Stubborn Love
3 I never forgot you - Parte 2
Regina se ocupou a maior parte do dia em desarrumar suas malas de Henry e arrumá-las de um jeito em que ficassem organizadas em seu antigo quarto. Quando mal havia terminado já descera para a cozinha, onde começou a fazer o jantar com a dedicação de quem prepara um banquete, esperançosa de que o excesso de tarefas fosse capaz de manter sua cabeça ocupada, não permitindo que tal loira dominasse seus pensamentos assim como fizera todo o resto da manhã após o incidente na cozinha.
— Hei. – A voz do filho a despertou de um dos momentos que ela se distraía o bastante para não ser capaz de afastar os pensamentos da ex-mulher. Se virou para a entrada da cozinha e deu um sorriso para o garoto que se aproximou sentando em um dos bancos que rodeavam o balcão. – O que você está fazendo?
— Estou dando uma adiantada no jantar, seu prato favorito: Lasanha.
— Você sabe, é o prato favorito da minha mãe também. – Disse ele com um sorriso travesso, ao que Regina respondeu com um rolar de olhos antes de se virar para checar o molho que já borbulhava no fogão.
— Sério? Eu nem me lembrava mais disso... – Resmungou sem ter certeza de suas próprias palavras.
— Está tudo bem com você? – Regina estranhou a pergunta, voltou-se para ele com as sobrancelhas franzidas, incerta sobre o que o filho se referia.
— Sim... Por que não estaria? – Henry respondeu com um balançar de ombros desleixado que sempre lhe lembrou muito Emma.
— Porque eu conheço você, e eu sei que começa a se encher de coisas pra fazer quando está preocupada e não quer pensar em alguma coisa. – Regina soltou um riso curto meneando a cabeça enquanto olhava para seu menino ali naquela cozinha decifrando-a tão facilmente quanto ela o decifrava. Ele estava crescendo rápido demais. – Não adianta me olhar desse jeito, você sabe que estou certo.
— Só estou desacostumada a não ter trabalho para fazer. É como se ficar sem fazer nada fosse me deixar louca. – Se debruçou sobre o balcão ficando de frente para o filho e cutucando a ponta do seu nariz com o indicador. – Entendido, Henry espertinho Swan-Mills?
— Tem certeza que é só isso? – Regina engatilhou uma das sobrancelhas e deu um meio sorriso agora compreendendo que a pergunta de Henry tinha apenas uma resposta certa. Filho da mãe... — Minha mãe Emma também não tem nada a ver com isso?
— Foi inesperado ver ela aqui no outro canto do país dizendo que sua avó estava morta, fiquei surpresa, mas Michael logo vai dar um jeito no carro e tudo estará resolvido. – Disse nervosamente, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha e cruzando os braços.
— Só isso? – Arriscou o garoto mais uma vez.
— O que você quer ouvir, Henry? Porque eu acho que você sabe que não posso te dar a resposta que você quer por inúmeros motivos. – Regina se apoiou no balcão novamente ficando muito próxima de seu filho.
— Eu estou feliz de ter vocês duas por perto de novo. – Os olhos verdes brilharam tão genuínos e suas palavras ditas com tanta franqueza que Regina não conseguiu impedir que um fraco sorriso surgisse em seus próprios lábios. – Mesmo que não estejam juntas, eu posso almoçar com as duas e falar com vocês a hora que eu quiser. Eu não preciso escolher estar perto de uma e longe de outra. Sinto falta disso, de quando éramos nós três e éramos uma família.
Regina mordeu os lábios tentando conter a emoção que a honestidade do filho despertara. Ela também sentia falta de tudo aquilo. Só Deus sabia exatamente o quanto era difícil para ela olhar para Emma Swan, ter que esbarrar com ela no café da manhã e ouvir sua voz lhe chamando pelo antigo apelido carinhoso e não se lembrar de todas as coisas felizes que viveram. Sete anos não foram o suficiente para esquecê-la totalmente e foi necessário apenas um dia para que sentimentos emergissem com força.
— Você sabe que sempre pode falar comigo a hora que quiser. – Disse ela sabendo que não se tratava disso, mas querendo de algum modo tirar o nome de Emma Swan daquela conversa. – Eu não sou o suficiente para você? Olha, eu sei que eu sou a chata, que mando arrumar o quarto, e...
