amo Harry – e os olhos de Dobby brilharam de preocupação – não quis almoçar, nem lanchar, nem nada...
Draco agradeceu com um sorriso nervoso e subiu a escada com pressa. Seu veela não sentiria mesmo nada estranho, não com Harry dormindo. Em instantes estava no quarto que compartilhavam. Iluminou o ambiente com um feitiço, ambiente mais que de elevado requinte. As paredes claras não comprometiam a luminosidade e mesmo durante a noite, pareciam ter o tom de cor adequado para clarear o cômodo. A ampla janela de parede inteira, do lado oposto à entrada, revelava a noite cujo céu pipocava em estrelas brilhantes.
Draco não podia negar que adorava o leve tom de verde nos detalhes das paredes, do teto e dos rodapés, mas não por serem, evidentemente, sonserinos, e sim porque lembravam a imensidão esmeraldina dos olhos do esposo. As duas outras portas que compunham a alcova, interrompendo a rotina de quadros paisagísticos das paredes, estavam fechadas. Na verdade, o loiro percebeu, o quarto estava do mesmo jeito que o deixara de manhã.
A requintada cômoda não foi sequer tocada por Harry, tampouco a cadeira e os dois sofás pequenos no estilo Luís XV, igualmente de tons esmeraldinos, pareciam ter sido utilizados. Já a rainha do quarto, a cama de dossel, esta sim parecia estar mais revidara do que nunca, pois nela Harry dormia, o seu príncipe gostoso. E o sono não era tão tranquilo quanto o loiro gostaria que fosse. Seu veela reclamou, afinal, Harry não estava em perigo, mas estava inquieto.
Sem esperar mais, tirou apenas os sapatos antes de subir no colchão e engatinhar até a beldade em forma de ser humano, o seu doncel. O sono não era tranquilo, pôde perceber, pois o rostinho delicado dele estava contorcido numa expressão nada agradável.
_Harry... Harry... – Chamou-o com cuidado para que não se assustasse.
O chamado foi atendido pouco depois. O moreno abriu os olhos, uma expressão confusa dando lugar àquela que encontrara nele momentos antes. Com um accio convocou os óculos e os passou ao esposo que, ainda meio atordoado, aceitou a delicadeza para, logo depois, se incorporar minimamente, sentando-se na cama.
_Harry...
_Draco...
O verde encontrou o cinza e então, instantaneamente, o seu veela se manifestou. Havia algo errado. Aqueles sentimentos negativos vindos de Harry o deixaram preocupado... Tristeza... Decepção... Frustração... Como? Como Harry poderia estar se sentindo dessa forma quando, naquele mesmo dia, estava exultante?
_O que aconteceu? Você está bem?
_Não aconteceu nada, Draco. Está tudo bem...
Bem não era nem de longe a palavra adequada...
_Você ainda está usando o mesmo pijama... Dormiu o dia inteiro?
Harry se levantou, ignorando a pergunta, afinal, a resposta era mais que óbvia. Ainda meio desorientado e com a cabeça doendo devido ao excesso de sono, se afastou do marido.
_Devo ter dormido... – Respondeu sem nem se virar e rumou para o banheiro.
_Dobby contou que não quis almoçar... Você ficou no quarto, o dia inteiro, dormindo?
A pergunta vinha num tom de ser tudo, menos uma verdadeira pergunta. O loiro não estava perguntado, tampouco afirmando... Aquilo era um tipo de acusação. Entretanto, Harry não desejava revidar. Para que se estressar assim, não é mesmo? Percebera enfim que nada do que dissesse faria Draco deixar de ser Draco.
_Harry, eu estou falando com você... – E já estava ao lado do doncel, tocando-o de leve no braço.
_E eu estou tentando chegar ao banheiro, Draco – foi a resposta que obteve, enquanto sentia o corpo do esposo se afastar do breve toque.
_Está se sentindo bem? – E o agarrou de verdade dessa vez, impedindo-o de se evadir da pergunta.
_Já disse que está tudo bem...
O cinza brilhou com vivacidade. A magia veela apontava o contrário. Havia algo... Algo estava errado.
