Strada Per L'inferno
71 Costumes
Notas iniciais
O apartamento alugado no centro de Miami era razoável. Dois quartos, um banheiro e com cozinha separada da sala por um balcão. Os quartos eram basicamente cama e guarda-roupa, e a cozinha era estreita. Bem, não era como se pudéssemos estar ostentando também. Ao menos, a sala possuía uma janela grande. Grande e blindada, é claro. O apartamento vizinho era ocupado por seguranças, e os da frente, com vista para nossa sala e quartos, também. Aaron pensara em tudo para que tivéssemos proteção de forma discreta, tanto é que jeans, bermudas e regatas viraram os novos uniformes. Foi engraçado ver Brad com um boné e chinelos.
Dividir um ambiente novo com Riley não estava sendo difícil. Na verdade, era mais fácil do que eu poderia cogitar. Ela era organizada e uma boa companhia, sem contar que não era tão invasiva. Nos conhecíamos aos poucos, mesmo que a situação solicitasse pressa. Aaron estava certo quando disse que, quando chegasse, ela já teria criado um círculo. Menos de uma semana e já tínhamos contatos para festas VIPs. No entanto, o trabalho só começava de verdade quando eu entrasse em cena também. Uma precisava da outra para cobertura. Porém, eu só poderia sair do quarto em quatro dias, por ordens do chefe, para minha segurança. Eu já sabia desses dias ociosos, mas não sabia que seriam tão ruins assim. Ver os seguranças indo e vindo, Riley entrando e saindo, as pessoas nas ruas aparecendo e desaparecendo pelas janelas era frustrante. E eu ainda nem podia conversar muito tempo com qualquer um que estivesse longe.
Mas hoje, eu poderia finalmente fechar a oficina do diabo em minha cabeça e começar a trabalhar.
O vestido era justo e cheio de detalhes no busto, chamando mais atenção a área já estufada pelo sutiã e roupa. Me incomodava o fato de que a peça subia quase a todo momento e eu não podia usar nada por debaixo além da calcinha. Essa, por sua vez, era tão minúscula e fina que era quase como se não estivesse com nada. Certamente essa era uma peça que talvez Aaron gostasse. Na intimidade, claro. Se me visse saindo com algo assim... Bem, eu não sairia com algo assim.
Depois de tentar arrumar a peça de todas as formas possíveis, e falhar em todas as tentativas, deixei o banheiro conformada com o pedaço de pano que teria que usar. Ao me ver, Riley sorriu. Ela estava com uma saia e um top e, mesmo com menos pano, ela parecia mais confortável, aquilo não era nada perto dos trajes que ela tinha que usar na boate de Aaron.
— Bem? — me olhou enquanto procurava por um salto que combinasse. Suspirei e achei um pé dourado que ficaria bom.
— Eu não me sinto muito confortável, mas me acostumo. Aaron teria um infarto se me visse nessas roupas, mas...
Ela riu baixo e concordou com a possessão do patrão. Achei o outro pé do sapato e calcei. Fui até o banheiro e conferi a maquiagem de novo, tendo certeza de que já estava boa. Eu não era fã de maquiagem pesada, mas ela era uma boa aliada para o disfarce, então os olhos carregados era outra coisa com a qual teria que me acostumar. A peruca estava em cima da pia, anunciando que era sua vez. Repetindo rapidamente o processo que Caitlin me fez decorar de trás pra frente, coloquei os fios loiros curtos. Penteei-os e saí do banheiro, já pronta. Riley também já estava pronta, só pegando o celular. Peguei o aparelho novo, com vários contatos fictícios e até algumas fotos encenadas. Caso caísse em mãos erradas, teria que parecer um celular com dono.