Antes que Regina pudesse completar de uma forma dramática suas lamentações, Henry contornou a mesa e agarrou seu pescoço em um abraço apertado. Ela não pode deixar de notar que cada vez mais a diferença entre alturas ia diminuindo. Em apenas três anos Henry havia esticado o suficiente para conseguir abraçar seus ombros e não mais sua cintura.
— Você é mais do que suficiente, mamãe. – Se separou por um momento lhe lançando um largo sorriso, antes dela apertá-lo em seus braços e depositar um beijo no topo de sua cabeça. Quando Henry já se preparava para se soltar Regina o prendeu mais uma vez bagunçando seus cabelos de maneira carinhosa em meio aos protestos do filho.
— Mamãe, não! Para! – Disse o garoto em meio à gargalhadas que se misturavam com as da mãe. – Mamãe! Para, para, para...
— Mas que cena mais adorável para ser recebida em casa! – Cora estava na porta da cozinha segurando um pacote de papelão em um dos braços com um sorriso verdadeiro. Emma estava ao seu lado com um sorriso inibido, quase como se estivesse envergonhada de interromper o momento, mas os olhos brilhavam de tal forma que mesmo Regina desviando os olhos rapidamente pode notar. – Eu quero um abraço desses também, será que eu mereço?
Henry andou até a vó e a abraçou com força a avó que aproveitou para dar um beijo no topo de sua cabeça. Regina observou a cena com um sorriso terno, e olhando pelo canto do olho pode ver a mesma expressão nos olhos da ex-mulher que mais uma vez naquele dia flagrou seu olhar sorrateiro. As duas desviaram o olhar ao mesmo tempo em que Henry se separava da avó.
— Então, e o carro? O que Michael disse? – A pergunta era para Emma, mas Regina preferiu olhar entre ela e a mãe. Cora respirou fundo e olhou para Emma que pareceu se encolher e colocar as mãos nos bolsos traseiros da calça, como ela fazia quando estava nervosa.
— Bom, fomos lá na oficina e Michael disse que vai precisar de no mínimo dois dias pra avaliar o carro. – Regina tomou um longo suspiro impaciente, mas antes que começasse seus protestos Emma se adiantara. – Mas não se preocupem, eu já estava dizendo para sua mãe no caminho que vou ficar hospedada em alguma pousada até o carro estar pronto.
— Mas, mãe... – Henry disse e mesmo de costas Regina podia imaginar os grandes olhinhos pidões que Henry fazia quando queria alguma coisa. Culpa de Emma, ela o havia ensinado desde pequeno aquele seu característico olhar de "filhote abandonado".
— Não garoto, eu já ocupei espaço demais aqui na casa da sua avó, eu não quero incomodar mais do que eu já incomodei...
— Oh querida, imagine! Você de maneira alguma é um incômodo para mim. – Regina ouviu inconformada a mãe sorrir para Emma e apoiar uma mão em seu ombro enquanto um filme de todas as vezes que Cora criticou a loira e se mostrou contra seu relacionamento com ela passava em sua cabeça. Regina balançou a cabeça e rolou os olhos incapaz de acreditar no cinismo de Cora, ainda se perguntando os motivos de tanta simpatia subitamente com sua ex-mulher.
— Por favor, fica mãe! Você e suas coisas já estão aqui, vovó já disse que você pode ficar...
— Henry... – Emma deu um ligeiro olhar para ela, que claramente era o principal, para não dizer único, motivo dela recusar-se permanecer na fazenda.
Regina sentiu-se a vilã da situação ao ver o filho que dissera há apenas alguns minutos atrás o quanto estava feliz com a presença da mãe, estar implorando para sua permanência na casa e ela ser a única a se opor a isso. A morena respirou fundo, e tentou poupar-se da cena que amolecia seu coração indo se ocupar com o molho no fogo, mas em seus ouvidos ainda chegavam os apelos da mãe e principalmente de Henry.
Respirou fundo, sabendo que preferia se arrepender por algo que faria a si mesma do que para algo que fizesse com o filho. Tomou sua decisão, e falou rápido antes que pensasse melhor e desistisse:
— Por que você não fica, Emma? – Se um OVNI tivesse pousado no meio da cozinha dos Mills a expressão de Emma não seria mais surpresa.