_Por que não cessa com as evasivas? Diga o que está errado... Passou o dia no quarto, não se alimentou, dormiu demais... Esse não é você.
_Não sabe tudo sobre mim, Draco. Poderia me soltar?
_Não. Não pretendo te soltar até que seja claro comigo. Eu não sabia que tinha o hábito de ser tão escorregadio, Harry.
_Posso ser bastante ofídio quando desejo. Agora, por favor, poderia me deixar chegar ao banheiro. Preciso mesmo tomar um banho.
Resignado, Draco o soltou e assim que o viu entrar no banheiro, convocou roupas limpas do closet e foi até o seu antigo quarto para tomar um banho breve. A sua tensão não se dissipou um instante sequer, nem mesmo enquanto se vestia ou quando foi até Dobby. Sem perder tempo, pediu ao elfo que servisse a refeição na imponente sala de jantar dos Malfoy.
Com a mente fervilhando devido à frieza do esposo, voltou à alcova a tempo de vê-lo saindo do banho. A beleza quase etérea de Harry Potter o atingia como um golpe de punhal: preciso, curto e fatal. Não havia limite para o desejo que sentia pelo leão. Não entendia o motivo das reações “escorregadias” dele, mas faria de tudo para solucionar o problema, qualquer que fosse.
_Vamos jantar? – E estendeu a mão para ele, um sorriso sincero nos lábios.
Harry acertou os óculos e suspirou. Não sentia fome alguma, contudo, sabia que já havia sido relapso demais e, no final das contas, as suas filhas não tinham culpa de ter um pai tão insensível.
_Vamos... – E deixou-se conduzir pelo marido, a mão esquentando com a magia veela proveniente dele.
Não conversaram muito no trajeto até a sala de jantar. Draco não avançou. Até quis beijar o esposo, mas Harry se mostrava bastante arredio. Foi todo um logro manter a mão conectada a dele. Ainda mantendo um estranho silêncio se sentaram nas confortáveis cadeiras.
Harry suspirou entediado, mas se serviu dos alimentos que podia degustar. Já Draco o mirava de tempos em tempos, tentando não deixar muito evidente o quanto se sentia incomodado com as estranhas reações que obtinha. O sorriso do moreno só surgiu na sobremesa: sorvete e frutas da estação, com calda de morango sem açúcar ou conservantes, ou seja, fora especialmente preparada por Dobby como um mimo ao “idolatrado amo Harry”.
_Está gostoso... – Constatou o loiro ao saborear a sobremesa.
_Draco, pode comer o que desejar. Sei que prefere doces de verdade. Não precisa se privar por mim.
_Não estou me privando de nada, Harry. Está realmente saboroso... Percebi que não está com muito apetite. Sente dor ou...
_Draco, eu estou bem.
_Claro, claro que está bem... Harry, eu sou um veela. Sinto o que você sente, esqueceu?
_Sente mesmo? Realmente consegue se sentir como eu me sinto?
Os olhares se chocaram furiosos e Draco compreendeu que Harry estava ressentido com ele. Ressentimento não era mesmo nada bom.
_Você está chateado comigo porque eu não concordei com o que sugeriu hoje, mais cedo, certo?
_Eu não quero falar sobre isso, Draco.
_Precisamos conversar, Harry. Temos que...
_Não insista, por favor.
Antes mesmo que Draco pudesse dizer mais algumas palavras, Dobby os interrompeu. Era visível a felicidade do elfo ao notar que Harry tinha se alimentado, todo um puxa-saquismo mesmo.
_Senhor, o professor Snape o aguarda na sala e o senhor Weasley...
_Ah, eu estou aqui mesmo! – Anunciou Ronald, já adentrando a sala de jantar e indo de encontro a Harry. – Como vai, amigo? Vim ver como você está... Boa noite, Draco. Espero que não se importe se eu ficar por aqui enquanto você vai ver o que o morcegão deseja – e sorriu cheio de dentes, já sentado ao lado do outro leão.
