Subaquático
12 Marcas na pele
Notas iniciais
Suga solta um jato de bolhas e fecha os olhos. Aouli segura as pontas de seus dedos com delicadeza, desenhando em suas palmas com as unhas. A água morna do recife passa por eles em correntes suaves, carregando também diferentes cheiros e sons: alguém cheirava a tinta de polvo, provavelmente Miria; um cardume de peixes conversava no alto; o cheiro bem humano e diferente de Daichi, Kageyama e Asahi; sangue na água enquanto alguém provavelmente comia alguma coisa.
—- Se concentra. Não pense na água como um todo, mas em pequenas moléculas. E entre cada molécula, há uma energia. Foco. – Aouli solta as mãos de Suga, e ele as mantêm esticadas.
Suga solta mais bolhas, mas se distrai rapidamente com as vibrações vindas do bater do coração de Daichi. Balançando levemente a cabeça, ele volta a se concentrar. No olho de sua mente, tudo fica escuro. Pequenos pontos transparentes começam a aparecer, iguais Aouli tinha lhe mostrado... Ele sente um leve formigamento nos dedos.
É como uma pequena eletricidade. Um choquinho na ponta dos dedos, e uma corrente fraca passando entre as escamas de sua cauda. Ele consegue ver a energia entre as moléculas: pequenos movimentos ondulados passeando no vazio, e Suga sente como se pudesse tocá-los.
—- Agora faz aquilo que te falei.
Ele visualiza as ondinhas se abrindo, deixando um vácuo; ao mesmo tempo, a molécula de água perde dois átomos de hidrogênio, que correm para a superfície, e o átomo de oxigênio usa a ondinha para se juntar com mais centenas de outros átomos de oxigênio. Suga visualiza todas as moléculas novas em uma bolha. Uma onda forte passa por seu corpo e ele abre os olhos.
Na ponta de seu dedo há uma bolha minúscula, que se desprende e começa a subir. Suga se vê cansado e meio zonzo.
—- Conseguiu! – Daichi dá tapinhas em suas costas.
—- É, acho que é um bom começo... – Aouli observa a bolhinha subindo e subindo.
Suga vira a cabeça e sorri para Daichi. Mais para o lado, Hinata ergue as mãos e acena para Kageyama. Ele tem bolhas de oxigênio grudadas pelo corpo inteiro, inclusive nos cabelos ruivos. Ele agita as mãos e mais bolhas surgem, e Kageyama revira os olhos.
—- Você conseguiu ver as moléculas direitinho? – pergunta Aouli.
—- Não com muita claridade. É tão difícil...
—- Relaxa, Suga! É só praticar. Quando não tiver nada pra fazer, fecha os olhos e sente a energia da água! Depois a gente tenta de novo, ok?
Suga balança a cabeça e abraça Daichi, apoiando a bochecha em seu ombro.
—- Parabéns! Acho que pra um dia de treino isso tá ótimo. – Daichi afaga seu cabelo.
—- Foi uma bolha minúscula.
—- Pra quem sequer sabia da existência disso, você foi ótimo.
Suga beija a boca de Daichi por dentro da bolha de ar e eles dois esboçam pequenos sorrisos.
Kageyama brigava com Hinata sobre alguma coisa e Asahi escrevia em uma alga, enquanto Aouli estava bem próxima de Suga e Daichi, olhando-os confusa.
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Felix, a lulinha rosa, tinha avisado Hippo que uma reunião de emergência se daria na próxima vez que eles ouvissem o assovio das correntes entre os corais (coisa que acontecia mais ou menos de 20 em 20 minutos), mas ele ficou ocupado ajudando um peixinho com deficiência a conseguir comida; por isso, quando chegou na sala de Miria, ficou surpreso ao ouvir todo mundo gritando.
—- EU VOU E NENHUM DE VOCÊS VAI ME IMPEDIR!
—- Hinata, calma! Por favor!
—- Mas você tem certeza??
—- Tenho! Nunca tive mais certeza na vida!
—- Miria, pare e pense: pode ser uma oportunidade única de explorar o Fim.
—- Nem ferrando! A gente mal sabe o que tem lá e se nossos corpos aguentam tanta pressão!
—- EU VOU COM OU SEM A COMPANHIA DE VOCÊS! ME LARGUEM!
—- Ryuu, segura firme.
—- Tô tentando, Noya!
Vários sereianos se juntavam em grupos e batiam boca; os meninos humanos – Asahi, Kageyama e Daichi – estavam perto de Hinata, que berrava e era segurado por Nishinoya e Tanaka. Miria agitava os braços e os tentáculos sem parar, tentando argumentar com todo mundo ao mesmo tempo, e o grupo de pesquisadores do recife se encolhia em um canto e falavam baixinho.
—- O QUE TÁ ACONTECENDO AQUI?!— Hippo fala mais alto que todo mundo, esticando sua cauda.
Todo mundo fica em silêncio por um instante com os olhos fixos em Hippo. Os dreads dele balançavam ao redor de sua cabeça.
—- Eles são loucos, é isso que tá acontecendo! – um dos sereianos mais velhos aponta para os recém-chegados e solta um jato furioso de bolhas.
—- SILÊNCIO! – Miria grita e a água do mar esquenta ao redor dela, formando bolhas de ar. Ela passa as mãos em seus cachos vermelhos e pisca os olhos várias vezes – Será que a gente pode discutir isso de forma civilizada? Na assembleia?
Todo mundo concorda em ir para o círculo de pedra no fundo do recife. Hippo, no meio do caminho, segura no ombro de Asahi.
