Stubborn Fools
5 Capítulo 5 - Não quebre as regras
Notas iniciais
Abri a porta do guarda-roupa, onde se localizava meu espelho, e averiguei meu estado. Meus olhos estavam vermelhos, meus longos cabelos castanhos desgrenhados e minha pele ressecada.
– Eu me odeio. — Disse, por fim. Não. Eu odeio o que eu me tornei. Dei uma última olhada no espelho, e bati a porta do guarda roupa com toda a força que consegui.
Abri a porta do quarto e fui até a cozinha, onde Luke acabara de colocar o conteúdo do liquidificador dentro de um copo. Olhei para ele com desprezo, depois para o liquidificador e em seguida para o relógio, que indicava sete horas da manhã.
– Você não faz isso toda a manhã não é?- perguntei irritada, porque se Luke achava que eu deixaria ele me acordar todas as manhãs com aquele maldito liquidificador batendo, estava muito enganado.
– Claro que faço. — ele respondeu, enquanto bebericava o liquido desconhecido.
– Não vai fazer mais. — disse nervosa.
Luke revirou os olhos como resposta, e eu entendi isso como um vou fazer sim, só porque você não quer que eu faça. Ou seja, eu teria que dar um sumiço no liquidificador se quisesse continuar dormindo, ao menos até as oito.
– O que é isso?- perguntei, apontando para o líquido incógnito nas mãos de Luke.
– Vitamina. — respondeu, enquanto dava mais um gole e depositava o copo em cima da bancada.
Resolvi experimentar a vitamina de Luke, peguei um copo no armário e fui até o liquidificador. Quando estava prestes a despejar o liquido no copo, Luke tomou o liquidificador de minhas mãos.
– O que está fazendo?- ele perguntou, enquanto afastava o liquidificado o mais longe possível de mim.
– Bebendo sua vitamina. — Respondi tentando pegar o liquidificado das mãos dele.
– Não pode. — explicou. — Eu fiz essa vitamina com as frutas que comprei. Você não pode beber.
Naquele momento, entendi o que estava acontecendo e me lembrei do nosso acordo. Eu havia dito na loja, que não iria cozinhar para ele, porque ele não queria comprar umas roupas decentes para mim, então ele disse que eu não poderia pegar uma bolacha se quer das compras dele. Em seguida, toda aquela confusão, causada por ele, começou, e eu sinceramente pensei que ele houvesse esquecido daquilo.
– Ah, eu não acredito. — suspirei indignada.
– Pois acredite. Ontem você não fez minha janta, sabe. — Começou ele. — Portanto quebrou o acordo e não vou te deixar comer nada das minhas compras.
– Mas você também quebrou o acordou. — Apontei para minhas vestes. — Onde estão minhas roupas decentes?
– Eu tentei comprar, mas você não quis. — rebateu ele na maior naturalidade.
– Aquilo não era decente!- gritei, enquanto cerrava os punhos.
– Já disse que decência é relativa, Sophie. — Luke despejou a vitamina, que havia sobrado no liquidificador, na pia. E sorriu para mim.
– Melhor comprar cadeados para trancar a despensa, Luke. — Ameacei. — Pois quando você sair de casa saiba que vou devorar toda a comida que estiver naquele armário. — Gritei, enquanto apontava para o armário da despensa, em baixo da bancada.
– Se fizer isso, Sophie... — Pelo visto, aquele jogo era para dois. — Transformo sua vida em um inferno. — dito isso, Luke me olhou de forma ameaçadora e saiu caminhando na direção do banheiro.
– Minha vida já é um inferno. — Gritei para que ele pudesse ouvir, mesmo estando longe.
Mas era muita ingratidão. Primeiro eu quase morro para salvar a vida dele, depois eu cuido das feridas dele, e ele não me deixa beber um pouquinho de vitamina se quer? Ainda jogou fora só para eu não tomar. Desperdiçou vitamina a toa. É muita ingratidão mesmo. Não queria fazer isso, mas já que a ingratidão por parte dele foi muito exuberante, eu vou me vingar.
Olhei para a porta de madeira, que se localizava ao lado do armário (onde eu guardava os talheres, panela e entre outras coisas), havia me esquecido de mostrar aquele cômodo da casa para Luke, quando ele veio conhecer o apartamento. Mas como ele não perguntou nada a respeito daquela porta, achei desnecessário apresentá-lo a minha minúscula lavanderia. Soltei um longo suspiro, e abri a porta, revelando um pequeno espaço aberto, com vista para a rua. Vários arames pendurados um em cima do outro, por falta de espaço. Um tanque minúsculo, uma maquina de lavar velha, tendo ao seu lado uma gigante pilha de roupas sujas. Uma tabua de passar roupa escorada atrás da porta, tendo como companhia um ferro antigo.
