Stray Heart
11 Forgotten Night
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Arthur acordou ao meio dia, sentindo-se como um morto. Uma dor aguda martelava em sua cabeça, e ele mal conseguia pensar. Além disso, sentia como se tivesse levado um soco no rosto, e tinha sintomas de resfriado.
Ficou alguns instantes olhando o teto, tentando se recordar do que tinha acontecido na noite anterior. Ele não se conseguiu lembrar-se de nada, porém. Quem mandou beber, Arthur?
Quando ia preparando para se levantar preguiçosamente, observou que havia algo cobrindo parte do seu corpo. Era um tecido marrom e pesado, mas confortável, com um colarinho peludo. Um casaco...?
Ele se lembrava... Ele se lembrava de ter visto aquele casaco em algum lugar na casa de Alfred, no dia anterior. Mas como aquilo tinha ido parar ali? A última vez que vira o garoto fora na tarde da sexta, quando fora lhe entregar o smoking...
Além de que... Aquele casaco tinha o cheiro de Alfred. Quer dizer... O cheiro do perfume que ele usava. Não que Arthur estivesse cheirando a roupa porque o cheiro era dele, mas porque... O cheiro era bom, isso.
Bem, não importa como tivesse ido parar ali, aquela roupa fora a única coisa que cobrira o seu corpo durante a noite. Se não fosse por aquilo, ele provavelmente teria pegado um resfriado, com o vento frio da noite que entrava pela janela aberta.
Deixando de lado o casaco, Arthur se espreguiçou, resmungando das dores, e levantou-se rumo ao banheiro para tomar um banho e tirar aquelas roupas misteriosamente molhadas. Ele não saiu de casa durante todo o resto da tarde, apenas dormiu por mais algumas horas e leu algumas páginas de um livro. Não teve paciência para ligar seu notebook ou muito menos treinar guitarra.
Quando desceu as escadas para comer alguma coisa, a sua mãe perguntou algo sobre a noite anterior, mas ele conseguiu driblar e mentir. Não tinha bebido, não tinha fumado nada, estava tudo bem. Entretanto, ela viu que seu rosto estava com um hematoma e percebeu que o filho parecia resfriado, espirrando constantemente. Arthur, já com a estratégia em mente, assumiu que alguém tinha acertado-lhe o rosto acidentalmente com... Com uma bola, que ele não sabia de onde tinha vindo, mas era uma desculpa convincente – mesmo que Elizabeth não tivesse acreditado muito, sinceramente. Arthur estava ficando experiente em mentir e driblar as questões de sua mãe, mas às vezes pensava que ela não se importava mesmo.
No final da tarde, porém, o seu celular começou a tocar uma música do Green Day, quebrando o silêncio do seu quarto.
Era Drake. Arthur não tinha falado com ele desde... Desde o começo da festa, pelo que se lembrava. Eles chegaram juntos na casa do amigo de Joey, mas então o punk de moicano disse que precisava acertar umas contas com uns caras e sumiu pelo restante da noite. E daí, Arthur não se lembrava do que tinha acontecido. Nem sabia como tinha chegado em casa. Talvez Drake realmente tivesse aparecido, no final das contas, e lhe levado para casa porque estava bêbado demais. Arthur sorriu de leve. Drake conseguia ser uma pessoa muito gentil se se esforçasse.
– Oi, Drak...
– Pra onde é que você foi ontem, hein? – Foi a primeira coisa que Arthur ouviu, na voz de Drake, que soou ríspida e rude, assustando-o um pouco.
– O quê? Eu... Eu não fui a lugar nenhum...! – Arthur tentou, confuso. Mas nem ele sabia se tinha ido a algum lugar na noite passada. Nem sequer sabia como tinha ido parar em casa, na sua cama, por mais que tentasse montar hipóteses.
– Ah, puta que pariu, Arthur, eu não vou cair nessas tuas mentirinhas – Resmungou a voz do outro lado da linha. – Você sumiu da porra da festa sem mim! Eu não disse pra me esperar, caralho?!
