Strangers
1 Capítulo 1 - O fenômeno do nascer-do-sol.
Quando você nasce, em questão de segundos, os seus pais criam um futuro perfeito para você. Eles manipulam em suas cabeças que as suas únicas distrações será ler e estudar. E até tentam empregar isso. Mas esse planejamento é um paradoxo. Os pais sabem que não vai ser assim, porquê todos nós somos donos de nossas personalidades e atitudes, e não há nenhum santo que possa nos mudar. Com isso eles impõe regras. Mas uma hora ou outro vamos a contradize-las. E eu espero que esse momento chegue logo.
Eu não gosto dessa versão porque ela não se aplica a mim. Eu fui criada, ou melhor, manipulada a ser a filha perfeita. Eu tinha um futuro pronto que só envolvia política – ironia que não sou uma pessoa confiável. Eu respirava e ingeria livros de história que falavam sobre o passado da ciência política do nosso país, todos os dias. Eu tinha professores de a-à-z e nem precisei frequentar as escolas. Eu estudava em casa, dentro do escritório do meu pai. Mamãe nunca fez questão de me colocar em uma escola, afinal, para ela aquele lugar estaria infestado de maus costumes e que nem tudo que os professores passariam para os alunos seria cem por cento verdade. Mas isso era apenas um medo de eu aprender alguma coisa contraditória ao nosso partido.
Se você não entendeu ainda: sou filha do prefeito de Londres.
Eu não nunca tive nenhum contato com outras crianças, a não ser as da igreja evangélica e as do clube do Celibato, que frequento até hoje. Apesar de no clube empregarmos ser sexualmente abstinentes, em um todo, a maioria das garotas são um bando de vadias que em um deslize, perderiam a virgindade sem fraquejar, e pior, com qualquer garoto de esquina. Eu não me incluo nesse grupo, mas como disse: a minha vida é um paradoxo.
A maioria das garotas de lá são desinteressantes, e em minha vista, extremamente engraçadas de tão burras. Os papais usam terninho e carregam uma maleta cheia de dinheiro, por que então elas se preocupariam em pelo menos serem boas em algo? Os garotos de lá juram não usar qualquer tipo de droga ou beber, e quando saem de perto dos pais, só falta engolir o papel que usam para enrolar o cigarro.
As únicas pessoas mais interessantes de lá são eu e o meu melhor amigo Jasper. Basicamente ele é o único garoto que não sou restrita a me aproximar, já que os nossos pais trabalham juntos e um fortalece a campanha política do outro.
Pensar em Jasper me faz lembrar aonde estou e que está na hora de acordar.
(❀ ❀ ❀)
Abri os meus olhos lentamente, reclamando quando os primeiros raios solares invadiram a minha visão. Esperei me acostumar com a iluminação e me despreguicei em cima da toalha. Dormi gradativamente e esqueci gradativamente de onde estava. Quinta-feira, hoje é quinta-feira. Minha boca estava extremamente seca e o meu corpo dolorido, de dormir em um chão recheado apenas de grama. O vento frio daquela manhã cortava o meio dos meus cabelos loiraços e os jogava em minha cara. Grunhi desanimada, e girei o meu corpo para o lado, apoiando os meus braços nos cotovelos, ficando com o rosto apenas uns centímetros do de Jasper.
Eu nunca admitiria isso, mas ele é extremamente atraente. O seu cabelo loiro comprimo é um charme, e os meus dedos coçam para não massagear as suas raízes. A boca inchada está entreaberta, e ele faz um barulho engraçado enquanto suspira. Os olhos verdes estão descansando em um longo sonho, e eu hesito em acorda-lo. Mas hoje é quinta-feira, e fazemos isso todas as quintas-feiras.
“ Hmmmm “, ele reclamou quando cutuquei a sua bochecha, e se virou de lado, me mandando parar quando repeti o movimento.
“ Tudo bem, mas se por acaso o raio verde resolver dar a cara pela primeira vez, você vai perder e eu não vou te acordar “, girei o meu corpo para a frente e empurrei a carcaça loira em um coque, sentando em cima dos meus joelhos.