Draco precisou engolir o ciúme ao ver o esposo abraçar o “amigo”... Certo, certo... Sabia que não havia nenhuma intenção (ou tensão) sexual entre eles, contudo, seu veela simplesmente detestava que qualquer outro varão se aproximasse a mais do que 50 metros de Harry Potter. E então, ele ficou de pé e deixou a sala de jantar, não sem antes ir até o doncel e o beijar, com fome, bem nos lábios.
O ruivo riu da ceninha enciumada.
_Quer jantar, Rony? – E até a voz do moreno parecia estar sentindo vergonha.
_Não, obrigado Harry, mas gostaria de experimentar esse sorvete. Parece estar delicioso.
_E está. Dobby foi muito atencioso ao prepará-lo.
Dobby sorriu feliz e, antes de deixá-los sozinhos, serviu o “convidado”.
_Hermione não pôde vir hoje, mas disse que amanhã virá aqui bem cedinho, logo na hora do café. Disse que está com muita saudade de você e das suas meninas. Ela queria vir aqui hoje, mas não foi possível. Ela e o professor Snape estão tentando ajudar os pais de Madeleine e, bem, digamos que as coisas saíram de controle.
Aquele tom de voz, ah... Harry reconheceria para sempre: Ronald estava preocupado.
_Ela está bem?
_Sim... Ela está cansada apenas, nada além disso. Ontem, o professor e ela realizaram um feitiço, creio eu, e Mione acabou sendo atingida, mas já está recuperada, portanto, precisa apenas de um pouco mais de descanso. Hum... Que delícia!
Os olhos verdes analisaram o jovem aspirante a auror. Sabia que ele estava sendo sincero com relação à amiga, mas havia algo no ar...
_Alguém mais se machucou?
Ronald o encarou, um sorriso cheio de significado estampado no rosto.
_E você recusou a carreira de auror... Ah, Harry, você tem instintos de investigador.
_Rony, quem mais se machucou? Foi o professor Snape?
_Não, o professor está bem. Quem se machucou, sem gravidade alguma, foi Sirius.
_O quê?
_Shiii... Fale baixo... O morcegão está na sala.
_E por que isso seria um problema? – Perguntou o moreno. – Por acaso não queriam me deixar a par do que aconteceu com o meu padrinho?
_Não é nada disso... Por favor, não faça com que eu me arrepender de ter contato, Harry. Você não pode se exaltar... – E o ruivo o avaliou bem antes de prosseguir. – Sirius está estável. Foi apenas uma fratura, que já está sendo tratada. Pelo que Hermione me contou, Sirius foi até o hospital e, sem que ninguém visse ou permitisse, entrou no quarto dos pais de Madeleine e, infelizmente, foi atingido pelos efeitos do feitiço com o qual o professor e ela lidavam... Foi um acidente. Poderia ter sido evitado, mas... Você sabe como o seu padrinho é. Snape parecia mais aterrorizante que Voldemort, segundo a Mione.
O moreno tentava vislumbrar como, em tão pouco tempo, o padrinho conseguira ser vítima de tantos acidentes. Azar? Não, não mesmo. O problema era bem simples de resolver: Sirius costumava agir antes de pensar com mais acuidade.
_Ele... Ele está bem mesmo?
_Está sim, eu garanto. Pode acreditar em mim. O seu padrinho está bem e logo, logo vai aprontar mais alguma, pode ter certeza. Ele só precisará ficar em “repouso absoluto, sem lareiras, sem visitas, sem nada”, segundo o morcegão. Sabe, eu realmente não sei quem é mais possessivo e ciumento, Snape ou Malfoy.
_Sem visitas? Ah, mas eu preciso vê-lo.
_E vai... No final de semana, eu mesmo levo você, certo? Afinal, a doninha quicante comprou um carrão e seria uma maldade se nós não desfrutássemos – e piscou cheio de cumplicidade para o amigo, enquanto degustava o restinho do sorvete.
Harry riu ante a alegria de Ronald em, simplesmente, irritar Draco.
_Agora me diga, Harry, de verdade, como você está? Não sei não, mas estou sentindo que Draco andou saindo da linha contigo. E se aconteceu alguma coisa, ah, a doninha quicante vai virar doninha assada.
