Strada Per L'inferno
11 Assombrada
Notas iniciais
Como eu preverá, meu casamento era um desastre. Depois de receber a impactante noticia de que morar em Nova Orleans, eu liguei para minha família. Só piorou minha angustia: falei com Grace e ela disse que ficou sabendo que eu não iria morar na Itália através de babbo e mamma logo depois de retornar para casa. Ou seja, meus pais já sabiam e nem me contaram nada. Isso não me deixou nada contente com eles. A ligação fora a uma semana.
Eu já morava aqui há duas semanas e não estava me adaptando. Os funcionários todos eram muitos simpáticos comigo e eu simpatizara muito com todos, mas era completamente diferente de minha Itália. O máximo que poderia ir era no jardim dos fundos, que se tornara “meu bosque”. Não podia sair para lugar nenhum. Até porque, eu nem conhecia a cidade. E Henry, que deveria ser meu único conforto em meio de toda essa adaptação, era minha maior preocupação.
No dia mesmo que chegamos aqui, ele já voltou ao trabalho. Ou seja, nossa lua-de-mel fora somente uma aspiração. E não era pouco o trabalho que ele tinha: ele saia cedo e chegava tarde, além de que sempre que estava em casa se trancafiava no escritório. Eu quase nunca topava com ele, e sempre que isso acontecia era meros “bom dia” ou “boa noite” que eram trocados. E minha noite de núpcias, bem, ainda estava por acontecer. Convivia comigo mesmo e olhe lá, já que os empregados estavam ali para trabalhar e não para bater papo. Alguns dos sócios de Henry vinham até aqui, de vez em quando, mas sempre que isso acontecia Henry pedia para eu ir para o andar de cima. Segundo ele, ele estava me resguardando dos “velhos babões que tinham negócios com ele”. Sem contar o quão estranho era algumas atitude de Henry. Um dia desses, por exemplo, ouvi uma conversa estranha na madrugada.
Acordei de mais um de meus pesadelos. Desde que me mudara eram comuns. A maioria deles era com formas e vozes estranhas e monstruosas. Eram confusos e assustadores, em geral. E ao final, ás vezes, eu era salva ou quase antes de despertar. Porém, tinham finais que eu simplesmente caia, como Alice no túnel para o país das Maravilhas. No final do túnel, entretanto, não havia um País das Maravilhas. Na verdade, nem fim o túnel tinha.
Levantei-me, olhando para o lado e me deparando com mais uma noite sem Henry ao meu lado. Era mais fácil contra as noites que ele estava do que as que não. Suspirei indo ao mancebo de meu lado e pegando meu roupão de seda. Vesti-o e com cuidado abri a porta, saindo do quarto e a fechando com a mesma delicadeza. Meus passos, de uma ex-bailarina, eram delicados e silenciosos. Por tanto, o único ruído na mansão eram de vozes vindas do andar de baixo. Estranhei aquilo, além de ter ficado muito receosa quanto a elas. Temia ser bandidos. Cheguei perto das escadas e me escondi no trecho final de parede do corredor antes de poder dar visão total do andar de baixo para cima.
–Cadê ela? – Uma voz desconhecida preguntou curiosa. Curioso, na verdade, já que se tratava de uma voz masculina.
–Lá em cima, dormindo – Henry respondeu despreocupado.
Claramente, eles se reveriam a mim.
–Ela não estranha não você sempre chegar tarde e tals? Não faz perguntas? – Uma segunda voz, masculina, perguntou interessada.
–Não. E se perguntasse também, receberia a mesma resposta: trabalhando – Henry comentou sarcástico e despreocupado, despertando risadas logo em seguida.
–Trabalhando? –A segunda voz riu – Quem trabalha mesmo são as outras...
–Elas gozam sozinhas agora? Eu pago pra elas se dedarem na minha frente e gozarem? – Henry perguntou debochado.
Os homens riram, sendo acompanhados por a risada, estranhamente, viva de Henry. Arrisquei-me a dar uma espiada no piso de baixo e vi vários homens, juntos de Henry, saindo da mansão pela porta da frente. Henry girava uma chave de carro nos dedo e suas vestimentas eram um tanto despojadas. Nada social, de trabalho. Antes de sair, entretanto, olhou para o piso de cima. Esquivei-me para ele não ver-me, porém senti que não deu muito certo.
–Espera aí – Henry gritou a seus companheiros – Eu vou subir e já volto.