Olhei com preguiça para a pilha de roupas.
É necessário, Sophie. tentei me convencer, enquanto sentava ao lado do monte, e começava a separar roupas brancas das coloridas.Lavar roupas às sete horas da manhã, ninguém merece.
Quando terminei de separá-las, peguei as roupas brancas e joguei dentro da máquina, coloquei sabão em pó e amaciante por cima, fechei a tampa e coloquei para bater. Assim que terminei de fazer isso, escutei a porta do apartamento abrindo e fechando, e constatei que o Luke havia saído para trabalhar. Sorri.
– Hora de o senhor Luke aprender que ingratidão não leva ninguém a lugar nenhum.
________Luke Daggehorn_____
Quando finalmente cheguei em casa, o relógio marcava nove horas da noite. Fora o dia mais cansativo de toda minha existência. Isso foi exagero. Mas eu realmente estava cansado, tive que repetir a história de como consegui ganhar dois olhos roxos, no mínimo, umas quatrocentas vezes. Pois é. Meus amigos, que eu pensei que me apoiariam, riram de mim na maior cara de pau. Fechei a porta e apoiei a cabeça nela, na tentativa falha de fazer a tontura passar. Eu havia bebido todas hoje, mal estava me aguentando em pé.Malditas quintas feiras.
Hoje é quinta, e como todas as boas quintas feiras, eu e meus amigos nos reunimos em um boteco, bebemos até quase cair menos o Fred, se ele ousar a chegar em casa bêbado, a Isabelle esfola ele vivo e colocamos os assuntos em dias. E adivinha só quem foi o motivo o assunto da vez? Adivinhou quem disse Luke Daggehorn.
Quando cheguei ao bar, já estavam todos lá; Fred, Jason, Brad e Carter. Eles me encaram com espanto. Sentei-me, e eles continuaram me encarando com espanto. Fiquei contando mentalmente quantos segundo levariam para que um deles abrisse a boca e perguntasse o motivo dos meus olhos roxos. Acredite, não cheguei a contei até dez, quando Fred abriu a maldita boca dele.
– Mal se mudou para a casa da Sophie e já está apanhando dela, Luke? — Todos riram do comentário dele, pelo visto já estavam bebendo há algum tempo.
– Engraçadinho você. — respondi mal humorado, enquanto chamava o garçom e pedia uma cerveja.
– Sério que você apanhou da Sophie?- Brad perguntou em tom de deboche.
– Claro que não, seu grande idiota. — Dei um tapa na nuca dele.
– Ainda não. — Fred falou em um tom brincalhão, e eu o ignorei.
– Apanhou de quem?- foi a vez do Carter abrir a boca.
Nesse instante, minha cerveja chegou, dei um gole e resolvi contar toda a história a eles. Toda mesmo, desde o momento em que me mudei para o apartamento de Sophie até agora. Quando terminei, eles quase caíram da cadeira de tanto rir. Fiquei me perguntando, porque eu não acreditei na minha irmã, quando ela disse que eu precisava mudar minhas amizades?
– Não acredito. E ela que te salvou?- Jason soltou entre uma gargalhada e outra. -Do que adianta ter músculos Luke, se não sabe usá-los? — depois desse comentário, eles caíram na gargalhada outra vez. Eu já não sabia se era por causa do álcool que havia subido a cabeça deles, ou porque minha história era realmente engraçada.
– Eu sabia que isso uma hora ou outra iria acontecer. — Brad abriu a grande boca dele, para me esculachar mais um pouco. — Olhe para mim, sou Luke Daggehorn! Sou gostoso, tenho músculos e não sei usá-los. — Ele tentou me imitar, e dessa vez até eu ri.
O álcool estava fazendo efeito, com toda certeza.
– Acho que você deveria arrumar uma namorada, constituir uma relação instável, pensar em se casar e talvez até em ter filhos. — Fred sugeriu, quando finalmente conseguiu parar de rir.
Vou explicar uma coisa sobre o Fred. Depois que Isabelle engravidou, ele vivia sugerindo que devíamos nos casar e ter filhos.
– Cara, só porque você se casou, não quer dizer que todos nos precisamos nos casar. — Jason gritou aquilo para que o bar inteiro escutasse. Todos da nossa mesa começaram a rir de novo, menos Fred, e agora eu tinha certeza que era o álcool fazendo efeito.
– Finalmente alguém disse isso a ele. — comemorei erguendo os braços para o alto.
– Já estava na hora de alguém dizer!- Foi a vez de Carter erguer os braços para o céu.