—- O que houve?
—- Você nem vai acreditar... – ele aperta as próprias bochechas.
—- Fala.
—- O Kageyama disse que sabe onde encontrar a alga branca e que quer comê-la para virar sereiano, mas a alga fica lá no Fim. E a gente nem tem certeza absoluta que ela existe, ou se tem quantidade suficiente, ou se os corpos de vocês aguentam tanta pressão, ou-
—- O menino humano quer virar sereiano?
—- Sim! Mas deve ser tão perigoso! Os livros da biblioteca mencionam sereianos virando humanos por algumas horas, mas nada sobre o processo inverso! E, mesmo se for possível, as algas ficam no Fim! No Fim!
Todos juntam-se em círculo. Kageyama aperta a mão de Hinata com força, e Suga e Daichi olham para eles preocupados.
—- Todo mundo está sabendo de todos os fatos? – Miria sacode os tentáculos – Hinata e Kageyama, expliquem-se.
Os dois se olham com firmeza.
—- Ontem na biblioteca, descobri um livro que falava sobre os tipos de algas que tem no mar – Kageyama treme levemente com todos os olhos sobre si --, e o autor mencionou a existência de uma alga branca especial, que só cresce em pedras de riólito, que permite que os humanos se transformem em sereianos por tempo indeterminado. E eu quero virar sereiano pra ficar aqui com vocês, com o Hinata!
—- E, coincidentemente, o recife tem um vulcão embaixo, e riólito é uma pedra vulcânica! – Hinata chicoteia a cauda preta – Mas ela só cresce em temperaturas muito baixas, ou seja, lá no leito oceânico! E eu quero ir pegar pro Kageyama.
—- Eles só esqueceram de mencionar que – um rapaz de cabelo encaracolado se pronuncia – a última pessoa que comeu uma dessas algas morreu e por isso ninguém sabe mais sobre elas!
—- Estou disposto a tentar! – Kageyama junta as sobrancelhas.
—- Kageyama, não seja estúpido! – Daichi grita do outro lado da roda.
Miria faz a água vibrar e todos se calam.
—- Vamos ouvir pontos contra e a favor. Ann, pode falar.
—- Obrigada. – a sereiana de cabelo preto curto junta as mãos na frente do corpo – Não tenho nada contra o menino humano Kageyama querer virar sereiano, mas me oponho à ideia de que Hinata, um sereiano, se arrisque tanto por ele. – ela passa a palavra para um homem de colar de conchas.
—- Exato. O Fim é praticamente desconhecido para nós, e não fazemos ideia de como a pressão, a falta de luz e as baixas temperaturas afetariam nosso corpo. É arriscado.
—- Nós conversamos. – o grupo dos pesquisadores se pronuncia, e é uma jovem de cabelos verdes compridos quem fala – Como membros do grupo de pesquisa do coral, achamos que a procura de Hinata e a ingestão da alga branca pelo menino humano Kageyama são de tremenda relevância científica. Nós usaríamos essa oportunidade para conhecer mais nossos limites nas profundezas do oceano, e completaríamos os estudos sobre algas realizados anteriormente. Nós do grupo apoiamos a decisão e gostaríamos de nos juntar ao Hinata se possível.
Faz-se silêncio na roda, e Miria solta uma grande bolha. Ela passa a palavra.
—- Vale mesmo a pena se arriscar tanto por ele, Hinata querido? – a sereiana mais velha do grupo se pronuncia.
Os olhos de Hinata ficam vermelhos e levemente inchados. Ele chorava.
—- Sim! O Kageyama... O Kageyama foi meu único amigo quando fui capturado. Eles teriam me deixado morrer de fome se não fosse por ele, ou teriam me matado porque eu sempre recusei fazer as coisas. O Kageyama me salvou! Eu só tô aqui agora por causa dele. Se ele quisesse a maior pérola do mundo, eu ia procurar pra ele. Eu faria de tudo por ele...
Hinata vira seus olhos castanhos e encontra-os com os azuis de Kageyama, que mal conseguia respirar. Ele esmagou os dedos do outro e engoliu em seco antes de encarar bem fundo nos olhos de Suga do outro lado da roda.
—- Eu não tenho família. Não tenho pais. Ninguém nunca gostou de mim e sempre fui sozinho... O Hinata foi o único que me aceitou, e foi meu primeiro amigo. E depois que fugimos do circo, ele foi tudo que me sobrou. Não tenho mais nada. Não tenho casa ou lugar pra voltar, não tenho amigos no mundo humano, não tenho dinheiro... O Hinata é tudo o que eu tenho nesse mundo e eu vou fazer o que puder pra que nunca nos separem.
Suga sente o coração disparando no peito.
Eles se amam.
Daichi ergue a mão lentamente, olhando para os dois garotos do outro lado.
—- Queria dizer que... Que eu não sei se estou de acordo com todos os riscos que ir ao Fim oferece, mas que entendo porque o Hinata e o Kageyama estão dispostos... O Kageyama sempre esteve sozinho, e o Hinata foi separado da família de um jeito muito trágico, então é óbvio que eles se apegaram. – ele olha para Suga e sorri gentilmente – Se eu também não tivesse nada pra me apegar ao mundo lá de cima, faria de tudo pra ficar junto do Suga aqui em Nerida.
O coração de Suga dispara dolorosamente no peito e ele sente vontade de chorar. Daichi também sente o peito apertar, mas tenta ao máximo aproveitar o tempinho que resta ao lado de Suga e sorri.
Miria olha para todos os lados, absorvendo as vibrações na água. Ela solta outro jato de bolhas e coloca as mãos na cintura.
