Stubborn Fools
1 Capítulo 1 - Sou salva da ponte.
Notas iniciais
Imagine-se sendo a filha mais nova de um homem poderoso. Imagine-se discutindo com ele por conta de sua rebeldia. Com dezenove anos, não existem muitas escolhas que te salvem de situações como estas.
– Eu não vou voltar para casa. Não com tudo que eu mais odeio dentro dela. Nem morta eu volto. Até parece que você não me conhece. – eu quase gritei, mas lembrei que estava em um restaurante e não poderia fazer o que tinha vontade.
Nós estávamos em um restaurante, minha irmã, Isabelle, estava sentada à minha frente, vendo-me comer uma deliciosa fatia de pizza de calabresa, minha favorita, e pensando em uma solução para a minha “crise de rebeldia”, que por uma infeliz coincidência, poderia me fazer morar debaixo da ponte ou voltar a morar com meus pais, o que era mil vezes pior que a ponte.
– Eu te empresto dinheiro, você compra um apartamento e pronto. – sugeriu Isabelle, sorrindo.
– Não mesmo. Tudo que eu fizer será com o meu dinheiro. Próxima sugestão. – falei enquanto comia a borda da fatia de pizza.
– Volte a morar com nossos pais até conseguir dinheiro suficiente, Sophie. – ela sugeriu, com uma expressão séria.
– Ótima piada. – eu disse tentando controlar minhas risadas irônicas. – Prefiro morar de baixo da ponte.
– Ótimo! Problema resolvido. Você mora de baixo da ponte até arrumar dinheiro o bastante para um apartamento. — Isabelle fez menção em se levantar, mas eu a impedi.
– Espera. – falei segurando o braço dela. – Não pode ir embora. Não tenho mais opções, você é a minha última esperança, senão terei de voltar para casa. Você mesma disse que não aguenta mais aquele lugar.
– Fala sério. –Isabelle disse revirando os olhos e voltando a se sentar.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Minha irmã me olhava com uma espécie de dó e reprovação. Isso fez com que eu sentisse raiva, odiava que sentissem dó de mim. Eu tinha um emprego, mas tinha sido demitida quando decidiram fazer uma "limpeza de pessoal", que foi obviamente porque eu não dei mole para o filho do chefe, minha irmã não tinha ideia do que fazer, eu estava ficando desesperada. Não queria depender de ninguém, mas qualquer ajuda para mim bastaria, exceto a ajuda dos meus pais.
– Venha morar comigo e com o Fred, ele trabalha o dia todo e eu vou adorar ter com quem conversar durante o turno dele. – Isabelle, riu lembrando-se de seu marido, que era um bom amigo meu.
Era a coisa mais aceitável que eu ouvi desde que chegamos ao restaurante.
Mas me senti incomodada em aceitar aquilo, porque eu tiraria toda a liberdade deles no tempo em que morasse lá, apesar de que morar com as pessoas mais gente boa do mundo. Com toda certeza, faria com que eu saísse um pouco da depressão em que me encontrava.
– Não sei quanto tempo levara até eu arrumar dinheiro suficiente. Não quero tirar a liberdade de vocês. — tentei dizer isso sem parecer triste, mas, obviamente, não consegui.
O silêncio voltou a reinar. Isabelle estava encarando o nada, com uma expressão pensativa no rosto. Eu, por minha vez, terminava de comer minha pizza pensando em como iria sair de casa, eu não tinha dinheiro nem para uma simples ida ao shopping. Droga de vida.
– Já sei. — Isabelle disse isso como se acabasse de ser iluminada por uma força maior. – Como não pensei nisso antes.
– Pensou em que? Anda, desembucha logo. – falei esperançosa.
– Luke Daggehorn. — respondeu com uma felicidade estranha.
– Quem? – perguntei confusa. Segundos atrás eu achava que ela iria dizer algo que me tiraria do sufoco, mas não, ela diz um nome, como isso poderia me ajudar a ganhar dinheiro?
– É um dos meus amigos. Garanto que nem deve se lembrar dele, afinal, você nunca presta atenção em nada. – Ela estava me chamando de retarda ou era impressão minha?
– O que tem ele? — respondi.
– Ele tá doido pra sair da casa do pai e está procurando desesperadamente alguém pra dividir apartamento. – Isabelle concluiu como se tivesse achado a solução dos meus problemas, o que em parte era verdade.
– Espera, ele não é filho daquele empresário rico? Porque ele iria querer dividir um apartamento, quando o pai dele pode comprar um para ele?
– Seu pai também é rico e você quer morar em uma espelunca. Ah, sem contar que você está quase passando de uma casa luxuosa para debaixo da ponte.
– Nossa engraçadinha você, Isa. E eu não vou morar em uma espelunca. –mostrei a língua, brincando. — Ele não quer mais depender do dinheiro do pai, é isso? — sim, eu poderia dividir o apartamento com alguém assim. Era a solução para os meus problemas. Eu poderia pular de alegria por ali mesmo, poderia até subir na mesa, mas o bom senso não deixou.
