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Capítulo 3 – As Cores

Head under water, now I can\'t breathe
It never feelt so good
David Guetta ft Kelly Rowland

Azul. Era a cor dos olhos do Rudy.

E seus cabelos perdiam a cor de limões, escureciam. Mas a essência continuava lá.

Meu vizinho com cabelos da cor de limões.

Eu adorava olhar naqueles olhos.

Sabe? Quando a gente sente a respiração pesada, o ar difícil de penetrar nos pulmões. Simplesmente por estar afogando.

Uma maré azul.

Um céu.

Ele estendeu a mão e afastou uma madeixa do meu cabelo que caía em meus olhos. Seu toque fazia a minha pele arrepiar.

E ele sabia o poder que tinha em mim. Quase tão intenso quanto o que eu tinha sobre ele.

Sorriu.

Ajeitei-me melhor na cama improvisada do abrigo, para olhá-lo de frente.

-Eu te amo. – Me disse. Sorri.

Estava na ponta da minha língua, prestes a sair. E eu sabia que a qualquer momento ele se inclinaria pra mim e me beijaria.

Abri a boca sem me lembrar onde estava minha voz.

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-Liesel! Saumensch! – Mamãe me chamou, delicada como sempre. Rudy bufou, tirando a mão do meu rosto e sentando de costas pra mim. Sentei-me também, no momento exato que mamãe “entrou” no nosso quarto.

-Sim, mamãe.

-Venha, tem uma pessoa que quer vê-la. – Franzi a testa, curiosa. Alguém pra me ver? – E arrume esse cabelo. – Completou, saindo.

Passei as mãos automaticamente no cabelo, para abaixá-lo. Enquanto descia da cama, penteava-os com os dedos e fiz uma trança de qualquer jeito. Rudy continuava no mesmo lugar.

-Já volto. Não saia daqui.

Ele apenas revirou os olhos.

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Foi quase como levar um susto que eu reagi quando a vi. Trudy abriu um sorriso e os braços conforme me aproximei.

Trudy. Tanto tempo que não a via.

-Oi Liesel. – Falou. Havia um tom emocionado em sua voz. – Você está tão linda...

-Obrigada, Trudy. Senti sua falta.

-Eu também, de todos vocês.

Olhei um pouco além dela e vi papai conversando com um senhor de roupa social, como um motorista de gente chique.

-Estou completamente aliviada por vocês estarem bem, de verdade.

-Por isso veio aqui? – Perguntei, tentando entender a visita tão repentina duas semanas depois do bombardeio.

-Também.

Papai e o homem se aproximaram. Um homem de chapéu, com olhos verdes muito chamativos. Me cumprimentou com um aceno de cabeça e eu sorri simples.

-Esse é Otto, motorista da família pra quem eu trabalho. – Ela apresentou do nada. – Tenho uma noticia pra você, Lis.

Levantei a sobrancelha. As pessoas estavam pra fazer mistério hoje.

-Por favor, diga de uma vez.

-Vou tirá-los daqui.

Não absorvi a informação de imediato.

-Como assim? – Perguntei claramente confusa.

-Meus patrões deixaram que vocês fossem morar lá também, trabalhar pra eles enquanto eu faço mais serviços pro governo. Por isso que eu não vim antes. Eu os estava convencendo que vocês poderiam ficar lá.

-Ir morar... com você? Lá, com você? – Falei, tentando associar o que ela dizia.

-Isso. Você vai estudar numa ótima escola. Já falei pra eles que é super inteligente. E vai poder trabalhar. Tenho certeza que vai gostar de lá e que eles vão gostar de você, porque você é uma garota linda.

Pisquei algumas vezes.

-Só até as coisas acalmarem, as casas serem reconstruídas. Vocês voltam pra Molching. – Explicou. Respirei aliviada.

-Nós voltamos. – Falei mais pra mim.

-Sim. – Trudy disse, com uma piscadela. – E acredito eu que você terá seu próprio quarto.

Olhei para mamãe e papai, eles estavam sorridentes e suaves. Naquele momento eu soube que não seria difícil deixá-los felizes. Eles queriam aquilo. Eu não atrapalharia.

Até porque eu queria um pouco de privacidade, saudades do porão.

-Você vai voltar a ver o Rudy, não se preocupe.

Aquiesci, um sorrisinho inventando de brotar em meus lábios. É, eu sabia.

Rudy.

-Vá arrumar suas coisas, Otto nos levará agora.

-Agora?

-Agora.

-Mas mamãe...

Mamãe apontou suas coisas arrumadas no canto.

-Espertinhos.

-Vá, Liesel! – Trudy me empurrou de leve pelos ombros. – E despeça-se do Rudy. – Sussurrou em meu ouvido.

Virei-me e lancei um olhar reprovador pra ela, que a fez rir.

-Trudy... – Resmunguei antes de voltar pro “quarto”.

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Ele não estava lá, não me obedeceu.

Fiquei desapontada.

Em silêncio, arrumei minhas coisas numa mala. Guardei os livros entre as poucas roupas que foram salvas do bombardeio e que eu tinha que lavar dia sim, dia não.

Apenas um livro ficou de fora.

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Entreguei a mala para o Otto – que até trocou algumas palavras comigo – colocar no carro. Pedi mais um tempo para Trudy, eu precisava encontrar o Rudy.

E com um olhar cheio de significado ela me falou que tudo bem. Que só queria sair em meia hora, pra conseguir chegar na casa dos patrões com dia ainda claro.

Não precisei de meia hora.

Rudy estava do lado de fora do ginásio da escola que servia como abrigo para nós, desabrigados de Molching. Fumava um cigarro sozinho.