—- Gente, seguinte... Vocês sabem que nada aqui no recife é proibido. Ninguém vai impedi-los de descer até o Fim se vocês quiserem. Mesmo assim, acho válido ouvir todos os pontos de vista. – ela vira-se para Hinata e aperta as mãos juntas – Se você quer partir pra encontrar a alga, tá tudo bem. Mas só tenha certeza do que você quer e por favor não tente colocar os outros em risco...
Hinata solta bolhas de alívio e sorri para Kageyama.
Meia hora mais tarde, Hinata, Kageyama, Daichi, Suga, Asahi, o grupo de pesquisadores e Miria se reuniam na Ponta. Aouli, entre eles, tentava explicar os equipamentos para Asahi.
-- Com isso, dá pra medir a pressão da água dependendo do tamanho que a esponja fica. E essa daqui muda de cor de acordo com a temperatura. Pegamos também várias algas bioluminescentes e fizemos isso pra tentar iluminar lá embaixo. Aí com esses potinhos de vidro vamos pegar algumas amostras da areia e da água, e até podemos trazer algum animal se eles toparem!
-- Só tô um pouco preocupado com a pressão. – Hippo enrola um dread no dedo – Fizemos uns cálculos rápidos, mas ainda não temos certeza se nossos corpos aguentam.
-- É. – a outra pesquisadora, Kelp, de cabelos verdes compridos, agita a cauda – E a temperatura também me preocupa. Não fazemos ideia de quão frio é e quanto aguentamos.
-- Vai dar tudo certo, gente. – Asahi junta as mãos – Só tomem cuidado. Se não se sentirem bem, só voltar.
-- Não vou voltar sem achar aquela coisa. – Hinata chicoteia a ponta da cauda. – Já comi dez peixes e tô cheio de energia.
-- DEZ? – Daichi quase se engasga na própria saliva – Como que cabe tanta comida em você?!
-- Não sei, mas coube. Tá todo mundo pronto? Vamos logo!
Hinata e Kageyama se olham uma última vez e ambos acenam a cabeça num pacto silencioso. Junto com os outros cinco pesquisadores, Hinata sorri e nada na direção do vazio azul da Ponta, e todos afundam rapidamente.
-- Tô preocupado. – diz Suga, enrolando a ponta da cauda no calcanhar de Daichi. – Espero que dê tudo certo. Não sei o que o Kageyama faria se alguma coisa acontecesse com o Hinata.
-- As pessoas fazem coisas idiotas por amor. É normal. – ele pega na mão do outro – Você meio que virou humano por um dia por minha causa, lembra?
Suga solta uma risadinha e entrelaça os dedos juntos, torcendo pelo melhor enquanto vê os seis sereianos descendo na escuridão.
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-- Hinata, vá com calma! – Aouli grita do alto, esforçando-se para acompanha-lo. – Vá devagar, por favor. A gente não sabe o que pode acontecer-
O ruivo para abruptamente no meio do azul, olhando ao redor. Aouli, Hippo, Kelp e os outros dois sereianos, Loi e Intam, encontram-se com ele.
-- Tem alguma coisa tão estranha... – Hinata continua olhando ao redor, confuso.
-- O quê? – Loi tira o cabelo do rosto.
-- É verdade... – Aouli encara as próprias mãos – Não consigo sentir nada. Digo, ainda estamos na faixa dos 100 metros, mas não sinto as vibrações de Nerida, ou de seres vivos, ou de nada.
Todos os seis se encaram por alguns breves segundos.
-- Vamos continuar. – Hippo agita as algas bioluminescentes e elas soltam um brilho azul suave – Hinata, fica perto da gente. Tá começando a ficar bem escuro.
Juntos, eles continuam descendo para as profundezas do Fim. Não há sinal de vida marinha. Tudo torna-se preto perto dos 500 metros.
-- Eu me sinto estranho – admite Intam, colocando as mãos nas guelras e mexendo suas barbatanas de tubarão.
-- E tá frio aqui. – Aouli sopra bolhas.
-- Deve estar cerca de 12 graus – Hippo observa a esponja vermelha ficar pálida.
-- Minha pele está formigando de leve. – Hinata comenta.
-- Presumo que seja a pressão. Vamos com cuidado. – diz Loi.
Hinata continua na frente, iluminando o caminho com a pedra branca em sua mão. Os outros seguem cuidadosamente atrás, anotando todas as informações no fundo da mente para escreverem depois.
Quando todos começam a bater os dentes de frio, eles resolvem fazer uma pausa.
-- Onde estamos? – pergunta Hippo.
-- Na faixa dos 1000 metros. – Loi vê sua esponja encolher cada vez mais – Meu corpo tá muito pesado, e tá muito frio.
-- Daqui em diante a temperatura deve ficar entre 5 e 0 grau. – Hippo solta bolhas com alguma dificuldade – Não sei quanto tempo a gente aguenta nesse frio.
-- Tem alguma coisa vindo – alerta Hinata, virando para a direita e encarando a escuridão. Todos se reúnem perto dele, iluminados pelas algas.
O silêncio é amedrontador – não há barulhos, nem de correntes nem de animais. As leves vibrações na água foram o que alertaram Hinata de que alguma coisa estava vindo.
Bem pequenininha, uma luz branca pisca ao longe. Aouli sente suas escamas se arrepiando. Hippo e Loi sacam pedras afiadas. Kelp, assustada, pega no braço de Hinata com força, tremendo.