— O que? – Perguntou a loira que não parecendo convencida o suficiente de que aquelas palavras haviam saído da boca de Regina por conta própria. Ela mesma não acreditava muito bem no que acabara de falar.
— Eu acho que você deveria ficar até Michael arrumar seu carro. – Henry e Cora que também estiveram surpresos com sua decisão sorriram. Henry radiante e Cora de um modo insinuativo que Regina preferiu ignorar. – Suas coisas já estão aqui, e eu já arrumei as minhas coisas e de Henry no quarto...
— Você tem certeza, Regina? – Perguntou hesitante, mas com um sorriso bobo já ameaçando sair em seu rosto. – Eu não quero incomodar nem nada...
— Você ouviu os dois: Não está incomodando. – Regina deu de ombros e evitou dizer que Emma não a incomodava. Até porque era a mais deslavada das mentiras.
— Henry comemorou animado abraçando a mãe loira com Cora ao lado se divertindo com a situação, até Regina mandá-lo tomar banho para estar pronto para o jantar. Emma aproveitou para segui-lo, ao que ela agradeceu por não ter mais um momento em que fosse obrigada a conversar com a loira por convenção. Cora permaneceu com mesmo sorriso que lhe lançara quando convidara Emma a ficar. No começo ela ignorou, começando a montar a lasanha em uma assadeira, mas ao perceber que a mãe persistia com a expressão observando-a apoiada no batente de entrada da cozinha, revirou os olhos e indagou com as mãos na cintura:
— O que? Porque está me olhando desse jeito?
— De que jeito?
— Eu só fiz isso pelo Henry, ele está tão feliz com a mãe por perto... Quer parar de me olhar desse jeito?! Você ouviu o que eu disse?
— Se você diz que é por ele... – Disse balançando os ombros, irritando a filha cada vez mais com tanto cinismo.
— É por causa dele! – Reafirmou Regina, caso ainda restassem dúvidas. Cora insistiu com seu sorriso debochado acenando positivamente com sua cabeça parecendo nem um pouco convencida. Regina ignorou e resolveu desfazer sua curiosidade desde quando Cora entrou na cozinha aproveitando para mudar de assunto. – O que é isso?
— Isso o que? – Cora perguntou desfazendo o sorriso e molhando os lábios parecendo ligeiramente nervosa.
— Isso na sua mão. O que é? – Regina perguntou colocando o pano de prato em cima do ombro e apontando para a sacola de papelão que Cora segurava nos braços.
— Coisas pessoais.
— Que tipo de coisas pessoais? – Regina insistiu desconfiada, apesar de no fundo já saber a resposta.
— Do tipo pessoais. — Desconversou mais uma vez, antes que Regina pudesse argumentar. Cruzou com a mais nova, provando um pouco do molho em seu pulso. – Se preocupe menos comigo e mais com o seu molho. Está faltando sal. – E sem mais delongas deixou Regina sozinha com sua última crítica lhe fazendo apertar o punho de raiva.
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Se Emma pensou que era a pessoa que mais conseguia tirar Regina do sério aquele jantar lhe ensinou a nunca mais ser tão presunçosa. A mesa parecia a qualquer momento virar um campo de guerra entre as duas mulheres Mills que trocavam farpas desde as primeiras garfadas da maravilhosa lasanha de Regina.
Assim que desceram Emma tentou disfarçar a felicidade pelo fato de Regina tê-la aceito e a convidado para ficar, mas assim que constatou o conteúdo da janta não conseguia esconder o entusiasmo pelo fato da ex-mulher ter ainda por cima feito seu prato favorito. Por mais que uma parte sua soubesse que o motivo de tudo aquilo era Henry a outra ainda tinha esperanças que Regina podia ser gentil com ela, que se importava.
— Está uma delícia, Regina. – Disse assim que deu a primeira garfada e saboreou de olhos fechados e com saudade a melhor lasanha que já comera em sua vida.
— Obrigada – Respondeu sem muita emoção servindo o filho e depois a si mesma. Regina se sentava ao lado da cabeceira da mesa ocupada por Cora. Do outro lado da matriarca estava Henry e ao seu lado Emma.
