Stronger feelings
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Quando completou exatamente um mês e três semanas desde que fui transferida para aquela unidade, eu podia dizer com toda a certeza que já fazia mesmo parte daquela equipe, ou daquela família, como Rossi costumava dizer.
Estávamos no início da semana e depois de passar um final de semana inteiro com Spencer e Garcia numa feira festiva de comidas típicas de outros países, o retorno para nosso trabalho não pareceu ser assim tão ruim.
Fazia quase meia hora que Reid continuava a falar sobre a feira e sobre tudo o que havíamos comido nela para os outros membros da equipe e como já era de se esperar, a cada comentário feito juntamente com ele vinha uma rápida aula de cada lugar e suas comidas.
Com todos — exceto por Hotchner e Garcia — já na sala de reunião esperando pela apresentação de mais um caso recebido, Spencer continuava a falar sobre a feira e de como ele gostou de comer pela primeira vez um dos pratos mais conhecidos e típicos do Brasil; a feijoada.
— A feijoada é um prato que consiste num guisado de feijão, normalmente com carne, e quase sempre acompanhado com arroz. É um dos pratos mais típicos das cozinhas portuguesa e brasileira também. — Ele continuava a falar com seu jeitão nerd e sempre tão espertinho de ser. — Julia fez muito bem ao me apresentar a esse prato.
Morgan o olhou.
— Com toda essa falação do garoto essa feijoada parece ser mesmo saborosa. — Morgan comentou alternando seu olhar entre Spender e mim.
— Está nos deixando com vontade também, Spence. — JJ sorriu.
— Acho que precisamos dar um jeito nisso — Sugeriu Rossi com um olhar bastante sugestivo. — Julia, você terá que nos apresentar essa oitava maravilha que Reid tanto fala.
Os outros também concordaram com ele.
— É só marcar um dia e terei todo o prazer do mundo em preparar uma feijoada para vocês — Respondi com animação. — Só farei um pouco diferente dos portugueses, porque nós costumamos usar vários tipos de carne.
JJ arqueou uma sobrancelha olhando para Morgan com a mesma animação.
— E também acompanhamos ela com farofa, da qual eu mesma irei preparar com exclusividade para vocês — Continuei, dando uma rápida explicada de como nós brasileiros costumamos preparar aquele prato. — Arroz branco, couve refogada e laranja fatiada, entre outros ingredientes. Morgan me lançou um olhar de fingida surpresa.
— Ok, acho que agora você conseguiu deixar todos nós com vontade — Morgan disse gesticulando para David e JJ estavam sentados. — Terá mesmo que preparar uma para nós algum dia desse, Julia.
Assenti rindo.
— Pode ter certeza disso, docinho. — Respondi fazendo graça ao usar um dos tantos apelidos que Penélope costumava chamá-lo.
Ele riu seguido por Rossi, JJ girou a cadeira olhando para a porta ainda aberta e em seguida para o relógio em seu pulso. Seus olhos se arregalaram por poucos segundos e então ela voltou a nos olhar.
— Isso já está ficando bastante estranho, não acham? — Ela nos questionou num tom levemente baixo. —
Eles devem estar discutindo sobre o caso — Comentou Morgan concordando com a demora dos dois outros agentes. — Geralmente Hotch não demora tanto assim. Só nos resta esperar mesmo.
Todos nós concordamos, ainda era cedo, mas toda aquela demora para nos apresentar um novo caso estava mesmo nos deixando curiosos e preocupados.
— E falando no Hotchner — Começou David se inclinando levemente sobre a mesa. — Vocês também perceberam que parece haver alguma coisa acontecendo com ele?
Franzi minha testa.
— O que você quer dizer com estar acontecendo alguma coisa com ele? — Perguntei o olhando com curiosidade, assim como todos os outros também o fizeram. — Em qual sentido?
Rossi fez um aceno rápido com a cabeça.
— Sou amigo dele e sei quando ele começa a agir de forma estranha — Falou com convicção, iniciando seu ponto de vista. — E seja lá o que está havendo, está o deixando mais agitado.
— Hum… — Ao meu lado Spencer se encostou na cadeira, levando o dedo indicador para o queixo. — Acho que também andei percebendo isso nele, Hotchner parece estar mesmo mais agitado que antes.
David Rossi apontou para o doutor sentado ao meu lado quando ouviu aquilo. As especulações sobre o que estava acontecendo com Aaron não paravam por um só segundo. JJ e Morgan estavam dizendo que haviam reparado algo de diferente nele na semana passada e aquele assunto apenas continuou ganhado mais força, permaneci calada, pois não o conhecia tão bem assim como os outros para notar aquele tipo de mudança.