A luz branca se aproxima devagar, às vezes nadando para a direita ou para a esquerda. Intam ergue as algas para o alto e diz:
-- Olá! Somos os sereianos do recife lá em cima, não queremos te machucar. Gostaríamos de perguntar uma coisa!
A voz dele parece ecoar infinitamente na escuridão. Todos começam a tremer. A luz se aproxima cada vez mais, dessa vez um pouco mais rápido...
-- Olá? – ele repete.
A pouca luz azul que vem das algas mostra um peixinho preto com olhos bem grandes e uma anteninha na ponta da cabeça, de onde vinha a luzinha branca. Todos soltam bolhas de alívio.
-- É só um peixinho. – Hinata solta uma risada nervosa -- Oi, qual seu nome?
O peixinho olha para eles com seus grandes olhos vermelhos, e todos ficam meio incertos.
-- Ahn, você poderia nos informar em que direção fica o vulcão? Precisamos encontrar uma coisa.
O peixe continua quieto, olhando-os fixamente. Ele não tem barbatanas e é comprido como uma minhoca. Hinata estica a mão na direção dele.
-- Ei...?
Hinata quase vê o coração saindo pelo peito quando o peixe abre a boca e revela milhares de dentes compridos e afiados, exibindo seu enorme maxilar para todos que quiserem ver.
-- E-Eu acho que ele não sabe se comunicar – Hippo segura firme em sua pedra – Talvez os animais aqui embaixo não tenham desenvolvido a fala por ser tão vazio.
-- Vamos deixa-lo aí, então. Temos que continuar – Aouli segura nas pontas de seu cabelo.
Em um milésimo de segundo, um ser parecido com um tubarão, só que 10 vezes mais feio, apareceu na luz das algas e projetou sua mandíbula para frente, agarrando o peixe preto com voracidade. Kelp e Intam explodem em apitos assustados e tudo vira uma confusão de bolhas. Eles se abraçam instintivamente, Hinata esmagado no meio, e veem a água ficar manchada de sangue enquanto o tubarãozinho vai embora vagarosamente, ignorando os sereianos.
Sozinhos novamente, eles se encaram. Kelp é a primeira a levantar a mão.
-- Quero ir embora.
-- Nem ferrando! – Hinata balança a cabeça – Acho que estamos chegando!
-- Hinata, a gente nem tem certeza se essa alga existe mesmo!
-- Existe, eu sei!
-- Calem a boca! – Hippo ergue a mão e todos se calam. Ele olha para o fundo por vários segundos. – Tão sentindo esse cheiro?
Todos se concentram nas coisas que a água traz. As vibrações daquele tubarão esquisito desapareceram, e o escuro parece ainda mais ameaçador.
-- Parece... – Loi fecha os olhos – Parece enxofre.
-- Enxofre quer dizer lava! – os olhos de Hinata quase brilham.
-- Quer dizer um monte de coisa, mas pode ser lava – Aouli dá tapinhas no ombro de Hinata. – Espero que não estejamos muito longe, tô começando a me sentir mal.
-- Eu também. Vamos logo – Hippo concorda.
Eles afundam mais. Uma centena de metros depois, todos tremem desesperadamente de frio e nadam muito devagar. Hinata sente como se estivesse sufocando.
-- O-O-Olha! – o ruivo aponta para o fundo, e eles conseguem ver um pouco de laranja na água. – La-Lava!
Hinata agita rapidamente sua cauda, mas é segurado no lugar por Loi.
-- Hinata, e-espera. – ele diz, tremendo – Aquilo deve estar quase 100 metros pra baixo. Não se-sei se é s-seguro.
-- As esponjas m-morreram. – Hippo mostra-as para o resto. Estavam pequenas e brancas. – Devemos estar a q-quase 2000 metros.
-- A essa profundidade, m-mal conseguimos respirar d-direito. A co-concentração de oxigênio é mu-muito baixa, estamos s-sufocando. – Intam abraça o próprio corpo e massageia as guelras.
-- E co-congelando – Aouli esfrega seus braços – Meu corpo i-inteiro está formigando e d-doendo.
Com os dedos no pescoço, Kelp luta para manter os olhos abertos:
-- Nossa p-pressão arterial tá muito ba-baixa. Não sei se aguentamos muito mais que i-isso.
-- Mas t-temos que continuar! E-Estamos perto! – Hinata agita a cauda impacientemente.
-- Hinata, não é s-seguro! Temos que v-voltar agora!
Desesperado, Hinata ergue sua pedra branca e afunda, agitando a cauda rapidamente. Os outros cinco gritam por ele. Ignorando a pressão absurda no peito e as pontadas doloridas no coração, ele nada até a luz laranja.
Sentindo sua consciência esvair, ele se obriga a nadar mais rápido até que sente a água ficar quente. Quando abre os olhos, ele vê grandes rachaduras no chão e, dentro delas, lava quente borbulhante; cercando essas rachaduras, veias de uma pedra branca porosa. Mais à esquerda, junto de uma pedra escura, ele vê vários e vários fios compridos de uma alga esbranquiçada balançando levemente.
Juntando o máximo de energia que consegue, Hinata nada até lá e pega tudo o que consegue, dando a volta e nadando rapidamente para cima até tudo ficar escuro de novo. No alto, ele vê a luz azul que ilumina seus amigos e vai, cansado, até lá.
-- SEU IDIOTA!
-- QUE MOLEQUE IRRESPONSÁVEL E DESCUIDADO-
-- AH, MAS ESPERE ATÉ A MIRIA OUVIR SOB-
Hinata dá um sorriso enorme e cansado, e ergue a mão cheia de algas brancas.