Os seguranças, incluindo Brad, já estavam no saguão. Eles, claro, conversavam entre si casualmente, olhavam para o celular fingindo interesse e até falavam com vizinhas com animação. Assim que passamos, o celular escondido em alguma parte do corpo junto com o dinheiro do táxi, alguns olharam. Pegamos um táxi com facilidade e logo o carro preto da segurança estava nos seguindo com cautela. Reforcei meus lábios com batom vermelho, encarando-os por um bom tempo na câmera do celular e pensando no efeito hipnótico deles sobre Aaron. Verdade que não tinha com quem comparar Aaron, mas meu conhecimento limitado e os comentários alheios me davam segurança de que, se tinha Aaron em minhas mãos, qualquer outro era fichinha. A casa em Miami Beach em que acontecia a festa era quase uma mansão, mas simples se comparada com outras ali. Principalmente as de South Beach. Luzes jorravam da entrada e música alta explodia pelas janelas e portas. Pagamos a corrida e o taxista não hesitou em sair correndo dali.
“That green yeah I got it
I show up in the party
Like where the fuck that molly
OD, we're OG's
We don't fuck with no police
I'm too fly to be low key”.
A música era ensurdecedora e o cheiro de bebida e maconha era forte da porta. A primeira coisa que vimos foram diversas meninas, de todas as nacionalidades, tamanhos e gostos, com roupas mínimas que chegavam até a biquínis e topless. Aquilo não me incomodava, já que tinha a experiência da boate de Aaron para aliviar o choque, mas confortável era o último adjetivo para mim naquele lugar.
— Vem. Vamos pegar bebidas para você se soltar um pouco! — Riley gritou em meu ouvido. Confirmei com a cabeça e ela me arrastou pela mão entre os cômodos lotados da casa.
Começava a ver alguns homens aqui e ali e, quando chegamos à cozinha, o chão era coberto de água e outras coisas grudentas. Me expremi entre duas lésbicas para poder ficar ao lado de Riley na pia. Ela me entregou uma das duas garrafas de cerveja em sua mão e logo deu um gole na sua em incentivo. Lições de Caitlin para festas: nunca fique com a mão vazia, nem que a garrafa tenha um gole quente, mas não deixe que percebam que precisa de mais bebida; nunca tome mais do que pode e muito menos aceite nada de alguém que não confie. E, claro, nunca misture fermentado com destilado. Ou seja, eu odiava cerveja e bebidas alcoólicas em geral, mas pela minha sobrevivência, cerveja era ótimo.
Logo saímos para outro cômodo, quando mais casais decidiram ocupar o espaço, e fomos para outra sala, igualmente esfumaçada e cheia. As garotas dançavam tão vulgarmente quanto na boate de Aaron, a única diferença era que umas ganhavam diretamente para isso, e outras não. Riley me puxou para um canto e começou a se movimentar, me incentivando a fazer o mesmo. Eu sabia como e, com uns goles amargos de cerveja, tinha “coragem” o suficiente para isso. A música ruim, com o tempo, parou de incomodar e logo Riley já colocava outra cerveja em minha mão. Ambas tínhamos consciência de que não podíamos exagerar, só tentávamos nos enturmar, e já que água não era opção...
— Vamos mais para lá. Dois estão no sofá.
Mais perto da janela, havia dois sofás ocupados, e apreciando suas bebidas, seus cigarros e as danças, dois alvos. Riley sorriu para mim, e eu retribuí, começando uma dança sensual com ela. A malícia e satisfação logo estamparam seus rostos.
Talvez não fosse tão difícil assim…
POV Aaron
Observava as ruas calmas da madrugada, com poças de luz e ocasionais passagens de carros. Alguns jovens bêbados cruzavam as calçadas, passando em direção a outro bar ou ao diabo sabe onde. Bufei após os últimos cinco minutos mortos, soltando a cortina e caindo contra o encosto da cama de novo. Esfreguei meus olhos e olhei o notebook na minha frente.
Cinco horas e sete minutos para atracar no porto.
Fechei a tela, a única fonte de iluminação no quarto, e fechei os olhos. Riquinhos filhinhos de papai não tinham problemas de insônia como seus pais, pois não carregavam um negócio todo nas costas. Eu não tinha esse luxo, a insônia piorava, e meu sono era cada vez mais leve e frágil. Costumava ter meus meios de, se não apagar por horas a fio, ao menos aliviar a angústia e estresse que era ver os ponteiros do relógio se moverem. Ainda os tinha, mas duas coisas muito me impediam de tirar a noite de sono que merecia.
