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Notas iniciais
As ondas estavam pacíficas na costa leste.
Seus pés acariciam a areia molhada, a gruta fundia-se com meus pensamentos transversais.
Foi fácil considerar a ideia e voltar atrás pela primeira vez. Mas eu não podia conviver com a certeza de pegar todos os fragmentos de um inverno sozinha. Poderia eu muito bem ver os cacos cortantes, refletindo a minha dor, amenizando o meu ardor. Pegando-os um a um. Segurando o seu olhar usurpador. Voltando para mim mesma. Várias vezes.
Eu sei que você está fugindo de mim. Nesse momento está escondido naquele hotel entre as estradas perto da praia. Deves estar sentado naquela cama fria, quebrando a cabeça com os lençóis brancos e desarrumados. Estou perto demais para ser vista. Atuando na minha peça favorita, atormentando suas imaginações lascivas. Tons de roxo. Meu rosto refletido na cortina. Meus lábios convidativos, seus óculos escuros. Acredito que estejas me vendo.
Porque, querido, estou sintonizando-me em você. Vendo seus dedos logos contornarem apressadamente suas madeixas claras. Sem camisa.
Relembrando as nossas indecências, decadências. Duas trilhas sonoras inteligíveis, maciças, audíveis, ritmadas. As predisposições aos domingos de manhã.
Meu orgulho não é tão insano quanto o seu. Meu coração é muito mais forte que o seu. Virando e girando na noite fria, enxergando as palmeiras balançarem e as demais árvores chacoalharem. Seu ceticismo estúpido, adorador de músicas contemporâneas. Pensador passista. Fático.
Meus cabelos elevando-se no ar. Os raios solares vertendo sobre a minha pele. Seu semblante iluminado, sua camisa branca e jeans velhos. Fios caindo sobre a testa. Sorriso baunilha.
Suas palavras ambíguas tentaram converter meu pensamento pudico. Suas velhas histórias, curiosas aventuras, chamaram minha atenção para o desconhecido. Posso ser jovem, carregada de inexperiência, porém eu sei quando meu corpo está em perigo. Feche os olhos, amor, você consegue ver minha luz?
Sou apagada, desfocada. Sou um fetiche para os cegos, uma máscara para os pobres, um soneto para um poeta amador.
Estamos na estrada selvagem, impetuosa. Mal consigo ver as faixas brancas iluminadas no chão. Estou atenta apenas em suas costas e ombros largos. É como uma obra de arte. Suas mãos se erguem até o volante e você me envia um olhar soslaio pelo retrovisor. Aperto minhas coxas com veemência, você ainda está me olhando. Mordo meu lábio. As luzes da cidade, o brilho desfocado no oeste.
Nos piores momentos eu me curvo como uma rainha. Mas na verdade, sou uma gata borralheira. Sou sua carta curinga. Sou seu curto-circuito, terminado em chamas, construindo dramas. Ou será o paraíso?
Odeio seu empirismo. Me fazendo acreditar que desperdicei dois séculos de minha vida com a cabeça enfiada em livros. Sendo que isso é tudo o que tenho, tudo que edifiquei com meus próprios dedos. E você? Continua achando que construiu castelos na base do dinheiro, e não se importa para as outras táticas de subir na vida. Consumidor de sonhos. Ladrão de bons momentos.
No escuro, eu não consigo distinguir nossas emoções. Você tira seu casaco. Eu passo a blusa pela sua cabeça. Está tudo monocromático. Estamos nos tocando. Meus dedos trêmulos passam sufocados pelas suas costas lisas. Suas mãos deslizam pelo meu braço, eriçando até o último fio de cabelo. Aperto-me contra você, sentindo seu calor, inalando seu amor. Seu peito másculo roçando em meus seios sensíveis. Mãos no meu rosto, dedos em sua nuca. Violamos nossos direitos, acabamos com os preceitos. Mais uma vez.
Seu idealismo patético, fazendo matérias sobre como alavancar algo que já estava no topo. Mas ninguém sabe que foi você o responsável por puxar para baixo. Que lastima convincente. Que tortura resplandecente.
A névoa fina contorce minhas entranhas mais profundas. Revela as entrelinhas mais ilusórias. O vapor denso, aquece minha alma fria, penumbra sobre meus ombros nus, ovaciona meus lábios vermelhos.
Lufadas violentas, estou absorta em suas cores distintas. Os relampejos avisam uma chuva torrencial. Estou com o meu melhor conjunto. As gotas caem livremente, não me importo com os brilhos momentâneos. Não preciso perder-me nas suas indiferenças imperfeitas. Só quero que leve-me para casa.
Esse já um lugar-comum para nós. Não há esquerda ou direta, certo ou errado. Estamos vivendo um funesto sem afeto. Você é as ideias fúnebres, continuando com as linhas pessimistas. Eu sou a parte delicada de um monstro, sou a boa garota com roupas comportadas e bochechas rosadas. Sou intrépida, valente, destemida. Você continua dizendo que não pode parar de pensar em mim.
É, eu já me senti assim várias vezes.
Somos amantes da mesma arte. Somos compositores da mesma música. Somos dançarinos do mesmo gênero. Somos novos atores sem ascensão. Você é um Romeu incorrigível, eu sou uma Julieta com traços mitológicos de Afrodite. Você é um Humbert Humbert lúcido, eu sou uma Dolores sem dores, sou Lolita escarlate. Somos rimas quebradas. Você é um Dante sem poesia, eu sou uma Beatrice sem beleza. Você é um romântico sem escapismo, eu posso ser uma peça barroca sem sátiras violentas.
Vivemos aplicando nossas regras mundanas, para em seguida quebrá-las contra o concreto frio. Seguimos nossa intuição falha, comentamos e revemos nossas proibições mais relevantes. Releio seus pontos fracos com adoração, enquanto ponho em palavras altamente tortas. Repinto suas quedas, completo suas lacunas, apalpo suas cicatrizes. Voltamos e voltamos várias vezes. Abraçamos o amor inesgotável, beijamos torpemente o sentimento, escalamos nossos corpos com reverência.
Porque, nunca vamos sair de moda. Nós nunca vamos sair de moda.
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