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Daichi se espreme atrás de uma moita de algas vermelhas, tentando ao máximo esconder todos os peixinhos embaixo de seus braços.
-- Fiquem quietos, acho que ele tá vindo.
Os peixinhos riem animadamente e Daichi sorri, espiando por entre as folhas. Ele olha para o alto, procurando Suga no meio dos sereianos que passeavam.
-- Tá vendo ele, tio?
-- Ainda não. Lembrem-se: se ele me pegar, fujam o mais rápido que conseguirem, ok?
-- Mas, tio...!
-- Eu vou proteger vocês, ok? Confiem em mim.
-- ACHO QUE TÔ OUVINDO ALGUÉM FALANDO!
Os peixinhos gritam e Daichi se encolhe sobre eles, pedindo silêncio. Eles esperneiam e se escondem no cabelo dele.
-- Shhhhh
-- É HOJE QUE VOU COMER UM LANCHINHO BEM GOSTOSO!
Todo mundo fica quieto por poucos segundos até Suga surgir de trás da moita e agarrar o pé de Daichi, gritando para assustar os peixinhos. Eles gritam também e saem nadando desesperadamente para todos os cantos.
-- Fujam! Fujam, eu vou segurar o monstro! Ele não vai pegar vocês!
-- Eu vou te dar uma mordida, hahaha! – Suga segura nos braços de Daichi e morde o ombro dele – Nhac!
-- Ah, não!
Os gritinhos ainda são ouvidos por todo o recife.
-- Eu tô morrendo, ugh... – Daichi deita na areia e coloca uma mão no peito, fechando os olhos – Fujam, amiguinhos... Rápido...
-- Agora eu vou caçar o resto dos bebês! Muahahahaha!
Daichi morre e Suga solta uma risada malvada. Os peixinhos nadam para bem longe, ainda gritando de medo. Quando faz-se silêncio, Suga e Daichi caem na risada, rolando na areia.
-- Eles são tão fofinhos – Daichi tem um sorriso lindo que faz Suga se derreter um pouco.
-- São mesmo. Adorei que você até morreu dessa vez.
-- Poxa, Suga, até que eu me esforcei pra me esconder bem, e você me achou tão fácil...
Suga aproxima-se do rosto de Daichi e lambe os lábios.
-- É que consigo sentir seu coração batendo.
-- Pensei que todo mundo aqui do recife tivesse coração.
-- Dá pra diferenciar o seu. Sei o seu ritmo porque a gente passa muito tempo junto.
Daichi sorri apaixonadamente.
-- Então não importa onde você esteja, eu sempre vou te achar.
O sorriso de Daichi morre ao ver os olhos tão incrivelmente tristes de Suga, e ele sente uma pontada forte no peito.
-- Eu sempre vou achar o caminho de volta pra você.
Suga e Daichi se olham por vários segundos sem dizer uma só palavra, ambos sentindo o peito apertar e a garganta fechar. Suga está lindo sob os raios do sol. Tristemente lindo. Daichi mal consegue respirar e, de repente, a bolha ao redor de sua cabeça parece sufoca-lo lentamente.
-- Eles chegaram!
A voz de Noya ecoa pelo recife, e todo mundo sai nadando na direção da Ponta. Ainda meio chacoalhados, Daichi e Suga levantam-se da areia e vão até lá.
Natsu está aos prantos, sacudindo os ombros de Hinata com força.
-- Seu idiota! Você não me falou!
-- Eu não queria te preocupar...
-- E se eu te perdesse também?!
Natsu continua chorando, chacoalhando o irmão, mas ele só a encarou de jeito triste. Então, ele a abraça com força e pede desculpas baixinho.
Afastando-se dos braços da irmã, ele vê Kageyama encostado na parede de pedra da Ponta, nervosamente brincando com os dedos. Cansado, Hinata vai até ele.
Os dois se olham fixamente com expressões sérias e Hinata ergue a mão, mostrando as algas. Kageyama esboça um pequeno sorriso e praticamente brilha de empolgação, pegando na mão livre do outro e segurando em seus dedos.
Hinata, Aouli, Hippo, Kelp, Intam e Loi parecem meio pálidos e cansados, e reclamam de dores nas guelras, que pulsam em um roxo bem escuro. Além disso, trazem consigo várias amostras de água para examinar depois.
-- Correu tudo bem? – Miria pergunta, sorrindo preocupada.
Hippo encara Hinata de canto de olho e resolve fingir que nunca viu o que aconteceu.
-- Sim, sem problemas.
-- Depois escrevam um relatório completinho pra gente saber como foi, ok? – ela sorri de novo – Fico feliz que deu tudo certo, e que vocês voltaram bem.
-- Na verdade, acho que seria melhor a gente tomar um pouco de sol lá em cima – Kelp dá um sorriso fraco – pra estabilizar nossa temperatura e nos ajustarmos à pressão da superfície.
-- Claro! Vamos pegar um pouco de comida pra vocês também. Subam lá pro Topo que já levo peixe.
Asahi guiou o resto dos meninos para o Topo: uma piscina natural na superfície do recife, literalmente no topo da redoma transparente. Lá, todos se sentaram nos corais e tomaram um banho de sol. Os cabelos ruivos de Hinata retomaram a cor, e o pessoal do grupo de pesquisa, junto com Asahi, conseguiu examinar e estudar um pouco mais sobre aquela alga branca estranha vinda das profundezas do oceano.
-- Você acha que é seguro comer, Asahi? – Tanaka espia por cima da cabeça de Noya.
-- Não sinto nada de estranho nela. Por mim parece seguro.