–... Eu sumi? – Balbuciou Arthur, completamente desconcertado. – Mas... M-Mas eu lembro que... Eu não estava conseguindo te achar! Você também sumiu!!
– Mas eu tinha umas coisas pra resolver!!
– Que coisas?
– Assunto confidencial, tá ligado? Não posso te contar dessas merdas.
– Quê?! A-Agora é você quem tá mentindo! – Protestou Arthur, irritadamente socando a cama e grunhindo com uma pontada de dor na cabeça.
– Mas eu tenho razão. Pô, a gente tinha combinado de ir lá em casa depois da festa e você vacila comigo de novo!
Arthur se sentiu incrivelmente mal por aquilo, mas honestamente, lá no fundo, estava aliviado. Tinha conseguido evitar – ou pelo menos adiar – aquele evento com o qual estava tão nervoso. Mas tinha deixado Drake irritado, e não gostava de Drake irritado. Ninguém gostava. Ele era muito gentil quando queria, mas quando queria ser grosso, era ainda mais ameaçador do que Arthur. O mais novo sabia: Tinha o visto em brigas que quase se tornaram lutas com alguns outros punks que ele não conhecia, e Drake sinceramente dava medo em qualquer um.
– Desculpa... Mas eu não sei como eu cheguei em casa, eu juro, eu não lembro de nada...
– É isso que dá quando ‘cê bebe, só com umas latinhas, ‘cê já faz merda. Porra, Arthur – Cuspiu Drake, com pura amargura na voz.
– E-Eu sei... Mas... Me desculpa – Repetiu Arthur outra vez, abaixando a cabeça e sentindo-se patético.
– ‘Cê só pede desculpas, não faz mais nada – Drake fez um estalo com a língua e rosnou impacientemente. – Olha, não vou poder ligar por esses dias, tenho umas paradas pra resolver.
–... Tudo bem – Murmurou o garoto, encolhendo-se na cama quase em posição fetal. – Até mais...
O outro punk respondeu com um resmungo que não era nada parecido com um “tchau” ou algum familiar dessa despedida, e Arthur ficou ouvindo o som repetitivo que provinha do telefone quando este foi desligado. Quando se cansou do barulho, jogou o celular em algum ponto aleatório da cama e sentou-se na beirada, apenas olhando ao redor do quarto. Como se seu humor já não estivesse péssimo antes, agora tinha conseguido ficar ainda pior. Ele suspirou pesadamente com o pensamento.
E então perguntou-se outra vez... Como tinha voltado para casa na noite passada? O que exatamente tinha acontecido na noite passada? Ele se lembrava... De que bebera algumas latinhas de cerveja que lhe foram oferecidas por umas pessoas, e então... Era como se tivesse saído de si, pois as únicas memórias que tinha do tempo que passara bêbado eram um borrão confuso de coisas sem sentido. E ele teve medo, porque sabia que outras pessoas o viram e o aturaram quando estava nessa situação. Que embaraçoso, por Deus. Nunca ia beber outra vez.
Olhou para o outro lado de sua cama de casal, onde estava aquela jaqueta marrom, dependurada na beirada. E teve certeza, agora já mais consciente, aquela era uma prova dos eventos da noite anterior. Arthur tentou colocar a mente para funcionar, ainda que sua cabeça doesse. Drake nunca usaria uma jaqueta daquelas. A única alternativa plausível era Alfred. Mas como aquilo tinha ido parar ali? Era a questão. Será que Arthur tinha pegado emprestado por algum motivo quando passara na casa dele e não se lembrava?
Ele forçou ainda mais a mente, mas não conseguiu imaginar muitas hipóteses possíveis. Era um mistério. Mas Arthur tinha que desvendá-lo, ou não conseguiria pensar em outra coisa durante todo o final de semana. E foi apenas isso o que fez.