_Aham... Só Draco e Severus são ciumentos, né? – E riu-se daquela estranha atuação de Rony como “irmão-mais-velho-mega-protetor”. – Não se preocupe, Rony, está tudo bem – e curiosamente, o moreno pensou que, talvez, já tivesse repetido aquela frase por vezes demais num só dia...
_Não acredito em você, mas não vou insistir. Apenas um conselho que a minha mãe sempre me deu: “converse com ela, Ronald”. No seu caso é: “converse com a doninha, Harry”. Sei que a sua teimosia é tão grande quanto a minha fome, mas converse com ele.
_Nossa, minha teimosia não tem limites então!
Ambos riram alto e assim permaneceram por mais algum tempo, entre risos e assuntos bobos. Foi um tempo curto e agradável o que passou com Ronald, mas nada dura para sempre... A descontração desapareceu assim que Snape entrou no recinto, acompanhado por um Draco cuja expressão não era, nem de longe, tranquila.
_Boa noite, Harry.
_Boa noite, professor.
_Ronald lhe contou sobre Sirius, como eu pedi? – E ao que o herói assentiu, continuou. – Ótimo. Não se preocupe, pois Sirius está bem, ainda que vá demorar um pouco para que ele tente, não sei, escalar o Everest grávido, ou qualquer outra atitude típica dele.
Severus contou mais detalhes sobre as condições de saúde do esposo, tudo sob o peso do olhar verde intenso. Assim como fizera Ronald, não mencionou os últimos acontecimentos. Quando acabou, Harry havia entendido por fim o porquê de Ronald ter dito “repouso absoluto, sem lareiras, sem visitas, sem nada”.
_Tenha paciência com Sirius... Ele ficou muito tempo preso, injustamente preso e, bem... Tudo é tão confuso quando se é um doncel...
A fala do moreno não era unicamente sobre o padrinho, disso o loiro soube de imediato. Ah, Harry... A vontade que Draco tinha era a de carregá-lo para longe do país. Cogitava até outro continente... Por que Harry? Por que era sempre Harry? E o pior... Agora tudo se tornava mais confuso, envolvendo outros elementos que ainda não eram capazes de decifrar.
_Draco... O que foi? – E o cinza encontrou a dúvida esverdeada. – Por que está me olhando assim?
Severus se voltou para o afilhado que, apesar de todas as suas recomendações, sustentava uma expressão de genuína tensão. A rápida conversa que tiveram, na qual apenas indicou minimamente o conteúdo da conversa que Adam Taylor teve no gabinete ministerial, o abalara profundamente. Precisava ser ágil para não instigar a curiosidade grifinória.
_Draco está pensando no que fazer para evitar que fique tão rebelde e impulsivo como o meu esposo... Mantenha a sua calma, afilhado desesperado. Só há uma pessoa que congrega essas atitudes de maneira tão explosiva e eu estou vinculado a ela, portanto, pode relaxar, entendeu?
Os olhos escuros do padrinho o acertaram com força. Havia entendido muito bem o recado. Relaxe significava dissimule no dicionário do pocionista. Até o ruivo, que não fizera nada além de servir de distração, nas palavras do professor, concordava que, na presente situação, precisariam agir com astúcia e sigilo.
_Aproveitando a minha visita, como se sente, Harry? Draco comentou algo sobre você ter dormido por muito tempo hoje...
_Estou bem, professor – respondeu de má vontade o moreno que, evidentemente, não pôde evitar revirar os olhos em frustração...
“Por Circe, farei um placar para registrar quantas vezes tenho que repetir ‘estou bem’. Parece que voltei ao quadribol”, pensava Harry enquanto, a contragosto, se deixava examinar pelo morcegão.
Com mais um abraço, desnecessário na visão de Draco, Ronald se despediu, sendo seguido por Severus. Pouco tempo depois, o casal Potter-Malfoy estava na sala. Harry escrevia um longo pergaminho para o padrinho, já Draco relia as anotações feitas durante as aulas.