-- Dá pra sentir uma energia muito grande vindo dela. – Aouli esfrega os dedos pela superfície lisa – Não consigo ver as moléculas direito... Tem muita energia aqui, mas ela é estranhamente calma.
-- Vocês também têm a impressão de que essa força tá te chamando? – Loi examina a folha bem de perto.
-- ...Como se fosse uma parte de mim que se perdeu. – Intam suspira.
-- Melhor as colocarmos em água fria logo, elas parecem estar morrendo. – Hippo se pronuncia.
-- Espera! E o Kageyama? – Hinata bate a cauda na superfície.
Os pesquisadores se olham rapidamente, e depois para Asahi.
-- Olha, eu não entendo nada dessa energia aí que vocês tão falando. – o garoto humano admite – Mas pelo o que vocês falaram, parece que a alga tem um pouco da energia própria dos sereianos. Acho que, pro efeito ser duradouro, talvez vocês devam colocar um pouco da energia de vocês nelas, pra tentar estabilizar um pouco e deixar seguro pro Kageyama comer. Aquele livro não dá muitas explicações, então vamos ter que deduzir as coisas.
Todos se encaram e balançam a cabeça, fechando os olhos. Cada um segura um pedaço de alga e se concentra profundamente, imaginando um pedacinho de si entre cada átomo e molécula. Quando eles abrem os olhos, entregam os pedaços para Kageyama.
O menino encara nervosamente as algas em suas mãos. Hinata sorri na direção dele, visivelmente empolgado. Daichi e Suga olham com atenção, e Asahi está pronto com seu caderninho.
Respirando fundo, Kageyama enfia todos os pedaços na boca e mastiga brevemente, fazendo uma careta feia enquanto engole. Todo mundo fica no mais absoluto silêncio.
-- ... Tem gosto de pedra. – ele sente-se tímido com todo mundo o observando – Não tô sentindo nada.
-- Acho que vai demorar pra fazer efeito. – Kelp diz, sorrindo – Vamos ficar de olho em você.
-- Agora vamos todos nos preparar! – Noya bate as mãos e estica os braços – Daqui a pouco começa a festa!
-- Festa de novo? – pergunta Daichi, olhando para Miria.
-- Hoje é a festa de união da Darya e da Aruna. Ai, meu Netuno, quanta coisa pra fazer! – Miria agita um tentáculo nervosamente – Fiquem aqui e se recuperem, daqui a pouco alguém sobe pra pintar vocês. Ainda temos que preparar o resto das coisas!
E, sem mais explicações, Miria, Noya e Tanaka afundam na água.
-- Suga, leva o Daichi lá pra minha casa. É melhor sair um pouco da água. Fica umas duas horinhas lá, quem sabe tira uma soneca até a hora da festa.
-- ...Ok.
Daichi pega na mão de Suga e eles também afundam na água, descendo até o restante do recife. Eles passam por entre os corredores coloridos e bem iluminados em silêncio. A biblioteca está vazia quando chegam.
No topo, Daichi segura-se na plataforma de pedra.
-- Conversa comigo? – Suga pergunta baixinho, mal conseguindo manter os olhos nos do outro. Ele se aproxima e segura no cós da bermuda de Daichi.
Alguns dias tentando evitar o assunto, e Daichi já sente o peito doer novamente. Ele olha o rosto triste de Suga e coloca uma mão em sua bochecha.
-- A gente pode conversar depois? Eu queria muito... Curtir essa festa contigo, sem preocupação. Ficar mais um pouquinho com você sem me estressar com as coisas que a gente vai falar. Será que a gente pode adiar isso só mais um pouquinho e aproveitar esse último tempo juntos?
Suga encosta as testas juntas.
-- Certeza?
-- Eu já sei o que você vai dizer, eu só não quero ouvir ainda. – Daichi sorri tristemente – Vamos curtir pra caramba essa festa, eu e você. Por favor. Eu só... Queria me divertir contigo.
Guardando o sentimento ruim do peito em uma caixinha bem no fundo, Suga mostra um sorriso para Daichi que levanta seus espíritos. Daichi também resolve enterrar os sentimentos ruins no canto do cérebro e aproveitar ao máximo o restinho de tempo que ainda restava.
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-- Isso é... Estranhamente legal.
Encantado, Daichi olha para seu próprio corpo. Linhas brancas estão pintadas por toda a pele disponível em padrões bonitos, retos e curvos, subindo e descendo pelos membros e torso. Kelp, com as mãos sujas da mistura branca, desenha círculos nas bochechas de Daichi.
-- E vai ficar mais legal ainda mais tarde, você vai ver. – o sorriso dela é bonito, e ela própria está pintada também.
-- Do que essa pastinha é feita?
-- A gente mói essas pedras brancas do recife e junta com óleo e outras coisas pra grudar na pele. Pronto! – ela dá uma volta ao redor do garoto e sorri. Daichi tenta respeitosamente manter os olhos longe dos peitos dela – Se você quiser esperar um pouquinho, imagino que o Noya ou o Tanaka já estejam terminando de pintar o Suga, aí vamos todos juntos!
Mais alguns poucos minutos e os três chegam juntos, acompanhados de Asahi. Todos estão pintados em padrões diferentes por todo o corpo, e Suga abre um sorriso enorme ao ver Daichi. Ele tem pinturas bonitas ao redor dos olhos.
-- Que maneiro! – Suga pega nas mãos de Daichi e eles rodam no lugar, rindo.
-- Vamos, gente! O sol já tá começando a se pôr, não vamos nos atrasar – Tanaka sacode as mãos, chamando todo mundo.