–-
Seria um domingo trivial. Férias de verão, o sol escaldante no topo do céu, todos dormindo até tarde para acordar no horário de almoço e passar o dia inteiro à deriva no sofá. Resumindo-se em uma palavra, entediante. Mas isso não importava muito para Matthew. Ele gostava de domingos, porque eles eram tranquilos e silenciosos, e ele podia acordar mais cedo enquanto todos estivessem dormindo e desfrutar – mesmo que apenas por alguns breves minutos ou horas – do silêncio quase absoluto. Ele tinha se acostumado muito ao silêncio. Talvez fosse também porque Matthew dificilmente abria a boca.
Ele teria seguido aquela rotina – mesmo que domingo fosse exatamente o dia para abdicar-se dela – normalmente naquela manhã morna. Teria se levantado de pijama e caminhado até a cozinha para comer panquecas com xarope de bordo, ouvindo os pássaros cantarem da janela. E depois, voltaria para o quarto para terminar um livro. Ele faria isso se aquele fosse um domingo normal. Mas desafortunadamente, era dia primeiro de julho.
Foram a sua mãe e a sua irmã que entraram no quarto às oito da manhã, cantando parabéns para você. Matthew já estava quase acordado, então não se assustou com o barulho, mas a surpresa em seus olhos ao levantar e ver um bolo nas mãos dos três parentes revelou que ele mesmo tinha se esquecido de que dia era. Como alguém se esquece do seu próprio aniversário? Bem... Talvez fosse porque Matthew ainda estivesse divagando muito constantemente sobre uma pessoa.
Matthew sorriu embaraçado e quando os três pararam de cantar e comemoraram, repetindo o seu nome, apagou a vela com um sopro sutil. A Sra. Williams aplaudiu contente e Madeleine colocou o bolo sobre a mesinha, sorrindo e abraçando o irmão – que ainda estava sentado na cama, de pijama. Sua mãe fez o mesmo, e ele já não sabia mais como reagir aos repetidos “parabéns”.
– Mattie, querido, é melhor você se trocar! Temos que arrumar a casa para mais tarde. – Disse sua mãe, juntando as palmas com um único aplauso.
Ah, sim. Os seus pais tinham insistido em fazer uma espécie de festinha pelo seu filho estar completando dezessete anos. Matthew tentou dizer que não fazia questão, e que eles poderiam fazê-lo feliz comprando um livro ou algo assim, mas os dois insistiram com o argumento “Não se faz dezessete anos todo dia”. O garoto não teve muito como argumentar, e os seus pais convidaram vários de seus amigos – amigos de seus pais, não amigos do próprio Matthew. Ele mal tinha amigos, na verdade – para jantarem na casa à noite.
Não que o garoto não estivesse feliz por seus pais terem considerado tanto o seu aniversário a ponto de insistirem em uma espécie de festa. Mas... Pessoas iam estar em sua casa. Muitas pessoas... Bem, não tantas, mas assim mesmo, Matthew foi tomado por um nervosismo durante a tarde.
Desta vez, foi ele quem ficou discretamente checando o telefone. Talvez alguém ligasse e lhe desejasse parabéns... Se esse alguém se lembrasse de que dia era. Mas durante toda a tarde, o telefone apenas tocou uma vez, e quando o garoto atendeu cheio de expectativa, descobriu que era apenas uma das amigas de sua mãe.
Por volta do final da tarde, sua mãe já tinha arrumado e limpado toda a casa, e o jantar estava quase pronto. Todos os da casa estavam arrumados e perfumados, incluindo Matthew, que abrira mão dos seus moletons por um dia e vestira uma camisa social que nem se lembrava que tinha. Mas gostou da imagem no espelho, embora ainda não estivesse feliz com o próprio rosto.
Ele esteve bastante nervoso com as visitas, mas na verdade, poucas pessoas vieram. Primeiro uma tia meio chata, uma avó que nunca se lembrava do nome do neto e mais alguns membros de família com quem Matthew não falava muito. Ele não falava muito com ninguém, nem consigo mesmo...
As visitas lhe desejaram parabéns, apenas, lhe dando um abraço. E depois sentaram-se à mesa e passaram a conversar uns com os outros sobre assuntos familiares desinteressantes e a novela, deixando Matthew sozinho. Era como se tivessem se esquecido, ou... Como se não se importassem com ele.