— Está um pouco diferente da minha, mas eu diria que está comestível. – Comentou Cora com a voz ligeiramente arrastada. Desde que descera para jantar estava com um comportamento estranho; seus olhos brilhavam, as pálpebras estavam um pouco caídas. As vezes parecia absorta ao que estava ao redor, outras seu olhar fixava-se em um ponto fixo por minutos. Regina também percebeu que a mãe estava chapada, mas preferiu tratar a situação com silêncio e desprezo.
— Oh, Deus... Esquecemos da prece! – Gritou Cora como se tivesse tido uma epifania, quase se levantando da mesa tamanho desespero, fazendo todos os outros da mesa sobressaírem-se de susto. – Larguem os talheres agora! Temos que agradecer!
Regina bufou sonoramente, e foi a última a largar seus talheres sob o olhar crítico insistente da mãe. Satisfeita Cora esticou a mão para a filha e neto, Henry segurou, e deu a mão para Emma que deixou a outra mão erguida no ar como vira em alguns filmes. Regina parecia tão pouco familiarizada com a situação quanto ela, Henry ainda mais, porém sobre o olhar fulminante da mais velha da mesa ninguém tinha coragem para contrariá-la. Parecia que a antiga sogra intimidadora que Emma se lembrava estava de volta.
— Você. – Disse ela largando da mão do neto para apontar para Emma sem qualquer simpatia. Não era um pedido. – Você faz a prece hoje.
— Eu não sei... – Falou ela hesitante. Buscou apoio no olhar de Regina, mas a morena parecia muito concentrada nos próprios talheres, tentando buscar paciência para lidar com a situação. – Eu não sou religiosa, eu nunca fiz...
— Só agradeça. – Disse Cora secamente. – Não envergonhe Deus na minha mesa, você não vai queimar se dizer algumas preces... Ou vai? – Emma não pode contestar porque no instante depois Cora já ria estridentemente despertando olhares confusos de Henry e um revirar de olhos impacientes da filha. Assim como veio o riso se foi repentinamente, e o olhar fixo para Emma que parecia capaz de lhe sufocar apenas com a intensidade voltou. Emma não perdeu tempo e começou a falar algumas palavras de agradecimento. Fechou os olhos tentando fugir do olhar de Cora, como se isso fosse fazê-la gaguejar menos, ou lhe dar mais ideias do que dizer.
— Já chega. – Disse ela quando já estava cansada daquilo. Emma sentiu-se grata que poderia voltar a atenção para a comida e tentar evitar mais confrontos de olhares diretos com a matriarca Mills até o fim do jantar. – Swan tem que melhorar suas preces. Deste jeito quando estiver em frente ao Senhor e tiver que pedir perdão por todas as perversidades que você e minha filha fizeram aqui na Terra ele não vai dar nem a chance de redenção pra vocês duas.
Antes que Emma tivesse a chance de corar ou se sentir ofendida a voz de Regina rebateu, parecendo tão truculenta quanto a mãe:
— Bom, nesse caso acho bom você ter todas as suas na ponta da língua, porque vai ter que ficar um bom tempo ajoelhada pedindo perdão por tudo de ruim que já fez na sua vida. – Cora pareceu ter levado um tapa na cara com o pronunciamento da filha. Mal tinha formulado uma resposta quando Regina completou antes de entornar um gole do vinho que tomava. – Fora as que ainda vai fazer.
— Oh, como eu sou uma pessoa terrível, não é? – Disse com voz de deboche. – Não fale como se você fosse muito melhor do que eu. Eu sou uma mãe muito melhor pra você do que você é como filha! Poupe-me desse seu drama, isto não faz eu me sentir culpada! Seus joguinhos dramáticos não funcionam comigo, não sou seu pai para cair nisso e fazer todas as vontades.
— É, infelizmente não é. – Respondeu Regina entredentes sustentando com a mesma firmeza da mãe o olhar penetrante.
— Você bem que gostaria, não é? Que fosse ele aqui e não eu, que eu tivesse morrido e não ele. — Disse Cora sem parecer minimamente comovida, colocando um comprimido de um frasco cilíndrico goela a baixo.
— Eu acho que você sabe bem a resposta. — Regina disse da mesma forma sem culpa uma cada vez mais alterando a voz que a outra.