–Pra quê, cara? – A primeira voz desconhecida que havia ouvido perguntou.
–Acho que vi algo no segundo piso... – Henry comentou.
Tapei minha boca com a mão, instintivamente, e andei o mais rápido e silenciosamente que pude de volta ao quarto, sem ouvir o que o homem falou a Henry logo depois. Abri a porta do quarto e entrei, fechando-a cuidadosamente. Pendurei de qualquer jeito o roupão no mancebo e deitei-me na cama. Nem três minutos após, Henry abriu a porta do quarto. A luz do corredor inundou o quarto, ao passo de que meu marido entrava mais no cômodo. Ele se aproximou e me observou. Tinha uma vontade enorme de abrir os olhos e encara-lo, fazer os questionamentos que nunca fiz e que até seus amigos sentirem faltam. Mas não fiz isso. Estranhamente, ele passou uma de suas mãos em meus cabelos. Tirando-a rápido, ele se afastou e saiu do quarto, deixando-me de volta na escuridão. Inspirei profundamente e abri meus olhos, debatendo-me mentalmente sobre o que vira e ouvira.
Uma dessas tardes, que ele se trancara no escritório com vistas, eu acabei descendo para a cozinha. Eu estava com uma leve fome e queria “beliscar” algo. Eu vestia um vestido rosa simples, com a cintura marcada, e estava descalça. Meus cabelos caiam sobre meus ombros, soltos e lisos. Eu usava somente um pouco de gloss em meus lábios, para não desidrata-los. Eu estava na cozinha, comendo uma fatia de bolo que eu pedira para um das cozinheiras preparar quando alguém adentrou a cozinha pela porta dos fundos. Era Nick. Eu não o via desde o casamento, então assim que o notei animei-me.
–Nick! – Chamei-o energética, fazendo-o me olhar.
Ele reagiu surpreso, mas depois abriu um sorriso. Eu larguei o garfo e o pote para abraça-lo. Novamente peguei-o de surpresa, porém ele acabou relaxando retribuindo o carinho. Soltei-o e olhei, animada.
–Pensei que você não iria vir nos visitar! – Comentei sorrindo.
–Bem, eu ajudo o Drew com os negócios, então fica difícil arranjar um tempo para vir até aqui... – Ele explicou-se.
–Drew? Quem é Drew? — Perguntei confusa.
–Drew? Nossa, eu estou todo confundido! Drew é... Um amigo meu! Eu quis dizer Henry! — Ele explicou-se todo enrolado.
Eu fiquei um pouco desconfiada, mas não falei nada. Para acabar com o clima estranho, Nick puxou assunto:
–E então? Como é a vida de casada?
Eu mordi meu lábio inferior, olhando para baixo, sem saber o que responder. Sinceramente, não era das melhores. Longe disso, na realidade.
–É... complicada! – Respondi sorrindo, levantando a cabeça e tentando não transparecer minha verdadeira decepção.
Nick ia dizer algo mais, mas foi interrompida por outra entrada na cozinha.
–Que isso Nick? Parou para tomar um “lanchinho”? – Caçoou Henry, entrando mais na cozinha e me vendo também.
Ele mudou o tom de voz e a expressão. O que antes era algo descontraído e irônico endureceu-se rapidamente. Ele sorriu frio e depois disse a mim:
–Querida, não pedi para você esperar lá em cima? Não disse que estou com visitas em casa?
–Sim, disse, mas eu estava com fome e vim “beliscar” algo, então Nick entrou e eu puxei conversa – Expliquei inocentemente.
–Bom, mas Nick está aqui para resolver uns problemas, e não para conversar – Henry rebateu frio e duro.
Eu engoli em seco e me virei para meu prato. Peguei-o, e mesmo ainda sobrando dum pedaço de bolo, botei-o na ia com o garfo. Andei de cabeça baixa até Nick, dando-lhe um beijo na bochecha. Senti-o corar de leve, assim como eu, e Henry espumar sustentado um sorriso frio.
–Bom trabalho... – Desejei saindo da cozinha e indo para meu quarto, passando por um Henry espumando de raiva.
POV Henry
Lane saiu da cozinha toda cheia de si e não gostei daquilo. Se eu a mandava ficar no quarto, era para ela ficar no quarto, e não sair desfilando pela casa quando havia visita. Isso me irritava. Os caras que viam aqui eram a trabalho, e não pra babarem em cima da minha mulher.
–O que vocês estavam falando? – Perguntei sendo direto a Nick.