O humor do esposo melhorara sensivelmente desde que Ronald o visitara, embora a atitude ressabiada com relação a ele tenha se mantido. Seu veela estava mais aliviado, apesar de estar com um desejo alucinado de agarrar o esposo ali mesmo no sofá.
Observava-o mover os dedos com agilidade, morder levemente os lábios quando pensava um pouco mais antes de escrever, franzir a testa de forma preocupada... Ah, Harry Potter mexia com ele de tal maneira que era difícil controlar o ciúme. Quando o moreno finalmente concluiu a redação da carta, pediu a Dobby que a mandasse via coruja. Incrivelmente, estava bocejando quando o elfo desapareceu feliz por ter uma tarefa para realizar.
_Está com sono, Harry?
_É... Estou sim...
O loiro se aproximou com pressa, antes que fossem dormir sem resolver aquele estranho impasse entre ambos. Sentou-se ao lado do doncel, segurou as mãos dele com força mostrando que não o deixaria partir e, decidido, começou a falar.
_Sei que te entristeci hoje... Não foi minha intenção.
_Draco, eu realmente não quero mais falar sobre isso. Deixa pra lá. É melhor assim...
_Não, não é. Não podemos permitir que existam coisas não ditas e não feitas entre nós. Não podemos deixar que se forme essa barreira, esse vidro ao redor de nossos corações. Eu tenho uma natureza instintiva muito agressiva, Harry. Todos os veelas a possuem... Fui educado com esmero nas normas de etiqueta e traquejo social, justamente, por isso. Contudo, sou humano e cometo falhas. E minhas falhas tendem a ter consequências graves.
Harry não pôde evitar ser dominado pela lembrança de Adam Taylor, meio mole, sendo sufocado pelo agarre animalesco do marido.
_Tornei-me extremamente protetor com relação a você, Harry. Sei que não precisa disso. Respeito demais quem você é, o que você fez e faz... Mas, não consigo evitar. Desculpe se, nessa minha ânsia de te proteger de tudo, eu acabe não te protegendo de mim mesmo.
_Ai, Draco... Assim eu não consigo ficar com raiva de você, sabia?
O loiro sorriu feliz. Vibrou por dentro quando sentiu o toque da mão do esposo em sua face, numa carícia delicada e íntima. Não havia doncel que não fosse delicado, por mais que Harry não aceitasse muito bem essa nova realidade.
_Quando eu exagerar, por favor, fale comigo...
_Talvez chutar você dê um resultado mais eficaz, loiro de farmácia – e sorriu.
Draco se projetou sobre ele e o beijou necessitado. Já Harry, simplesmente, deixou-se envolver pelos braços do marido. Assim que o ósculo cessou, o moreno não foi capaz de conter outro bocejo... O contato com o veela o acalmou, relaxando os músculos, eliminando de vez a tensão...
_Nossa... E eu achando que iria ter uma noite movimentada hoje... – Brincou o veela, beijando-o castamente, antes de aconchegá-lo em seus braços.
_Eu estou com sono... E, só para te informar loiro: se eu quisesse mesmo, teria furtado o seu carrão e dirigido por aí. Eu já sei conduzir, Draco – e o esnobe arregalou os olhos.
_Como assim você “já sabe” conduzir?
_Você se lembra, no segundo ano em Hogwarts... – Começou o leão, rindo da face cada vez mais apavorada do marido. – Ronald e eu perdemos o trem e usamos o carro do senhor Weasley. É claro que não sou profundo conhecedor das regras de direção, mas o veículo magicamente modificado não tem tantos empecilhos e a condução é bem mais tranquila. Olha, Draco... Eu entendo os seus medos...
_Ah, Harry, você não faz ideia... Por Merlin, espero que nossas filhas não herdem esse seu espírito aventureiro.
Harry gargalhou alto e ainda estava rindo quando, pouco depois, voltou ao quarto para dormir, mais uma vez, nos braços da esnobe serpente de olhos prateados.
++++++++++++++++++++++++++++++++++++
_Como vê, Remus... Minha mãe e eu somos parte da mobília...