Sequer o havia visto naquele dia então decidi não dar opinião.
—… Acho que o vi sorrir hoje em algum momento quando chegamos, de fato tem alguma coisa acontecendo mesmo com ele — Rossi continuava a falar, parecia estar igualmente curioso como todos os outros, talvez até mais.
— Hotch não está tão carrancudo como antes, — Morgan também comentou.
— Será que ele está conhecendo alguém? Uma mulher pode mudar um homem, mesmo esse homem sendo alguém como Hotchner. — JJ perguntou olhando para todos ali na mesa, inclusive para mim que, praticamente não sabia ao certo o que dizer sobre aquilo, continuei calada, apenas ouvindo a discussão ganhar cada vez mais argumentos de todos eles.
Não podia dizer com toda a certeza que havia notado esse tipo de mudança nele, conversávamos apenas quando eu saia tarde da unidade, o que — infelizmente — acabou se tornando algo frequente, assuntos variados como a vida e até mesmo família e não havia reparado naquela mudança.
Se isso estava mesmo acontecendo, Aaron Hotchner conseguia esconder isso bem, mas não tão bem assim, pois os outros haviam notado isso e eu não.
— Não estranharia isso — Reid surpreendentemente se pronunciou, tirando-me de meus pensamentos. — Ele está de luto há dois anos e três meses e já estava mesmo na hora dele conhecer alguém.
Notei que ao mencionar o luto alguns pareceram ficar um pouco entristecidos, com toda certeza conheciam sua esposa.
O assunto estava prestes a continuar quando os dois que faltavam adentraram a sala de reunião com um pouco mais de pressa do que se era comum. Aaron sentou na única cadeira vazia ficando ao lado de Morgan e praticamente de frente para mim enquanto Garcia dirigiu-se para o telão ficando de frente para ele.
Nenhum arquivo havia sido entregue a nós e pude reparar que havia algo de estranho nas expressões dos dois últimos que chegaram.
— Garcia, por favor. — O homem pediu com gentileza e pressa ao mesmo tempo. A loira com roupas sempre tão coloridas e chamativas olhou para cada com pesar e então ligou o telão para apresentar o caso.
— Há exatos quinze anos, mulheres e meninas de diferentes idades e lugares foram exoneradas mortas em um terreno baldio nos arredores de Atlanta. E como é de se esperar, o caso alertou a polícia e uma grande investigação foi iniciada para encontrar o monstro que fez isso com elas — A mulher loira respirou profundamente antes de continuar. — O assassino numerava todas as suas vítimas chegando a um total de vinte e cinco e entre elas crianças de no mínimo dez anos e mulheres com até no máximo trinta e cinco anos.
— E depois de tantos anos ausente e sem matar ninguém ele voltou — Hotchner continuou por Garcia, sua voz saiu mais tensa que o comum. — Vinte e quatro corpos foram encontrados em uma casa que estava à venda há uns vinte e cinco minutos daqui.
Meu corpo imediatamente travou no mesmo segundo que aquelas palavras se fixaram na minha mente, senti como se tudo ao meu redor parasse de uma só vez. Aquilo não era possível.
— Os vinte e quatro corpos foram posicionados na casa de forma assustadora e medonha — Garcia mostrou uma foto da cena e foi unânime, todos soltaram uma exclamação de espanto ao vê-la.
Todos os corpos estavam posicionados de maneira que uma imagem fosse vista; o número quinze.
— Ele… Ele fez isso usando todos os corpos que foram encontrados nessa casa? — Perguntei sentindo minha voz falhar ao olhar novamente para a foto que era exibida no telão.
— Sim — Ela respondeu olhando também para a foto.
— Todas torturadas e mortas como ele costumava fazer anos atrás? — Morgan também questionou, tinha os olhos fixos no telão.
— Só há uma pequena mudança — A foto mudou, estava mais próxima de um corpo feminino, provavelmente a mulher mais velha daquele grupo. — No braço esquerdo dela havia o número quinze e as letras JB, o mesmo está nas outras vítimas.
— O número deve possuir uma importância muito grande para ele, — Spencer se pronunciou muito pensativo. — Deve ser uma pessoa supersticiosa e por esse número também estar presente na forma como ele as posicionou, ele possui alguma história específica com o quinze.
— E as letras devem pertencer à algum nome que tem a mesma importância — JJ também falou. — Isso pode até ser um tipo de mensagem para essa pessoa, veja como todos os corpos foram posicionados perfeitamente para formar o número quinze e para mostrar também o que há em seus braços.