O centro do recife é iluminado pela luz alaranjada do pôr-do-sol, e a água morna abriga todos os sereianos e mais alguns animais marinhos. Todos estão reunidos ao redor de um arco colorido cheio de flores da superfície, que balançam com as ondas em tons de branco e amarelo. Todo mundo presente está pintado de branco pelo corpo, e alguns sereianos têm conchas presas nas pontas de suas barbatanas. O clima é de festa, e todos conversam animadamente.
Olhando ao redor em êxtase, Suga e Daichi sentem-se em um filme. Tudo parece brilhante e calmo e extremamente bonito, como se o caos do mundo lá fora sequer existisse.
Um assobio grave ecoa pelos corais; no alto de uma rocha, um sereiano sopra bolhas por uma concha grande. Todo mundo faz silêncio. Instintivamente, Daichi pega na mão de Suga e entrelaça os dedos juntos, sentindo o coração disparar no peito.
Alguns dos sereianos abrem um caminho e duas moças chegam de mãos dadas, também pintadas de branco, mas carregam colares de conchas e enfeites coloridos na cabeça. Elas praticamente irradiam felicidade enquanto vão até o arco e param embaixo dele.
-- Queridos sereianos, sereianas, e amigos humanos aqui hoje. – Freela, a sereiana mais velha do recife, aproxima-se também do arco e junta as mãos na frente do corpo – Queiram receber Darya e Aruna nessa linda cerimônia de união que celebramos hoje.
Todos soltam gritos de alegria e levantam as mãos para o alto. Suga abre a boca, surpreso.
-- Suga, eu acho que elas tão casando! – Daichi diz baixinho, passando o braço pelas costas do outro.
-- Eu não sabia que sereianos casavam também! Por que será que elas não estão de vestido? – ele inclina a cabeça e Daichi ri.
-- Nós fomos caçados. – Freela continua – Tivemos nossas casas destruídas. Perdemos muito do conhecimento que adquirimos ao longo desses anos. Muitos morreram e muitos continuam presos no mundo dos humanos como animais de estimação. Só temos a agradecer nossos aliados lá de cima por resgatarem os poucos de nós que sobraram, e por lutarem por nossa causa. Nesse dia de agradecimento, saudamos vocês.
Todos gritam novamente, colocando os olhos em Asahi. Ele fica vermelho da testa ao peito, mas sorri timidamente e acena. Noya e Tanaka cutucam suas costelas e riem.
-- E é por isso que essa união se torna ainda mais importante. Porque mesmo depois de toda a tragédia que nosso povo passou, ainda somos capazes de amar.
Darya e Aruna se olham tão apaixonadamente que até deixa Suga meio emocionado. Elas mal piscam, sorrindo uma para a outra enquanto seguram as mãos juntas e enrolam as pontas das caudas.
-- Que Netuno e as forças do nosso Oceano se juntem para proteger essas duas sereianas que, em meio a todas as dificuldades, acharam motivos para continuarem sendo quem são e criarem um amor tão bonito em meio ao caos. Darya, Aruna, o povo do recife aprova e louva essa união.
As duas sereianas abrem os mais lindos sorrisos e se abraçam delicadamente, como se todo o amor do mundo coubesse bem ali no espaço entre elas. As pinturas nas peles delas começam a brilhar quando fecham os olhos.
Suga olha Daichi com os olhos arregalados e a boca meio aberta. Os desenhos na pele dele brilhavam também, e o pobre sereiano soltou bolhas enormes de felicidade. As linhas brancas destacavam os ombros morenos de Daichi e dançavam pelas suas pernas e braços. Suga olha para suas próprias mãos e vê que elas brilham também. Encantado, ele olha ao redor: todos os sereianos e animais pintados de branco começam a brilhar suavemente na luz alaranjada da água, e comemoram animadamente a nova união do recife.
Suga tem uma feição tão querida e inocente, de completo estupor e encanto, que Daichi não resiste ao impulso de beijá-lo ardentemente. Suga fica mole e desliza nos braços de Daichi, mal tendo forças para segurar firme no cabelo dele. Completamente sem fôlego, ele deixa o garoto humano segura-lo contra si com força e lamber a boca salgada dele.
Daichi se afasta, respirando alto, passando rapidamente os olhos por todo o rosto vermelho de Suga.
-- Eu amo você.
Suga engasga nas próprias palavras e solta um jato de bolhas.
Um pouquinho mais pro lado, alguns dos jovens do recife observam Suga e Daichi com muito interesse, e Asahi desvia o olhar para qualquer outro canto. O resto do pessoal já tinha se dispersado, e eles mal perceberam que a música tinha começado e todos estavam comendo.
-- Que coisa estranha que vocês fizeram! – Tanaka abre um sorriso – Como chama?
-- Ahn... Er, -- Daichi sente as orelhas pegando fogo – chama beijar.
-- Como faz?! Me ensina! – os olhinhos de Aouli brilham.
-- S-Só juntar os lábios com outra pessoa. – Suga sorri sem jeito – Pode usar a língua se quiser também. Normalmente a gente beija quem gostamos.
Aouli solta bolhinhas de empolgação e agarra o rosto de Daichi, colando a boca na dele. Ele arregala bem os olhos e segura nos ombros da sereiana.
-- Assim?
-- Aouli, n-não! – Daichi gagueja e se arrepia por inteiro, a barriga dando giros engraçados.
Todos os outros do grupo pegam a pessoa mais próxima de si e dão um beijo. Tanaka beija Kelp, e Noya segura as bochechas de Asahi para beijá-lo também. O garoto agita as mãos e seu rosto vira um tomate.