“ Você é uma chata, sabe disso, né? “, Jasper disse enquanto se levantava e despreguiçava os braços musculosos.
Esse era o meu dia preferido da semana. Eu fugia da minha casa todas as quartas à noite, e por meio de um caminho repleto de árvores, eu subia a montanha com uma mochila nas costas e com a lanterna nas mãos, até o seu topo, quando se fazia um espaço em um círculo sem árvores de frente ao penhasco, com um horizonte desobstruído, sobre o oceano. E era ali que eu e Jasper dormíamos, sem medo de ter que enfrentar leões ou afugentar fantasmas. Era um lugar só nosso, onde éramos nós mesmos e esquecíamos um pouco da nossa vida. Nosso propósito era acordar todos os dias com a nascente do sol, para ver um dos fenômenos óticos mais extraordinários que se tem: quando uma pequena mancha verde fica visível por um curto período de tempo acima do sol. Nós nunca a vimos, por isso não era motivo de desistir. Apesar de usarmos essa desculpa para esse compromisso, ambos sabíamos que o motivo real era querer fugir um pouco dos problemas familiares.
“ Está quase lá... “, disse Jasper, esperançoso e com os olhos semicerrados, concentrados na nascente do sol. Eu adoro ver a reação que vem em seguida.
“ Só uma vez, por favor, por favor “, ele recitava como se fosse um manto. Jasper nunca me contou porque para ele era tão importante ver esse fenômeno, mas sempre tive o pressentimento que tem algo a ver com a sua falecida mãe.
A mãe de Jasper, Heidi, morreu quando ele completou quinze anos, em um acidente de carro envolvendo o freio, que em um maldito momento não funcionou. Com os seus dezessete anos, sinto que de alguma forma ele ainda não superou a perda, e que nunca vai superar. Ao contrário do seu pai que em seis meses arrumou uma nova mulher, Ivana, que de acordo com Jasper, é uma bruxa interesseira de vinte e dois anos. Eu a conheço, e na maioria das vezes é simpática comigo. Quando ela me abraça, sinto que se eu tivesse um palito de dente, poderia estourar facilmente as toneladas de silicone em seus peitos. É engraçado que ela se acha atraente com tudo artificial.
Soltei uma leva risada quando vi o sol atravessando a linha do oceano. Não foi dessa vez, Jasper. Imediatamente a sua cara carrancuda se contraiu e ele jogou o seu corpo para trás, tampando o rosto com as almas as mãos, soltando um grito de frustação abafado.
“ Eu vou morrer, Tess, e não vou ver essa merda, é esse o final da minha história “, ele disse e tirou a mão do rosto, revelando a profundidade da maresia dos seus olhos diminuindo a sua esperança.
Girei o meu corpo para o lado e apoiei os meus joelhos ao lado da cabeça de Jasper. Os meus cabelos loiros despencaram do coque e caíram desalinhados em meu rosto, enquanto eu o encarava.
“ E você também vai morrer e não vai conseguir o ver também. Resumindo: isso é uma perda de tempo “, os seus olhos tentavam fugir do contato dos meus, mas era impossível tanto para mim, tanto para ele.
“ Eu pareço morta para você? “, indaguei, prendendo um fio loiro que me incomodava atrás da orelha. “ Eu sou imortal, Jas. Não vou contar os dias, mas eu vou ver o raio. Se é com ou sem você, a escolha não é minha. Então, vai desistir? “
Eu estou pouco me lixando para esse raio, mas admito que me sinto curiosa para o ver, mas o mais importante para mim é ter uma desculpa para sair de casa, e também para ficar perto de Jasper Allmert.
“ Você me faz sentir ser um bebê chorão “, ele disse, moldando um bico engraçado em seus lábios, soltando uma gargalha em seguida.
“ E quem disse que você, não é? “ Prendi a risada no canto dos meus lábios, mas foi impossível quando ele me puxou para o seu colo e me cobriu de cócegas.
Ele sempre vai ser meu melhor amigo, e me sinto obrigada a limitar nossa relação para que não sejamos mais que isso. Jasper é uma boa pessoa, ele não merece alguém igual a mim.
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