Relutante, voltei meu olhar para a foto, apesar de não querer olhar para aquilo novamente ainda sim precisava, pois querendo ou não ela seria a pista para achá-lo.
— Ele quer que essa pessoa entenda o recado que está passando — Aaron assentiu, era o único que tinha em mãos o arquivo mais detalhado sobre o caso. — Talvez tenha feito isso como um alerta de que ele irá atrás dessa pessoa.
— E até lá é provável que ela vá querer matar mais mulheres e crianças para passar esse recado — Rossi concluiu o pensamento.
Hotchner olhou para todos ali presentes, deixando o olhar parar discretamente por mais tempo na minha direção. Desviei no mesmo instante, não queria que ele percebesse que havia algo de errado comigo.
— Garcia procure os registros desse caso, tudo o que tiver quero que nos mande o mais rápido possível, se essas iniciais são de algum nome precisamos saber antes que seja tarde demais — Hotchner a olhou e depois se voltou para a equipe outra vez. — JJ e Morgan vão para a cena do crime, Spencer e Julia falem com o legista e Rossi e eu ficaremos aqui para fazer reconhecimento e falar com as famílias das vítimas.
•••
Spencer não parou de falar sobre o caso durante todo o trajeto, falou também sobre a tortura e praticamente me deu uma aula rápida sobre o assunto dentro do veículo.
Mesmo que eu quisesse não falar sobre era algo necessário, infelizmente não podia simplesmente dizer que não queria mais ouvir falar sobre aquele assunto, pois havíamos recebido o caso e se eu quisesse que ele acabasse logo teria de ajudar a resolvê-lo o quão breve possível.
Não conseguia parar quieta por um único segundo durante todo o trajeto e isso não passou despercebido pelo olhar esperto e analisador de Spencer Reid, ele chegou a questionar-me perguntando se estava tudo bem e dei uma resposta automática para ele.
Tentando soar o mais gentil que pude, não queria que ele começasse a me perfilar naquele momento e queria evitar que qualquer um conseguisse isso.
— Bom dia, agente Julia Barbosa e este é o Doutor Spencer Reid — Nos apresentamos e mostramos nossas credenciais para o médico legista. — Viemos falar sobre os vinte e quatro corpos que encontraram mais cedo.
— É claro, podem me acompanhar! — Ele pareceu sorrir e gesticulou para que nós o acompanhássemos. — Me informaram que iriam chegar, mas não imaginei que seria tão rápido assim.
A sala onde entramos era um ambiente muito silencioso e mórbido, todos os corpos estavam ali, postos de forma organizada.
— Como já devem ter conhecimento todas as vítimas foram torturadas, ele deve ter usado faca ou algum tipo de lâmina em todas elas — Paramos perto de um corpo, era uma adolescente. — As marcas são as mesmas em todas e isso — Ele mostrou o número quinze e as iniciais em seu braço — Foram feitas por outro tipo de lâmina, os cortes são mais finos e menos profundos que os demais. Provavelmente uma faca feita especialmente para esse tipo de tortura.
Reid inclinou-se minimamente sobre o corpo procurando por algo.
— Não tem sinais de defensa? — Ele perguntou para o legista com seu cenho franzido.
— Nenhum sinal. — Ele respondeu com pesar. — Ele as drogou com uma mistura variada de calmantes dos mais fortes que existem para deixá-las indefesas para que elas não conseguissem se defender, mas usou uma
— Uma quantidade certa dessa droga para que todas elas continuassem conscientes do que ele estava fazendo com elas — O interrompi sem perceber, fazendo o comentário e olhando novamente para o corpo da adolescente. — Algum sinal de estupro?
Perguntei não dando deixa para que ele me perguntasse como eu sabia daquilo, o médico legista disse que não e nos passou todas as informações que precisávamos sobre o que havia acontecido com todas elas.
— Nenhum sinal disso, mas há algo estranho — O homem pegou o arquivo de uma mesa pequena e o entregou para Spencer. — Todas elas estão numeras desde o número um até o vinte e quatro, porém notei que está faltando a vítima de número quinze, não estava na cena do crime e também não encontraram nenhum outro corpo.
Engoli seco ao ouvi-lo. Aquilo estava ficando pior do que eu imaginava.
— Eram vinte e cinco vítimas há quinze anos, vinte e quatro agora — Reid me fitou. — O número quinze e as iniciais são da décima quinta vítima dele!
