Stuck on Summer
1 Capítulo 1
Eu me sentia descobrindo a América enquanto pela janela do carro eu via os portões daquele condomínio fechado o qual meus pais me arrastaram. Parecia algum tipo de país novo, mas eu tive certeza que não era, já que dava para ouvir as pessoas na rua falando a minha língua. Era um lugar enorme, e o estacionamento nos fundos era tão vazio quanto os apartamentos. Eu não sabia ao certo qual era meu prédio, afinal, todos os prédios daquele condomínio eram iguais: brancos e sem graça. Quando tivemos que subir as escadas com as malas, fiquei imaginando se aquilo na verdade, não era um hospital psiquiátrico (bem que poderia ser, afinal, é bem melhor do que ter que ser obrigada a se mudar). Dentro do nosso apartamento era quente, empoeirado, o chão era de cimento e a varanda tinha vista para a quadra de esportes.
-Lori, -disse minha mãe empolgada- só viemos para que você e sua irmã conheçam o lugar. E ai, o que acha?
Eu preferi não responder, meu pai e minha mãe tinham comprado aquele lugar com muito esforço, por incrível que pareça, acho que eu deveria esperar uns dias para reclamar e dizer que meu quarto parecia uma daquelas salas de dentistas clandestinos.
-Onde está a Gio? -perguntou meu pai girando a cabeça à 360 graus procurando uma menina baixinha com meio metro de altura, loira e de olhos castanhos claros.
-Acabou de sair -a voz da minha mãe parecia vir do banheiro
O menor banheiro do mundo, só cabia uma pessoa e mais um anão sub-desenvolvido lá dentro.
Apesar da minha irmã ter um rosto angelical e o demônio dentro daquele corpo de criança de 10 anos, a pequena fazia amizades rápido demais. Não que eu tivesse inveja, isso seria imaturo, mas eu preferia ficar quieta, olhando e deixando que ela fizesse as amizades por mim, sempre foi assim e eu não me incomodava.
De noite, quando estávamos indo embora, eu já tinha lido dois livros de 200 páginas mais ou menos cada um, quando minha mãe mandou eu descer para o procurar Gio. Foi o que eu fiz.
Eu a achei no parquinho que ficava ao lado da quadra junto de outros adolescentes com mais ou menos 16 e 14 anos. A primeira coisa que eu pensei foi ''uau'' e a segunda foi ''como?'' e a terceira ''como vou chegar lá?''. Respirei fundo e disse a mim mesma que ninguém estava querendo me matar, mas me olhavam como se fosse o caso. Andei em passos rápidos ensaiando dentro da minha cabeça a cara mais séria de irmã mais velha responsável que eu conseguia.
-Gio, mamãe está chamando para ir embora -eu disse tentando manter meus olhos nos dela, tentando ignorar o resto.
-Mas já? -disse ela de braços cruzados, e eu já estava me preparando para o teatro que ela sempre faz quando quer algo mas a vida decide contrariá-la.
-Que horas você pensa que são? -retruquei, já perdendo a paciência
Eu podia jurar alguém estava rindo
-Posso te apresentar ao pessoal antes? -ela devolveu, com um sorriso maligno sabendo que aquilo daria mais algum tempo para ela na rua
Droga, ela não fez isso, mas eu me mostrei irrelevante à todas aquelas pessoas que deveriam estar no máximo me achando chata e antipática
Ela me apresentou a todos os amigos que ela tinha feito em meia hora, mas que pareciam ser de meia vida, todos apertaram minha mão e foram gentis, eu disse oi e tentei ser amigável, amigável o bastante para eles esquecerem do meu nome 2 dias depois
-Lori, Henrique, Henrique, Lori -apresentou minha querida irmã ao garoto mais magro e de olhar mais assustador que eu já tinha visto na minha vida, esse com certeza, não hesitaria em me matar.
Ele estava sentado no balanço, mas fez questão de se levantar para apertar minha mão e dar um beijo no meu rosto. Ele teve que ficar de pé, pois um tal de André tinha pegado o lugar dele no balanço.
-Podemos ir agora? -murmurei, já nervosa de ter conhecido umas 10 pessoas em menos de 10 minutos
-Tchau gente -disse Gio, amigável, simpática e sorridente, enquanto eu pegava na mão dela e a puxava como se ela fosse um cão teimoso.
Meus pais já esperavam a gente na portaria do condomínio, com os cotovelos apoiados na janela do carro completamente aberta e os olhos semi-fechados de tanto cansaço físico e mental.
-E ai como foi? -perguntou minha mãe, olhando para nós pelo retrovisor
-Ótimo -exagerando no sorriso e no tom de voz, como se acabasse de voltar de um dia perfeito na praia
-Defina ótimo, filha -disse meu pai, já saindo do condomínio, dando tchauzinho para os porteiros
-Ah pai, várias amizades -balbuciou em um tom mais baixo já com menos entusiasmo, mas o sorriso permanecia no rosto por 24 horas, as bochechas rosadas de blush daquele pequeno ser já deveriam estar em seu estágio final.
Eu não entendia, o problema era eu, ou eles?
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