— Eu soube que tem uma cachoeira aqui mesmo, dentro da fazenda. – Disse Henry tentando aliviar a tensão que se desenvolvia na mesa entre a mãe e a avó.
— Sério? Deve ser incrível! – Disse Emma dando sua colaboração. – Podíamos dar uma passada por lá amanhã se o dia estiver bom, dar uma volta e conhecer a fazenda...
Emma estava quase otimista de que ela e Henry haviam conseguido contornar a situação de tensão que se formava no jantar, mas ao olhar de canto de olho para Cora e vê-la ainda com aquele fogo no olhar de quem não estava satisfeita, sabia que nada poderia impedí-la de ter sua confusão.
— Henry, pode me fazer um favor? – O garoto olhou assustado para a avó, provavelmente temendo ser o próximo alvo dos ataques. Regina já estava em estado de alerta pronta para proteger com unhas e dentes sua cria e Emma acompanhava tudo com tensão, sem saber ao certo como agir. – Pode pegar para a vovó o whisky que está na cristaleira na cozinha?
— Não! – Sobressaiu-se Regina se levantando e batendo as mãos espalmadas na mesa de madeira, fazendo o barulho e Henry sentar novamente no mesmo instante. A mãe lhe lançou um olhar mortal, ao que ela respondeu do mesmo modo. Emma podia falar o que quisesse de Regina, mas tinha que admitir: Aquela mulher tinha coragem.
— Henry, pegue para a vovó. – Cora pediu novamente sem desviar os olhos de Regina, claramente desafiando a autoridade da outra.
— Não se mexa, Henry. – Respondeu Regina com os olhos grudados em Cora. O garoto buscou na mãe loira uma direção do que fazer, assustado. Emma encolheu os ombros mostrando que assim como ele não tinha a menor ideia de como tinham que lidar com aquilo.
— Quem você pensa que é para achar que pode mandar em mim na minha própria casa?
— Eu sou alguém cansada do seu showzinho noturno, saturada de ter que jantar com uma mulher chapada e que não quer ter que aturar ela bêbada também! – Cora se levantou também. As duas tinham os rostos a poucos centímetros de distância, com olhos apertados uma para a outra, enfrentando-se como duas feras ferozes novamente elevando o tom de voz a cada frase que proferiam.
— Eu não estou chapada, eu sinto dor! Eu preciso dos meus remédios!
— Você é uma viciada que se dopa pra fugir da realidade e não ter que encarar o quanto você faz questão de fazer a sua vida e a de todo mundo em volta miserável!
— Você se acha muito melhor do que eu, não é? Mas olhe pra você, olhe pra sua vida! É uma maldita covarde, assim como você fala da mamãe. – Disse Cora carregada de veneno. – Só nos resta saber quem é a pior aqui: eu por fugir da minha infelicidade com remédios e bebidas ou você por fugir da sua felicidade desprezando e maltratando a única pessoa com quem você foi feliz? – Cora olhou abertamente para Emma que se impressionou pela declaração da ex-sogra, mas preferiu desviar o olhar e fingir não ter percebido que era ela a quem Cora se referia, para não ser envolvida na batalha entre as duas.
— Você não faz ideia do que está falando! – Rugiu Regina antes de desistir da discussão e do jantar. Afastou com brutalidade a cadeira e partindo em direção ao corredor que a levaria até a escada do primeiro andar.
— Não sei, é? – Resmungou Cora consigo mesma, sentando-se novamente e dando um só gole no vinho que ainda sobrara em sua taça. A campainha tocou, fazendo Regina que já parecia estar na metade da escada voltar para atender a porta com suspiros aborrecidos.
— Oh meu Deus!
— Surpresa? — Respondeu uma voz masculina que logo Emma reconheceu.
Cora e Henry esgueiraram os pescoços enquanto ouviam Regina saudar animadamente o recém-chegado. Emma se encolheu na cadeira torcendo para que um buraco no chão se abrisse e ela não precisasse encarar o Xerife que tratara tão mal há algumas horas atrás. Cora tinha as sobrancelhas franzidas tentando decifrar de quem se tratava na sua porta aquela hora da noite, Henry lhe lançou uma pergunta com o olhar sem ter ideia de quem se tratava ao que Emma respondeu balançando com os ombros desentendida.
