Notas iniciais
Essa é a minha última bondade de férias, adicionada a bondade de aniversário. Viu, o aniversário é meu, mas vocês ganham o presente. Sou uma ótima pessoa. hahaha. Enfim, indo pra parte que interessa, esse capítulo é um dos meus favoritos. Os novos andam me surpreendendo bastante e ganhando espaço em meu coração. Ele está um pouco... caótico? Enfim, LEIAM COM MUITA ATENÇÃO. Sério mesmo, pessoal. Fiquem atento as reações, as observações dos personagens antes de me xingar no futuro. É isso. Músicas do capítulo: vou dar duas porque talvez não gostem de uma opção, então... "Heartbreaker" do Justin Bieber e "Heart A Mess" do Gotye. Sei que o pobre do primeiro menino não é de preferência geral e como não sou de julgar (até porque entendo, mas não estamos falando disso...), está aí a opção do Gotye que casa também com os sentimentos desse capítulo. Quem quiser ouvir as duas, melhor. http://minilogs.com/egldkw0 Godere

A luz da cozinha estava acesa quando entrei no apartamento. Joguei minhas chaves na mesinha estúpida que passamos uma hora procurando por capricho dela e dei alguns passos vacilantes para dentro. Olhei pela porta aberta da cozinha e não havia ninguém. Desliguei as luzes e bufei, andando sem pressa até a luz fraca no final do corredor. A suíte estava iluminada por somente um abajur. O abajur do criado mudo da direita.

O criado mudo dela.

Sienna estava sentada na ponta da cama com a cabeça baixa. Ela vestia uma blusa qualquer e uma calcinha de algodão. Odiava aquelas calcinhas. Eram feias e presentes dele. "Era uma brincadeira", ela repetia sempre, mas ainda assim usava aquelas porcarias para me irritar. Ainda mais quando brigávamos.

— Onde você estava?

— Sério que vamos pelo clichê? — ri pelo nariz, tirando o casaco.

Ela virou a cabeça e me encarou. Não me importei. Continuei jogando as peças de roupa na poltrona escolhida por ela e Colin e andei de jeans até o banheiro. Ouvi seus passos atrás de mim.

— Eu estou te esperando há horas — sua voz soou irritada atrás de mim. O que eu ouvi, na verdade, foi um grasnar chato pra caralho.

— Não teria que esperar por ninguém se não tivesse feito mais uma de suas cenas ridículas.

— Ridículas? Ontem foi a primeira vez nessa semana que eu te vi! E você estava com cheiro de perfume vagabundo. Sabe quantas vezes eu te vi em casa esse mês, Aaron? Se for sete, são muitas! E eu sei que tudo isso não é só pelo seu maldito trabalho.

— Bom, eu digo que é, porque eu sou o único mesmo que faz alguma merda de verdade nessa casa.

— Você nunca quis que eu trabalhasse!

Fechei a gaveta com força, descontando minha raiva no pedaço de madeira. Olhei-a, apertando o comprimido em minhas mãos.

— E mesmo assim você abre as pernas para aquele desgraçado? A diferença é que não aproveita e cobra algo, trazendo dinheiro pra porra dessa casa também.

Sua mão voou até meu rosto. Apertei meus olhos e mordi meu lábio, controlando-me para não fazer alguma besteira. Ela estava mais afastada agora, na porta, a mão caída perto do corpo, tão vermelha quanto minha bochecha deveria estar.

— Agora seria uma boa hora pra você fugir de novo pros braços do seu Colin.

Ela saiu da minha frente quando passei em direção ao corredor. Entrei na cozinha e peguei um copo de água, engolindo o comprimido.

— Você nunca mais ouse dizer uma coisa dessas, Aaron! Eu estou cansada dessa sua palhaçada. Você sabe que eu não te traí.

— EU NÃO SEI DE NADA, PORRA! VOCÊ VIVE DIZENDO QUE NÃO FEZ MERDA NENHUMA, MAS SEMPRE ESTÁ INSINUANDO ISSO. EU QUE ESTOU CANSADO DESSE JOGUINHO DE GAROTA MIMADA!

— NÃO HÁ JOGUINHO NENHUM! SÓ VOCÊ MESMO SE COLOCANDO CONTRA MIM E A TODOS COM SUAS BESTEIRAS!

— MINHAS BESTEIRAS?! É VOCÊ QUE SEMPRE TÁ FAZENDO TEMPESTADE EM COPO D'ÁGUA, SIENNA!