–Nada. Ela só estava puxando conversa – Ele deu de ombros.
–Que tipo de conversa? – Mandei especifica-lo.
–Sobre quanto tempo não nos víamos, como anda seu casamento... Essas coisas.
Revirei os olhos. Mulheres e seus papos: elas têm a mania de achar que só porque tem as suas amigas bichas que aguentam essa porra chata, os homens de verdade também irão.
–Vamos, para o escritório. Só está faltando você – Chamei-o indo na frente em direção ao meu escritório.
Entrei neste e deixei a porta aberta. Os outros dois estavam ali debatendo sobre algo, mas pararam de falar assim que entrei na sala. Nick entrou logo depois e fechou a porta. Eu sentei em minha cadeira e botei os pés para cima da mesa, enquanto os outros se acomodaram e olhavam ansiosos para mim.
–Nada – Respondi enfim, distraindo-me com uma caneta em meus dedos.
Todos eles bufaram, suspiraram e manifestaram sua indignação. Os próximos quarenta minutos passaram conosco discutindo o que faríamos para resolver o problema. Até, claro, Dylan dar suas típicas ideias:
–Olha cara, nós devíamos é sair hoje pra chutar o balde – Ele disse despreocupado, se largando mais no meu sofá.
–Estava demorando para você sugerir... – Colin riu.
–Cara, você tem ideia melhor? Já que a gente não vai poder dar aquela festa enorme aqui nessa puta mansão, regado de mulheres e bebidas, vamos sair pra onde tem tudo isso pra ver se esquecesse dessas porras todas! – Ele justificou.
–Só tem um problema, gênio – Nick interviu – Nós temos um cara enlaçado no grupo, esqueceu? – Ele riu olhando para mim.
–E desde quando isso me impediu de fazer o que quisesse? – Argumentei olhando-o com um sorriso irônico, girando a caneta nos dedos.
–E a senhora Lane não enlaçou ainda o cara... – Dylan riu.
–E nem o fará – Sorri.
–Mas cara – Nick interviu – Como você vai fazer com ela? Você sabe que não vai dar pra fazer tudo aquilo com ela aqui?
–Eu não vou – Dei de ombros.
–Como assim? Tu vai virar viado e ficar em casa com a esposa que você nem comeu ainda? – Dylan tirou sarro.
–Eu queria saber o que você tem a ver com o fato se a porra da minha mulher ainda é uma Madre Teresa do caralho ou já tá me esperando na porra daquela cama lá em cima sem calcinha – Comentei olhando-o irritado.
–Calma cara, foi só uma brincadeira! – Ele levantou as mãos ao lato, em rendição.
–Mas então, o que você fará? – Colin se voltou sério a mim.
–Eu tenho meu plano... – Sorri irônico.
POV Lane
Mais tarde naquela noite, acordei assustada com um barulho de vidro quebrando. Deveria ser mais de meia noite e eu levantei-me a terrorizada, praticamente pulando da cama. Henry ainda não tinha voltado, eu estava sozinha. Olhei para a janela do quarto, por onde entrava uma corrente de ar muito grande. Logo percebi o porquê do barulho: a janela fora quebrada e os estilhaços estavam todos no chão. Eu aterrorizada, olhei em volta do quarto. Então eu vi. Uma sombra de um homem se erguia de dentro do closet. Eu entrei em pânico. Comecei a recuar, assustada. A sombra foi se movendo em minha direção e eu fui recuando mais. O homem usava mascara e uma roupa toda preta, então não conseguia distingui-lo. Ao fim, eu bati com minhas costas na parede, ficando sem para onde fugir. Ele sorriu malvado por baixo da mascara e se aproximou de mim. Eu tentei recuar para algum lugar, porém ele me prensou a parede e botou um pano na minha boca, com alguma substância. Debati-me, para ele soltar-me, e consequentemente ao pano também, mas foi em vão. Tudo que me lembro depois disso foi de começar a ficar tonta e tudo ao meu redor girar. Eu fui escorregando na parede e cai ao chão, batendo a cabeça no piso enquanto meus olhos fechavam e tinha um último vislumbre do homem de preto, agora com um sorriso triunfante a minha frente.
**
–Lane? Lane? – Chamava a voz de Henry, bem distante.