— Henry, quero que conheça um velho amigo da mamãe. – Disse Regina trazendo Graham com o braço esquerdo sobre seus ombros e sorriso largo, muito diferente da forma irada com que deixara a sala. Emma engoliu a seco ao ser encarada pelos olhos castanhos da visita, e tentou não manter contato visual com o rapaz. – Este é o Xerife Graham Humbert.
— Ei, garoto! – Disse ele apertando a mão de seu filho que se levantara mais do que aliviado por ter uma desculpa para abandonar a mesa depois do jantar conturbado que tivera
— Era só o que me faltava... – Cora resmungou para si mesma rolando os olhos, não fazendo nenhuma questão de mostrar simpatia.
— Boa noite, Cora. – Disse ele sem jeito, tentando parecer educado.
— Só se for para você, xerife, minha noite está uma merda. – Emma tentou se segurar, mas um riso pela sinceridade da ex-sogra escapou-lhe enquanto Regina só revirou os olhos com a falta de cortesia da mãe.
— Boa noite, Agente Swan. – Disse ele acenando levemente a cabeça com um meio sorriso que se alargou provavelmente ao perceber a consternação de Emma ao ter que reve-lo logo depois de ter trocado farpas com ele na cafeteria.
— Boa noite, xerife.
— Espera, como vocês se conhecem? – Estranhou Regina olhando de um para o outro.
— Eu guiei a Agente Swan até aqui no dia que ela chegou e tive o prazer de encontrá-la esta tarde e tomar um café com ela. – O prazer? Tinha como Graham ser mais irônico?! Depois de todo aquele ciúme juvenil e agressão gratuita?!
— Oh, sério?! – Soltou retoricamente com um sorriso plácido, porém Emma a conhecia o suficiente para saber que ela não ficara satisfeita com a informação. Seria sua reação por ela ou Graham, a loira não conseguiu evitar de se perguntar.
— Me diga, garoto: Qual o tipo de educação sua mãe lhe deu para invadir a casa dos outros na hora das refeições?
— Mãe! – A censurou Regina apertando os olhos para ela, antes de se virar para Graham de novo com um sorriso nos lábios. Emma quis vomitar. Escolha se está puta ou não Regina, você não pode fingir os dois ao mesmo tempo...
— Me desculpe incomodar o jantar de vocês, mas ouvi várias pessoas dizendo que você estava na cidade e quase não acreditei, tinha que vim ver com os meus próprios olhos antes que você escapasse de novo! – Disse ele para a morena mais nova.
— Pois bem, já viu, não viu? Agora já pode ir embora. – Disse Cora como se tivesse lido os pensamentos de Emma.
— Você não está atrapalhando nada, Graham. Eu já tinha acabado de jantar... Você está servido? Eu fiz lasanha! – Graham ponderou por um momento, até encarar a expressão pouco amigável da dona da casa.
— Não obrigada, só queria ver você mesmo. Faz tanto tempo! Você continua linda, e esse garotão aqui é a sua cara!
— Por Deus, não force a barra, garoto! – Ele mal tinha acabado de dizer as palavras que Cora já havia se levantado da cadeira com a voz alterada.
— Mãe... – Regina tentou evitar, mas já era tarde.
— Henry nem é filho de sangue da Regina, é geneticamente impossível eles serem parecidos! A mãe biológica do Henry é a Emma, então me poupe de todo esse papinho furado e deixe minha família em paz!
Emma mal podia acreditar no que ouvia. Cora estava do seu lado lhe chamando de sua família? Henry também olhava sem entender muito da situação, e antes que Emma pudesse encarar o xerife ou Regina ele já havia se retirado – sem antes muito educadamente pedir licença para fazê-lo – e Regina ido atrás dele chamando seu nome porta a fora.
— Vou me recolher. Boa noite, queridos. – Dizendo isso soltou um beijo no ar e partiu escadas a cima com a classe de uma rainha.
— O que diabos aconteceu aqui? – Perguntou Henry e sua pergunta pairou no ar porque Emma era incapaz de formular uma resposta coerente para lhe dar.