— TALVEZ EU NÃO TIVESSE QUE FAZER SE VOCÊ NÃO FOSSE INFIEL!

— E TALVEZ EU NÃO FOSSE INFIEL SE NÃO TIVESSE ESCOLHIDO UMA VADIA COMO MULHER!

Ela veio para cima de mim e começou a socar e bater em todas as partes que conseguia, usando os pés também. Eu a impedi antes que me tirasse do sério com seu chilique e eu não respondesse por mim. Segurei seus pulsos e bati suas costas contra a pia, fazendo-a arfar de dor.

— Eu estou cansado de você, Sienna. Cansado dos seus chiliques, das suas crises e das suas provocações. Eu traio você sim, mas lembre que quem despertou de novo o demônio em mim foi você. Então ou você lida com as consequências quieta ou vaza. Sério, a essa altura não vai fazer falta na minha vida. Uma vadia a mais, uma vadia a menos, eu te substituo por uma boceta melhor e menos usada em dois tempos.

Ela cuspiu em meu rosto. Seus olhos possuíam tanta raiva quanto os meus. Ótimo, pelo menos não teria que lidar com uma chorona.

— Você vai morrer sozinho, Aaron. Você não dá valor a quem te ama e se importa com você. Você só liga pro seu trabalho e pras suas vadias. Mas quando você tomar uma bala nesse seu ego "indestrutível", nenhuma das suas "bocetas melhores e menos usadas" vai estar lá pra chorar. E nem eu. Eu vou rir. Vou estar com alguém melhor rindo de um babaca que não soube dar valor a mim. Eu...

— Te odeio.

Ela se afastou de mim com os olhos vermelhos de cólera e lágrimas, o azul ainda mais vibrante e gelo. Sua maquiagem estava borrada, e seu nariz, vermelho pelo choro. Ela foi direto para os braços da mãe, que me enviava um olhar mais decepcionado do que realmente irritado. Antenore acariciou suas costas, o ar triunfante anunciando sua opinião sobre quem perdera e quem ganhara.

— Vamos, querida. Vamos embora — sua mãe sussurrou em seu ouvido.

Ela concordou com a cabeça e limpou o rosto antes de se virar uma última vez para mim. Sua expressão era tão eloquente que me assustava. Lane era boa com palavras, mas quando ela decidia ir para ações, era uma filha da puta ainda melhor. Porque em sua face, naquele momento, eu via que a última coisa que ela sentia por mim era ódio. Ela estava mais em um misto de nojo com decepção e repulsa, mas sem esquecer aquela fagulha de amor que sempre brilhava em minha direção, aquela coisa de filmes de garotas bobas, que eu nunca mereci e pensei que nunca mais veria depois de Sienna. Engano meu. Acho que talvez eu não fosse desprezível ou filho da puta o suficiente para manter pessoas boas como Lane afastadas do problema que eu e minha vida eram.

Ela se virou e deixou a sala abraçada à mãe. O pai se deteve, aproximando-se de mim e mostrando finalmente seu sorriso desprezível. Se não fosse pelo maldito plano, ah, como eu ficaria honrado de matar aquele velho naquela hora.

— Eu disse, garoto, que teria minha filha de volta. Disse que você não era homem para ela e ia pagar comendo o pão que o diabo amassou. Lane fez o começo, mas saiba que isso não é nem de longe o fim da sua penitência. Uma pena, porque cheguei até pensar que você fosse um garoto bom para a máfia. Mesmo me sacaneando.

Ele deixou a sala logo em seguida e só sobrou eu e os garotos. O idiota do Colin não estava ali e estava feliz por tê-lo mandado pastar mais cedo. Ele se sentiria vingado, pois estava evidente no meu rosto como Lane me botou no chão. E não haveria quem me impedisse de desfigurar com meus punhos o sorrisinho feliz que tomaria seu rosto. Nick colocou sua mão em meu ombro para me confortar, mas a empurrei andando até atrás de minha mesa. Não queria consolo por essa estupidez. Por qualquer uma. Meu orgulho ainda era maior.

Enchi um copo com uísque até a borda, virando de uma vez. Queimou como o inferno, mas se era para lá que eu ia, precisava me acostumar.

— Vai com calma, cara.

— Saiam todos. Agora.

