Suéter - One Shot
1 Suéter
Notas iniciais
Não estou nem um pouco nervosa. Nem um pouco. HAHA.
Essa fic é dedicada a minha amiga que sempre me incentivou a continuar minhas histórias e a criar uma conta. E a meus amigos escritores que sempre compartilham suas histórias comigo e deixam eu compartilhar as minhas com eles. Isso me dá tanto confiança neles como a mim mesma.
É isso, boa leitura!
As cerejeiras sakuras que eu acompanho o florescer da janela do meu apartamento realmente me ajudam a passar o tempo. Não consigo encontrar nada para fazer, mas ao mesmo tempo quero encontrar algo para fazer. Tudo isso para afastar os pensamentos que tenho na cabeça.
A menos de três meses, me mudei para Konoha a fim de começar meu primeiro ano na faculdade de medicina. Sendo a única faculdade de uma cidade grande cercada de vilas rurais, é cheia e agitada. Acabei encontrando amigos que não via a tempos. E outras coisas que não sentia a tempos também.
Sasuke Uchiha foi meu primeiro namorado, o qual eu fiquei perdidamente apaixonada. Relendo e analisando meu passado, parece mais que eu tinha me tornado uma boba apaixonada. Por isso, tentei não me aproximar dele novamente. Mas é difícil quando Naruto, Sasuke e Kakashi, nosso antigo professor, se juntam e se tornam um grupo com um clima tão atrativo. Não pude deixar de voltar a sentir a nostalgia gostosa quando estávamos todos juntos, geralmente comendo ou ouvindo Sasuke e Naruto discutirem. E não sei se fico feliz ou não, sabendo que todos nós mudamos e esse sentimento continua a aparecer.
Mas o problema são o surgimento de novos sentimentos.
O que eu sentia quando era pequena é diferente do que sinto agora, logicamente. Eu gostava do Sasuke, hoje não gosto dele tanto ao ponto. Eu achava Naruto idiota, hoje eu tenho certeza. Eu gostava do meu cabelo curto, hoje quero que ele continue batendo onde ficava antes dos cortes. Eu achava o Kakashi-sensei legal, hoje... não sei o que estou sentindo.
O toque do meu telefone me fez saltar dos meus pensamentos e do sofá perto da janela. Vi quem era no display e atendi com receio.
- Sakura, você tem que vir aqui agora — A voz dele me causou um troço no estômago.
- Algum problema, Kakashi-sensei? — perguntei com a voz baixa.
- Sai do bloqueio. Consegui escrever o último capítulo. Você tem que vir aqui ver como ficou.
Estremeci com a fala, mas disse que já estava indo.
Como toda a universidade, alguns sortudos conseguem alugar apartamentos ou fazer uma república perto dela. Por isso, o meu apartamento não ficava muito longe do apartamento do professor. Infelizmente, isso causou uma proximidade que eu não esperava. Descobri que nossos interesses batiam, e passávamos um bom tempo falando sobre livros (e sim, até o que ele costumava ler quando estava dando aula) e até sobre outras coisas que achávamos interessantes. E eu comecei a tentar desvendar quem era Kakashi. Sempre pensei sobre como seria o passado dele, ou como se sentia sobre as coisas ao seu redor. E admito que quando ele me fez o pedido de ajuda para refazer o livro dele, aceitei por pura curiosidade. Quem sabe se o jeito que ele escreve ou a história me contasse alguma coisa.
Subi as escadas do pequeno apartamento de poucos andares e bati na porta. Tentei não olhar muito para o homem na minha frente, mas não deixei de notar que sua obsessão por sueters sempre fazia bem para ajudar a complementar sua aparência. Ele me deu espaço até o computador. Passei pela pequena copa com pratos na pia e pela sala com poucos móveis e pouca cor. Sentei e começei a ler.
Desde quando comecei a dar idéias e a acompanhar os capítulos que ele fazia, me surpreendia mais ainda. A história, tanto discutida por nós, pode ter chegado a ficar cliché, mas a maneira como ele escrevia era magnífica. A junção de palavras de fácil compreensão e frases cheias de sentimentos dava uma sensação de que eu era a personagem principal. Sua narração era repleta de charadas e filosofias. Fui acompanhando as linhas e rolando o mouse, mas sempre tentando encaixar tudo aquilo em Kakashi. Como um homem tão soturno e abstrato podia entender de todo aquele relacionamento que envolvia a trama, de modo a transmitir sentimentos tão vivos?
Terminei com um suspiro, e ele me trouxe uma caneca com chocolate quente.