-- Isso é legal! – Kelp segura os punhos de Tanaka e pisca seus grandes olhos verdes – Tanaka, faz de novo?
-- Que foi? – Aouli faz uma cara triste para Daichi – Fiz errado?
-- N-N-Não, é que... – Daichi tenta ao máximo manter os olhos no rosto dela, e não mais pra baixo – Que a gente só beija quem a gente gosta.
-- Eu gosto de você, Daichi! Você é legal e engraçado – ela abre um sorriso doce que é capaz de dar cáries – Sei que a gente não se conhece a muito tempo, mas te considero meu amigo!
-- A-Ah, eu te considero minha amiga também, Aouli, heheheh – ele coça a cabeça – Claro que você pode beijar quem você quiser, mas quase sempre é reservado pra quem você gosta romanticamente, sabe?
-- Oh! Entendi!
-- Mas não precisa necessariamente, né? – Nishinoya pergunta, segurando o antebraço de Asahi – Dá pra beijar quem quiser sem precisar amar a pessoa?
-- S-Sim...
-- É gostoso, então vamos de novo! – Noya puxa Asahi mais uma vez, dessa vez enfiando a língua na boca dele. Asahi balança as pernas com força, em pânico, e segura nos ombros de Noya. – Ei, Tanaka, vamo pegar alguma coisa pra comer! Asahi, a gente pode tentar de novo depois.
-- Vamos, Noya!
Então os dois saem nadando atrás de fatias de peixe.
-- Ei, Aouli, a gente pode tentar mais tarde também, né? – Kelp junta as mãos atrás das costas.
-- Claro! Vamos dançar?
-- Vamos!
Com isso, o resto do pessoal também se dispersa, deixando Daichi, Suga e Asahi sozinhos. Suga olha para Daichi como se quisesse uma explicação.
-- Foi ela!
-- Eu sei! Mas precisava ser você?
-- Ela achou que podia ser com qualquer um e eu tava mais perto! Não fica com ciúmes.
-- Não tô com ciúmes.
Mesmo assim, Suga pega possessivamente na mão de Daichi.
Os dois olham para Asahi, que ainda estava completamente embasbacado e vermelho, encarando os próprios pés.
-- ... Eu assumo que isso não é uma prática comum por aqui? – Daichi pergunta, contendo uma risada.
-- N-Não! Isso é cultura humana! Aqui eles estão muito felizes só no abraço, muito obrigado!
-- Pensa nisso como um experimento antropológico, pode ser?
-- Vai se ferrar.
.
.
-- Kageyama, olha!
Daichi aponta para o garoto humano, a boca abrindo de surpresa ao ver escamas azuladas em seus ombros. Além disso, linhas bem finas começavam a aparecer em seu pescoço.
-- AI MEU DEUS TÁ FUNCIONANDO! – Asahi começa a escrever furiosamente em algumas algas. O resto do grupo de pesquisadores se aproxima também.
-- A pressão arterial dele parece okay. – diz Kelp, segurando o pulso dele.
-- As escamas estão brilhantes e com um formato bom. – Intam cutuca algumas delas.
-- A temperatura está um pouquinho alta, mas vou assumir que é por causa das alterações físicas. – Aouli coloca as mãos nas costelas de Kageyama e sente com cuidado as pontas dos dedos.
-- Você tá se sentindo bem? Tonto? Com fome? Com sede? Irritado? – Loi encara fundo nos olhos de Kageyama, tentando achar alguma coisa que possa indicar algo errado.
Kageyama se encolhe brevemente e desvia o olhar para Hinata, que parece totalmente encantado e radiante.
-- Com fome. E com sede. Um pouco cansado também, mas acho que bem no geral.
-- Oh! – Suga abre um sorriso enorme – Olha seus pés, Kageyama!
Uma pele translúcida começava a juntar todos os dedos dele, deixando seus pés parecidos com os de um pato.
-- SINDACTILIA CUTÂNEA!! – Asahi escreve fervorosamente. Ao seu lado, Hippo observa tudo cuidadosamente e parece fazer anotações mentais para escrever depois.
-- Isso é bizarro – o garoto diz, um pouco preocupado.
-- É pra ajudar na movimentação na água! – Aouli junta as mãos – Acho que posteriormente isso vai acabar acontecendo com as suas pernas também!
-- Sim! Pra que a cauda comece a ser formada! – Kelp praticamente vibra de empolgação.
Kageyama parece meio aflito, mas consegue relaxar um pouco ao olhar o rosto feliz de Hinata.
-- Avisa a gente se começar a doer ou algo do tipo, ok? – Loi sorri – Vai comer alguma coisa e bebe bastante água, você parece desidratado.
Todos se dispersam, empolgados com as novas descobertas. Daichi sorri para sua GoPro e para as fotos que tirou.
-- Ei, tira uma foto nossa! – Suga pendura-se no ombro dele.
-- Tiro! Na verdade, acho que não temos fotos juntos. Vamos tirar algumas, pode ser?
Daichi tirou centenas de fotos: com careta, sorrindo, dançando, estufando a cara de comida, das decorações da festa, de todos os seus amigos, de Suga, os três com Asahi, o grupo dos pesquisadores, Darya e Aruna, Miria, Noya e Tanaka, dos jogos que jogaram, Cris e Alex, todos os cantos do recife, e gravou até mesmo alguns vídeos divertidos.
Aquelas seriam ótimas e felizes lembranças do tempo que passou em Nerida com Suga e seus novos amigos.
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