Eles se entreolharam e suspiraram. Não adiantava insistir. Eles me conheciam e só sabiam que a única pessoa burra ou louca o suficiente para ficar em meus momentos acabara de deixar a sala. Enchi o copo de novo ao bater da porta e tomei um gole. Caindo em minha cadeira, observei a boate atrás do vidro enorme da sala. Nada além de camarotes vazios e putas limpando. Minha cabeça tombou para trás e meus olhos fecharam, deixando a queimação em minha garganta e o peso em meu peito serem tudo durante um minuto.

E então as lembranças de Sienna e Lane vinham se fundindo em minha cabeça.

Sorrisos doces, cabelos macios, toques calmantes, gênio intempestivo, palavras fortes, lágrimas definitivas.

Porra.

Ambas tão poderosas e destruidoras, doloridas e amargas, parecidas e divergentes. As duas maiores vadias que já amei e amo. Elas conseguiram mexer comigo, realmente tinham meu coração entre os dedos e, na maior parte do tempo, esmagavam-no como eu fazia com os delas. Olho por olho, dente por dente. Eu as fazia sofrer, mas elas pagavam na mesma moeda. Por que eu sempre tinha que escolher aquela com a expressão mais delicada e angelical, aquela que você nunca imagina que irá te arrasar? E ela, de fato, não tem machucados. Até você fazer isso com ela. E eu não deixava só uma ferida, eu as destruía. Obrigava-as a mudar e se voltar contra mim. Mas, claro, se alguém faz o que eu fiz e faço com elas, não se contenta com só isso.

Não.

Elas tinham que me amar antes de girar a faca.

Fechei os dedos no copo antes de jogá-lo contra a parede em um berro. Abri os olhos para a mancha escorrendo, os cacos espalhados por grande parte da sala, inclusive sob meus pés. Ofegava encarando a cena.

Ela prometeu que seria mentira, mas uma voz na minha cabeça não parava de gritar que fora real.

Algumas horas antes

POV Lane

Caitlin me arrumava depois de me arrancar de meu momento com Aaron. Ela repetia todo o processo que já fizera mil vezes só nesses dois dias comigo para eu saber de cor quando tivesse que me virar sozinha. E mesmo que eu já soubesse, ou assim julgava, a prática leva à perfeição, e o perfeito era o mínimo para esse plano dar certo. O único porém era que eu não estava mentalmente naquela sala enquanto ela falava e mexia em meu cabelo.

Estava no andar de baixo, no escritório, pensando em Aaron e no nosso último momento juntos. Repassando suas ações e suas palavras, avaliando sua atitude, para chegar a uma conclusão: ele estava estranho.

Bateram na porta do estúdio e olhei de sobrancelhas levantadas para Caitlin antes de dizer "entre". Aaron nunca bateria na porta e os meninos não eram lá o sinônimo de educação também. Uma garota morena, de cabelo um pouco abaixo dos ombros, repicados e com luzes, olhos de carvalho e traços finos, porém sobrancelhas que lhe davam um ar firme e sexy, apareceu. Ela sorria doce e constrangida. Sorri de volta para ela, assim como Caitlin.

— Estou atrapalhando?

— De jeito nenhum. Entra, Riley.

Ela fechou a porta atrás de si e adentrou no agora mini closet/cabeleireiro improvisado. Aproximando-se com cautela, parou ao nosso lado.

— Cheguei muito tarde?

— Claro que não. Senta aí. Sua peruca é aquela ali.

Ela pegou e se sentou ao nosso lado, começando a se ajeitar sozinha.

— Você tem bastante prática. Estou com inveja.

— Imagina eu, então — Caitlin nos fez rir com seu mau humor.

— Dois anos praticando quase todos os dias. Você se acostuma.

— Oh, se sim...

— Você também usava perucas, Caitlin?

— Às vezes. Mais no começo. Você tenta achar uma forma de fazer isso sem te reconhecerem, então entra em personagens. No começo, era até divertido, mas minha paciência começou a encurtar e o dinheiro para bancar a brincadeira também, então parei.

— Você ainda está no "Deep", Caitlin?

— Não. Eu saí. Me chutaram, na verdade. Depois que quebrei o braço e tive que me ausentar, contrataram uma nova striper e me dispensaram. Mas até que não liguei, estava pensando em sair mesmo, e Dylan já estava me irritando de tanto implorar por isso. Só me canso de ficar tanto em casa.

— Imagina eu, então — murmurei penteando os fios falsos.

— Não trabalha, Lane?

— Eu mal saía de casa antes, quem dirá trabalhar. Já cheguei a pensar, mas nunca tentei. Aaron não deixaria. E caso sim, o que aconteceria se ele estivesse muito fora de si, seria com um bando de seguranças em meu encalço. Então...