O garçom se aproximou e eu pedi dois copos de Uísque.
– Hey Luke, vá com calma. Só porque levou a maior surra da vida, não precisa destruir seu fígado. — Jason provocou.
– Cale a boca, Brad. — respondi.
– Eu sou o Jason!- ele rebateu, e todos caíram na gargalhada novamente.
As risadas cessaram, com muito custo, diga-se de passagem. As pessoas que estavam no bar, já estavam começando a olhar para nossa mesa e comentar.
– Acho que você deveria comprar umas roupas decentes para Sophie, Luke. — sugeriu Fred novamente.
Ele era o pai das sugestões. Acreditem, se você estiver com problemas, procure o Fred, ele sempre tem uma sugestão ou duas. Ou talvez ele sugira que você constitua sua família o mais rápido possível.
– Faz uma surpresa, compra em uma daquelas lojas de marca que as mulheres adoram, e quem sabe ela cumpra a parte dela na aposta e você ainda receba um bônus. — ele enfatizou a última palavra de uma maneira maliciosa.
– É Luke, às vezes rola um bônus. — Brad sorriu maliciosamente para mim.
– É Luke, todos nos sabemos que você tem uma quedinha por ela. Um bônus seria bem vindo, não é? — Jason disse e me cutucou.
Meus Uísques chegaram e eu virei o primeiro enquanto escutava a opinião de todos eles sobre um possível bônus.
– Quedinha?!- Carter quase pulou da cadeira. — Ele tem um tombo por ela, isso sim. Vocês não se lembram o que aconteceu na faculdade, quando ele e a Isabelle estudaram juntos?
– É verdade, ele tem um tombo por ela. — Jason concordou com uma expressão distante, como se estivesse lembrando-se o que havia ocorrido naquela época — Ah, cara. A Sophie é muito gostosa. Você tem sorte de estar morando com ela.
–É... Agora que você está morando com ela... — Brad começou. Sei não. Acho que aquele apartamento vai pegar fogo daqui uns dias. — a voz dele estava carregada, como se ele tivesse bebido o estoque de álcool do bar sozinho.
– Não viaja Brad. Eu e a Sophie? — comecei a rir sem vontade. — Somos dois opostos. E, além disso, ela me odeia.
– Opostos?- Fred perguntou incrédulo. — Vocês são mais parecidos do que pensam, Luke.
Não respondi. Jason e Carter começaram a contar suas piadinhas sem graça, e Fred constatou que a história de como eu consegui meus olhos roxos, era mais engraçada. Pediu-me então, para contá-la de novo. Sem escolha, e já estando bêbado, resolvi contar outra vez.
E isso sem contar com meu trabalho, acredite ou não, foi ainda pior. Todas, sem exceção, todas as pessoas que eu conheço, e até algumas que eu nunca tinha conversado, perguntaram o que havia ocorrido comigo. Eu podia ter mentido, mas não o fiz. Não me perguntem o porquê.
Olhei para o embrulho cor de rosa em minhas mãos. Eu só posso estar muito chapado para seguir os conselhos do Fred — Pensei. E me dirigi ao quarto de Sophie. A porta estava fechada, pregada a ela havia um adesivo de uma caveira com danger escrito por cima. Embaixo do adesivo, a seguinte frase em vermelho sangue: Ignorance is your new Best friend. Revirei os olhos.Só a Sophie mesmo para ter uma frase do Paramore na porta do quarto.
Como sou um rapaz criado nos bons e velhos costumes de uma tradicional família católica, resolvi bater na porta antes de entrar, pois se eu entrasse de ímpeto, ela poderia estar nua ou algo do tipo, e a cena poderia ser constrangedora tanto para ela quando para mim. Quem eu quero enganar? Eu entrei no quarto sem nem bater e torcendo para que ela estivesse ao menos de calcinha e sutiã. Para meu grande azar, ela não estava no quarto.
Quando me mostrou a casa, Sophie disse que era desnecessário ver seu quarto. Eu não discuti, porque não era mesmo necessário. Mas o vendo agora, eu entendi o motivo da hesitação dela em mostrá-lo. Na época, se ela tivesse me mostrado, eu realmente a acharia louca e não me mudaria para cá.
As paredes do quarto dela eram uma combinação estranha de roxo escuro, vermelho sangue e preto. A parede, em que a cama de casal estava escorada, era cheia de pôsteres do Paramore, Linkin Park, Green Day, Blink 182, entre outras bandas que eu não fazia a mínima idéia de quem poderiam ser. A colcha da cama era negra, com travesseiros de fronhas roxas. Em cima das portas do guarda roupa embutido, havia sido pintada uma boca vermelha com a língua para fora, símbolo dos Rolling Stones. Na parede da janela, grossas cortinas negras e roxas tampavam a mesma. Na parede oposta ao Guarda roupa, havia uma escrivaninha de marfim com um notebook em cima. E de cada lado da cama, um criado mudo, da mesma cor que a escrivaninha.