_Ora, Lucius. Sabe muito bem ao que me refiro... Esther é uma dádiva, mas só Remus consegue, minimamente, controlar Sirius. Você o estressa, sabe disso.
O loiro não pôde negar aquela grande verdade.
_Vá tranquilo, Severus. Não sairei mais de casa hoje... Teddy ficará na Toca e eu vigiarei seu amado esposo. Com licença... – E sumiu escada acima, deixando os dois sonserinos na sala.
Severus aguardou mais alguns instantes. Queria ter certeza de que ninguém mais o ouviria. Ninguém mais além de Lucius.
_Comece a recomendação, Severus, afinal, está sendo aguardado em St. Mungus, não?
_Sem zombarias, Lucius Malfoy. Conheço bem cada uma de suas artimanhas...
_Não ouse feri-lo. Não ouse usá-lo. Remus não merece ser tratado dessa forma.
Severus deu três largos passos, invadindo o espaço pessoal do amigo e sendo mirado com surpresa pelos olhos cor cinza.
_Ele é uma pessoa boa de verdade. Considero-o um amigo, um amigo muito fiel, tal como você, Lucius. Remus me ajudou num momento muito difícil... Esteve ao meu lado quando achei que mais ninguém estaria... Sinto por ele verdadeiro respeito. E mesmo te considerando um irmão, não vou permitir que o machuque.
_Fique tranquilo, Severus. Não causarei dor alguma a Remus, ao contrário. Amigo, estou sinceramente interessado. Tal como me senti com Cissa... – E a expressão que sustentou não deixou dúvida alguma ao pocionista.
_Oh, por Merlin, Lucius. Esse olhar não! Você não vai descansar até tê-lo, não é?
_E você vai me ajudar, Severus. Agora vá encontrar Hermione... Pansy chegará em breve.
_O que Parkinson... Ah, esqueça. Depois conversamos.”
Quando Severus aparatou, um sorriso cheio de malícia adornou a face do esnobe Lucius Malfoy. Sem pressa alguma, se dirigiu ao andar de cima da casa. Mal chegou a porta do quarto do casal Black-Snape e foi presentado pelo melodioso tom de voz do lupino. Como não percebera antes?
_Sirius, por favor, se comporte.
_Não sou uma criança, Remus. Elimine o feitiço que Severus pôs sobre a cama! Eu não vou sair por aí competindo uma maratona.
_Nem pensar, Sirius. Não realizaria o contrafeitiço mesmo que soubesse. Você precisa descansar, certo Esther?
_Certíssimo. Sirius acabou de ingerir mais medicamentos e dormirá logo. Eu vou ajudar os pequeninos com o almoço – e a mulher os deixou.
_Conte-me, amigo, como está se sentindo? Dói muito?
Lucius conversou minimamente com a sua mãe, sendo o tempo suficiente para que Remus saísse do quarto também. O lupino estranhou ao ver Lucius bem ali, simplesmente, parado somo se... O esperasse?
_Lucius?
_Preciso da sua ajuda. Se não for muito incômodo, claro.
_De forma alguma. Diga, no que precisa de ajuda?
O patriarca Malfoy sorriu e conduziu Remus por Prince’s House, explicando o que faria naquele dia e quando chegaram ao local escolhido, se dispôs a esclarecer minimamente os seus motivos.
_Então irá desalojar Severus? – E riu som sutileza.
_Sim, eu vou. Severus tem o laboratório particular, logo, praticamente nem usa esse escritório. Aqui é o local perfeito, pois tem uma lareira própria. Preciso ajudar Draco a ter mais tempo para se dedicar aos estudos e ao esposo. Portanto, é vital que eu possa voltar ao comando dos negócios da família. Severus não aprova que eu utilize poção polissuco no momento...
_E ele está certo. Seu corpo ainda está se recuperando, Lucius.
_Bem, agora que você me presenteou com uma nova varinha, poderei ser mais útil. Creio que até o almoço consigamos organizar tudo.
Remus assentiu e se dispôs a seguir as orientações do patriarca da família Malfoy. Livros de poções foram reduzidos e encaixotados, assim como tudo o que não fosse a mobília. Em pouco tempo, o escritório estava vazio.