– Então posso ligar para ele?
– Espera. Mas se ele vai pagar a metade do apartamento... A outra metade eu vou ter que pagar. Agora me responda Isa, com que dinheiro? – a solução para os meus problemas, agora, era mais um problema.
– Eu pago a sua metade até você conseguir dinheiro para isso.
– Não posso aceitar. Eu...
– Se fosse para pagar inteiro pesaria no meu bolso. Mas como é só a metade, eu posso pagar.
– Ah, não sei não...
– Ou isso, ou a ponte. Você escolhe.
– Ok, você paga pra mim. Mas eu juro que vou te pagar tudo de volta e com juros ainda. Vou fazer de tudo para arrumar o dinheiro e te pagar logo, Isa. – pus as minhas mãos por cima das dela.
– Então posso ligar para ele?
– Não ligou ainda porque não quis. – gritei animada. Eu estava feliz em sair de casa e animada por dividir um apartamento... Ah, que felicidade.
Isabelle pegou o celular e ligou para o tal do Luke... Eu nem o conheço, mas dane-se. Tentei colocar isso em minha cabeça enquanto Isabelle conversava com meu futuro colega de apartamento.
– Então como que vai ser?
– Como eu disse, ele está louco para sair da casa do pai. Eu dei o endereço do apartamento que quer dividir, eu disse que estava praticamente instalada lá. – o que de fato era verdade, eu só precisava pagar o resto da prestação, mas o apartamento já era meu. — Ele passará às seis horas, então não perca a hora.
– Como se eu fosse perder minha única chance de não ir parar de baixo da ponte.
Ela riu e olhou para mim.
– Bom problema resolvido, vou embora. – disse Isabelle. – a conta, por favor. – gritou ela.
– Custam 25 dólares, senhora. — respondeu a mocinha simpática entregando a nota para ela, que por sua vez entregou o dinheiro e se levantou para ir embora, porém, foi impedida por mim.
– O que foi Sophie? — ela perguntou irritada.
– Será que você poderia me levar para casa?- perguntei sem jeito.
– Ah, tá bom, oportunista. – ele bateu em meu ombro. – Vai querer ajuda com a mobília também? Espero que não, porque eu não vou te ajudar com isso.
Quando Isabelle me deixou na porta do prédio onde moro, eram oito e meia da manhã. Eu, como a ótima moradora que sou, pensei em colocar uma musica e fazer uma faxina básica. Decidi que iria arrumar o apartamento antes do almoço, assim eu poderia dormir depois do mesmo. Coloquei minha roupa de faxina: um short jeans curto e uma blusa rasgada do Blink 182, coloquei um all star velho no pé e comecei a arrumar aquela zona.Porque afinal, a primeira impressão é a que fica. Eu tinha que deixar aquilo brilhando para Luke não mudar de idéia.
Quando terminei eram duas da tarde. Eu estava imunda, com fome e com o cabelo cheio de poeira, porem, o apartamento estava brilhando. Caminhei até a cozinha e abri a geladeira na esperança de haver algo para comer. Minha decepção foi eminente: a única coisa que tinha era água. Abri a despensa: Tinha um saco de bolachas, eu não tinha feito compras ainda. Imaginei meus pais, vendo minhas condições precárias e me obrigando a voltar para casa deles. Ao menos lá eu tinha minha cama quentinha, empregadas que arrumavam a casa e comida.
Resolvi tomar um banho. Enchi a banheira de água quente, me despi e deitei dentro dela. Tudo que eu precisava para me acalmar era de um bom banho, logo arrumaria um colega que ajudaria a pagar o apartamento e tudo voltaria ao normal. Com esse pensamento otimista fechei os olhos.
Quando os abri novamente, eram seis e meia da tarde, a campainha e o telefone tocando sem parar. Eu havia adormecido dentro da banheira. “Há essa hora, Luke já teria vindo ver o apartamento e ao constatar que não havia ninguém em casa, fora embora.” Pensei pessimista. Enrolei-me na toalha branca e sai correndo em direção a porta na esperança de ser ele, mas antes peguei o telefone na base e atendi ao mesmo tempo em que abria a porta.
– Oi. — disse tanto para o homem a minha porta quanto para a voz no telefone. – Pode entrar. Não pai, não estava falando com você. Depois eu te ligo. Estou ocupada. – dito isso, desliguei o telefone e fechei a porta ao constatar que o rapaz já havia entrado.
– Bela roupa. – ele disse olhando para meu corpo envolto em uma toalha.
– Última moda em Paris. – brinquei e ele riu.
– Achei que não tivesse ninguém em casa. – ele falou se sentando no sofá. – Mas aí eu pensei, combinamos às seis e Isabelle disse que você está desesperada para dividir o apartamento, logo, não perderia uma oportunidade.