–Uau. — foi tudo que consegui dizer quando terminei de analisar o quarto de Sophie.
Parecia o quarto de uma adolescente revoltada. Isso me trouxe certa nostalgia, me lembrei de quando eu era um adolescente revoltado. Ri sozinho.
Coloquei o embrulho cor de rosa em cima da cama dela, e já estava prestes a sair do quarto, quando a porta do mesmo se irrompeu, relevando uma Sophie de vestidinho preto (extremamente curto), um salto alto da mesma cor e toda maquiada. Rezei para que eu não estivesse babando.
– O que está fazendo no meu quarto?- a voz dela estava completamente alterada, como se também estivesse bêbada, ou talvez, ela estivesse nervosa. Não estava conseguindo distinguir.
– Eu... — tentei explicar, mas quando se está com litros e litro de álcool no cérebro não sai nada que preste.
– Você quebrou as regras deste apartamento!- a sim, ela estava bêbada. Desde quando esse apartamento tinha regras?
– Que regras?- perguntei assustado.
– Não acredito nisso. — Sophie revirou os olhos e saiu me puxando em direção a cozinha. — Eu esperava que você descobrisse sozinho, mas nem isso você tem capacidade de fazer. — ela abriu a geladeira e me colocou em frente à mesma.
Na noite anterior, eu havia tirado as compras do carro, arrumado-as na despensa e na geladeira. Mas agora, a mesma estava vazia. Na verdade tinha três garrafas de água, todavia isso não contava.
– Onde está a comida?- perguntei e ela apontou para a garrafa de água do meio. N
ela estava pregada uma folha, que eu, sinceramente, não teria notado se Sophie não tivesse me apontado. Puxei a folha a comecei a ler.
Regras da casa. (Para Luke Daggehorn)
1- É proibido entrar no quarto de Sophie Buckhard sob qualquer hipótese.
2- É proibido beber qualquer tipo de liquido no copo I ♥ NY de Sophie Buckhard. (Não pense que eu não notei que você estava bebendo vitamina nele)
3- Toda e qualquer comida que entrar nesse apartamento, não minha é minha, não é sua. É nossa.
4- A TV é minha nas terças, quintas, sábados e domingos. (Essa regra foi feita para evitar brigas futuras)
5- Luke Daggehorn não pode cantar Sophie Buckhard sob qualquer circunstância.
6- Ou analisar o corpo dela com um olhar pervertido.
7- Ou agarrá-la.
Obs.: essas regras deveram ser compridas rigorosamente se Luke Daggehorn quiser que a comida da geladeira volte para ela, e se quiser ver as chaves da despensa novamente.
Chaves da despensa? Nesse instante olhei para o armário branco embaixo da bancada, que era a despensa. Ele estava trancado com um pequeno cadeado. Revirei os olhos e olhei para Sophie, estava tão linda com aquela maquiagem e aquele vestido curto, uma verdadeira mulher, mas com mentalidade de uma criança de seis aninhos.
Soltei um longo suspiro, não iria me estressar com ela.
– Espero que goste do presente. — dito isso, caminhei em direção ao banheiro e liguei o chuveiro.
__________Sophie Buckhard
Não entendi. Eu esperava tudo: que ele brigasse, gritasse e me agredisse. Mas... "espero que goste do presente"? O que diabos foi isso? Certamente estava bêbado.
Fred uma vez me disse que nas quintas eles saem juntos e bebem até cair. Menos o próprio Fred, segundo ele, a Isabelle esfola ele vivo se ele aparecer bêbado em casa.
Caminhei até meu quarto, abri a porta com cautela, nunca se sabe o que Luke pode ter feito nele. Ele poderia ter instado uma bomba. Ah, Sophie, não seja exagerada. Bati a mão na testa. Assim que entrei no quarto, notei algo que eu não havia visto antes, um embrulho cor de rosa em cima de minha cama.
Espero que goste do presente. Lembrei-me das palavras de Luke, e minha consciência pesou no mesmo instante por eu tê-lo considerado um mal agradecido mais cedo. Droga, eu não devia ter trancado toda a comida na despensa. Sou burra e infantil. Peguei o embrulho cor de rosa. Em cima dele havia um pequeno bilhete.
"Quero lasanha para janta amanhã. Com amor, Luke"
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