Por isso ele refugiou-se no seu ninho outra vez, quando cansou de ouvir papos alheios sobre coisas triviais na mesa. Pediu licença, foi para o quarto e sentou-se na cama, apenas olhando ao redor e suspirando.
Eram oito da noite e ninguém exceto seus parentes distantes tinham lhe desejado parabéns. Ele ainda estava esperando... Para que alguém ligasse para ele e dissesse que gostava muito dele e lhe desejava um ótimo dia. Ou qualquer outra coisa legal, não importava.
Matthew estava folheando desanimadamente um livro que uma tia lhe dera. Provavelmente ela não sabia ler ou realmente não entendia de literatura, pois aquele livro era uma porcaria. Devia ter ouvido sua mãe dizer que ele gostava de ler e comprado um volume barato qualquer sem nem sequer ler a sinopse ou pelo menos o título. Argh.
Ele estava prestes a jogar aquele negócio pela janela ou incendiá-lo gentilmente quando ouviu a voz do seu pai do lado de fora do quarto depois de duas batidinhas na porta.
– Matthew, chegaram uns amigos meus. Venha aqui, quero te apresentar a eles.
Ah, não. De tudo que ele não queria ter que fazer no seu aniversário, aquilo estava nos primeiros lugares do ranking. Amigos do seu pai. Deviam ser chatos, confundir sua idade e subestimarem-no. Matthew detestava quando lhe subestimavam, julgando-o ser apenas um garoto bobinho e desajeitado que tirava boas notas, sem nada mais no seu interior.
Suspirou duas vezes seguidas antes de se levantar e sair do quarto relutantemente. Haviam duas pessoas que ele ainda não conhecia na sala. E evidentemente eram parentes, porque pareciam clones um do outro. Um homem elegante com terno e gravata sorria. Ele aparentava estar na meia-idade, assim como o pai do canadense, e possuía barba e bigodes ao estilo francês. Tinha cabelos loiros e ondulados, que estavam soltos, e olhos num tom de azul.
O rapaz ao seu lado era quase idêntico, exceto pela visível diferença de idade: Ele devia estar entre os dezenove ou vinte anos. Tinha os mesmos olhos azuis, uma cor bonita e profunda como uma cor que o céu atinge na transição da tarde para a noite. Os cabelos eram iguais aos do pai: compridos e loiros, mas os do rapaz estavam presos na parte de trás da cabeça, lhe dando um ar... Charmoso. Ele estava com uma camisa de mangas azul e listrada – para ser mais francês, só uma boina e um pão comprido – e parecia elegante e despojado ao mesmo tempo.
Quando o Sr. Williams retornou à sala seguido do seu filho, os dois presentes olharam em sua direção. Sob o olhar do rapaz mais novo, Matthew sentiu um nervosismo aflorar do nada dentro de si.
– Jean, Francis, esse é o Matthew. Matthew, esses são Jean e Francis Bonnefoy.
– Ah... P-Prazer em conhecê-los, senhores! – Gaguejou Matthew, fazendo uma espécie de reverência.
– Então este é o aniversariante de hoje? – Perguntou o Sr. Bonnefoy com entusiasmo. Não existiam mais dúvidas de que ele era cem por cento francês.
– S-sim, é hoje...
O homem mais velho puxou o garoto para mais perto e lhe deu um beijo em cada bochecha como se eles se conhecessem há anos.
– Bon Anniversaire, petit! – Congratulou para um Matthew confuso com o contato afetuoso de um estranho tão subitamente. – Você é um belo jovem, assim como sua irmã! Aposto que são inteligentes como o pai.
Matthew deu um sorriso acanhado, sem saber muito o que responder. O Sr. Williams agradeceu o elogio do amigo e Bonnefoy sorriu, demorando um breve instante para se lembrar do que diria em seguida.
– Ah, pardon, não apresentei vocês dois ainda. Este é o meu Francis! Creio que ele seja só pouco mais velho que você!
