Notas iniciais
Vocês podem ouvir Strangers In The Night do Frank Sinatra, foi a música que eu ouvi para escrever.

Maria Marta caminhava por entre as pessoas, ela não conhecia a maior parte delas, se sentiu perdida naquele meio daqueles rostos desconhecidos.

Mais uma vez sua filha não tinha se casado, estava preocupada com Clara, mas conseguia sorrir. Sempre foi assim durante toda a vida, um sorriso no rosto quando estava destruída por dentro.

O garçom passou por ela mais uma vez, ela pegou mais uma taça de champagne, podia sentir os efeitos da bebida em seu corpo. Era só mais uma noite para a Imperatriz.

Seus olhos vagaram pela pista de dança abarrotada de nordestinos que falavam alto, cantavam mais alto ainda e dançavam feito malucos.

E lá estava ele, José Alfredo, o nordestino que tinha tomado o seu coração pra si. O Comendador estava elegante, mesmo dançando daquela forma ridícula, estava charmoso, estava lindo como sempre.

Apesar dos anos terem passado, apesar das rugas, dos cabelos brancos, ele ainda era belo aos olhos dela. Era um manjar dos deuses para se deleitar.

Era uma pena que tinha o perdido, o perdido no meio daquela confusão que tinha sido a vida deles.

Petrópolis, 1985

Marta estava entediada, nada parecia tira-la daquele tédio, nada. Nem mesmo contar o dinheiro do cofre, nem verificar o estado das roupas e dos sapatos no closet, nem observar suas joias.

José Pedro dormia feito um anjo e ela observava a noite de Cidade Imperial pela varanda. Aquela mansão gigantesca parecia minúscula sem os gritos e ordens de seu marido.

Não via a hora de ele voltar pra casa. Estava morta de saudade.

_ A milady precisa de mais alguma coisa? – Silviano apareceu e lhe questionou.

_ O que eu preciso, só uma pessoa pode me dar, Silviano. – ela comentou. – Pode se retirar, eu ainda vou ficar aqui.

_ Está com esperanças que ele voltará hoje, milady?

_ Sim, pode ir. Caso fique muito tarde vou me deitar.

_ Claro, como quiser. Boa noite. – ele fez uma pequena referência e se retirou.

A espera parecia eterna, ela perdeu a noção do tempo que estava ali, acabou voltando pra dentro da mansão. Vestia o seu robe preto, ela caminhou descalça até o bar e buscou o whisky preferido de Zé, encheu um copo com líquido e com gelo.

Ela foi até a sala e se aproximou da vitrola, o disco ainda estava lá, ela o colocou para tocar. A voz melodiosa de Frank Sinatra saiu do aparelho, ela abaixou o volume e se sentou no sofá, cruzou os pernas e começou a tomar a bebida.

Quando percebeu, ela tinha terminado o copo e estava dançando na sala ao som da música, cantava baixinho com medo de acordar o filho. Ela deslizava pelo chão encerado e suspirava imaginando seu amor ao seu lado.

Estava tão concentrada que fechou os olhos e pensou que estava sonhando quando sentiu os braços lhe envolvendo a cintura. O cheiro forte de José Alfredo lhe invadiu as narinas. Ela tremeu de expectativa, quase derrubando o copo no chão.

_ Me esperando outra vez, Marta? – ele sussurrou em seu ouvido com aquele sotaque que ela odiava e amava ao mesmo tempo.

Ela riu e sentiu os lábios dele lhe tocarem o pescoço.

_ Sempre, Comendador. – ela se virou e encarou seus olhos castanhos.

Ela colocou a mão livre em seu rosto, sentindo a barba áspera tocar a sua pele, se arrepiou só pelo fato de toca-lo. Ele beijou a palma de sua mão.

Eles dançaram grudados a música que saia da vitrola.

Era um sonho, tudo que ela vivia do lado dele era um sonho. Não podia definir melhor.

_ Eu tava com uma saudade lascada... – ele começou.

Marta não o deixou terminar lhe tomou os lábios e suspirou ao sentir sua boca se encontrando com a dele. Seu coração batia tão forte que o seu sangue queimava nas veias. Ela o amava tanto que tinha medo. Nunca tinha ouvido falar de um amor tão forte assim.