O legista o olhou com tensão e depois para as vítimas. Seu olhar mostrava um pouco de medo. Ao terminamos com o legista voltamos para a unidade, encontramos com o restante da equipe e passamos as informações que o homem havia nos passado.
— O legista disse que todas as vinte e quatro vítimas estavam numeradas, mas falta a vítima de número quinze — Reid contou para os outros agentes.
— Então o número e as iniciais marcadas nos braços são uma mensagem para essa vítima — JJ cruzou os braços. — Uma ameaça para ela, talvez?
Todos ficaram em silêncio, as fotos de todas as vítimas estavam sobre a mesa, a maioria dava mais foco para as marcas da tortura sofrida e principalmente nos números marcados na pele.
— Não é só isso — Também me pronunciei. — O unsub usa algum tipo de droga para deixá-las enfraquecidas para que elas não possam reagir, mas que as deixem conscientes.
— Ele tortura todas elas enquanto ainda estão conscientes do que está acontecendo? — Rossi perguntou, parecia espantado com aquilo.
Apenas balancei minha cabeça de forma positiva, sentindo-me tomada por uma tristeza ao dizer aquilo em voz alta.
— Também não há sinal de estupro nelas, nem mesmo nas mais velhas — Reid continuou. — As marcas são exatamente as mesmas em todas, até mesmo nas mais novas. Ele usa uma única arma para isso e somente as marcas que são feitas nos braços são com uma lâmina diferente, ele pode tê-la feito só para que pudesse marcá-las.
— Ele é cruel demais com elas — Morgan jogou uma foto sobre a mesa. — Talvez use a tortura como um prazer sexual já que ele não abusa de nenhuma das vitimas.
Neguei sem perceber.
— Ele gosta do que faz — Não havia percebido que aquilo saiu em voz alta, somente quando vi que Hotchner e JJ me olharam.
Estava prestes a voltar ao assunto do caso quando Garcia entrou na sala com Kevin, os dois estavam carregando duas caixas grandes sobre o caso que havia acontecido quinze anos atrás.
— Aqui estão todas as informações sobre esse caso de quinze anos — Ela abriu uma das caixas tirando um notebook de dentro dela e o colocando sobre a mesa. — Também encontrei várias outras informações sobre, uma das vítimas Amanda Moore era a única que não tinha nenhum número marcado no corpo, todas as outras estavam marcadas, mas havia um número faltando…
— O quinze. — Hotchner a interrompeu.
— Sim senhor, — Ela o fitou um pouco assustada. — Como sabe disso?
— Também está faltando essa vítima agora — Reid respondeu pegando uma das caixas. — Se essa vítima também esteve presente quando ele fez isso há quinze anos então o elemento está à sua procura e Amanda serviu apenas como uma substituta.
— E tocando nesse assunto que o gêniozinho acabou de falar, tem algo muito estranho nisso tudo e não é só porque foram vinte e cinco corpos encontrados e somente o de Amanda não possuía a numeração. — Garcia começou a falar enquanto mexia no computador. — Eu pesquisei e ela foi a única que não deram como desaparecida, todas as outras vítimas estavam sumidas por quase cinco dias, mas ela foi a única que não.
A loira nos olhou.
— E Amanda sequer era da cidade na época, parece que ela estava em Atlanta apenas de passagem, de acordo com o marido dela. — Continuou.
— E quanto a vítima de número quinze? — Aaron a questionou.
— Ainda estou tentando puxar todos os nomes, mas como o caso está arquivado por tanto tempo levará um tempo até conseguir isso — Ela o olhou. — Consegui puxar o nome de apenas cinco… Sete vítimas até agora e… Hã… — Ela parou de falar de repente, pareceu encontrar algo estranho. — Senhor podemos conversar rapidinho lá fora, por favor?
Garcia parou de falar no mesmo instante, todos nós a olhamos. Ela se levantou e chamou por Hotchner, pedindo para que ele viesse com ela para fora da sala. Enquanto isso, continuávamos com os milhares de arquivos sobre o caso, separando as fotos das vítimas e qualquer informação sobre o homem.
Tudo aquilo me causava uma sensação de grande desconforto, todas as fotos e aquelas mulheres… Era como se tudo estivesse voltando de uma só vez.
— Julia, pode vir na minha sala, por favor? — Hotchner retornou com Garcia, mas diferente dela ele não entrou na sala. — É muito importante.
Os outros membros da equipe me olharam por alguns segundos, não demorei em sair logo daqui e não receber mais aqueles olhares curiosos de todos eles. Eu sabia muito bem o motivo dele ter me chamado, pude ver que havia alguma coisa de errado quando Garcia parou de falar de repente e me olhou rapidamente e chamou Hotchner para conversar.