_Talvez deva colocar algumas fotos nas estantes... Vai ajudar a tirar esse ar impessoal.
_Certamente, Remus. Pansy fará isso. Ela virá hoje ainda e completará o serviço. Contudo, agradeço imensamente a ajuda. Conseguimos deixar tudo preparado para transformar o antigo escritório de Severus no meu novo escritório. Vamos almoçar?
Lupin apenas assentiu, sentindo como cada vez a proximidade de Lucius não o gerava nenhum sentimento negativo, ao contrário. O lobo nele gostava do contato com o loiro. Era como se... Oh, Por Merlin... Estava começando a entender... O seu lobo queria ser dominado por ele. Isso não fazia sentido...
A voz de Lucius reverberava em seus ouvidos, preenchendo-o de um calor gostoso e nunca antes sentido. Nem se deu muita conta quando começaram a degustar a refeição, tampouco notou quando Esther, com um ar de “estou compreendendo muito bem o que está acontecendo aqui”, os deixou sozinhos para verificar como Sirius estava... E Pansy? Só percebeu a presença da loira quando ela, ao lhe acenar, já estava se despedindo.
Confuso com as próprias reações, afastou-se um pouco do patriarca e voltou ao quarto de Sirius, encontrando-o novamente acordado e, evidentemente, entediado. Conversou bastante com ele, sendo substituído por Esther e Frederick. O neto da bondosa senhora vinha cheio de entusiasmo entregar a moeda que, antes, ele havia transformado numa chave de portal.
Sorrindo para o jovem, Remus explicou que deveria guardá-la para que assim pudesse ir vir para a nova casa. Só deixou o quarto quando Sirius, vejam só, bastante sonolento voltou a dormir. Ele então decidiu tomar um banho relaxante. Com um accio convocou roupas limpas e rumou direto para o banheiro.
Despiu-se com, vagar, a mente ainda bastante atordoada com as ações sorrateiras do lobo... Já mais relaxado, entrou em contato com Molly e com Teddy. O garotinho estava mais que feliz de brincar com Madeleine e o biquinho feito por ele foi suficiente para convencer Lupin de só pegá-lo na Toca no dia seguinte, depois do almoço.
Rindo ainda da comemoração do filho — “papai, obrigado! O senhor é o melhor pai que eu tenho!” -, lembrou-se que precisava reordenar algumas roupas e preparar o que seria levado à Hogwarts. Pegou os pacotes que havia comprado naquele mesmo dia e voltou ao andar de cima da casa, rumando para o quarto que dividia com o filho.
_Lucius? O que... O que faz aqui? – Perguntou Remus que, sem esperar a resposta, já entrava no quarto trazendo as compras do dia.
_Nada demais. Vim deixar isso.
O loiro apontou para um dos soldadinhos de madeira de Teddy.
_Oh, Teddy! Desculpe o incômodo... – Disse em tom de desculpa.
Teddy era uma criança ótima, mas tinha o péssimo costume de espalhar os brinquedos. Aproveitou para deixar os pacotes sobre a cama.
_Imagine, não foi incômodo algum... Não gostaria de tomar um chá comigo?
_Ah, claro... Eu só vou deixar a roupa usada no... Por Merlin, onde está a minha camisa? Eu tenho certeza de que a deixei aqui, no cabideiro...
_Ora, Severus tem elfos muito eficientes. Venha, vamos tomar um chá e assim faço alguns feitiços com a minha nova varinha... – Concluiu Lucius, conduzindo-o porta afora.
_Não gosto de dar trabalho aos elfos...
_Se você não der trabalho aos elfos, eles se frustram e entram em depressão – sentenciou o esnobe.
Lucius aproveitou mesmo a oportunidade para fazer mais feitiços. Com a nova varinha, o chá foi servido na varanda e ambos puderam apreciar o pôr-do-sol. Posteriormente, o céu noturno os extasiou, pois brilhava estrelado.
_Sabe, Remus, o notei preocupado. Apesar de ser prestativo com todos, parece que algo o consome. Conte-me. Deixe-me ajudá-lo da mesma forma que você me ajudou.