Ele a segurou com mais força na cintura e Marta suspendeu em sua cintura. Suas pernas travando seu apoio sobre ele. Ele a levou até o sofá e a jogou ali, tirando o copo de sua mão.

Ela amava seu instinto insaciável, queria ama-lo até estar cansada, queria tê-lo dentro de si até não existir um pedaço seu que esteja são. Queria matar aquela sede, aquela saudade, aquela falta. Queria preencher aquele vazio.

_ Eu também... – ela disse, ofegante entre seus beijos. – Eu tava com muita saudade. – ela o puxou pelo colarinho da camisa preta e lhe mordeu o lábio.

_ Marta? – ela estava com os olhos azuis perdidos, totalmente distraída com a sua lembrança. – Ei... – ele a chamou de novo balançando uma mão à frente de seu rosto. – Marta!

Ela suspirou e encarou José Alfredo.

_ Quê, Zé? – ela se fechou novamente para ele.

_ Tava longe, é? Tava pensando em quê?

_ E isso lhe convém? – ela o provocou.

_ Nenhum um pouco. Não quero saber. Só vim lhe avisar que...

A pista de dança recebeu um clima mais romântico e a aquela mesma maldita música tocou. Marta sentiu o coração congelar no meio do peito e encarou José Alfredo. Não era possível que ele não se lembrava. Ele se lembrava, podia ver em seus olhos.

Os olhos azuis de Marta marejaram e ela suspirou, tomando o último gole da taça de champagne.

José Alfredo tinha esquecido o que ia lhe dizer, ele já estava bêbado também. Seria estranho sentir o coração disparado assim? Era estranho estar nostálgico? Era estranho querer pega-la nos braços e dançar com ela?

Os casais da festa começaram a dançar conforme a música e Marta observava Cristina e Vicente dançando descalçados. Enquanto ela ainda era arrebatada por aquela lembrança, podia sentir os toques dele em seu corpo como se fosse ontem, podia ainda ouvir suas juras de amor, seus suspiros e gemidos.

Por que doía tanto?

José Alfredo pigarrageou ao ver os olhos de Marta. Sua garganta estava seca.

_ Quer dançar? – ele tomou coragem e lhe estendeu a mão.

Imaginou que ela iria zombar e lhe provocar, mas não. Ela lhe deu um sorriso de canto, tirou os sapatos e largou a taça de champagne em uma mesa próxima.

Seu vestido azul marinho quase a fez tropeçar sem os sapatos e ela segurou na mão de José Alfredo.

Os convidados e os noivos surpresos pelo o que vinham lhe abriram caminho e eles tomaram o centro da pista. Marta lhe sorriu quando Zé segurou em sua cintura com uma mão e segurou em sua mão com a outra.

Os dois começaram a dançar como se nunca tivessem ficado longe um do outro. Como se soubessem cada passo, cada movimento do outro.

Os filhos que assistiam observavam o casal imperial deslizar pela pista de dança. Marta ainda lhe sorria e José Alfredo também lhe sorriu. A memória não era tão falha, lembrava daquela música que tinha marcado a vida dos dois de forma tão forte.

Ele a tinha feito sofrer, ela o tinha feito sofrer, ele podia sentir o seu coração magoado no fundo do peito, mas aquele momento ele podia deixar a mágoa de lado.

Ela queria lhe dizer algo, mas não conseguia pensar no que dizer. Seus olhos cravados no homem da sua vida. Não queria perdê-lo novamente.

Os convidados começaram a dançar novamente como se nada tivesse acontecido e os dois estavam naquele mundinho só deles. Naquelas lembranças únicas e somente deles.

_ Zé, eu... – ela começou. – Fomos felizes, não fomos? Mesmo com todas as brigas, todos os momentos de baixaria, nós fomos felizes, não? Eu te feliz? Porque eu fui tão feliz... Tão feliz.... – ela lhe deu um sorriso nostálgico.

_ Fomos, Marta. – foi o que ele respondeu, após um suspiro. – Eu fui feliz, sim.