Henry a ajudou a tirar a mesa e tentou lhe ajudar a lavar a louça do jantar, mas ela dispensou o garoto que ainda não parecia completamente recuperado do cansaço da viagem. Tinha os olhos vermelhos e bocejava constantemente quando ela o mandou ir descansar. Quando terminou apagou as luzes da cozinha e subiu as escadas Regina ainda não tinha voltado para dentro de casa. Isso não é mais da sua conta, Emma... Você só é a visita da mãe dela, o que ela faz ou deixa de fazer não é problema seu.
Não deveria ser, mas infelizmente parecia muito com um problema de Emma. A loira se trocou com o pensamento persistente na morena e no que poderia estar acontecendo entre ela e o xerife. Depois de fazer sua higiene íntima e ainda assim não ouvir nenhum sinal de Regina entrando em casa, ela resolveu casualmente olhar pela janela e ver se tinha algum vislumbre da morena.
A visão que teve fez seu estômago se contorcer e o corpo inteiro tensionar-se. O maxilar travou e antes que percebesse os dedos estralaram de tão firme que estava apertado seu punho. Não era nada demais, se fosse pensar racionalmente; Regina estava sentada com Graham nas escadas de entrada da casa de madeira, conversando amigavelmente algo que Emma não conseguia ouvir. Estava inclinada para trás, apoiada em seus braços com o Xerife na mesma posição com o dorso muito próximo do dela. As vezes Regina soltava uma gargalhada um pouco mais alta que fazia seu sangue borbulhar de raiva. Racional era a última coisa que Emma estava no momento.
— Não fique preocupada com isso, querida. Ele é tão insignificante quanto uma mosca para você. – Podia ser a voz de sua consciência, mas a sombra atrás de si e o cheiro de whisky a fizeram pular de susto e se afastar da janela com a mão no coração.
— Puta merda, Cora! Você quase me mata do coração! – Disse sentando-se na cama olhando a ex-sogra com um robe de seda vinho e um copo de seu desejado whisky na mão.
— Eu vim pra tranquilizá-la... Passei pela porta e você parecia tão aflita espiando eles pela janela que eu vim acalmar seu pobre coraçãozinho.
— Eu não estava espiando eles! – Retrucou Emma ofendida. – Eu só estava olhando a noite, eu...
— Sei. – Disse Cora deixando claro que não acreditava em uma só palavra. – Mas como eu estava dizendo, não se preocupe com ele. Peixe pequeno, patético.
— Eu não estou preocupada com ele. Eu não tenho que me preocupar com nada desse tipo, eu e sua filha não temos mais nada, e ela pode ter o que ela quiser com quem ela quiser. Eu não dou a mínima.
— Mesmo que eu acreditasse em você, sejamos sinceras: Você ficaria satisfeita em seu filho ter que conviver com esse tipinho? Porque eu ficaria totalmente desgostosa em ser alguém como ele a figura paterna que meu neto vai ter de referência.
— Eu não sei... – Emma refletiu seriamente por um momento antes de se censurar por estar caindo no jogo de Cora. – Eu nem o conheço! Eu não tenho nada a ver com isso!
— Emma, Emma... Apesar dos pesares sempre achei você uma garota esperta, é uma das únicas coisas que admiro em você – Disse a mulher sem se preocupar minimamente se estaria soando grosseira. – Não me faça mudar de ideia quanto a isso. E quanto ao xerife, deixe para lá. Ele não é nem nunca vai chegar perto de ser alguém por quem minha filha se interessaria seriamente agora.
Cora não esperou uma resposta, deu as costas e deixou o quarto com um "Boa noite" enquanto Emma tentava decidir se levava tudo aquilo como um elogio ou como uma ofensa. No fim, sorriu orgulhosa ao perceber que Cora parecia ter lhe elogiado, assim como pareceu estar do seu lado no jantar. Mulher inacreditável... Pensou, sabendo agora que Regina tinha bem a quem puxar. Deitou e se cobriu esperando o sono ser mais generoso do que na noite passada, quando mal pregara os olhos tamanha a adrenalina de estar sob o mesmo teto de sua ex-mulher. Por fim o cansaço venceu, mas só depois de ter tido a impressão de ouvir o barulho do trinco da porta do andar de baixo ser fechado e o barulho de passos na escada a tranquilizar, para se render a exaustão.
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