- Eu não acredito que eu conheço o homem que escreveu isso — eu disse finalmente.
- Suponho que isso signifique que esteja bom — disse ele, tomando um gole da bebida.
- Bom?! Bom, numa escala de 1 à 10 seria 0,5 comparado ao seu livro.
Ele deu uma risada, que me contagiou logo.
- Não exagere.
- É sério. Tenho que pesquisar palavras novas pra descrever isso.
- Agora você exagerou muito — ele veio por cima do meu ombro e desceu a página, mostrando algo que não tinha notado. — Fiz um agradecimento especial para a primeira página.
Numa folha em branco, lia-se bem no meio:
"Á Sakura Haruno, que floresceu minhas ideias quando eu achei que as tinha deixado morrer."
Senti minhas bochechas queimarem ao ler. Não, toda a minha face, tenho certeza disso.
Mas isso só me deixou mais curiosa sobre quem ele era e como ele podia sentir tantas coisas sem demonstrar quase nada. Tomei coragem e virei a cadeira de frente para ele. Quando me levantei, travei diante do seu rosto. Seus cabelos brancos sempre estavam numa bagunçada organizada, os olhos semi-serrados negros se espantaram com minha ação, e a gola alta da roupa escondia o seu maxilar. A imagem que ele fazia de si começara a me deixar sem movimentos, de modo que minha atenção era focada nela, a procura de algum resquício de emoção escondida.
- O que foi? — ele disse de repente — Não gostou?
Tirei os meus olhos do dele por um momento: — Não, eu... Obrigada. Eu gostei, foi muito gentil.
- Então o que foi?
Fiquei olhando o suéter cinza dele, tentando procurar as palavras.
- Eu estava tentando... descobrir mais sobre você, mas...
De repente, toda a minha reflexão durante aqueles três meses pareceu ter resultado naquele momento, como um lampejo, e tudo o que eu queria falar veio com uma facilidade que estranhei de início.
- Tudo o que você fazia ou escrevia, todo movimento seu, eu observava querendo extrair alguma coisa sobre seu passado ou sua personalidade. Eu achava que não conhecia você realmente, por você ser quieto e introvertido — suspirei. — Eu não queria falar nele agora, mas talvez fosse por quê Sasuke sempre tinha alguma coisa a esconder e nunca demonstrava nada por mim. E isso era o que me impedia de me aproximar dele, como uma barreira. Então eu fiquei obcecada a te descobrir, mas quem sabe... — dizia tudo isso olhando para meus sapatos. — Quem sabe eu já te conheça e fiquei com medo de mostrar o que eu sinto, e coloquei essa barreira como resultado.
Silêncio.
Fiquei me perguntando se eu expliquei tudo certo, ou se devia ter explicado realmente. Quem sabe o que ele estaria pensando. Meus dedos se moviam nervosamente dentro do meu sapato, cada segundo do nada era como uma eternidade mergulhada em tensão. Eu já pensava em ir embora correndo quando ele se aproximou.
- E o que tem atrás dessa barreira, afinal? — tirar a xícara da minha mão e botar na mesa do computador atrás de mim pareceu uma desculpa pro seu corpo ficar mais próximo do meu.
- ... Seu... Seu cabelo desgrenhado, seu maxilar esguio que você insiste em esconder, sua maneira de perceber as coisas com o mínimo de informações, seu humor incomum e seu jeito calmo. Talvez isso me atraia — eu disse com um tom sem importância, pra disfarçar minha vergonha. — E seus sueters ficam legais em você.
Estava perto o bastante, então fiquei brincando com a lã da roupa dele enquanto ele parecia refletir. A pergunta que ele fez antes da minha declaração de agora pouco me tirou a vontade de ir embora, e veio a curiosidade do que se seguiria depois. Se ele tinha questionado aquilo, estava demonstrando interesse, certo? Certo. E isso não é estranho por ser uma ex-aluna se declarando para o seu ex-professor, certo? ... É, certo.
Eu descobri sim que havia algo que eu ainda queria descobrir em Kakashi. Naquele momento, finalmente descobri o último traço que precisava conhecer nele. Quando ele tirou a mecha de cabelo que cobria meu olho e botou atrás da minha orelha esquerda, e sua mão aproveitou o passeio para descer até o meu queixo e levanta-lo até a altura do seu, e assim se aproximar. Aquilo foi calmo e intenso, tenro e singelo. Esse simples gesto me fez descobrir tudo isso que Kakashi escondia atrás de tudo que ele já tinha me mostrado. Eu li nas entrelinhas dele.
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