E então o rapaz de camisa listrada também aproximou-se de Matthew e lhe deu dois beijinhos na bochecha. Desta vez, Matthew não conseguiu evitar corar ainda mais.
– Prazer, mon cher! Bon Anniversarie! – Disse com o sotaque francês e o afeto excessivo que deixava Matthew ainda mais embaraçado.
Quando o rapaz se afastou, Matthew registrou o milésimo de segundo em que seus olhos se encontraram. Os olhos dele pareciam ainda mais bonitos de perto...
– A-Ahn... O prazer é meu... — Murmurou o canadense, desviando o olhar ao perceber-se quase perdido nas íris azuladas do outro.
O rapaz francês deu uma risadinha contida naquele sotaque, e Matthew fitou-o por um segundo antes de desviar o olhar. Ele podia sentir o seu rosto tomando cor e aquele leve arrepio a erguer os pelos de sua nuca, mas... Por que ele estava reagindo assim a uma pessoa que acabara de conhecer? Matthew era bastante tímido, mas apenas sentir que Francis estava olhando para ele lhe deixava mais nervoso do que nunca.
Ele encarou o chão por um tempo curto, mas que para o garoto pareceu demorar horas, esperando que alguém dissesse alguma coisa. Então percebeu que seu pai e o Sr. Bonnefoy estavam conversando animadamente sobre alguma coisa a respeito de seus respectivos empregos, e Matthew e Francis tinham sido deixados ali, naquela situação esquisita e constrangedora. Era como se os dois pais dos garotos tivessem feito aquilo de propósito.
Já deviam ter se passado dez segundos de silêncio, e o canadense não aguentava mais. Tinha que falar alguma coisa... O que quer que seja...
– E-Err... Então, você... Você gosta de maple syrup...?
“O quê? O que foi isso, Matthew? Não se pergunta coisas assim para as pessoas... Argh!”, o garoto xingou si mesmo mentalmente, perguntando-se por que era tão estúpido.
Mas parecia que Matthew tinha falado tão baixo que Francis nem sequer o ouvira direito – ou talvez não tenha ouvido porque estava distraído com a decoração da casa -, ao que perguntou:
– O que disse, cher?
Matthew pensou em perguntar por que ele lhe chamava de “cher”, mas seria algo ainda mais idiota a se fazer. Ele sabia o que significava, pois desde criança tivera francês como uma segunda linguagem e era praticamente fluente, embora não praticasse muito o idioma. Acontece que a voz do francês a repetir “cher” quando se referia ao garoto lhe deixava ainda mais envergonhado, aquele gelo no estômago quase tão forte como o inverno canadense.
– Ahn, nada não – e tentou mostrar um sorriso fraco para o francês, que sorriu de volta e felizmente puxou outro assunto.
– Vocês têm uma bela casa! – Comentou Francis, olhando em volta, e em seguida pousando os olhos em Matthew novamente, que enrijeceu. – A propósito, quantos anos está completando hoje, Matthew?
– Ah... Dezessete – Murmurou o garoto, tentando sorrir um pouco.
– Oh, pensei que ainda estivesse nos quinze, ou algo assim! – Francis riu, e Matthew imitou-o, ainda que meio incerto. “Por que eu tenho cara de quinze anos?”, viu-se perguntando o canadense em seguida. – Eu vou completar dezenove daqui a algumas semanas – Adicionou o francês, sorrindo.
– A-Ah... Eu devo ter ouvido que você passou num curso de gastronomia – Disse Matthew, no desespero de responder algo que não matasse o assunto. – Q-Quer dizer, uh, foi o meu pai quem me disse...
– Oui... Quer dizer, sim! Eu preciso parar de falar francês, afinal, estamos em território americano! – Francis riu de si mesmo, passando uma mão pelos cabelos e fazendo o coração de Matthew pular uma batida. – E você tem alguma ideia do que vai cursar?
– Eu... Eu não sei ainda, err... – Murmurou o canadense, sentindo-se estúpido.
– Não tem nenhuma área que você goste? Algum hobby?