— Ele já é um patrão difícil, como marido então deve ser pior.

— Ele realmente não é muito maleável.

— Você tá brincando, né? Você o dobra igual eu nunca vi alguém fazer e ainda reclama?! Ele come na sua mão, mesmo que ainda tenha as crises de rebeldia dele.

— Isso é mentira. Aaron é irremediável e teimoso como sempre foi na maior parte do tempo. A única diferença é que ele aprendeu a conversar e recuar quando precisa para não perder a guerra.

— E isso graças a você — cantarolou. Rolei os olhos enquanto Riley sorria.

— Riley, você é a mais sortuda da sala. Pegou o melhor de todos. A gente ficou com os piores, embora eu reconheça que Lane ganhou essa competição.

— Pare de falar mal dele. Ele não é mal assim. Ele está bem melhor e vocês dois até riem juntos que eu já vi.

— Awnnnnn! Tá defendendo o marido! Você deveria ver os dois pombinhos apaixonados juntos, Riley! — meu olhar feio fez as duas rirem.

Começamos a conversar trivialidades, intercalando com coisas importantes sobre a viagem. Quanto mais falávamos, mais concluía que Riley era perfeita para Nick. Ela poderia parecer fatal, mas era um amor de pessoa e uma companhia ótima e divertida.

— Como estou? — a peruca longa e ruiva que ela usava caía bem nela. Dava-lhe um ar ainda mais sexy e poderoso.

— Perfeita — sorri para ela antes de voltar a organizar a mala.

Havia de tudo um pouco dentro daquela mala. Iria levar duas, além das oficiais, mas ainda era pouco para caber todas as roupas, maquiagens, produtos e perucas que Caitlin comprara. Forcei a tampa e consegui fechar a primeira mala. Caí cansada sobre ela, dando às outras uma cena engraçada. O barulho de motor soou do lado de fora e concluí que só poderia ser Aaron deixando a casa. Isso apertou meu coração, pois ainda queria vê-lo antes de tudo desandar. Queria conversar com ele e concluir se estava maluca ou não quando o observei mais cedo.

— Lane?

— Hm?

— Onde estão às lingeries que compramos?

— Não estão nas sacolas perto da janela?

— Não. Você levou alguma sacola para seu quarto junto com as roupas que comprou pra si?

— Devo ter levado — murmurei, levantando-me. — Eu vou ver.

— Não! Com essa peruca na cabeça? Ficou louca? E se alguém te ver?

— As câmeras estão congeladas com os tapes que Nick gravou mais cedo.

— Eu sei, mas se alguém te ver ao vivo e em cores no corredor?

— Estou parecendo você de costas. — dei de ombros.

— Minha bunda é mais bonita...

Quando entrei em meu quarto, minha primeira reação foi levar as mãos ao meu peito em susto. Aaron estava saindo do banheiro só de toalha, os cabelos molhados deixando gotas pelo piso e por seu corpo. Com a luz entrando pela janela, tive vontade de ter uma câmera em mãos.

— Que susto! — exclamei à sua sobrancelha arqueada em minha direção. — Pensei que você tinha saído.

— Do banho — revirei os olhos ao seu sarcasmo. — Essa é a peruca que vai usar?

— Essa ou outra mais curta — dei de ombros enquanto se aproximava ainda secando os cabelos. Gotas voaram em minha direção.

— Gostei...

Seus dedos se enroscaram nos fios e ele os observou hipnotizado. Seus olhos estavam distantes e sabia que ele deveria estar lembrando de algo. Ou de alguém.

— Era dessa cor?

— Era dessa cor o quê? — olhou-me confuso, soltando enfim a peruca.

— O cabelo da Sienna. Ela era loira, não?

Encarou-me silenciosamente por alguns segundos e virou de costas, entrando no closet e deixando claro que minha pergunta fora ignorada. Suspirando derrotada, segui-o para pegar o que precisava. Por mais que quisesse insistir, sabia que ele estava tenso e não tinha certeza quanto suas atitudes diante de uma prensa, uma vez que não conseguira concluir se ele estava ou não "normal". Achei a sacola que queria no meio das outras e a peguei.

— Ela não era loira.

Já estava na porta do closet quando suas palavras me pararam. Levei alguns segundos para decidir se estava louca ou ele realmente falara comigo. Quando virei meu corpo, não me surpreendi ao ver suas costas nuas evidenciando seus músculos enquanto colocava a jeans.

— Ela pintava desde sempre. E eles eram mais escuros.