Entramos em sua sala ele fechou a porta a batendo levemente, estava de costas para Aaron, mas mesmo assim conseguia sentir o peso de seu olhar sobre mim. Evitei olhá-lo, não queria fazer isso naquele momento, estava focada demais em tentar transparecer o mais tranquila possível, mas não estava dando certo.
— Sua mãe, Sandra Barbosa — Ele começou, ouvia seus passos atrás de mim e então o vi ficar na minha frente. — Era uma das vítimas, marcada com o número treze de acordo com o que Garcia me falou. Por que não contou que você tem relação com esse caso?
Permaneci calada, não o estava olhando e quando fiz isso me senti travada ali mesmo. Aaron me fiava com o costumeiro olhar sério, porém não era nada do qual eu estava acostumada.
— Não achei que teria alguma importância contar isso — Menti, tentando transparecer o mais honesta possível. Senti que falhei ao fazer isso. — Nem mesmo pensei que ele acabaria matando novamente.
Dei de ombros.
— O que você sabe sobre este caso? — Ele questionou-me outra vez, agora bem mais sério.
— Como assim? — Perguntei de volta.
— O que sabe sobre este caso, Julia? — Hotchner perguntou pela segunda vez, de uma maneira mais insistente, estava disposto a tirar aquilo de mim de qualquer jeito.
Juntei meus lábios com força e olhei para o chão, engoli seco novamente tentando organizar tudo o que eu sabia sobre aquele caso antes de respondê-lo, qualquer resposta errada ou mentira ele saberia.
— O que todo mundo sabe. — Respondi, ainda relutante.
— Não vou perguntar outra vez. — Ele me fitou de forma severa, não me deixando outra escolha ou qualquer tipo de saída daquele assunto.
Respirei fundo antes de começar a falar.
— Ele é um homem branco, provavelmente na casa dos quarenta anos de idade, sequestra suas vitimas em lugares públicos o que demonstra que ele não tem medo de correr riscos ou ser visto por alguém, ele gosta disso. Ele também as tortura porque gosta de estar no controle, ao drogá-las elas não podem reagir nem nada e isso lhe dá uma sensação de poder sobre elas — Respondi, começando a traçar o perfil do assassino. — E marca suas vítimas, pois assim o faz pensar que todas elas estão sob o seu domínio. Que são apenas suas.
Aaron me fitou, suas sobrancelhas levemente erguidas como se ele estivesse surpreso por eu ter praticamente todo um perfil dele pronto.
— Fez o perfil dele antes ou depois de entrar para o FBI? — Perguntou com rispidez.
— Quando comecei a estudar psicologia. — Confessei. — Já lia alguns livros sobre o assunto e também assisti várias palestras sobre traçar perfis.
Ele cruzou os braços, não parecia satisfeito com a minha resposta.
— Tem mais, não sei ao certo o que é, mas você está guardando alguma coisa com você — Ele disse como se duvidasse de mim. — Fez o perfil do assassino então deve estar atrás dele bem antes de ser transferida para essa unidade.
Ri de forma desdenhosa, ele estava mesmo duvidando de mim.
—Fiz o perfil apenas para entendê-lo e não para persegui-lo por aí! — Respondi um pouco alterada. — Ele fugiu depois que a polícia foi atrás dele, pensava até que ele havia morrido depois de tantos anos e acredite, eu fiquei muito surpresa ao ouvir que ele voltou a atacar.
Não houve resposta da parte dele, Aaron Hotchner continuou parado na minha frente olhando-me com pesar, ele deu um passo para frente diminuindo a distância entre nós. Aquilo me pegou desprevenida, ele estava perto demais de mim, ao ponto de eu conseguir sentir sua respiração nada tranquila contra meu rosto.
— Por que está mentindo, Julia? — Ele tornou a perguntar, não desviei meu olhar do dele por um único segundo, se ele quisesse continuar com aquilo eu também iria.
— Não estou mentindo, agente Hotchner. — Respondi num tom firme, erguendo meu rosto levemente para cima para conseguir encará-lo melhor. — E se o senhor já terminou com todo esse interrogatório, nós dois precisamos voltar para o caso.
Me afastei dele virando-me na direção da porta de sua sala, dei apenas um único passo e Garcia logo a abriu de uma só vez, se desculpando por nos interromper e entrar daquela maneira na sala dele.
— Senhor, ele atacou de novo. — Ela falou preocupada.
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