– Bem, eu gosto... D-De ler, e cozinhar às vezes, mas... Eu não sou bom na maioria das coisas...
– Oh, você gosta de literatura também? – Incentivou Francis.
– Err, sim... Eu tenho muitos livros, e... E...
– Eu adoraria ver, se for possível – O francês disse, fitando outra vez os olhos púrpura do garoto. Ele nunca... Tinha visto alguém com olhos daquela cor. Lhe lembrava uma cor que o céu atingia nos finais de tarde agradáveis que passara em sua vida na França.
– V-Você quer ver?
– Claro!
–... Então tá, é... O meu quarto é por ali – Disse Matthew, desajeitadamente conduzindo o francês para uma porta branca no corredor. Ninguém que estava na sala se importou, e Francis seguiu o canadense até encontrar-se dentro do quarto.
Assim que o francês adentrou o cômodo, seus olhos passaram por todo o conteúdo do lugar, impressionados com a arrumação atípica, mas fixaram-se na estante de livros, todos organizados em ordem alfabética pelo nome do autor. Ele se aproximou do móvel para observar os volumes mais de perto, surpreendendo-se ao perceber que Matthew tinha um ótimo gosto literário. Ele até tinha alguns clássicos da literatura francesa em francês, e Francis pegou um volume da estante, fitando-o e logo depois olhando para Matthew, que também observava-o do outro lado do quarto.
– Você tem um ótimo gosto literário! – Francis disse com um sorriso. – Vejo que aprecia a literatura francesa assim como eu. Meu país é um lugar maravilhoso, assim como a cultura dele!
– É... Verdade, eu gosto muito da França. Os meus bisavós eram franceses, e minha família meio que adquiriu a cultura francesa, e eu aprendi a falar francês desde criança... – Matthew sorriu encabulado, e em seguida arrependeu-se, preocupado em ter falado demais sobre si mesmo.
– Que interessante! Você parece uma pessoa de muito bom-caráter, Matthew. – Francis inclinou a cabeça levemente para o lado, fitando o canadense com carinho. – Posso te chamar de Matt, cher?
– C-Claro... – O garoto replicou com uma voz fraca e baixou a cabeça. Por que ele tinha uma facilidade tão grande para corar? Ugh, ele ficava ainda mais patético. –... Você também é uma pessoa... M-Muito simpática, Sr. Francis.
– Só me chame de Francis, cher! Que é isso, nós só temos dois ou três anos de diferença! – Ele riu, fazendo um gesto com a mão. Matthew riu também, envergonhado, e Francis folheou o livro por um instante antes de voltar a falar – Eu acho mesmo que deveríamos ser bons amigos.
– Eu? Um... Acha que eu... Posso ser seu amigo? – Balbuciou Matthew, pego de surpresa. Ele nunca se achava bom o bastante, então o que Francis dissera fora algo incomum e ainda assim algo que lhe deixou muito feliz. Tanto, que demorou para conseguir acreditar na ideia.
– Claro que sim! Por que não? Nós temos muitos interesses em comum, e nossos pais também são bons amigos. Eu gostei muito de você, Matt. – O tom na voz de Francis era tão sincero que Matthew sentiu seu coração bater ainda mais rápido do que já estava batendo antes.
– Então... P-Podemos ser amigos sim – e tentou sorrir mais abertamente, quase fazendo uma careta acidental.
O sorriso que o jovem francês lhe deu de volta lhe deu um arrepio na espinha, e a sensação de pedras de gelo no estômago, mas ele estava tão contente que não conseguiu desvencilhar-se do sorriso no rosto. Francis... Parecia lhe entender. Ele era gentil, tinha os mesmos gostos, e... Era tão bonito.
Talvez aquela pessoa fosse a escolhida para ele. A pessoa certa, possivelmente. Depois de ter se magoado tanto com as pessoas erradas, Matthew teve certeza de que Francis não seria uma daquelas. E o canadense sinceramente esperava que ele desse uma reviravolta em sua vida, porque já estava cansado de sonhar com coisas irrealizáveis e se lamentar com tudo. Porque Francis era diferente. E agora, seu amigo.