Ouvi passos no corredor e logo a maçaneta girou lentamente. O apartamento, ainda que simples, era todo vigiado e equipado, e se fosse um invasor, alarmes ou algum segurança iriam notar. Ainda assim, saquei a armar e apontei para a porta até a pessoa revelar seu rosto. Era Nick. Suspirei e joguei a arma ao meu lado.
— Você tá paranoico — fechou a porta atrás de si e se aproximou, se encostando na janela. Esfreguei os olhos de novo.
— Nunca se sabe quando vai morrer. No caso da dúvida…
— Dormiu alguma coisa? — analisou minhas expressões, mesmo no escuro, com os olhos estreitos e a voz séria. Nick, às vezes, dava uma de dona Miranda comigo e com todos.
— Não. Não consigo — joguei a cabeça para trás e tampei a vista com o braço.
— Você precisa. Sabe disso. Na hora, tem que…
— Eu montei essa merda, Nick. Sei que tenho que descansar, mas não consigo.
— Está pensando nela? — ri pelo nariz. A pergunta era: quando eu não estava pensando nela?
— Também. E você provavelmente também acordou porque não para de pensar na Riley.
— Também — me imitou e um longo silêncio se formou antes de ele o quebrar. — Vou pedí-la em namoro depois que o plano acabar.
— Tava na hora.
— Ela vai deixar a boate.
— Se você deixasse sua namorada rebolar e tirar a roupa para outros, mesmo que no meu lugar, eu te daria uma surra.
— Caitlin só parou com isso porque foi demitida — ouvi-o se sentar na poltrona do outro lado.
— Ver Dylan sofrer é engraçado, e Caitlin é teimosa, independente.
— Riley também. Ela não vai aceitar viver às minhas custas.
— Você entendeu.
— Lane também é teimosa…
— Onde quer chegar? — bufei, ajeitando-me na cama.
— Em lugar nenhum, só tô dizendo que temos tendência a mulheres difíceis.
— Tendência… — ri pelo nariz, abaixando o braço e encarando a parede escura. — Sina, maldição.
— Lane foi a melhor coisa que te aconteceu, Aaron.
— E Sienna? — o olhei. Como esperava, Nick me encarou sem respostas. Não havia resposta.
Ou talvez sim, e nenhum dos dois queria dizer ou escutar.
Suspirei e me levantei. Peguei a garrafa d’água em cima da cômoda e abri a gaveta, procurando os comprimidos. Irônico como alguém que se afundava na cocaína e no uísque era contra uma simples pílula calmante. Terminei a garrafa e voltei para a cama. Nick me acompanhava com os olhos feito uma estátua de águia.
— Vai velar meu sono? — amassei o travesseiro e deitei.
— Só vou garantir que você não faça merda enquanto o comprimido não faz efeito.
— Como se eu fosse fazer algo mesmo…
— Você já fez antes. Nunca se sabe.
Fechei os olhos, não discutindo mais com Nick. Quando ele dava os ataques de mãe, era mais insuportável que Lane. Virei de costas e tentei as técnicas bobas de psicólogo: mentalizar uma paisagem calma. Havia serras perfeitas, com elevações de topo exatamente arredondadas e vales curvos poéticos. O sol iluminava e fazia brilhar a superfície, ainda mais molhada, onde as gotas em seu jogo de luzes acrescentavam um toque ainda mais bonito. Aliás, a superfície era plana e macia como nenhuma outra. Era invejável. E as depressões… As melhores partes! Pois a luz sobre a superfície era linda, mas a escuridão dessas áreas era artística. A textura era mágica. Era uma vista mágica com um nome incomum, que era sinônimo de culpa insana, linha torta, dor suja e cérebro bonito; os meus sinônimos para Lane.
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