Eu fui despertando aos poucos, abrindo os olhos aos poucos. Encontrava-me nos braços de Henry, que estava ajoelhado ao meu lado, com minha cabeça em seu colo. Eu abri totalmente meus olhos, mas continuava bem tonta. Olhei para Henry e ele aparentava preocupação. Ele respirou aliviado assim que em viu de olhos abertos. Eu fiz menção de em levantar, mas ele me impediu. Ele pegou-me no colo, o que certamente me traria certo rubor de vergonha por isso se não estivesse meio grogue, e botou-me na cama. Eu sentei nesta lentamente e o encarei confusa, enquanto ele sentava-se ao meu pé na cama.
–O que aconteceu Henry? Minha cabeça doí e... Tinha um homem aqui e ele... – Disse lembrando-me das coisas e me exaltando.
–Calma Lane – Henry cortou-me – Se acalme, por favor.
Assenti com a cabeça e perguntei novamente o que acontecera. Henry suspirou e me contou:
–Pelo visto um cara entrou aqui. Pela janela de nosso quarto, para piorar. Ele deve ter te apagado com éter num pano, não? – Ele perguntou e eu confirmei com a cabeça – Então, ele passeou pela casa depois de te apagar, até que nossos seguranças o viram e ele fugiu. Aparentemente ele não levou nada.
Eu concordei com a cabeça e olhei pelo quarto. Dois seguranças da casa, que faziam rondam por toda ela e que eram um dos poucos que tinham permissão de adentra-la, estavam no quarto analisando os estilhaços. Henry olhou para eles e eles saíram, entendendo o olhar de Henry. Ele se voltou a mim, depois que os seguranças se retiraram fechando a porta.
–Lane, me desculpe por não estra aqui na hora... – Ele começou se desculpando.
–Não precisa se desculpar. Você estava trabalhando e não teve culpa – Interrompi-o, esticando-me um pouco e botando minha mão em sua coxa.
Corei aquele ato, tão involuntário, e tirei minha mão tão rapidamente quanto voltei a me endireitar. Ele sorriu tentando parecer sincero, mas para mim pareceu forçado. Talvez ele não fosse tão bom em ser sincero...
–Eu não sei o que esses seguranças fazem! Como eles vacilam assim? – Ele disse se alterando, mais para si do que para mim, se levantando da cama.
–Calma Henry. Já passou. Estou bem – Respondi sorrindo fraco.
–Não Lane, não está nada bem – Ele negou, parando de costas a mim.
Ele tinha a cabeça baixa e as mãos nos quadris, de uma maneira cansada. Ele suspirou, antes de voltar a continuar sua fala, com mais objetividade:
–Eu decidi algo que talvez a faça ficar irritada comigo, mas é o melhor para você. Não quero que isso aconteça novamente então eu decidi te mandar para a casa de minha família no interior do estado.
Eu fiquei sem ação. Casa no interior do estado que eu nunca ouvi falar? Tudo bem que isso não era muito estranho, afinal mal conversava com ele. Mas ficar longe dele? Eu poderia não ter um grande vinculo com ele, além daquele anel sem significância nenhuma tanto para mim quanto a ele, mas estando em um país totalmente diferente do meu, um país que mal conhecia, o fato dele ser o homem que eu chamo de marido conta muito.
Porém, como mamma me ensinara, uma boa esposa sempre acatava as obediências de seu marido, então não tive escolha. Eu tinha que fazer esse casamento funcionar, nem que para isso precisasse me sacrificar um pouco. Como nonna sempre dizia, a perfeição só vem com certos riscos e sacrifícios. Mesmo que eu não quisesse, eu dei um sorriso fraco.
–Tudo bem, se você deseja assim... – Concordei.
–Ainda bem que você não dificultou as coisas – Ele comentou dando um beijo no topo de minha cabeça, ao se aproximar com um sorriso que em nada me deixou mais feliz ou convencida – Eu preciso falar com os seguranças, me por mais a parte do que aconteceu. Você ficara bem sozinha? – Ele perguntou atencioso da porta do quarto.
Confirmei com a cabeça e ele saiu. Eu suspirei e olhei em volta. No chão ainda permanecia os estilhaços da janela. O vento entrava em abundancia no quarto, fazendo-me ficar com frio. Eu logo pensei em tudo que ocorrera naquela noite: como um homem entra assim, do nada, em uma casa tão protegida como era aquela? E porque eu tinha a impressão de conhecer aquele sorriso mal? E a decisão de Henry de me mandar para o interior?
Aos poucos, eu fui deitando-me na cama e fechando meus olhos. Tudo que eu queria era dormir, mesmo assombrada por tudo.
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