–-
Desde a noite da agitada sexta-feira, Alfred não tivera notícias de Arthur. Não que ele se importasse tanto assim, claro... Só... Esperava que ele estivesse bem.
É claro que ele estava bem. Mas Alfred não podia dizer que se sentia do mesmo jeito. Era como se desde aquele dia, algo esquisito tivesse se instalado nele, como um vírus de uma doença, e que gradativamente crescia de intensidade.
Depois de algumas míseras horas de sono, o garoto acordou sentindo-se mal, ainda que a única coisa que tivera bebido na noite anterior fora uma taça de vinho. A primeira coisa que fez – depois de comer, porque ele ainda era Alfred – foi checar o celular. Arthur ainda devia estar dormindo, então ele preferiu não ligar. Além disso, era claro que ele estava de ressaca, visto o seu estado na noite anterior... E se Arthur já era mal-humorado, Alfred não queria nem vê-lo de ressaca.
Ele tinha quase se esquecido de que a princípio ele tinha planejado sair com o punk naquele dia, mas é claro que seria impossível. Além de que... Alfred não sabia se já estava pronto para vê-lo novamente depois do acontecido. Ele ainda estava processando aquelas informações, tentando entender o que diabos estava se passando na cabeça de Arthur e na sua própria.
O nerd realmente esperava que Arthur não se lembrasse do que tinha feito – ou melhor, tentado fazer – enquanto esteve com provável absurda quantidade de álcool no sangue. E mesmo que inconscientemente, queria ter estado bêbado também, então também esqueceria aquilo e tudo estaria normal como antes em sua cabeça.
Mas não. As memórias ainda estavam frescas e lúcidas no seu consciente. De como o cabelo de Arthur tinha um brilho peculiar sob a luz fraca e amarelada da rua; das palavras sem sentido que ele sussurrara ao seu ouvido enquanto o garoto lhe arrastava pelo jardim; do momento em que Arthur subira em si para tentar alcançar o telhado e da risada tola e rara que ele persistia soltando a todo instante, como se tudo fosse engraçado.
E era bem... Estranho. Era como se toda a atmosfera entre eles fosse diferente agora. Só de repetir a cena – de Arthur tentando... tentando fazer aquilo – em sua cabeça, Alfred sentia-se embaraçado. Não sabia por que virara o rosto, talvez por impulso, mas também não saberia o que fazer se Arthur tivesse atingido sua meta, nos lábios do nerd. E... E tudo aquilo lhe deixava nervoso, confuso, envergonhado...? Alfred nem sequer sabia explicar.
Durante todo o sábado, o punk não deu sinal de vida. Nem no domingo. Alfred tentou não pensar nele e não criar hipóteses que beiravam o pior, e passou o dia falhando em fingir que não estava nervoso. Tanto que mal se lembrou de que seu aniversário era daqui a quatro dias. Ele já tinha alguns planos, mas fazer uma festa para os dezessete seria inútil. Quem iria? Maddie, algum primo, talvez Matthew... Arthur... Não, não era muito esperado que Arthur fosse. Ele provavelmente tinha compromissos com aqueles punks.
No sábado, porém, Madeleine ligou ainda de manhã, e Alfred recordou-se de que estivera inconscientemente preocupado sobre ela e o que o pai dela tinha achado do jantar e do pretendente da sua filha. A garota anunciou que seu pai tinha gostado muito de Alfred, mas este não conseguiu acreditar muito no tom de voz da namorada. Não queria ser pessimista, mas ele não era assim tão perfeito. Bem, pelo menos o Sr. Williams não tinha dito nada realmente ruim... Ou talvez sim. Mas Alfred nem queria saber.
Em algum momento na tarde de domingo, o garoto pensou estar se esquecendo de alguma coisa, mas não conseguiu se lembrar do que era e apenas voltou a jogar videogame e comer pipoca até se esquecer de tudo — Arthur, a sexta-feira, o Sr. Williams — e concentrar-se em matar todos os zumbis que apareciam na tela da televisão.
Fale com o autor