Não houve antes nenhum tipo de relação entre eles. Na verdade, no passado, nada além de ojeriza crescera entre ambos. E aí, como se por passe de mágica, a despeito da ironia, a vida mudava, solapando antigas certezas, invertendo as posições de tudo e de todos.
Lucius o mirava entre vidrado e dominador, as duas estrelas prateadas reluzindo. Já ele, o lupino amaldiçoado, não conseguia compreender bem o que acontecia consigo, tampouco julgava adequado sentir aquele calor inexplicável em seu peito, cada vez que percebia ser alvo da atenção do loiro.
Quando se deu conta, já havia contado ao esnobe muitas passagens da sua vida, das frustrações durante o casamento com Tonks, da sua separação traumática ao fato de estar vivenciando uma batalha pela guarda do filho do casal. Lucius estava bem perto dele agora, abraçando-o de leve pelos ombros.
_Não tema, Remus. Adam Taylor é um dos mais brilhantes advogados que conheço. Ele fará até o impossível para obter a guarda de Teddy...
_Não duvido... Contudo, ele foi bastante claro e me explicou que a tendência dos juízes não é a de entregar a guarda da criança ao pai. Muito menos "apenas" ao pai. E, sei que não devo ser tão negativo, mas sou um lobisomem, Lucius. Certamente minha maldição deporá contra mim em qualquer tribunal.
Lucius se aproximou mais ainda. Por Merlin, agora podia sentir até seu alento.
_Não se desmereça por algo que não é culpa sua. Faremos o impossível para que você não perca a guarda de Teddy.
_Faremos? Como assim... Faremos?
A pergunta de Remus foi acompanhada de uma expressão de genuína dúvida.
_Sim, faremos. Eu não vou abandonar você, Remus – e Lucius Malfoy agiu com presteza e habilidade ímpar. Segurou o rosto de Remus entre as mãos e o beijou.
O toque entre os lábios acendeu uma excitação sem igual no lupino. Remus gemeu só de sentir o leve roçar daquela carícia. Mais confuso ainda, foi devorado pela boca do patriarca Malfoy.
A língua entrou sem pedir licença, explorando-o sem medo algum. Novos gemidos saíam dele sem que pudesse controlar. Por Merlin, o que estava acontecendo? Acaso o seu cérebro havia retrocedido à infância?
_Oh, desculpem-me pela interrupção... Vim chamá-los para jantar.
Lucius se afastou minimamente de Remus que, àquela altura, sendo pego “no flagra”, estava corado.
_Imagine, mãe. A senhora nunca interromperia. Remus e eu acabamos de assumir um compromisso.
O lupino arregalou os olhos... Compromisso?
_Fico muito feliz por vocês, meu filho. Er, bem... Remus também pode ter bebês? – E se antes Remus estava corado, agora as suas bochechas ardiam em chamas.
_Claro que pode...
Tão logo Esther voltou para dentro da casa, Lucius o encarou com determinação, a mão acariciando os sedosos cabelos claros de Remus.
_Por que me beijou? E como assim... Compromisso?
_Beijei seus lábios deliciosos, Remus, porque essa era a minha vontade e a sua também. E estamos compromissados sim, desde que eu te vi aqui na casa de Severus. Amanhã mesmo conversarei com Adam Taylor. Desfaremos o seu vínculo com Tonks o mais rápido possível e assim poderemos nos vincular.
_Você está louco?
O loiro o agarrou de novo, beijando-o com mais entusiasmo. Ah, era até maldade, sabia disso. O lobo o desejava com intensidade e veneração. Lupin era um patinho inocente antes as suas artimanhas bem planejadas, quer dizer... Um lobinho inocente.
_Ah, sim... Completamente louco de tesão por você. Vou te engravidar bem rápido, Remus. Nem Severus conseguirá te proteger de mim – e sorriu de forma libidinosa, voltando a beijá-lo com furor.
[1] Gente, não dá. “Aurora”, pra mim, não rola não! rsrs
Fale com o autor