_ Eu nunca... Nunca deixei te amar... Por nenhum segundo, por nenhum momento... Eu sempre te amei, sempre vou te amar...

Suas palavras atingiram fundo o coração de José Alfredo, ele sabia do amor de Marta, mas não lembrava-se de ter ouvido tão sinceramente nos últimos tempos. Os dois viviam em um cabo de guerra eterno, uma briga de gato e rato sem fim.

Marta se calou, tinha falado demais. Não precisava ter aberto o seu coração assim, era mais um motivo para ele lhe zombar o resto da vida. Ela fingiu que nada tinha acontecido e olhou ao redor para os casais que dançavam próximos.

Foi surpreendida quando sentiu as mãos dele lhe tomarem o rosto, ela só conseguiu olhar em seus olhos por alguns segundos antes dele encostar seus lábios nos dela. Ela fechou os olhos e suspirou.

Fazia tanto tempo que não era beijada por ele que parecia a primeira vez. Ainda era doce, delicado e ao mesmo tempo, bruto. Ele lhe tomou a boca e ela lhe agarrou a nuca. Não queria que ele fugisse dali. Queria senti-lo próximo o tempo todo.

Seu coração batia tão forte no peito que ela sentia que iria ter alguma taquicardia.

Quando ele se afastou, Marta abriu os olhos e lhe encarou. Ela sentiu duas lágrimas escorrerem de seus olhos e ele as limpou com a ponta dos dedos. Suas respirações estavam descompassadas e ele encostou a testa na dela. Sentia o seu perfume doce, perfume caro, perfume raro, perfume de imperatriz. Seu cheiro tão característico.

Estava tão entregue aquele momento que sentiu um vazio enorme quando ela saiu de seus braços e correu pela pista o deixando só. Ele podia correr atrás dela e esbravejar, mas estava tão desnorteado que mal conseguia pensar.

Quando chegou em casa, Marta estava trancada no quarto e pela primeira vez em tempos, ele respeitou o seu espaço. Ele dormiu feito uma pedra, com certeza, iria acordar de ressaca.

Marta não conseguiu dormir, a cama parecia lhe tinha espinhos. Ela tinha chorado mais uma vez sobre o travesseiro. Ainda sentia o cheiro de Zé em seu corpo, nos tecidos do vestido. Ela levantou cedo, arrumou suas coisas, se livrou daquele cheiro. Estava na hora de se exilar novamente. Não queria suportar aquela dor de novo, aquela rejeição, aquela humilhação, não depois daquele beijo.

Ela partiu logo cedo com as malas para Petrópolis, agora que eles tinham recuperado aquela mansão tudo entraria nos eixos. Ao chegar ela deixou as coisas no quarto principal e voltou para aquela sala. A mesma de suas lembranças da noite passada.

Enfeitando o espaço estavam as lembranças de tantos dias especiais naquela casa. Ela se afundou no sofá e acabou adormecendo pelo cansaço.

_ Bom dia. – José Alfredo adentrou a cozinha, foi até o armário atrás da farinha para fazer sua tapioca.

_ Bom dia. – Claraíde respondeu.

_ Ô, Claraíde, tu sabe onde a minha mãe foi? – João Lucas apareceu por lá, ainda de pijamas. Surpreso com a ausência da imperatriz.

_ É... – a empregada estava nervosa com a situação.

_ Fale logo, Claraíde. – José Alfredo pediu. – Diga. Anda. Bota pra fora.

_ Ela voltou pra Petrópolis. De mala e tudo, seu Zé. – ela respondeu, gaguejando nas palavras.

_ É o quê? – José Alfredo estava assustado.

_ Ela saiu logo cedo e pelo o que eu sei, ela foi pra lá.

José Alfredo perdeu o apetite na mesma hora, mesmo com a ressaca, ele ainda se lembrava do que tinha acontecido. Só não pensava que Marta fugiria daquela forma. Iria atrás dela, nem que fosse aos cafundós do Judas.

Pela primeira em anos, ele que iria atrás dela. Não ia deixar barato que ela fugisse dele assim.

Notas finais
Comentem :)))))) Eu tô muito apegada nesses putos. (Não sei se vou continuar por agora, tenho outra fic pra terminar.)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.