– É que... Eu estava no banho. Sinto muito por fazê-lo esperar – corei ao perceber que Luke estava olhando para meu corpo e corando também – Se me der licença, vou trocar de roupa. Fique à vontade.
– Ah, claro.
Caminhei até meu quarto, fechei a porta e abri o guarda- roupas. Como estava tudo bagunçado peguei a primeira roupa que vi: uma calça jeans desbotada e uma blusa do Fall Out Boy meio rasgada. Ótimo. Abri a porta e retornei a sala.
Luke continuava sentado, fitando o nada.
– Deixe eu te mostrar o apartamento. – falei, fazendo com que o rapaz saísse dos devaneios dele e levantasse pronto para me seguir. – Como percebeu. É tudo muito simples. Não gosto muito de ostentar. – na verdade eu não tinha dinheiro para ostentar.
– Ah sim. Também odeio ostentação. – ele disse, mas percebi que a opinião dele sobre ostentação era a mesma que a minha. Não que ele não gostasse, mas ele também não tinha grana para ostentar.
Entrei no corredor, que ficava entre a cozinha e a sala, havia três portas, entrei na primeira sendo seguida por Luke.
– Aqui seria o seu quarto. Como pode perceber, já tem moveis. Então, você não precisa se preocupar com isso. A não ser que queria acrescentar algo a mais.
O quarto que seria o de Luke já tinha uma cama de casal, um guarda-roupa embutido e uma cômoda. Ele abriu o guarda- roupa percebeu que havia um espelho na porta e deu um sorriso. Pelo visto, ele gostou do “seu quarto”.
– Se me permite perguntar, porque tem um quarto mobiliado, sendo que você mora sozinha? Quarto de hóspedes?
– Digamos que sim. – eu sorri – Isabelle vive me visitando aqui, então, ela dorme nesse quarto, por isso está mobiliado.
– Ah, sim. – Luke respondeu compreensivo.
Saímos do futuro quarto de Luke e entramos na porta do meio, que era o banheiro. Ele avaliou miraculosamente o banheiro molhado e a banheira cheia de água, em seguida olhou para mim, mas precisamente para o meu corpo.
Ok, eu já estava ficando com medo de morar com ele.
– O próximo quarto é o meu. Não tem necessidade de vê-lo. – dito isso me dirigi para sala e ele me seguiu. – Como você já viu essa é a sala.
Minha sala não era grande coisa, um sofá de três lugares e duas poltronas marrons. Uma TV de plasma de 42 polegadas (presente do Fred) e um DVD.
– Você não tem TV a cabo? – Luke perguntou olhando para a TV.
– Não. – respondi envergonhada.
Fomos até a cozinha, que também não era lá grande coisa. Um armário branco onde eu guardava as panelas, pratos, talheres entre outras coisas. Uma pia, que por acaso estava com a torneira vazando água. Um fogão de quatro bocas. Uma bancada de granito, que servia de divisória da cozinha com a sala, e de lugar para apoiar o microondas. Em baixo da bancada havia um armário branco onde eu costumava por minhas compras. A geladeira ficava ao lado do fogão.
– Então, é isso. Não é grande coisa, mas... Se estiver tão desesperado para sair da casa do seu pai, isto deve servir.
– Eu gostei. Quando posso me mudar? — falou em tom de ansiedade.
– Ah, quando quiser. Antes do final de semana. – respondi.
– Ótimo. Amanhã de manhã você estará em casa?
– A manhã toda — era sábado mesmo, eu ia ficar em casa o dia todo, acordaria às oito e ficaria ouvindo meus CDs no ultimo volume. Como sempre faço.
– Então eu venho as sete trazer e arrumar minhas coisas. Vou colocar uma escrivaninha no meu quarto e mandar instalar a TV a cabo. Pode ser? – perguntou Luke, como se eu fosse negar. Cara TV a cabo! Eu não tinha TV a cabo desde que sai da casa dos meus pais. Eu poderia chorar. Sim, eu poderia chorar de alegria nesse momento.
– Pode ser sim. – minha voz saiu mais alegre do que o esperado, e Luke me olhou com certa desconfiança. Eu fiquei séria de um jato, tentando disfarçar.
– Então, as sete. – ele disse abrindo a porta do apartamento. – Ah, Sophie?
– Sim?!- respondi.
Eu estava começando a achar que ao menos uma vez na vida eu tinha me dado bem. Luke não era mais um dos moleques pervertidos da vizinhança. Ele era um homem educado e bem humorado. Eu podia dividir meu apartamento com alguém assim. Só que uma frase dele me assustou.
– É bom se acostumar com a minha presença, pois não será fácil esquecê-la. – e saiu do apartamento.
Eu fiquei chocada e comecei a ficar com medo dele, mas não desisti, talvez fosse apenas um pensamento bobo.
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