Geralmente ele fazia isso comigo.

Senti-me insultada.

-Não acredito que quer me privar desse momento. – Falei com falso ressentimento. Ele me olhou indecifrável.

O problema era que eu sabia decifrá-lo. E aquilo significava que ele sabia – que eu estava indo embora por tempo indeterminado – e ele sentia tanto quanto eu.

Me estendeu o cigarro e eu aceitei, puxando um trago.

A nicotina tinha aliviado bastante a tensão naquelas duas semanas, mas o que a gente gostava mesmo era de ficar olhando um pro outro. A anestesia nos receptores cerebrais era só um adicional.

Devolvi o cigarro, olhando-o nos olhos.

Olhos azuis.

-Traidora. – Ele falou sem emoção, tragando o cigarro novamente. Soltei a fumaça devagar.

Rudy não me enganava.

-Foi tudo idéia dela, não reclame comigo.

Ele deu de ombros, soltando a fumaça.

Ficamos em silêncio, dividindo o cigarro até que ele acabasse.

O sol começava a tombar no céu, estava próximo das 15h.

-Eu vou voltar, Rudy. – Falei, numa tentativa de puxar assunto. Ele não respondeu nem me olhou.

Permaneci ao lado dele, esperando. Eu o conhecia muito bem.

-Está me traindo mesmo assim. – Disse finalmente.

-Por que trair?

-Porque vai me deixar. Por tempo indeterminado.

-Eu vou voltar.

-Quando, Lis? – Perguntou de forma mais agressiva, se aproximando um passo. Meio que me encolhi.

-Eu não sei, mas... – Estendi a mão para tocar seu rosto, mas ele me cortou, afastando-se.

-Você é incrível, Liesel. Você não me dá respostas concretas, você se esquiva de mim. – Aproximou-se novamente. – Eu nem mesmo sei se você me ama, porque você nunca me fala.

Eu não realmente absorvi o que ele disse, estava perdida demais em seus olhos.

Estendi uma mão para seu rosto perfeito, já ganhando marcas mais adultas, passando o dedão na maçã de seu rosto.

Rudy paralisou. Não falou mais. Quase não respirou mais.

E eu sabia que não poderia mesmo ir sem previsão de volta e não mostrar-lhe de que a minha partida era feita.

Deixei que minha mão saísse de seu rosto, tombando-a ao lado do meu corpo. Aproximei-me, deixando nossos corpos praticamente colados.

Ele era tão alto, tinha crescido tanto...

Nossos olhos estavam conectados. Eu sentia que seria impossível deixá-los sem um preparo psicológico.

E suas mãos seguraram minha cintura com força, como se tentassem me impedir de fugir.

Estiquei-me em meus pés e percebi meu corpo inclinando pra trás conforme Rudy se inclinava pra mim. Subi minhas mãos por seus braços, agarrando o tecido de sua blusa ao mesmo tempo que já sentia sua respiração quente com cheiro de fumo em meu rosto.

Minha pele se arrepiou completamente quando fechei os olhos, sentindo seus lábios encostarem nos meus com delicadeza. Respirei fundo, subindo uma de minhas mãos para sua nuca para trazê-lo mais pra mim ao mesmo tempo que ele me suspendia um pouco, enlaçando minha cintura com firmeza.

A batalha que nossas línguas travaram não durou muito. Separamo-nos, buscando um pouco do ar e logo voltamos a nos beijar, um tanto mais urgente. Eu tinha que ir.

Tinha que ir.

Puxei-lhe os cabelos, afastando-o. Minha respiração acusando toda a minha afobação.

Relutante, abri os olhos.

Rudy me encarava, também ofegante. A luz do sol batendo em seus olhos. Tantas cores.

-Preciso ir. – Falei incrivelmente sem voz.

-Não precisa, não. – Falou, me fazendo rir. Eu ainda estava presa em seu aperto e – sinceramente – não estava ligando pra sair de lá.

-Eu preciso.

Seus olhos desfocaram. Naquele momento eu soube que seria absolutamente difícil deixá-lo.

Rudy fechou os olhos encostando seus lábios nos meus novamente. Suave, absoluto. Não tinha como não retribuir um beijo daquele.

Foi olhando nos meus olhos com seriedade que ele me falou ao soltar do beijo.

-Eu vou te esperar, Lis. Espero o tempo que for.

Senti a lágrima escapando do canto dos meus olhos. Nem sabia que ela estava lá. Ele me apoiou com um dos braços e secou a lágrima que escorria. Inútil, haviam outras chegando.

-E quando você voltar eu vou estar aqui pra você. Esperando você.

Acenei positivamente com a cabeça, já sentindo meu rosto lavado de lágrimas.

Rudy me colocou no chão suavemente, segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou novamente.

-Eu te amo. – Eu falei finalmente. – Vou esperar pro você.

-Pra sempre. – Ele disse.

-Pra sempre. – Confirmei.

N/A: Oin, adoro esse capítulo, revelei. *-*

O próximo ta encaminhado ^^

Quero agradecer todo mundo que comentou, viu? Eu realmente espero que continuem acompanhando essa fic e sendo sinceros nos comentários ._.

Até o próximo ;D

BL

N/B: OMG, odeio despedidas ._. Ainda mais com esse “Pra Sempre” aí que me faz lembrar de coisas –oi

Enfim, capítulo lindo *______________________*

Não consigo falar mais porque nesse instante eu estou com fome e com sono, aham.

Continuem lendo e sendo felizes *-*

Beijos gelados,

JMcCartyC