Ele me olhou e não acrescentou mais nada. Esperei com esperanças de que poderia vir mais. Todavia, desisti e voltei ao estúdio quando ele colocou a camiseta e pegou os sapatos, passando por mim para se sentar na cama.

— Meu Deus! Estava fabricando as calcinhas?

— Aaron estava lá.

— E?

— Sienna era loira, mas não era natural, não?

As sobrancelhas de Caitlin se estreitaram e sua expressão ficou entre confusa e intrigada. Deixei as lingeries de lado e me sentei na frente do espelho, tirando a peruca.

— Ele te falou sobre ela? — Caitlin suspirou por fim, pegando as coisas da sacola.

— Eu perguntei e ele respondeu, mas não quis aprofundar e eu não quis forçar.

— Ela era meio mel pro dourado. Tinha umas mechas. Combinava com ela, mas acho que a cor natural dela ficaria mais legal. De qualquer jeito, eu nunca a vi morena.

Soltei meus longos fios e os penteei com os dedos. Riley, até então quieta, elogiou meu cabelo e eu sorri em agradecimento.

— Vou ver Aaron uma última vez — anunciei assim que me levantei.

— Não demora. De preferência, sem treino pra sobrinhos, não é porque não estamos mais vivendo em um reality que pode abusar.

Fechei a porta da suíte com cuidado e a tranquei. Não queria intromissões. Ouvi os passos de Aaron no closet e me apoiei no batente que o separava do quarto, esperando que me notasse enquanto o observava. Já vestido, com a gola da camiseta molhada pelos fios úmidos, Aaron checava as balas de sua arma. Depois de carregá-la toda, encaixou-a na cintura, mostrando um pouco da pele e dos músculos definidos da barriga.

— Prefiro assim — comentou, puxando algo do fundo de seu armário de casacos.

Não saberia dizer se ele sempre soube que estava ali ou só notou há pouco. Essa era uma das belezas e mistérios de Aaron.

— Acho que depois que tudo, vou cortar. Está muito grande.

— Faça isso e eu mando colar os fios de volta.

Ri pelo nariz e ele se virou com uma caixa de presente. Já próximo, estendeu-a sem falar nada e eu aceitei com as sobrancelhas erguidas em supressa e curiosidade. Sentei na cama e me desfiz do laço rosa e da tampa. Uma arma estava em um molde de veludo, a prata reluzindo contra a luz. Toquei-a com certo receio, reparando que no cano havia uma escrita cravejada de diamantes.

— É uma Glock G26 banhada em prata. As escritas no cano são em braille. Está escrito mia.

— Por quê? — encarei-o com o objeto em mãos.

— Eu disse que ia te arranjar uma arma. E como será sua e você estará sempre com ela, tiveram a ideia de tornar mais pessoal.

— Eu me referia ao braille. Por que mia em braille?

Ele suspirou e se virou de costas, passando a mão na nuca. Quando ele falou, vi toda a tensão que os dias vinham jogando em seus ombros. Sua cabeça tombada e as palavras ditas de olhos fechados, em italiano ainda, mostravam-me que algo estava errado. Aaron geralmente falaria nos meus olhos, fazendo-me estremecer com a intensidade e genuinidade delas.

— Perché voi è il mia e voglio mostrare, ma in un modo solo il nostro. È il nostro segreto. Tutti potranno contemplare, ma nessuno vedere.

Soltei a arma, andando até ele. Agora não era a hora de passar o cano gelado do objeto em seu corpo como tinha dito. Coloquei-me em sua frente, puxando suas mãos para mim e colocando-as em meu rosto. Ele me olhou e havia faíscas de seu interior danificado e perfeito. Sorri minimamente e me coloquei na ponta dos pés, beijando-o com meus dedos enroscados em sua camiseta. Ele apertou meu corpo e encheu sua mão com meu cabelo, chegando a puxar e machucar, mas sem me fazer importar. Só queria mostrar que estava tudo bem, o que quer que acontecesse dali para frente, eu já era dele. Sempre fora.

Desde o "aceito".

— Eu amei. Grazie — sussurrei contra seus lábios.

Ele não me deu tempo para falar mais, beijou-me de novo e me puxou para cima, segurando-me em seu colo. Segurei firme em sua nuca e ombros; ele, em minhas coxas com força para também certo conforto próprio. Aaron andou até a parede mais próxima e minhas costas encontraram gentilmente a superfície fria. Nos intervalos de beijos, intercalados por chupões e mordidinhas em meu pescoço e lóbulo, ouvia em murmúrios que era sua. "Mia". Ele nunca me chamara assim e eu sentia que o significado ia além da possessão. A palavra tinha uma história a mais entre nós. Era especial.

Ele caiu com a cabeça em meu ombro, beijando meu pescoço enquanto eu recuperava o ar. Afagava seus cabelos e sentia nossos peitos subirem e descerem em sincronia. Inspira, expira. Inspira, expira. Inspira, expira, até nossa respiração ser regular novamente. Quando se afastou e me encarou nos olhos, vi o peso das coisas que aguentava. Aaron carregava coisas por si, por nós, por todos. Gostava de ser cuidada, mas gostava de assumir a liderança também. Às vezes, ele me permitia isso, e era nesses momentos em que sentia que éramos mais do que só dois jovens amantes rebelando-se contra o mundo enquanto tentavam sanar as necessidades um do outro.

Ele me soltou, mas continuou a me prensar contra a parede. Seus dedos brincavam distraidamente com meus fios. Eu gostava de seu carinho em meu cabelo.

— A arma não tá carregada. A capacidade é de doze balas e eu coloquei vinte e quatro para você na caixa. Se precisar de mais, no fundo do closet de casacos tem um fundo falso com armas e munição. Sabe carregar?

— Colin me ensinou.

— Eu quero que leve na viagem. Como disse, é sua e quero contigo sempre.

— Vou levar.

Encaramo-nos quietos, sem mais nada a dizer. Aquele era nosso último momento antes de tudo começar de verdade. Meu cabelo se transformou em um emaranhado em sua mão e ele me puxou para mais um beijo, esse o mais lento e saboroso. Meus dedos afundaram em seu peito, em cima do coração, fazendo seu lábio superior crispar.

— Me promete que não vai fazer exatamente o que seus pais querem depois de hoje. Promete que será tudo mentira.

Seu olhar era intenso e firme.

— Aaron, você sabe que...

— Me promete, Lane.

— Eu prometo.

Ele molhou os lábios e eu apertei os meus. Deitei a cabeça em seu peito, ouvindo suas batidas. Fortes e ritmadas, como um tambor ou as braçadas de um remador. Meus dedos gravavam a textura de sua pele e ele ainda insistia em meu cabelo. Talvez a peruca tivesse sido demais para sua cabeça. Fechei os olhos e curti só ficar no calor de seus braços enquanto ainda podia.

Seriam longos dias sem ele.

Abri os olhos e achei os seus me fitando. Deus, como a escuridão poderia ser tão linda e significativa? Eu nunca gostara do escuro, até Aaron. Ficaria sem ver a luz do sol para sempre se isso significava ficar ao seu lado. Ele me fazia pensar e fazer, desistir e topar coisas insanas. A Lane de um ano atrás nunca imaginaria fazer o que essa faz. E a Lane de hoje nunca gostaria de voltar a ser a Lane de antes. Porque Aaron, com suas falhas e defeitos, tornou-me alguém melhor, assim como eu tinha a fé de que ele se tornara alguém melhor por minha causa.

Ele me olhava com todas as palavras que ele não conseguia expressar. Ele não era bom de falar, mas sim de demonstrar. E falando em sua língua, dei-lhe vários selinhos enquanto escrevia em sua nuca com a unha as palavras implícitas ali.

Notas finais
Perché voi è il mia e voglio mostrare, ma in un modo solo il nostro. È il nostro segreto. Tutti potranno contemplare, ma nessuno vedere. - Porque você é minha e eu quero mostrar, mas de uma maneira só nossa. É o nosso segredo. Todos podem comtemplar, mas não ver. Bom, prestaram atenção? Lembram dos capítulos anteriores, do contexto atual? Se sim, ótimo, que jorrem perguntas. Senão, leiam de novo. Sério, gente, eu preciso que vocês sejam bem detalhistas porque ainda quero estar viva para postar o capítulo que seguira o próximo. hahahaha. Acho que não tenho muito o que dizer. Depois disso, a aventura começa. Cruzem os dedos por esse casal e os amigos loucos deles... Só uma observação: o começo do ponto de vista da Lane é a partir do começo de um outro capítulo que já postei. Caso não lembrem, voltem ao capítulo "Dilema" e leiam o começo. Aquela parte que parecia no sense na época... É isso. Espero que gostem do último capítulo de postagem quase regular porque agora que voltou minhas aulas... Aí, aí. hahahaha. Xoxo